Passo Fundo sediou Simpósio Brasileiro de Patologia de Sementes
Aconteceu de 23 a 27 de outubro, no Centro de Eventos da Universidade de Passo Fundo, RS, o 9o Simpósio Brasileiro de Patologia de Sementes. O evento, uma realização da Associação Brasileira de Tecnologia de Sementes (Abrates) e do Comitê de Patologia de Sementes (Copasem), teve como principal objetivo promover a interação e a troca de experiências entre profissionais da pesquisa e da produção de sementes no Brasil. Além da programação técnica/científica, durante o Simpósio foi realizada uma mostra dos trabalhos que são conduzidos pelas instituições de pesquisa e de ensino e apresentadas novas metodologias para detecção e controle de patógenos em semente. O evento, coordenado pela pesquisadora e docente da Universidade de Passo Fundo, Norimar D’Ávila Denardin, foi realizado pela terceira vez no Rio Grande do Sul, e segunda em Passo Fundo, tornando-se palco de importantes direcionamentos para a pesquisa em patologia de semente.
Painéis do 9o Simpósio Brasileiro de Patologia de Sementes reuniram pesquisadores de renome do Brasil e do exterior
Crise do setor
”Está sendo acompanhada a preocupação dos produtores de semente, no Brasil, diante da situação que o setor enfrenta. O quadro é ainda mais delicado no Rio Grande do Sul, onde apenas 5% das sementes de soja atualmente utilizadas pelos produtores são certificadas, outros 95% são ”importadas” ou de produção própria. Quando apenas 5% do mercado está sendo suprido por sementes legais e certificadas a situação torna-se realmente crítica sob o ponto de vista de sanidade”, considera Norimar Denardin.
Segundo a coordenadora do 9o Simpósio, a semente deve ser valorizada como o alicerce da produção para qualquer cultura, pois contempla um complexo tecnológico desenvolvido durante anos de intensa pesquisa, assegurando garantia sanitária e potencial genético capaz de promover elevada produtividade.
”Acredita-se que a questão da entrada de semente ilegal de soja no país será resolvida a medida que os produtores desenvolvam consciência que o custo, a princípio menor, não compensa em termos de produtividade e, fundamentalmente, de garantia sanitária.”
Segundo a pesquisadora, anos de pesquisa, com expressivos avanços tecnológicos, em controle da produção e em qualidade fitosanitária, sucumbiram diante do frágil controle de entrada de sementes ilegais no país. ”A agricultura nacional perdeu muito com isso. As prioridades foram invertidas. A pesquisa deveria ter sido amparada e estimulada e o contrabando reprimido”, reforça.
Norimar D’Ávila Denardin: o contato com as inúmeras novidades, a integração ao meio e a interação com pesquisadores e colegas de outras instituições, a percepção das demandas de pesquisa e o interesse pelo segmento da patologia de sementes foram ganhos efetivos dos participantes do Simpósio.
Ao ignorar os riscos da introdução de semente de outros países, o agricultor expõe a lavoura nacional a patógenos que não existem no país. ”O que, momentaneamente, parece um ganho, pode significar grandes prejuízos no futuro”, enfatiza.
Patologia de Sementes
Segundo a pesquisadora, a patologia de sementes é uma área relativamente nova, mas em decorrência da intensificação da agricultura e da abertura de novas fronteiras para a produção de grãos, o tema se tornou prioridade na pesquisa. ”A patologia de semente existe há 20 anos no Brasil. Atualmente, há no país, aproximadamente, 40 pesquisadores que estudam, especificamente, esse assunto. Dentre os fatores que levam a patologia de semente a ter importância no contexto agrícola, a economia, sem dúvida, é a principal. Isso decorre do próprio mercado, que determina elevado trânsito de sementes de uma região a outra no país, da expansão da fronteira agrícola e, sobretudo, da complexidade de aspectos epidemiológicos de diferentes patossistemas, uma vez que a semente é o principal veículo de disseminação de doenças”, explica.
”Nesse sentido, metodologias que visem maior performance na detecção, na quantificação e na identificação de patógenos presentes na semente, têm sido um componente imprescindível para a redução da incidência de doenças economicamente importantes, principalmente por prevenir epidemias. Ainda são poucos os estudos relativos à transmissão de patógenos veiculados por sementes e escassos os levantamentos de perdas decorrentes desses patógenos. ”A pesquisa tem se deparado com muitas ações de detecção e de conhecimento do microorganismo, mas ainda não domina plenamente o comportamento do organismo no ambiente. A pesquisa detém conhecimentos frágeis em relação a taxa de transmissão de alguns patógenos da planta-mãe para a semente, e é esse conhecimento que subsidia a avaliação de danos reais”. Para Norimar, diante desse cenário, duas áreas necessitam maior integração: a fitopatologia e o melhoramento de plantas, na geração de cultivares resistentes aos patógenos. Contudo, é relevante destacar o contínuo aprimoramento do manejo integrado de doenças, mediante rotação de culturas, uso de semente certificada, tratamento de semente, entre outros.
”Muitas vezes o agricultor envia amostras de semente ao laboratório apenas para avaliar o vigor e a germinação da semente, desconsiderando a importância de aspectos relacionados à fitossanidade da semente, pois aposta no tratamento da semente. O conhecimento da qualidade fitossanitária da semente determina quando tratar, com o que tratar, quanto tratamento será necessário e isso, sem dúvida, representa economia”.
A demanda de pesquisa em patologia de semente, varia com as espécies. Há um expressivo número de culturas, economicamente importante para a economia do País, que são passíveis de danos por fitopatógenos veiculados pelas sementes. Entre essas culturas destacam-se, por exemplo, grãos (feijoeiro, trigo, arroz, soja, milho, canola, girassol, lentilha e ervilha), fibras (algodoeiro), hortaliças (tomateiro, batata, melão, melancia, crucíferas).
