Lagartas novas e de difícil controle
Dirceu N. GassenEngenheiro-Agronônomo, Gerente Técnico da Cooplantio, Porto Alegre, RS. E-mail: dirceu@agri.com.br
Alagarta-da-soja, Anticarsia gemmatalis, está presente em todas as regiões de produção da cultura no mundo. É a praga de maior consumo de inseticidas em soja. Foram desenvolvidos programas de manejo de pragas objetivando definir a capacidade de danos, de reação das plantas, seletividade de inseticidas e controle biológico. O uso de baculovirus, na década de 1980, causou grande impacto positivo no controle biológico da praga.
Na bibliografia brasileira de soja são citadas mais de duas dezenas de espécies de lagartas, com ciclo biológico, qualidade de alimento e outras variáveis, que poderiam desenvolver populações elevadas e atingir o nível de praga, com danos severos nas lavouras. A lagarta-da-soja ocorria em população elevada e com necessidade de controle freqüente na cultura. Outras espécies do gênero Spodoptera (lagarta-das-vagens, lagarta-preta ou lagarta-militar) e da sub-família Plusiinae (falsa-medideira ou plusia) eram consideradas de ocorrência esporádica. Além dessas, são constatadas a lagarta-enroladeira, Omioides sp., a broca-das-axilas, Epinotia aporema, e a verdadeiras mede-palmo, Semiothisa sp.
O cultivo sucessivo de soja em áreas extensivas, que chega a quase 40 milhões de hectares no Brasil, Argentina e Paraguai, combinado com o uso sucessivo de inseticidas do mesmo grupo químico, são fatores muito importantes na seleção de pragas.
Na safra 2006-7, a lagarta falsa-medideira ou plusia e a lagarta-preta ou lagarta-das-vagens causaram danos severos e muita dificuldade no controle, com aplicação de doses elevadas de inseticidas e pulverizações sucessivas.
Lagarta falsa-medideira
A lagarta falsa-medideira é conhecida como plúsia e com vários nomes científicos. As lagartas desse grupo eram consideradas esporádicas e poucas vezes causavam danos severos em soja. Já, em hortaliças e em algodão, o controle é realizado com maior freqüência, usando inseticidas do mesmo grupo químico, podendo ser a origem da seleção de populações resistentes ou de difícil controle.
Em soja no Brasil, são citadas as espécies Pseudoplusia includens e Rachiplusia nu. Na fase de larva, a diferenciação das duas é difícil e envolve características morfológicas da mandíbula e de pequenos detalhes dos ocelos e de cerdas que revestem o corpo. A variação na cor da cabeça e pernas, ou estrias no corpo das larvas são insuficientes para diferenciar as duas espécies.
Na Argentina, a espécie R. nu era citada como praga em soja até constatar problemas com resistência a inseticidas piretróides e fosforados. Estudos determinaram que as duas espécies ocorriam simultaneamente na lavoura de soja e que a R. nu era controlada por inseticidas em doses usuais e as populações consideradas resistentes, ou de difícil controle, pertenciam à espécie P. includens. O mesmo pode estar acontecendo no Brasil.
No passado dava-se pouca importância ao dano da lagarta falsa medideira em soja, no sul do Brasil. No último ano as populações foram mais elevadas, os danos severos e com grandes dificuldades de controle. Esse problema poderá se repetir nas próximas safras, exigindo novas estratégias de controle de pragas em soja. Entretanto, o estudo da dinâmica populacional de pragas mostra que as erupções populacionais esporádicas podem não se repetir nos anos seguintes.
Adulto da lagarta mede-palmo, Pseudoplusia includens.
Lagarta-preta, Spodoptera cosmioides, em soja.
Lagarta-preta
Outra espécie que ocorre em populações elevadas e com danos severos em soja é a lagarta-preta, Spodoptera cosmioides.
A lagarta-preta ocorre em soja, desde o sul do Brasil até os Cerrados, com pouca informação de pesquisa na bibliografia mundial. É de constatação recente e confundida com a lagarta-das-vagens, Spodoptera eridanea.
A lagarta-preta ocorre em soja, linho, girassol, mamona, canola, gramíneas e várias plantas daninhas. Em soja, se encontra na parte mediana das plantas, com desfolhamento rápido e constante, dificultando o controle com a aplicação de inseticidas pelo posicionamento protegido no interior do dossel da planta.
Lagarta-da-soja, Anticarsia gemmatalis, em soja.
Controle
A falta de informações básicas sobre detalhes da biologia e de dinâmica populacional, dificulta a indicação de estratégias de controle e de manejo das populações da falsa medideira e da lagarta-preta em soja. O controle dessas espécies foi ineficiente com as doses usadas para a lagarta da soja, Anticarsia gemmatalis. As informações de pesquisa ainda são insuficientes para sugerir a presença de populações resistentes ou para indicar doses de inseticidas para o controle efetivo de cada uma das espécies.
Com base na experiência de aplicações em lavouras, nas fases iniciais de desenvolvimento das lagartas os inseticidas fisiológicos foram eficientes. Para as lagartas de tamanho maior os inseticidas fosforados, piretróides e carbamatos foram eficientes, apenas em doses elevadas.
A rotação de culturas e de práticas de controle, incluindo a alternância de inseticidas de diferentes grupos químicos, é muito importante para evitar a seleção de populações resistentes e para o manejo eficiente de pragas. Para a próxima safra é necessário monitorar as populações de lagartas, evitar o uso preventivo de inseticidas de amplo espectro de ação (piretróides e fosforados) que matam inimigos naturais e optar por produtos de ação mais específica sobre pragas.
Revista Plantio Direto, edição 97, janeiro/fevereiro de 2007. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.