Uso Adequado de Plantas de Cobertura


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Publicado em: 01/02/2007

Uso adequado de plantas de cobertura, rotação de culturas e seus benefícios no Sistema de Plantio Direto

Ademir Calegari1 & Ricardo Ralich2 1Eng-agr. Dr. Área de Solos, Iapar, Londrina, PR – E-mail: calegari@iapar.br2En-agr., Dr. Professor da Universidade Estadual de Londrina, Londrina, PR

1. Introdução

Onde quer que se pratique a agricultura, um aspecto marcante e comum numa grande maioria dos agro-ecossistemas a nível mundial, é o uso intensivo e a má gestão dos recursos naturais, o que tem ao longo dos anos contribuído para o agravamento dos processos de degradação dos recursos, principalmente solo e água, comprometendo severamente a produção agropecuária e, colocando em risco a tanto a qualidade ambiental quanto a qualidade de vida das diferentes populações.

Os inadequados processos de ocupação das áreas, bem como a rapidez da necessidade de produção de alimentos tem contribuído para o agravamento dos processos de erosão do solo, alterando algumas das suas propriedades físicas, químicas e biológicas que, somados à aceleração da mineralização da matéria orgânica, com conseqüente diminuição da fertilidade, tem provocado uma crescente diminuição do potencial produtivo de diferentes das mais diversas regiões agroecológicas. Essa situação aliada a outros aspectos ligados ao clima (temperaturas extremas, ocorrência de secas prolongadas, inundações, ataque severo e inesperado de pragas e/ou doenças), tem provocado em maior ou menor grau, nas mais distintas regiões, sérios riscos de insegurança alimentar às populações.

Um significativo número de agricultores da região Sul do Brasil, bem como de outras regiões que se dedicam à produção de grãos tem, principalmente nos últimos anos, deixado uma grande parcela das áreas cultivadas no verão com soja e milho, em pousio no inverno. Esta opção errônea, na maioria das vezes tem contribuído para o desencadeamento de um processo de degradação do solo, da água e do meio ambiente. As áreas ficam propícias à infestação crescente das invasoras, riscos de erosão e perdas de solos, água e nutrientes. Dessa forma é fundamental o planejamento e inserção adequada de espécies de plantas de cobertura, em sistemas de rotação de culturas ajustados conforme as condições locais especificas, para que se tenha um Sistema de Plantio Direto dinâmico e com o recurso natural solo e água preservados e cada vez mais produtivo, com custos de produção menores e com uma rentabilidade da propriedade e melhor qualidade de vida aos produtores.

2. O Sistema de Agricultura Conservacionista

As inúmeras experiências de agricultores e resultados obtidos por pesquisas mostram que o sistema de Agricultura de Conservação, que inclui o emprego de plantas de cobertura adequadamente integradas em rotação de culturas e o plantio direto (*sistema comumente conhecido no Brasil como plantio direto) após adaptado regionalmente, tendem a contribuir positivamente sobre diferentes aspectos:

• Promove uma melhor conservação e recuperação dos solos, tendendo a desenvolver um sistema sustentável de produção,

• Facilita a distribuição do trabalho durante todo o ano agrícola, levando a uma economia de mão-de-obra e menor consumo de energia,

• Permite uma maior diversificação com menores riscos de ataques de doenças e/ou pragas,

• Melhor aproveitamento da umidade do solo, com diminuição da freqüência de irrigação,

• Contribui para uma adequada redistribuição - aproveitamento e equilíbrio dos nutrientes no solo, proporcionando um aumento da capacidade produtiva do solo,

• Favorece na diminuição dos custos de produção,

• Contribui para uma maior estabilidade de produção,

• Geralmente conduz a um aumento dos rendimentos das diferentes culturas e, conseqüente tendência de aumento da renda líquida da propriedade e melhores perspectivas de melhor qualidade de vida aos produtores.

Na avaliação do planejamento de distribuição das culturas e/ou pastagens, enfim da exploração agropecuária, deve se considerar o conhecimento detalhado do histórico da área em questão, geralmente tendo em conta vários aspectos:

• quanto tempo que vem sendo cultivado na área

• descrição das principais espécies desenvolvidas

• preferentemente monitorar com análise química de solos e plantas

• avaliação dos rendimentos obtidos ao longo do tempo (histórico da área) para saber se é uma área degradada, ou de elevada capacidade produtiva (irá auxiliar na definição das seqüências de culturas)

• o acompanhamento criterioso das atividades realizadas quer seja quanto aos aspectos/atributos físicos, químicos e biológicos do solo, uso de calagem e adubações (química e orgânica), são fundamentos indispensáveis no estabelecimento de um esquema racional e compatível de rotação de culturas.

