(Re)conhecendo a precisão na agricultura: o papel do agricultor
Álvaro Vilela de Resende e Luciano Shozo Shiratsuchi*Quando o tema é exploração agrícola tecnificada, logo vem a idéia de ”Agricultura de Precisão”. Muito se tem discutido sobre as formas de adoção e o potencial dessa nova tecnologia no Brasil, em especial para a produção de grãos na região do Cerrado. Embora a agricultura de precisão envolva diversas formas de abordagem do sistema de produção, os focos principais tem sido a busca por estratégias mais eficientes de utilização de fertilizantes e defensivos, insumos que correspondem à maior parcela do custo de produção das lavouras.
De modo geral, a agricultura de precisão é vista pelos agricultores como um conjunto de técnicas sofisticadas que, com a utilização de equipamentos modernos (GPS, sensores, computadores e maquinário apropriado), permitiria um manejo diferenciado das lavouras, resultando em maior rentabilidade. Um aspecto que muitas vezes passa despercebido é que tudo isso se baseia simplesmente na obtenção de informações mais detalhadas e espacializadas (georreferenciadas) sobre os fatores que condicionam a produtividade das culturas numa determinada área.
Assim, é preciso compreender que o sucesso da agricultura de precisão depende totalmente da qualidade das informações sobre o sistema de produção. É um grande erro achar que a utilização desses equipamentos, por si só, garante informações suficientes e confiáveis para se definir estratégias de manejo que tragam resultados positivos para o produtor. Daí surge a seguinte questão: o nosso agricultor e a nossa assistência técnica estão preparados para encarar o desafio da agricultura de precisão?
A ocorrência de variações de produtividade dentro de uma área de cultivo é o pressuposto básico que justifica trabalhar com agricultura de precisão. O ponto chave é: demarcar os locais dessas variações e identificar as causas, para então definir a melhor estratégia de manejo para cada local. É sabido que a produtividade em diferentes partes de uma lavoura depende das características do terreno (posição no relevo, tipo de solo, textura, capacidade de retenção de umidade, etc), mas diferenças de produtividade também podem ser devidas à variações no próprio manejo da cultura, sejam elas propositais ou involuntárias. Portanto, um diagnóstico das causas de variação da produtividade numa lavoura será tanto mais confiável quanto mais informações se dispuser sobre possíveis fatores de interferência.
É fundamental conhecer, acompanhar e registrar se as operações relativas aos tratos culturais (preparo de área, adubação, semeadura, controle fitossanitário) são realizadas conforme planejado. Toda vez que uma dessas operações foge do previsto (ex: problema de germinação, erro de dosagem de insumos, calibragem irregular de equipamentos, entupimento de aplicadores, época inadequada), pode haver variação de produtividade. Por isso, é preciso registrar e descrever o fato e a localização da área afetada, mantendo-se um histórico dos talhões, com maior detalhamento possível. Determinadas práticas de manejo produzem efeitos de longo prazo (ex: esquemas de rotação de culturas, revolvimento do solo, calagem e adubações) e sua influência pode ser sentida muito tempo depois. Entretanto, o agricultor nem sempre atenta para isso. Esse tipo de informação é tão importante quanto o próprio monitoramento da produtividade das culturas ao longo do tempo, sem o qual o produtor acaba por fazer manejo às cegas, desconhecendo os reais impactos (positivos ou negativos) das técnicas utilizadas. Não se pode apenas ”desconfiar” que uma maior produtividade foi decorrente, por exemplo, do plantio de semente de melhor qualidade ou de uma adubação extra com determinado nutriente. É preciso ter mais certeza das relações de causa e efeito acerca do que acontece nas lavouras.
Antes de mais nada, a agricultura de precisão é uma forma de o agricultor conhecer mais a fundo os diferentes talhões, como vêm sendo manejados e como respondem ao manejo. Essas informações são valiosas do ponto de vista gerencial, no dia a dia, e para compor o histórico de uso das áreas da propriedade. Isso, por si só, já constitui um grande benefício dessa tecnologia, porém difícil de ser mensurado em termos econômicos.* Álvaro V. Resende e Luciano S. Shiratsuchi são pesquisadores da Embrapa Cerrados, nas áreas de Fertilidade do Solo e Agricultura de Precisão, respectivamente.E-mails: alvaro@cpac.embrapa.br, shozo@cpac.embrapa.br