Receita para uma falácia
Márcio ScaléaEngenheiro agrônomo e especialista em plantio direto
Organize um evento internacional para discutir a produtividade dos sistemas de rotação soja/milho no plantio direto. Use a internet e todos os meios possíveis para a divulgação do evento, inclusive a participação em outros eventos, como debatedor, fazendo um pesado marketing prévio, como nas novelas da Globo.
Traga para o evento um punhado de palestrantes internacionais, de entidades e universidades de renome, ignorando pesquisadores e profissionais nacionais, de renome ou não, mesmo sendo profundos conhecedores do assunto em evidência. Convide-os, no máximo, para serem debatedores dos luminares estrangeiros, onde quase sempre a elegância nos comentários venha a prevalecer sobre eventuais possibilidades de críticas mais severas. De qualquer maneira, coloque-se sempre na composição das mesas debatedoras para, em último caso, ter a certeza da última palavra sobre tudo o que for dito.
Escolha a dedo os temas e os conferencistas!
Para o tema ”Altas produtividades para soja e milho no PD”, traga um professor de uma universidade americana, coração do corn belt, profundo conhecedor das culturas, mas apenas ”curioso” em relação ao plantio direto. Naquela universidade, quem trabalha com PD é a equipe de weed science (ervas daninhas) e não de crop science! Ele falará meias verdades, como: ”A adoção de PD tem caído nos EUA nos últimos anos”. Todo o mundo sabe disso. O resto da verdade é que o ”zero tillage” (plantio direto sem nenhum preparo de solo) no corn belt tem sido substituído pelo ”strip tillage” (plantio direto com preparo apenas na linha de plantio), causando um expressivo aumento da área total plantada sob o chamado ”conservation tillage” (plantios conservacionistas). E que a tecnologia Roundup Ready tem facilitado enormemente esse crescimento. O professor terminará sua palestra com uma afirmação profética: ”A busca de altas produtividades começa pela busca de solos muito férteis e pela manutenção dessa fertilidade”. Isto até pode ser real em Illinois. E no Brasil? No Cerrado? Em Barreiras, no Oeste baiano? Quando perguntado se a produtividade de 25 ton/ha de milho, ganhadora do concurso de produtividade no ano passado em Illinois, seria a melhor economicamente, ele candidamente dirá que não! Então para que produzir tanto? Ridículo.
Para o tema seguinte, ”Soja e milho resistentes a herbicidas...”, traga um pesquisador do Delta (Sul) dos EUA. Excelente pessoa, mas longe de ser um grande nome em soja, em weed science, em sistemas de cultivo e em PD, pelo simples fato de ser especialista em Fisiologia Vegetal. Ele abordará o tema de forma imparcial, mas insuficiente. Novamente serão ouvidas meias verdades, como: ”Já existem 169 ervas daninhas resistentes a herbicidas nos EUA, sendo quatro delas resistentes a glifosato”. O resto da verdade é que em quase 30 anos de mercado do glifosato, apareceram apenas quatro ervas resistentes a ele, enquanto que para outros produtos, muito mais recentes, elas já se contam às dúzias, como é o caso das imidazolinonas e sulfonil uréias. E que o agricultor médio americano só não quebrou nos últimos anos de preços baixíssimos de soja e milho, graças a duas coisas: subsídios do governo E tecnologia Roundup Ready, um compensando o baixo valor de mercado, e o outro baixando significativamente os custos e aumentando a produtividade. O que também é válido para o algodão, diga-se de passagem.
Para o tema ”Interface rizosfera/solo...” traga um luminar alemão. Num simpósio de soja e milho em PD ele falará, pasmem, de citrus. Um especialista em nutrição mineral de um país que não planta soja, não faz PD, nem tem pomares de citrus, vem a um país tropical falar de tudo que não é sua especialidade! Quando perguntado sobre o efeito de glifosato sobre determinada doença de citrus, que não a CVC, desculpa-se dizendo que não é fitopatologista! Isto tudo depois de falar 90 minutos sobre doença de pomares de laranja, com base em sua experiência profissional, que, pelo teor dos slides mostrados, deve ser de desordens nutricionais na cultura do trigo de inverno na Alemanha. E que mostrará uma foto onde foi aplicado glifosato sobre soja deficiente em Mn, que mostra clorose, induzindo subliminarmente a platéia a pensar que o problema é do herbicida, quando, na verdade, é da deficiência de Mn! Não há o que comentar mais, o absurdo é evidente e ofensivo.