3. O Sistema de Plantio direto tem sua base de sustentação na cobertura do solo.

Vantagens de manter o solo coberto

As principais vantagens em manter o solo coberto são as seguintes:

1) Além de manter o solo protegido, irá quebrar a energia cinética da chuva impedindo o impacto direto das gotas de chuva no solo, evitando o desencadeamento do processo de erosivo

2) Mantém mais umidade no solo, diminuindo as perdas de água por evaporação, além de diminuir a oscilação térmica nas 1as. camadas de solo.

3) Os resíduos das plantas, contribuem para uma maior aeração do solo, principalmente pela ação dos canais no perfil que irão aumentar a infiltração de água no solo, diminuindo o escorrimento superficial e as perdas de água, solo e nutrientes.

4) A cobertura do solo com resíduos e, os efeitos dos compostos orgânicos produzidos irá ter uma efetiva ação na agregação das partículas, maior aeração, maior porosidade, com conseqüentes efeitos favoráveis no crescimento das raízes das culturas.

5) As plantas de cobertura atuam positivamente na reciclagem de nutrientes do solo, diminuindo a lixiviação dos mesmos, bem como podem adicionar o nitrogênio ao sistema, principalmente com o uso de leguminosas minimizando a demanda externa de fertilizantes.

6) Possibilitar, com o crescimento rápido e agressivo das plantas de cobertura, elevada competição com as invasoras, diminuindo os custos com o seu controle.

7) Com a utilização adequada das espécies, há uma tendência, ao longo dos anos, do aumento dos teores de matéria orgânica no solo, que irão proporcionar significativas melhorias nos atributos do solo (químicos, físicos e biológicos do solo).

8) Favorece o aumento da biologia do solo e, conseqüente aumento da biodiversidade, o que irá contribuir para um maior equilíbrio natural e menores riscos de ataque de pragas (insetos, nematóides, etc.) e doenças.

Dessa forma, um solo descoberto ou em pousio com pouca cobertura, estará deixando de usufruir de todas estas vantagens/benefícios acima citados.

4. Rotação de culturas

A rotação de culturas consiste na alternância de espécies vegetais na mesma estação numa determinada área, observando-se um período mínimo sem o cultivo desta mesma espécie na mesma área. O planejamento apropriado de um sistema de rotação de culturas deverá visar não apenas objetivos imediatos mas que, ao longo dos anos, a integração de culturas e muitas vezes a própria integração com animais, produza efeitos favoráveis ao sistema, proporcionando uma maior estabilidade de produção, menores riscos de infestação de pragas e doenças, melhoria da capacidade produtiva do solo e conseqüente maior rentabilidade líquida na propriedade agrícola como um todo.

A inclusão de diferentes espécies de plantas de cobertura adaptadas regionalmente, adequadamente distribuídas temporal e espacialmente, contribuirão sobremaneira para uma maior biodiversidade no meio ambiente e conseqüente maior equilíbrio do sistema como um todo.

Os esquemas de rotação dependerão da região em questão, do tipo de solo, clima, manejo empregado, das características das áreas específicas e da infra-estrutura da propriedade. O uso da rotação de culturas em propriedades diversificadas dependerá de um planejamento ordenado e de uma criteriosa adequação temporal e espacial das atividades.

A manutenção e/ou adição da matéria orgânica ao solo através da rotação de culturas, incluindo o adequado emprego das coberturas vegetais e o manejo dos resíduos pós-colheita, tende a promover melhorias significativas no sistema produtivo ao longo dos anos, por:

• Melhorar o estado de agregação das partículas, através da formação de complexos organo-minerais.

• Aumentar a capacidade de armazenamento de água.

• Contribui para um aumento da biodiversidade do solo, e ao incrementar a biologia do solo (micro, meso e macro [fauna e flora]), aumenta a quantidade de espécies de organismos e também os inimigos naturais que irão atuar positivamente no controle e equilíbrio de pragas (insetos, nematóides e outros) e doenças.

• Reduzir as perdas de nutrientes e melhorar a solubilização de nutrientes, facilitando o seu aproveitamento pelas plantas.

• Promover a complexação orgânica do alumínio e manganês que encontram-se em níveis tóxicos no solo.

• Aumentar a CTC efetiva do solo (dependente de pH).

• Melhorar o desenvolvimento das culturas, aumentando a estabilidade da produção ao longo dos anos.

Tabela 1. Produção de massa vegetal de diferentes espécies de plantas de cobertura e % de nutrientes na matéria seca.

Tabela 2. Seqüência de sistemas de rotação de culturas para a Região dos Cerrados.

