Aspectos sobre plantio direto e agricultura nos Estados Unidos
Dirceu N. Gassen & Nelson SirtoriEngenheiros-agrônomos,Cooperativa dos Agricultores de Plantio Direto, Porto Alegre, RS.
Durante viagem de estudos aos Estados Unidos, em 2006, com o objetivo de ministrar palestras no evento ”No-Till on the Plains”, realizado anualmente em Salina, Kansas, participar no debate da AIM (Agricultural Inovative Minds – Mentes Inovativas em Agricultura) e visitar Universidades e órgãos de pesquisa, foram feitas anotações sobre aspectos que envolvem o cotidiano do agricultor norte-americano. Por uma semana fomos recebidos nas propriedades rurais de Keith Thompson, de Rodney Peters e de Doug Palen, líderes ativos em agricultura e membros diretivos da conferência anual sobre plantio direto.
Os brasileiros Dirceu Gassen e Ademir Calegari junto a Donald Reicosky (centro) no evento ”No-Till on the Plains”, realizado anualmente em Salina, Kansas.
Temperaturas
Na região de maior produção de trigo, soja e milho dos Estados Unidos as temperaturas médias mensais de inverno (dezembro, janeiro e fevereiro) são de -5oC e de verão (junho, julho e agosto) 26oC (Figura 1). No Planalto do RS e nos Cerrados as temperaturas médias mensais de inverno (junho, julho e agosto) são de 13oC e 19oC, respectivamente (Figura 1) e no verão 22oC e 23oC.
Figura 1. Temperaturas médias mensais em Brasília, DF, Passo Fundo, RS e Glen Elder, KS (Kansas, USA).
No meio-oeste norte americano, o congelamento da água nos solos durante três meses, na região de produção de grãos dos EUA, resulta em terras estruturadas com ambiente favorável ao desenvolvimento de raízes na primavera seguinte. A temperatura elevada e o maior número de horas com radiação solar no verão, resultam em plantas vigorosas e grande produção de biomassa. Diferente dos ambientes de lavouras sob clima tropical e subtropical, que desenvolvem intensa atividade biológica durante o ano todo, compactação de solos e menor tempo de radiação solar no verão. No Brasil existe a possibilidade de duas e até três culturas por ano na maior parte das regiões que se pratica agricultura.
Em abril as temperaturas médias chegam a 10oC, reiniciando o crescimento de plantas e a atividade biológica da maioria dos animais.
A água congela e impede o manejo de solos ou a atividade biológica significativa de pragas ou doenças na lavoura. Os agricultores usam o período de inverno para revisão de máquinas, cursos, participação em conferências de inverno (winter conferences), estudos e planejamento de atividades para a primavera e verão seguintes.
Os agricultores comentam que as temperaturas médias de inverno são baixas, mas em determinados anos são amenas e noutros com grandes tormentas de neve.
As diferenças de temperaturas entre o Brasil e os Estados Unidos são muito grandes e a combinação de práticas adotadas numa região, não pode ser transferida para outra, sem considerar as características de clima.
O período de tempo para semeadura para os norte-americanos é relativamente curto e os agricultores, em geral, desenvolvem as atividades rapidamente, para garantir o estabelecimento das plantas na melhor época do ano.
Chuvas
As precipitações médias anuais no cinturão de produção de grãos dos EUA variam entre 700 mm e 1000 mm por ano. Sul do Brasil e nos Cerrados variam entre 1600 e 1800 mm (Figura 1).
Os meses críticos de necessidade de chuvas nos EUA são março e abril para trigo, julho para milho e agosto para soja.
Os agricultores norte-americanos consideram que o clima é considerado seco, mas com grandes enchentes esporádicas. A preocupação é armazenar água no solo e evitar perdas por evaporação, enquanto, no Brasil é a erosão de solos e os períodos esporádicos de estiagens.
Figura 2. Precipitações médias mensais em Brasília, DF, Passo Fundo, RS e Glen Elder, KS (Kansas, USA).
Keith Thompson
O agricultor Keith D. Thompson, de Osage City, Kansas, nasceu e foi criado na propriedade rural. Junto com o irmão e o filho, planta em torno de 1000 ha, em 16 parcelas diferentes, cada uma, dividida em lotes menores, por causa de rios e estradas. O tamanho dos talhões varia entre 1 ha e 120 ha cada um. Isso exige muita movimentação de máquinas e manobras para desempenhar as atividades nas lavouras.
