Sobre a Alteração de Sensibilidade de Raças de Puccinia triticina (Ferrugem da Folha do Trigo)


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Publicado em: 01/08/2007

Sobre a alteração de sensibilidade de raças de Puccinia triticina, agente causal da ferrugem da folha do trigo, a alguns fungicidas

Erlei Melo Reis1, Gisele Arduim1, Amarilis L. Barcellos2 e Eder Novaes Moreira11Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, RS. E-mail: erlei@tpo.com.br2OR – Melhoramento de Sementes, Passo Fundo, RS

Em trigo ocorrem diversas doenças causadas por fungos, vírus e bactérias. Os valores dos danos causados são apresentados no Quadro 1.

Quadro 1. Resumo dos danos causados pelas doenças em trigo.

Fonte: Reis & Casa, 2001.

A ferrugem da folha do trigo, causada por Puccinia triticina, é considerada a doença mais destrutiva da cultura, causando danos superiores de até 63% (Barcellos & Ignaczak, 1997).

O controle da doença é obtido através da: (a) eliminação de plantas voluntárias (guachas, trigüera, extemporâneas) - a principal, senão a única fonte de inóculo primário no Brasil; (b) criação e cultivo de variedades resistentes; e (c) emprego de fungicidas nos órgãos aéreos nos casos de cultivares suscetíveis (Recomendações, 2006).

A medida preferencial de controle é o uso de cultivares resistentes. Nesse sentido, as instituições de pesquisa concentram a maioria de seus esforços na busca desse objetivo. Em geral, a resistência não é durável e estratégias como a obtenção de cultivares com resistência parcial, ou de planta adulta, deveria ser a opção principal. A resistência tem sido ”quebrada” após alguns anos de cultivo pelo surgimento de novas raças virulentas pelo mecanismo de mutação (Barcellos et al., 1997).

É fundamental nos programas de melhoramento, que visam à obtenção de cultivares resistentes, o monitoramento da variabilidade do fungo. Instituições como a Embrapa Trigo (http://www.cnpt.embrapa.br/) e a OR Melhoramento de Sementes (www. orsementes.com.br), procedem rotineiramente a determinação de raças de P. triticina.

Os trabalhos de determinação de raças de P. triticina iniciaram no antigo Instituto Agronômico do Sul, em Pelotas – RS, no ano de 1962. Nesses 44 anos já foram determinadas 56 raças do fungo no Brasil. Em média, tem surgido uma nova raça em cada safra.

As mutações até então ocorrentes levavam a alteração da virulência do fungo com a conseqüente quebra da resistência tornando o cultivar resistente em suscetível. Esse fato tem constituído, praticamente, um ciclo vicioso ao longo dos anos: criação do cultivar resistente, seu cultivo por algumas safras com o conseqüente aumento da área cultivada, surgimento da nova raça, domínio da nova raça na população do fungo, ocorrência de danos elevados no trigo, gastos com fungicida no seu controle, e finalmente, a redução da área de cultivo da variedade pelos produtores. Serve de exemplos o ocorrido com os cultivares suscetíveis IAS 55, Anahuac, IAPAR 6 Tapejara, Tifton, CNT – 9, CNT – 10, BRS 49, OR -1, Embrapa 16, BRS – 194, IAPAR 23 e recentemente com os cultivares Ônix, BRS 194, CD 104, CD 110, CD 111 e etc.

Quando o cultivar é suscetível, ou tem a resistência quebrada, a única opção de controle restante é o uso de fungicidas.

Um resumo da cronologia de uso de fungicidas na cultura do trigo, no Brasil, é mostrado no Quadro 2.

Quadro 2. Cronologia do uso de fungicidas em trigo no Brasil

Fonte: Recomendações, 1976;1979;1986;1991;1993;2000;2001;2006.ISE – Inibidores da Síntese de Esteróis na membrana plasmática; IQe – Inibidores da Quinona externa na mitocôndria.

Os fungicidas têm sido uma ferramenta emergencial, rápida e eficiente no controle, não só da ferrugem da folha, mas também, do oídio e das manchas foliares. Com o passar do tempo, fungicidas cada vez mais eficientes têm sido desenvolvidos como os triazoles e as estrobilurinas. A ferrugem da folha era eficientemente controlada pelos fungicidas triazoles (Recomendações, 2006).

Na safra de trigo de 2005, pela primeira vez, alguns produtores nos Estados do sul, reclamaram da falha do controle químico da doença em várias lavouras aonde se empregou fungicidas triazoles isoladamente, nos cultivares BRS 194 e Ônix, principalmente. Fato semelhante ocorreu na safra 2006 no Paraná com os cultivares CD 104 e CD 111.

