La Niña Deve Influenciar a Safra 2008 no Brasil


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Publicado em: 01/12/2007

La Niña deve influenciar a safra 2008 no Brasil

Paulo EtchichuryMeteorologista - SOMAR Meteorologia – São Paulo - SP - E-mail: paulo@met.com.br

A safra de verão 2007/08 ocorre sob os efeitos do fenômeno climático La Niña (águas frias no Oceano Pacífico equatorial), o que representa uma condição oposta em relação à safra passada, que teve a influência de um El Niño. A última La Niña ocorreu na primavera-verão 2005/06. No entanto, neste ano o fenômeno começou antes (abril/maio), apresenta intensidade moderada e se estende até meados de 2008, quando deve entrar em processo de enfraquecimento, segundo projeta o modelo climático (Figura 1) do Centro Americano de Meteorologia (NCEP/NOAA).

O inverno mais frio verificado este ano no Sul do Brasil e depois o atraso do retorno das chuvas sobre o Sudeste e o Centro-Oeste do Brasil já foram conseqüências da presença da La Niña.

Para o verão, o cenário climático sobre o Brasil muda em relação ao que vinha sendo observado. No Sul, depois das chuvas da primavera o tempo fica seco a partir de dezembro, lembrando ainda que a La Niña está associada com chuvas abaixo da média e risco de estiagens durante o verão. Já para o Sudeste e o Centro-Oeste do Brasil, depois de um período seco mais longo e o atraso no retorno das chuvas, há previsão de um padrão de chuvas típicas do verão, podendo haver períodos mais chuvosos, associados a episódios de frentes frias estacionárias.

Analisando os dados de produção de safra, é possível perceber que em anos de La Niña, há uma redução do potencial de produção de grãos, especialmente nas lavouras de milho e soja. As maiores safras geralmente ocorrem em anos de El Niño. Portanto, podemos concluir que pelas previsões climáticas projetadas para este ano, dificilmente haverá a confirmação das projeções de safra recordes divulgadas pelos órgãos oficiais. A redução de produtividade causada pelos fatores climáticos só poderá ser compensada através do aumento da área plantada.

Para a lavoura de soja, a condição de La Niña traz riscos de estiagens para as lavouras do Sul, principalmente no Rio Grande do Sul. Já para as lavouras das regiões Centro-Oeste e Sudeste, o risco está associado com excesso de chuvas entre janeiro e fevereiro, o que traz o aumento das doenças na lavoura e problemas no período de colheita. Para as áreas de soja da Bahia, Maranhão e do Piauí, depois do atraso no retorno das chuvas, o que só ocorreu na última semana de novembro, a condição de clima em geral é favorável para o desenvolvimento da lavoura, e pode até haver uma compensação, com as chuvas se prolongando até março e meados de abril de 2008.

No caso da lavoura de milho, um dos principais problemas está no atraso do plantio em função da estiagem prolongada nas principais regiões produtoras, como o Paraná e o Centro-Oeste. No entanto, depois deste atraso, com as chuvas confirmadas, a safra de verão transcorrerá sem grandes problemas. A principal conseqüência associada a este atraso no plantio da lavoura de verão (milho e soja) será para a lavoura do milho safrinha de 2008, que será plantado obrigatoriamente mais tarde, aumentando assim o risco associado às baixas temperaturas e geadas para as lavouras do Paraná e de Mato Grosso do Sul. Enquanto que para as lavouras de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo, o risco do milho safrinha está associado com a falta de chuva para o final de abril e maio.

Já para o arroz, o cenário climático da La Niña é favorável, porque representa menos chuva durante o verão e maior período de luminosidade, condições ideais para o desenvolvimento da cultura. Além disso, diferente dos últimos dois anos, os reservatórios e barragens já estão com a sua capacidade total e, com isso, este ano não haverá redução da área plantada. Esta condição é válida desde que o produtor se limite a plantar a área equivalente à água armazenada na sua barragem. Vale lembrar que, em anos de La Niña, durante o verão dificilmente ocorrem chuvas para repor os níveis dos reservatórios.

Figura 1. A figura acima apresenta a projeção mensal da anomalia na temperatura(°C) da superfície do mar, sobre os Oceanos, com destaque para o Oceano Pacífico equatorial (Lat: 20S/20N, Long: 80W/1140E), para o período novembro de 2007 a abril de 2008, onde as áreas nas cores laranja e vermelho representam áreas com águas aquecidas e na cor azul áreas com águas mais frias do que o normal. (Fonte: NWS/NCEP/NOAA)

Para a produção de cana-de-açúcar, laranja e café, diferente das lavouras de cereais, não há muito risco associado às chuvas do verão. No entanto, neste ano, essas culturas sofreram com o período seco mais prolongado e com o atraso no retorno das chuvas. Estes fatores comprometeram principalmente as floradas do café e da laranja, cujos impactos e prejuízos vão ser mensurados nos resultados da safra do próximo ano. Apenas vale ressaltar que para o Café, caso ocorra o enfraquecimento da La Niña durante o outono, aumenta o risco de geadas para o inverno de 2008.

Por último, é importante salientar que com o passar do tempo, cada vez mais fica evidente e fácil assimilar algumas informações e conceitos. Um deles é que episódios de La Niña trazem diversos complicadores ao longo do ano para a produção agrícola do Brasil. Tendo a consciência destas influências diretas, cada vez mais, empresas e indústrias incorporam novas informações no seu planejamento, associando experiência com uma previsão climática atualizada.

Revista Plantio Direto, edição 102, novembro/dezembro de 2007.