Ele presta serviços de semeadura em PD para 300 ha de vizinhos. Pela disponibilidade de máquinas, ele gostaria de aumentar a prestação de serviços para 1000 ha, porém encontra dificuldades para convencer agricultores a fazer plantio direto. Entre os proprietários que arrendam suas terras existe desconfiança sobre o plantio direto. Alguns consideram que o arrendatário, que faz plantio direto, não gosta de trabalhar a terra e poderia estar criando problemas de física ou química de solos ou ainda de sanidade de plantas para o futuro.
Os solos onde Keith planta, são rasos, com pouca capacidade de armazenar água. Com a adoção de PD passou a produzir 3 sacos de soja a mais por ha e constatou que as plantas toleram 3 a 4 dias mais estiagens. Em solos profundos produze até 7 sacos de soja mais por ha e constatou que as plantas toleram até 2 semanas a mais períodos de estiagens, quando comparado com o preparo convencional de solos.
O agricultor Keith Thompson com Nelson Sirtori, prestação de serviços de semeadura em PD para 300 hectares de vizinhos.
O cultivo de milho sobre trigo apresenta produções diferentes de acordo com microclimas e solos regionais. A severidade de fusário em milho, algumas vezes limita rendimentos da cultura. Regiões próximas, com menor precipitação, a severidade de fusário em milho plantado sobre trigo não chega a ser fator limitante no rendimento de grãos.
Destacou que no ano de 2000 houve 80 dias de seca com temperaturas elevadas, passando dos 40 oC, resultando em perda total das culturas de verão, sobrevivendo com muitas dificuldades, pagando empréstimos bancários.
Em 2004, Keith viajou para a Argentina, participou do Congresso da Aapresid e visitou agricultores. Nessa viagem percebeu que o trator não era a máquina mais importante nas lavouras de plantio direto. Decidiu vender o trator articulado, de grande potência, e comprar um outro, usado, com tração nas quatro rodas e de menor potência, suficiente para tracionar semeadoras de plantio direto. Recebeu US$ 25 mil de retorno pelo negócio, usados para na amortização de dívidas. Com base na experiência argentina, decidiu investir em semeadoras mais eficientes para PD. Comprou uma semeadora com 9 m de largura, para plantar soja e trigo, gastando 80 mil dólares.
Rodney Peters
Rodney Peters, tem sua propriedade em Goessel, Kansas. Foi voluntário em atividades religiosas-sociais, como alternativa na prestação de serviço militar, no nordeste do Brasil, na década de 1970. É apaixonado pelo povo brasileiro e comunica bem em português. A esposa é diretora de asilo para idosos na comunidade onde vive. Tem dois filhos que estudam e trabalham fora da propriedade rural.
Conduz lavouras de soja, milho, trigo, e cevada em 700 ha e mantém a criação de aproximadamente 80 bovinos confinados.
No passado, quando trabalhava com o pai e o tio, na mesma propriedade, também criava suínos. Quando assumiu a propriedade, sozinho, pela inviabilidade econômica de manter três famílias no negócio, chegou a trabalhar até 20 h por dia. Não havia tempo para cuidar de todas as atividades e decidiu parar com a suinocultura. A pocilga com aquecimento de ambiente, alimentadores automáticos e todo o conforto para os suínos está abandonada.
Na época da maturação do trigo (maio) a colheita é feita à tarde, quando está seco. Durante a manhã, com maior umidade, realiza as atividades de semeadura de soja ou de sorgo.
Em junho (verão) a umidade relativa do ar é baixa (20 a 30 %) durante o dia e a temperatura elevada, chegando a 40 oC.
Os tornados, as chuvas intensas, as tormentas de neve e outros eventos climáticos causam preocupação aos agricultores. Em 15 de março de 1991 um tornado atingiu a região, passando a 1 km da fazenda de Rod. Destruiu totalmente uma faixa de 50 km de extensão. De forma geral, os agricultores fazem seguro contra acidentes climáticos e de garantia de renda.
Dirceu Gassen e Rodney Peters, produtor americano que conduz lavouras de soja, milho, trigo e cevada em 700 ha além da criação de aproximadamente 80 bovinos confinados.
Os agricultores norte-americanos, assumem todas as exigências estabelecidas por programas de conservação de solos e de outros recursos naturais, para obter benefícios financeiros e garantir a obtenção de seguros contra desastres climáticos.
A mão-de-obra para serviços gerais é considerada cara, superior a US$ 10,00/h ou US$ 80,00/dia. Sabendo da necessidade financeira dos filhos, o pai fez uma oferta de US$ 9,00/h para pintar um galpão. Um dos filhos desenvolveu o trabalho em 90 h, recebendo 810 dólares pelo serviço.