Frente a esses fatos, técnicos e pesquisadores se reuniram para tentar explicar o que estava ocorrendo, sem, no entanto, chegarem a uma conclusão definitiva (Revista Plantio Direto, 2006).

O mesmo fato ocorreu na safra 2006 numa área maior de abrangência o que levantou a suspeita do fungo agente causal da doença ter alterado a sensibilidade aos triazoles, pois nas safras anteriores à safra 2005, o controle foi satisfatório. A falha de controle foi observada também na Argentina, Paraguai e Uruguai.

Amostras de folhas de trigo procedentes das lavouras com falha de controle da ferrugem da folha, foram processadas na OR Sementes, tendo sido identificadas as raças B 55 (no cultivar Ônix), B 56 (no cultivar BRS 194) e uma nova raça ainda não nominada (em algus cultivares CD) dos cultivares CDs. Estas raças são consideradas novas e foram identificadas pela primeira vez em no final da safra de 2004 e em 2005.

Pesquisas estão sendo conduzidas na tentativa de reproduzir em condições controladas os fatos verificados em lavouras comerciais. Comparou-se a sensibilidade das raças B 55, B 56 e a raça do CD 110 com a raça B 34 (considerada sensível aos triazoles). Foram testados isoladamente os fungicidas triazoles (ciproconazole, epoxiconazole e tebuconazole) e as estrobilurinas (azoxistrobina, piraclostrobina e trifloxistrobina) e suas respectivas misturas, nas doses recomendadas e utilizadas nas lavouras comerciais. Todos os experimentos foram repetidos, no mínimo, duas vezes.

No trabalho se reproduziu o ocorrido no campo comprovando-se que as raças suspeitas diminuíram a sensibilidade (Ghini & Kimati, 2000) aos triazoles enquanto que a raça B 34 usada como padrão de sensibilidade, foi controlada 100% pelos fungicidas. Por outro lado, as estrobilurinas puras (azoxistrobina, piraclostrobina e trifloxistrobina) e em misturas, controlaram as três raças eficientemente em aplicação preventiva e curativa.

Deste trabalho se pode recomendar que no controle da ferrugem da folha do trigo se deve evitar o uso de fungicidas triazoles (ciproconazole, epoxiconazole e tebuconazole) isoladamente, mas sim em mistura com as estrobilurinas (ex. Nativo, Ópera e Priori Xtra) . Por outro lado, não se deve utilizar as estrobilurinas puras por apresentarem maior risco de desenvolvimento da resistência. Os triazoles, com as respectivas misturas, devem continuar sendo usados para o controle do oídio, manchas foliares e giberela.

Um bom procedimento é o conhecimento da reação dos cultivares às raças, com alteração de sensibilidade aos triazoles (Coodetec, Embrapa Trigo, Fundacep, IPR e OR). As demais raças ocorrentes ainda são consideradas sensíveis aos fungicidas.

Referências bibliográficas

Debate aponta problemas na safra 2005. Revista Plantio Direto. Ano XV – N.89, setembro/outubro. p.9-11, 2005.

BARCELLOS, A. L. & IGNACZAC, J. C. Efeito da ferrugem da folha em diferentes estádios de desenvolvimento do trigo. In: Reunião Anual Conjunta de Pesquisa de Trigo, 10, Porto Alegre, 1978. Solos e Técnicas Culturais, Economia e Sanidade. Passo Fundo, Centro Nacional de Pesquisa de Trigo, 1978. p.212-219.

BARCELLOS, A. L.; MORAES-FERNANDES, M. I. B.; ROELFS, A. P. Ferrugem da folha do trigo (Puccinia recondita): durabilidade da resistência. Summa Phytopathologica 23: n.2, p. 101-117. 1997.

GHINI, R. & KIMATI, H. Resistência de fungos a fungicidas. Jaguariúna, SP. Embrapa Meio Ambiente, 2000. 78p, II.

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REUNIÃO DA COMISSÃO SUL BRASILEIRA DE PESQUISA DE TRIGO, 34., 2002, Porto Alegre. _Indicações técnicas.._. Porto Alegre: FEPAGRO, 2002 79 p.

REUNIÃO DA COMISSÃO SUL BRASILEIRA DE PESQUISA DE TRIGO, 37., 2005, Cruz Alta. _Indicações técnicas.._. Cruz Alta: FUNDACEP, 2005, 162 p.

REIS, E.M., CASA, R.T. & MEDEIROS, C.A. Diagnose, patometria e controle de doenças de cereais de inverno. MC Gráfica Ltda: Londrina, PR. 2001, 94p.

Revista Plantio Direto, edição 100, julho/agosto de 2007. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.