5. Plantas de cobertura

Os nutrientes deixados pelas plantas de cobertura às culturas posteriores podem ser aproveitados em quantidades vairáveis conforme os seguintes fatores:

Espécie de planta de cobertura: Plantas mais fibrosas (com maior quantidade de carbono) demoram mais a se decompor no solo, plantas com maior % de nitrogênio se decompõe mais rápido e liberam os nutrientes no solo, podendo então ser absorvidos pelas culturas subseqüentes;

Tempo de decomposição: A relação carbono/nitrogênio (C/N), bem como a quantidade de lignina presente no tecido vegetal, irá governar grande parte do processo de decomposição dos resíduos no solo;

Temperatura: Temperaturas elevadas facilitam o aumento de população dos microrganismos do solo e, consequentemente poderá acelerar o processo de decomposição dos resíduos vegetais no solo;

Umidade do solo: A disponibilidade de água juntamente com temperatura e presença de ar (oxigênio) são fundamentais no aumento dos microrganismos e decomposição dos resíduos no solo;

Manejo do solo: O solo ao ser revolvido por tratores, grades ou mesmo enxadas, irá misturar os resíduos na camada superficial do solo acelerando o processo de decomposição dos resíduos presentes;

Fertilidade do solo: (aspectos químicos, físicos e biológicos)

Maior teor de matéria orgânica (geralmente está associado a um incremento biológico no solo, principalmente os microorganismos), elevado teor de nutrientes, melhor aeração do solo (ausência de compactação), maior acúmulo de umidade; temperaturas elevadas, tendem a acelerar a decomposição dos resíduos no solo, assim esses fatores tem influencia direta na disponibilidade dos nutrientes às culturas subseqüentes.

5.1 Efeitos das plantas de cobertura

As plantas de cobertura devidamente empregadas na seqüência de culturas tendem a contribuir para uma melhoria do sistema de produção e com reflexos diretos na capacidade produtiva do solo e no rendimento favorável dos cultivos posteriores.

Com a utilização das diferentes plantas de cobertura é possível quantificar o montante de um determinado nutriente reciclado e/ou fixado biologicamente pelas leguminosas, considerando a biomassa produzida e os nutrientes contidos no tecido foliar (Tabela 01).

Os valores apresentados demonstram o grande potencial que as distintas plantas de cobertura possuem em deixar no horizonte superficial dos solo variáveis quantidades de nutrientes que poderiam ser absorvidos pelas raízes dos cultivos posteriores. Além desses nutrientes, um dos mais importantes aportes das plantas são os compostos de carbono orgânico, ou seja a matéria orgânica, que será responsável, directa ou indirectamente pelas interacções e reacções químicas, físicas e biológicas no sistema solo-água-planta. Dessa forma, as plantas de cobertura, e todo o SPD, além de melhorar o potencial produtivo do solo, irão contribuir sobremaneira para o aporte e sequestro/captura de carbono orgânico no solo, diminuindo assim as perdas de gases (principalmenbte o CO2) para a atmosfera e diminuindo efeito estufa no planeta Terra.

6. Consórcios

Nas regiões mais quentes, onde o processo de decomposição da matéria orgânica é mais acelerado, para uma maior estabilidade da cobertura morta no plantio direto, recomenda-se como plantas de cobertura na rotação o uso de gramíneas ou o consórcio de gramíeas x leguminosas e/ou outras famílias. Os consórcios mais recomendados e com melhores resultados para os cultivos de milho, soja, feijão, algodão, são:

• Aveia preta (20-25 kg/ha) + Ervilha forrageira (40-45 kg/ha)

• Aveia preta (20-25 kg/ha) + Tremoço (branco e azul) (50- 70 kg/ha)

• Aveia preta (20-25 kg/ha) + Ervilhaca (peluda e comum) (40-45 kg/ha)

• Aveia preta (20-25 kg/ha) + Nabo forrageiro (10Kg/ha)

• Aveia preta (15-20 kg/ha) + Ervilha Forrag.(25-30kg/ha) + Nabo (5-8 kg/ha)

• Aveia preta (15 kg/ha) + Ervilha Forrag.(25 kg/ha) + Nabo (5 kg/ha) + Ervilhaca comum (20-25 kg/ha).

• Aveia preta (15 kg/ha) + Tremoço branco (25-30 kg/ha) + Nabo(5 kg/ha) + Ervilhaca comum (20-25 kg/ha).

• As quantidades de aveia preta são para a Cv. Iapar-61, caso seja aveia preta comum, aumentar em 40- 50% a quantidade de sementes recomendada.

• Nas regiões frias (Sul do Paraná, Sta. Catarina e Rio Grande do Sul) pode ainda ser empregado o azevém nas mistura com aveia, ervilhaca, centeio, etc.

• É possível também consorciar estas diferentes leguminosas com Centeio ou com triticale.

• Após a colheita de trigo, ou do milho safrinha, ou mesmo após a colheita da soja ou do milho é possivel semear coberturas de curto período (50-65 dias): crotalaria juncea, milheto, sorgo forrageiro, moha; em algumas regiões é possível semear o nabo forrageiro e a ervilha forrageira (nestes casos antecedendo trigo, cevada, que podem ser semeados em maio/junho). etc.

Revista Plantio Direto, edição 97, janeiro/fevereiro de 2007. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.