A Semeadura e as Raízes


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Publicado em: 01/10/2006

A semeadura e as raízes

Dirceu GassenEngenheiro-agrônomo, Gerente Técnico da Cooplantio, Porto Alegre, RS. E-mail: dirceu@agri.com.br

A qualidade da semeadura é um dos fatores mais importantes para o estabelecimento de plantas em lavouras planejadas para elevado potencial de produção de grãos.

Nesse texto serão analisados aspectos relacionados com a profundidade de semeadura, os tipos de raízes e o crescimento das plantas.

Em milho, o coleóptilo é a bainha que primeiro emerge do solo e envolve a plúmula (Figura 1) e a coroa é a localização do ponto de crescimento e das gemas que dão origem às raízes nodais ou coronais (Figura 2).

Figura 1. Plântula de milho com raízes seminais, coleóptilo e início da plúmula.

A planta de milho apresenta diferentes tipos de raízes que desempenham funções diferenciadas no desenvolvimento das plantas.

A radícula tem a função de âncora para a semente e a plântula de milho.

As raízes seminais (Figuras 1, 2 e 3) absorvem água e nutrientes até o desenvolvimento das raízes nodais (Figuras 2 e 3).

O primeiro entre nó é denominado de mesocótilo que é uma estrutura semelhante a um caule tenro entre a semente e a coroa da planta (Figuras 2 e 3).

Figura 2. Morfologia das partes subterrâneas e basais da planta de milho.

As raízes coronais desenvolvem a partir dos nós subterrâneos das plantas de milho (Figuras 3 e 4). Essas raízes absorvem a maior parte da água e dos nutrientes que a planta necessita em todo o ciclo da cultura. O desenvolvimento pleno dessas raízes está diretamente relacionado com a profundidade de semeadura, resultando em plantas vigorosas, com maior diâmetro de caule e maior produção de grãos.

As raízes adventícias dão suporte e estabilidade física para a planta. Contribuem pouco na absorção de água e de nutrientes para o potencial de produção da planta (Figuras 2 e 4).

Figura 3. Plântulas de milho com sementes posicionadas a 2,5, 5,0, 7,5 e 10,0 cm de profundidade, com raízes seminais e início de raízes coronais.

Durante a emergência, quando o coleóptilo atinge a superfície do solo e recebe luz solar, pára a elongação do mesocótilo e ocorre a emissão da plúmula (Figura 1). Nesse momento, se a semente foi posicionada a 4 cm de profundidade, o ponto de crescimento está a aproximadamente 2 cm abaixo da superfície do solo. Se a semente foi posicionada a 2,5 cm de profundidade, o ponto de crescimento e as raízes coronais estarão, praticamente, na superfície do solo (Figura 3).

A semeadura superficial (2,5 cm) pode resultar em plantas com poucas raízes nodais, sustentadas apenas pelo mesocótilo. O ponto de crescimento exposto diretamente à ação de herbicidas, a oscilação de temperatura na superfície do solo e à desidratação pode resultar em injúrias, em menor crescimento de raízes nodais e em plantas fracas. Essas raízes, expostas a temperaturas elevadas e solos secos, apresentam-se curtas e engrossadas. Os sintomas podem ser confundidos com os de danos de herbicidas.

Figura 4. Plantas de milho com raízes coronais cruzando as linhas de semeadura, espaçamento de 45 cm entre fileiras.

A profundidade de semeadura pode ser calculada medindo-se o comprimento do mesocótilo (distância entre a semente e a coroa da planta) e adicionando-se 2 cm a esse comprimento. Exemplo: uma plântula com 5 cm de mesocótilo, adicionando 2 cm resulta em 7 cm de profundidade de semeadura.

O posicionamento superficial de sementes de milho pode resultar em plântula ancorada no mesocótilo, raízes coronais junto à superfície do solo e pouco desenvolvidas, plantas acamadas, crescimento reduzido (nanismo) e folhas de coloração avermelhadas.

Se a semente for posicionada a mais de 7,0 cm, a planta necessitará de mais energia para empurrar o coleóptilo até a superfície do solo. Nessas condições poderá quebrar o mesocótilo, forçando a formação da folha abaixo da superfície do solo.

