Sistema Santa Cana


Autores:
Publicado em: 01/02/2007

Sistema Santa Cana: tecnologia de manejo em fase inicial de estudo

Waldo A. R. Lara CabezasAPTA - Pólo Regional Noroeste Paulista, Votuporanga/SP - E-mail: waldolar@terra.com.br ou waldolar@aptaregional.sp.gov.br

A região do Noroeste Paulista está enfrentando uma grande transformação no uso das terras agricultáveis, na medida em que a cultura da cana-de-açúcar volta à cena de forma sem precedentes. O incentivo na instalação de novas usinas para a produção de biocombustíveis é a principal causa desta revolução apoiada pelo Governo Federal, que visa no médio e longo prazo a substituição do petróleo por fontes de energia alternativa.

Esta situação não é somente local, mas de certa forma ocorre em todo o país, pois atinge outras regiões onde a cultura possa ser implantada. Conhecendo a crise que enfrenta o setor de grãos e fibras, é compreensível a tentação dos produtores em ceder suas terras e benfeitorias à ”solução dos problemas conjunturais”. Vê-se na realidade que até o genuíno sucesso do sistema de produção intitulado ”Sistema Plantio Direto” precisa enfrentar todos os dias a lei do lucro fácil e de curto prazo, em detrimento dos aspectos ambientalmente corretos. Afinal de contas o dinheiro é a aparente solução para tanto problema, por que julgar a decisão do produtor que está cedendo suas terras a esta nova invasão ”cultural”?

Figura 1. Brotamento da cana após uma semana do plantio, no estádio de seis a sete folhas de milho.

Qual é o caminho então, quando a pesquisa não acompanha a velocidade da moda e do lucro? Precisa de tempo para avaliar práticas de manejo, insumos e conhecer os processos de transformação no sistema solo-água-planta, daí então confirmar a melhor tecnologia e recomendá-la ao produtor. Feitas estas considerações, vemos oportuno apresentar idéias que estão sendo desenvolvidas na região do Noroeste Paulista, visando abrir novas alternativas que harmonizem a permanência do produtor no campo, na brecha da produção de alimentos, evitando a instalação de um grande canavial na região. Estamos preocupados principalmente, com os pequenos e médios produtores, que são a maioria.

Figura 2. Cana na entrelinha do milho, no estágio de 11 a 12 folhas.

Figura 3. Crescimento da cana após o término do ciclo de vida do milho.

A tecnologia em fase de desenvolvimento consiste em verificar a possibilidade técnica e econômica, de consorciar milho e cana-de-açúcar, denominado Sistema Santa Cana (SSC), em homenagem aos idealizadores do Sistema Santa Fé (consórcio milho–braquiária). Da mesma forma, que o pasto por longo tempo considerado cultura perene e extensiva, mudou para cultura anual ou bianual integrada a produção de grãos, por que não tentarmos com a cana? Respeitando o mesmo princípio, já que a região possui aptidão para o cultivo de milho, motivo pelo qual a cana consorciada entre as fileiras do mesmo, seria mais uma alternativa para a produção de pasto no inverno. A cana é uma cultura resistente à seca e palatável para consumo animal, que produz abundante massa de matéria seca e, que tratada como cultura anual, facilitaria a dessecação da touceira formada, deixando a área pronta para uma próxima safra com cultivo de grãos.

Figura 4. Altura da plataforma na colheita de milho

Figura 5. Situação da cana após a colheita de milho

Figura 6. Recuperação da cana, um mês após a colheita

Na seqüência são apresentados os primeiros testes realizados no campo, em pequena área, para conhecer a interação entre as duas culturas.

O solo foi caracterizado em maio de 2005 na camada de 0 a 20 cm, com pH(CaCl2) 5,8; P(resina) 33 mg dm-3, K(resina) 1,4 mmolc dm-3, V de 71%, CTC de 51,4 mmolc dm-3 e MO 12 g kg1. A dessecação da área experimental foi realizada em 26/10/05 com 2 L ha-1 de glifosate + um L de 2,4 D por ha. O milho híbrido simples 30F35 (Pionner) foi semeado em 23/11/05, emergindo em 27/11/2005 quando as chuvas começaram a regularizar-se. Foi semeado com espaçamento de 0,8m entrelinhas, para uma população projetada de 60.000 plantas ha-1, com adubação de base de 370 kg ha-1 de formulado 8-28-16 no sulco de semeadura. Foi utilizada semeadora PST2-Super Tatu Marchesan, para SPD de 4 linhas com haste escarificadora. A semente foi tratada com inseticida e feito controle de invasoras com herbicida pós-emergente em 25/11/2005 e posteriormente em 11/01/2006.