Para o tema ”O papel da nutrição mineral...” traga um especialista da Turquia, que nos falará do óbvio: nutrientes e micronutrientes afetam todos os processos fisiológicos das plantas, inclusive a sua resistência a doenças e estresses ambientais. E que terminará dizendo que no equilíbrio entre os nutrientes está o segredo das superprodutividades. Seria comparável a enviar o Parreira, que foi técnico de nossa seleção, para um estágio na Turquia, onde ele aprenderia que em futebol é preciso marcar muitos gols e não sofrer nenhum para ser campeão! Da necessidade do equilíbrio entre os nutrientes Liebig já nos havia esclarecido há 200 anos, o difícil é saber quais as proporções desse equilíbrio para cada solo, cada cultura, cada clima em particular. Será que uma boa apresentação/curso sobre o DRIS não seria mais proveitosa para os pagantes?
E no encerramento do primeiro dia, coloque entre os debatedores um promissor cientista, recém-egresso de um doutorado na ESALQ, cuja tese ”Comportamento do glifosato no solo e deslocamento miscível da atrazina”, conclui que :
- o glifosato que atinge o solo é instantaneamente imobilizado junto à fração mineral desse solo, pelo processo conhecido como sorção; em solos com baixo teor de óxidos, a matéria orgânica assume papel fundamental na sorção dessa molécula;
- o glifosato, nestas condições, não pode ser extraído do solo, permanecendo na forma de resíduo-ligado;
- o sistema de PD pode contribuir para a aceleração da mineralização do glifosato no solo;
- o glifosato tem baixa meia vida no solo, pela formação de resíduos-ligados, não apresentando fitotoxicidade para a planta-teste, Panicum maximum.
Mas o pesquisador apenas passará, por alto, por estas conclusões, que atestam a inocuidade deste produto nos solos, para deter-se numa hipotética possibilidade de que numa areia quartzosa, 100% saturada em água, o glifosato poderia ser reconduzido à solução do solo para ter ação herbicida. Esta hipótese já havia sido descartada pela tese do dr. Joaquim Joel do Valle Rodrigues, em 1979 em seu doutorado em Raleigh NC. Mas a verdade é que se a areia for tão pobre em óxidos, a sorção do glifosato será pela matéria orgânica (conclusão 1 de sua tese). Se a areia quartzosa não tiver nem óxidos e nem matéria orgânica, como irá reter nutrientes para ser cultivada? Mas, se mesmo assim, for cultivada, se aplicado glifosato, ele não funcionaria, pois em solo 100% saturado de água, todos os processos metabólicos das plantas são afetados e o produto não seria sequer absorvido.
Para um dia de simpósio já bastaria, mas o encerramento ainda nos reservaria mais surpresas, como o depoimento providencial de um participante, dizendo que seus coqueiros (quantos: 5, 50, 50 mil?) sofreram com a ação do glifosato: onde ele não aplicou o produto, apenas carpindo e amontoando (sic) os resíduos ao pé das plantas, a produção foi maior e melhor! Absolutamente científico e digno de constar dos anais de um simpósio que se proponha a estudar a produtividade de soja em milho em rotação, através do PD.
Mas como se não bastasse, ao apagar das luzes deste primeiro dia, eis que é feita a sugestão tão (in)esperada: já que o glifosato é tão prejudicial, por que não substituí-lo por aplicações de nitrato de amônia, que, pulverizado em altas concentrações, teria a ação de um herbicida de contato e, ao mesmo tempo, forneceria N ao cultivos?
Eis a falácia, que já nos abre a perspectiva de uma tese de pós-doutorado sob o título ”Comportamento do nitrato de amônia nos solos tropicais como fonte de nitrato, o principal poluente da atualidade”. Que iria quem sabe explicar o aparecimento de uma dead zone (zona morta) na foz dos rios brasileiros, a exemplo do que já ocorre no Golfo do México, no delta do Mississipi, como nos foi mostrado no slide 18 da apresentação do prof. Robert Hoeft, primeiro palestrante do simpósio. A absurda adubação nitrogenada no corn belt americano gera tamanha quantidade de nitratos, que altamente solúveis são carregados pelas águas de drenagem, indo cair em córregos, rios e finalmente no Mississipi, para dali cair no Golfo, esterilizando uma mancha de dimensões continentais.
Quem viver verá.