Na lavoura de Rod Peters é possível plantar milho depois de trigo, onde chove aproximadamente 800 mm/ano. Enquanto na lavoura de Keith Thompson, a 150 km de distância, onde chove aproximadamente 1000 mm/ano, não é possível fazer a mesma sucessão de culturas por causa da severidade de fusário, que causa a morte de plantas, reduz o rendimento de milho e eleva o índice de grãos ardidos.
Doug Palen
Desenvolve agricultura em Glen Elder, Kansas, é formado em contabilidade e filho de agricultores. Herdou aproximadamente 100 ha, com a casa onde morou seu avô. A esposa é professora e deixou a profissão para iniciar atividades de turismo rural e administração da lavoura junto com o marido. Registram todas as informações de fluxo de caixa e histórico de produção, clima e outros eventos. Pondera que na agricultura norte-americana o capital é relativamente barato e a mão-de-obra muito cara.
Tem um empregado com salário de US$ 1800,00 mensais. Ele cuida das máquinas e ajuda em todas as atividades da propriedade rural. Para viabilizar o pagamento de salários ele presta serviços de revisão e manutenção de semeadoras, para vizinhos.
Planta aproximadamente 1500 ha, sendo 93 % da área arrendada. As lavouras abrangem 25 glebas diferentes, com tamanho entre 1,5 ha e 140 ha, num raio de 40 km de distância da sede.
Possui duas semeadoras, cada uma com 10 m de largura, para plantar 1500 ha. Uma delas para milho e sorgo e a outra para trigo e soja. O serviço de colheita de toda a área é terceirizado, com custo entre US$ 60,00 e 75,00/hectare.
Doug Palen: com o plantio direto houve redução de ocupação de mão-de-obra e aumento no tempo livre para outras atividades resultando em projeto de turismo rural na propriedade.
Com a adoção do plantio direto houve acentuada redução de ocupação de mão-de-obra e aumento no tempo livre para outras atividades. Por isso, destaca: com o plantio direto o agricultor necessita de um hobby ou de outra atividade para ocupar o tempo livre.
Analisando as oportunidades de negócios e a ocupação de tempo ocioso, decidiu desenvolver caminhos ecológicos e rotas para ciclismo em sua propriedade.
Adaptou um dos galpões para hospedagem, onde recebe visitantes para diferentes rotas de ciclismo. Construiu 25 km de caminhos, num raio de 2 km da sede da hospedaria, cruzando áreas de lavoura sob plantio direto, córregos, matas com árvores nativas, pequenas áreas de reserva natural com ambientes para faisões, veados e outros animais silvestres.
Combustíveis
O preço do diesel para uso na agricultura tem subsídios do governo, com redução de US$ 0,20 a 0,25 por litro. Para diferenciar e garantir o uso desse combustível nas atividades de lavouras é adicionado um corante. A justificativa de redução no preço é a diferença de impostos para conservação do sistema viário, pois as máquinas permanecem dentro da propriedade rural, não ocupando rodovias públicas. A cor desse diesel é diferenciada e se usado em automóveis, caminhões, ou qualquer atividade fora da propriedade rural, pode sofrer multas muito elevadas.
O biocombustível é assunto que gera interesse para a maioria dos agricultores americanos, que acreditam poder melhorar significativamente os preços de milho, de soja e de outras culturas. O biodiesel de soja ainda apresenta problemas que limitam o uso generalizado do combustível.
A decisão de investir na produção de biocombustível de grãos inicia com a eficiência de uso da terra. Em um hectare de milho se produz em torno de 4000 litros de álcool ou 540 litros de biodiesel com a soja.
Preço de terras e arrendamento
Entre os agricultores se percebem debates e apreensões relacionadas com o aumento do preço de arrendamentos e de terras. As tensões são freqüentes na renovação de contratos de arrendamento. Teve aumentou no número de interessados com ofertas maiores. Não são novos agricultores que estão entrando na atividade, mas os que buscam aumentar a área de produção, para viabilizar a atividade economicamente.
Em Kansas, os contratos de arrendamento de terras consideradas de fertilidade média eram de US$ 35,00/ha e estão sendo renovados por US$ 75,00/ha/ano. As terras de melhor qualidade recebem ofertas de US$ 180/ha/ano. Na região do ”Corn Belt” (Cinturão do milho e da soja) o arrendamento chega a US$ 375,00/ha, equivalente a 30 sacas de soja, por hectare. Arrendamentos por valores semelhantes são praticados na Argentina, entre Santa Fé e Córdoba, nas terras mais nobres e férteis.