Figura 7. Desenvolvimento do sistema radicular

As mudas de cana, variedade forrageira IAC 86 – 2480, foram plantadas na entrelinha do milho, numa profundidade de 10 cm, sendo dispostas em sistema pé–ponta, 15 dias após a emergência do milho. Não foi adubada, nem recebeu tratamento fitossanitário. Os resultados preliminares são apresentados em forma visual. Nesta fase foi verificada a interferência da cana na produtividade do milho, crescimento em relação ao milho, efeito da colheita mecanizada do milho na cana e seu comportamento durante o outono-inverno de 2005.

Na safra 2006-2007 o consórcio será testado sob as normas de um experimento convencional, sendo efetuado o plantio antecipado, simultâneo e posterior à semeadura de milho em delineamento inteiramente casualizado, com três repetições. Muita atenção será dada aos custos diretos envolvidos, e o tempo gasto nas operações para verificar a viabilidade de adoção pelo produtor.

Na figura 1 nota-se a brotação das gemas da cana, ocorrendo mais rápido que no plantio tradicional, pela menor profundidade usada. Apesar do sombreamento do milho a cana continuou crescendo de forma mais lenta (Ver figura 2). A figura 3 mostra que a cana alcançou a altura do milho pouco antes da colheita. Aparentemente, algo que deverá ser estudado nesta safra, não houve interferência da cultura na produtividade do milho, sendo similar à alcançada pelo milho exclusivo, cultivado no mesmo talhão: 5.977 kg ha-1 de grãos. Na colheita do milho, como mostram as figuras 4 e 5, efetuada com a plataforma normal a altura do corte da espiga, a cana remanescente sofreu o corte da folhagem como esperado, sem afetar o colo da planta. A cana sem receber adubo mostrou rápida recuperação da folhagem, como mostra a figura 6. Neste período as chuvas tinham declinado (outono–inverno de 2006), mostrando a resistência da cana à falta de água superficial.

Figura 8. Sintomas de deficiência nutricional, seis meses após colheita de milho

Figura 9. Recuperação após adubação a lanço de sulfato de amônio e gesso.

A trincheira aberta em julho de 2006 mostra que as raízes se encontram profusamente distribuídas na sub-superfície, contornando a falta de água superficial (Figura 7). Em setembro a cana mostrou nítida deficiência nutricional, como não foi adubada, deve ter aproveitado o resíduo do adubo aplicado no milho, a cultura também sofreu com a falta de água neste período. Mesmo assim, a figura 8 mostra que a cana não paralisou seu crescimento. No inicio de outubro foi aplicado a lanço 40 kg ha-1 de N-sulfato de amônio + 200 kg ha-1 de gesso para fornecer enxofre. O resultado verificado três semanas após essa operação está demonstrado na figura 9. A cana recuperou a cor e retomou o crescimento, portanto, permanecendo em pé e ativa durante o período em que o solo fica em pousio na região. Estes resultados preliminares justificam a tentativa de estudar mais profundamente o manejo consorciado de ambas as culturas. Nas figuras 10, 11 e 12 verifica-se a disposição de plantio das mudas e o sulcamento da área, para o tratamento em pré-semeadura, do estudo a ser realizado na safra 2006-2007. Na colheita do milho desta safra, serão apresentados os resultados obtidos, mostrando as vantagens e desvantagens do sistema proposto. O maquinário utilizado para o sulcamento, deve ser substituído por um sistema de facões que provoquem menor movimentação do solo. Fica, portanto, em aberto uma idéia que merece ser estudada antes de negar antecipadamente sua viabilidade. Esperemos pelos resultados e estamos abertos a sugestões.

Figura 10. Disposição das mudas no sulco de plantio

Figura 11. Cultivador abrindo os sulcos para 8 a 10 cm de de profundidade

Figura 12. Disposição das mudas na futura entrelinha de milho

Para finalizar, lembramos as palavras de Carl Sagan, citado por Alex S. Lennine Mota, especialista em divulgação científica: ”Divulgar a ciência, pois, é igualmente uma satisfação, um dever moral, uma obrigação intelectual, um compromisso político e um ato de educação. A ciência precisa ser compreensível e estar próxima dos leigos, da sociedade de um modo geral, não apenas da comunidade científica”.

Revista Plantio Direto, edição 97, janeiro/fevereiro de 2007. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.