Abrangência
O 9o Simpósio Brasileiro de Patologia de Sementes, por ter sido realizado no Rio Grande do Sul, procurou priorizar as espécies cultivadas no Estado. ”Embora, no Rio Grande do Sul, a prioridade de pesquisa em patologia de semente seja para espécies produtoras de grãos, há uma grande diversidade de culturas que são dependentes de propagação vegetativa e/ou por semente, e que demandam igual atenção da pesquisa. Nesse sentido, destacam-se: pastagens, espécies frutíferas, essências florestais, espécies hortículas, essências florísticas etc.
Técnicos de diversas entidades de ensino, pesquisa, cooperativismo, assistência técnica, extensão rural, iniciativa pública e privada do País e convidados do exterior enriqueceram o 9º Simpósio Brasileiro de Patologia de Sementes como palestrantes, apresentadores de trabalhos técnico-científicos, ouvintes e expositores de estandes de insumos e equipamentos pertinentes ao tema.
Uma inovação do 9º Simpósio foi o painel que tratou do tema ”Propagação Vegetativa”, contemplando culturas como videira, alho, batata etc. que podem disseminar patógenos através de mudas. Foram abordados os cuidados que o produtor deve ter para que a muda esteja livre de patógenos e também as possíveis formas de tratamento. ”Essa abordagem constitui uma verdadeira estratégia de produção para garantir mudas sadias”. Segundo a professora Norimar, a importância do tema determinou que durante o evento fosse criado, junto a Abrates, um novo grupo de estudo direcionado, exclusivamente, à patologia de materiais de propagação vegetativa, o Copamudas.
Outro destaque foi o painel relativo ao uso de biocontroladores, que debateu propostas relacionadas a produtos para controle biológico, como o uso de antibióticos para tratamento de semente, método direcionado a culturas de alto valor agregado, como hortaliças e flores, por exemplo. Outro tema abordado foi sobre indução de resistência através de produtos químicos e biológicos. E por fim, uma mesa redonda em que vários segmentos ligados ao ”negócio sementes” puderam opinar e debater aspectos relacionados à pesquisa, ao mercado e à legislação.
Em sua avaliação, a professora Norimar D’Ávila Denardin considera que a participação dos acadêmicos representou expressivo ganho do evento. ”Foi gratificante perceber estudantes tendo contato com as inúmeras novidades expostas, se integrando ao meio e interagindo com pesquisadores e colegas de outras instituições, percebendo demandas de pesquisa e despertando interesse no importante segmento da agronomia que é patologia de sementes”, concluiu.Uso de semente pirata: risco para a agricultura brasileira
O Presidente da Abrasem, Ywao Myamoto, ressaltou durante o 9o. Simpósio que muitos agricultores guardam semente alegando que dessa forma economizam, mas para ele isso não é uma verdade absoluta, pois se o agricultor considerar o risco que corre perceberá que a economia pode ser ilusória. ”Se em cinco safras ele (o agricultor) errar uma na qualidade das sementes, perderá a média de produção”.
Myamoto lembra que a semente pirata é mais barata porque não paga royaties, impostos e outros custos que estão presentes na produção de semente certificada. ”O produtor não se dá conta que está quebrando a cadeia de pesquisa e assistência técnica, que logo estará desestruturada e, mais tarde, quando ele for buscar novas tecnologias para utilizar em sua propriedade, não vai encontrar. No médio e longo prazo a semente ”mais barata” que parece a salvação da lavoura, terá sido extremamente prejudicial para a agricultura”.
Para Myamoto é o clima do Rio Grande do Sul que colabora para que o produtor gaúcho guarde semente de soja. ”Ele guarda e planta. Se nasceu, chama de semente, não analisa as características de genética, germinação e vigor”.
Ywao Myamoto: investimento em tecnologia garante produtividade e lucratividade.
O presidente da Abrasem diz que no Mato Grosso, por exemplo, o agricultor não consegue guardar semente, é forçado a comprar o insumo a cada safra, mas com o uso de semente certificada os produtores do Estado têm acesso a melhor tecnologia e a assistência técnica, que resultam em produtividades 32% superiores as do RS.
”Há 30 anos quando não existia lei de sementes, era aceitável que se reproduzisse do avô e do pai o costume milenar de guardar semente, visando apenas à continuidade da espécie. Mas hoje não falamos mais em continuidade da espécie, estamos falando de produção em escala comercial e competitividade do setor agrícola, garantia de estoques mundiais de comida, nesse cenário obrigatoriamente é preciso mudar o raciocínio”, destaca Myamoto.
Segundo o Ywao Myamoto, havia também entre algumas cooperativas e federações a idéia que guardar semente era economizar. ”Agora a CNA e OCB estão percebendo que não funciona assim. É preciso preservar os produtores de sementes, instituições de pesquisa, fundações e a Embrapa. Aos poucos todos estão se dando conta que há grande diferença entre semente que se guarda e semente que se compra, em termos de sanidade, produtividade e garantias. As mudanças estão acontecendo, mas acredito que a situação ideal ainda vai demorar um pouco para se estabelecer”.
”Dados comprovam que agricultor de sucesso, o agricultor de perfil empresarial é aquele que usa semente certificada, que usa tecnologia e tem sucesso garantido. O menor uso de tecnologia torna o agricultor progressivamente mais pobre, porque ele deixa de ser competitivo, com baixa produção em sua lavoura. É a teoria da teia de aranha: come pouco, dorme pouco, trabalha pouco, come pouco, dorme pouco, trabalha menos ainda, e assim até desaparecer”, brincou Myamoto.
Revista Plantio Direto, edição 96, novembro/dezembro de 2006. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.