A terra vendida por US$ 1000,00/ha em 2002, quatro anos mais tarde foi negociada por US$ 2500,00/ha. Os preços de arrendamento acompanharam os preços da terra.
Royalties sobre sementes
A embalagem de semente de soja é vendida em sacos de 50 pounds (23 kg). O valor de royalty para esse volume é de US$ 9,00. Os agricultores plantam aproximadamente 300 mil sementes/ha (67 kg/ha), com desembolso de US$ 26,20 por hectare de royalties para o uso da semente com o gene RR.
Adubação
Os agricultores visitados usam nitrogênio aplicado na forma líquida, antes do inverno. A amônia (82 % N) é aplicada nas doses de 100 l/ha em trigo e 50 l/ha em milho.
Chama a atenção o processo de incorporação de amônia líquida, a mais de 20 cm de profundidade, nas áreas de plantio direto, com sulcadores semelhantes a subsoladores usados para descompactar o solo.
O DAP, a fórmula 18-46-00 é aplicado na superfície do solo, nas doses entre 175-200 kg/ha.
Nas cooperativas e distribuidores de insumos é comum encontrar formuladores de adubos granulados, que fazem a combinação de fertilizantes necessária para as necessidades de cada gleba e potencial de produção.
A idade média dos agricultores de Kansas é de 58,5 anos. Há grande dificuldade de motivar os jovens a continuar nos negócios da agricultura, por causa das dificuldades de sobrevivência econômica dos pais e da percepção de melhores oportunidades de negócios em atividades urbanas.
Alguns agricultores acreditam na robotização de máquinas para a agricultura. Com redução de custos, pois, não seria necessária mão-de-obra (rara e cara) e também reduziria equipamentos de ar condicionado, cabines etc.
O aumento de escala, mas com políticas de seguro patrocinadas pelo governo, para garantir a sobrevivência em períodos de instabilidade de clima, mercado e políticas.
A viabilidade econômica das propriedades rurais é um dos assuntos de discussão entre agricultores. Eles estimam em torno de 600 ha a unidade mínima para viabilizar o produtor de grãos e com rigorosa gestão de gastos e investimentos em tecnologias que aumentem a produção. As empresas de prestação de serviços, cooperativas e comércio de insumos indicam a necessidade de maior eficiência e ampliação do espectro de negócios para continuar atividade.
Consideram que 600 ha é uma unidade mínima de produção de grãos para sustentar uma família padrão de agricultores nos Estados Unidos.
Trigo
O trigo é semeado em outubro e até 4 de novembro, data limite determinada pelas companhias de seguro. Até essa data umidade do solo e a temperatura ainda são suficientes para a germinação e o estabelecimento e inicial das plantas de trigo.
A partir do fim de novembro, as temperaturas baixam e chegam próximo a zero e a planta entre em dormência, voltando a crescer a partir do início de março. Nesse período, de quase quatro meses, as precipitações também são escassas.
Alguns agricultores usam o trigo no inverno para pastoreio de animais (duplo propósito). O solo está congelado e o pisoteio não afeta as plantas, que retomam o crescimento vigoroso, com excelente estrutura física da terra, para o desenvolvimento de raízes, depois de descongelados.
O trigo é colhido em junho, sendo possível fazer uma segunda safra de soja, de girassol ou de sorgo. Se chover muito em junho, o limite de semeadura para segunda safra é a terceira semana de julho.
Conservação de solos
Nos Estados Unidos a legislação sobre conservação de solos e de recursos naturais determina regras que dão direitos a benefícios aos agricultores e punição severa aos infratores. A presença de terraços e escoadouros de água conduzidos como muito capricho, se destaca nas lavouras e surpreendem o visitante brasileiro.
No Meio-Oeste dos Estados Unidos os agricultores comentam que o clima é relativamente seco com grandes chuvaradas ou ventos com severa erosão eólica. É uma terra de extremos.
As precipitações médias são de 768 mm anuais (média de 100 anos) em Glen Elder, mas com chuvas, esporádicas, de mais de 100 mm em algumas horas, que provocam grandes erosões e enchentes.
CSP criou um novo programa para recompensar os benefícios ambientais ou manejo adequado de solos. O valor está sendo estabelecido entre 10 e 15 US$/ha/ano.Revista Plantio Direto, edição 97, janeiro/fevereiro de 2007. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo - RS.