As raízes crescem com maior intensidade em fases de umidade adequada e paralisam com o déficit hídrico. Para ajudar o desenvolvimento eficiente e contínuo é necessário ter condições de estrutura de solo para absorver melhor a água de chuvas e ter ambiente para pleno crescimento de raízes.

Figura 5. Planta de milho com raízes adventícias, que dão sustentação física à planta.

A profundidade ideal de posicionamento da semente de milho, para pleno estabelecimento de raízes e o crescimento vigoroso da planta, deve ser entre 4 e 6 cm. A semente deve estar coberta com solo friável, sem torrões e sem adensamento ou compactação das paredes laterais e do fundo do sulco de semeadura.

Outros fatores podem agravar os problemas de profundidade inadequada, como temperaturas baixas, excesso de umidade, crosta superficial de solo, efeito de herbicidas e características genéticas de vigor.

A profundidade de semeadura afeta a formação de raízes e, em conseqüência o maior crescimento da planta, a formação da espiga e o enchimento de grãos de milho.

Para lavouras de elevado potencial de produção é necessário concentrar os esforços na qualidade de semeadura, para garantir o estabelecimento de plantas vigorosas e a expressão plena do potencial de rendimento de cada cultivar de milho.

A soja é uma planta que reage e compensa eventuais estresses na fase vegetativa e compensa a falta de plantas com a emissão de hastes laterais. Especialistas em manejo de soja sugerem que o número de nós por unidade de área, que resulta em inserções de hastes com a produção de racimos e flores, é o principal componente que deve ser considerado no planejamento de lavouras para elevada produção.

Em soja é importante manejar a população e o espaçamento entre plantas e fileiras, de acordo com o ciclo, ou grupo de maturação, a fertilidade do solo e a época de semeadura.

Definida a população ideal para cada cultivar nas condições de clima e solo da lavoura, a semeadura passa a ser a prática que definirá o desenvolvimento de raízes e o vigor vegetativo das plantas.

É freqüente constatar adensamento nos lados e no fundo do sulco de semeadura (Figura 6). Em geral, relacionado a equipamento inadequado de preparação do sulco e excesso de umidade no solo. O excesso de fertilizantes com elevado índice salino (Figura 7) também pode afetar o desenvolvimento de raízes. O potássio e o nitrogênio são os elementos com maior índice salino e podem causar injúria nas raízes e até matar plântulas.

Figura 6. Fundo de sulco de semeadura de soja compactado pela semadora.

As lesões causadas por sais nas raízes são pontos de entrada para microrganismos causadores de tombamento, podridões radiculares e de caule das plantas. Esses fungos são habitantes de solo e considerados oportunistas. Quando as plantas sofrem estresses ou lesões, penetram e desenvolvem, causando enfraquecimento e até a morte, na fase reprodutiva das plantas.

A combinação de fatores adversos, como a compactação dentro do sulco de semeadura e o excesso de sais pode resultar em plantas de soja com sistema radicular reduzido e a presença típica de nós, na raiz pivotante da planta (Figuras 7 e 8).

Assim, a qualidade na semeadura, a preparação adequada do sulco para pleno desenvolvimento de raízes e a adubação no sistema de produção da lavoura, evitando o excesso de sais no sulco de semeadura, são importantes práticas para garantir rendimentos elevados de soja.

Figura 7. Excesso de sais no sulco de semeadura.

O plantio direto é uma da mais importantes evoluções na agricultura, depois da mecanização e do melhoramento genético de plantas. Apresenta muitas vantagens relacionadas com a redução de custos, redução na erosão, aumento na atividade biológica, na fixação de carbono da atmosfera, melhor qualidade da água etc. Mas exi-ge planejamento de sistemas de produção, com rotação de culturas, adubação verde e, principalmente, qualidade no processo de semeadura.

Figura 8. Plantas de soja, com nó característico na raíz pivotante, resultado da compactação e ou excesso de sais no sulco de semeadura.

Revista Plantio Direto, edição 95, setembro/outubro de 2006. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.