Estado da Arte na Produção de Palha com Milho Safrinha em Consórcio com Braquiária


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Publicado em: 01/12/2007

Estado da arte na produção de palha com milho safrinha em consórcio com Brachiaria

Gessi CecconEng.-Agr., Doutor em Conservação do Solo e Água, Pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste, Dourados, MSE-mail: ceccon@cpao.embrapa.brTrabalho desenvolvido com apoio da Fundação Agrisus.

Otrabalho foi desenvolvido mediante o diagnóstico em propriedades agrícolas, com o objetivo de identificar os sistemas e espécies utilizadas para produção de palha e grãos na safrinha, na região Centro-Oeste. Foram amostradas oitenta e nove lavouras entre os municípios de Eldorado do Sul/MS, Sinop/MT e Santa Helena de Goiás/GO. O principal sistema de produção de palha e grãos na safrinha é o consórcio de milho com B. ruziziensis. Em MT e GO predomina a mistura da semente de braquiária ao adubo e o milho em espaçamento de 0,50 m. Em MS predomina a implantação da braquiária na entre-linha, e também com operação adicional usando semeadora de grãos miúdos, e milho a 0,80 m entre linhas.

Milho safrinha com B. ruziziensis implantada no adubo

1. Introdução

O Sistema Plantio Direto proporciona melhores condições físicas e químicas ao solo e condições para antecipar a semeadura na safrinha, conferindo assim, maior produtividade das culturas, promovendo sustentabilidade ambiental. No entanto, a manutenção dos resíduos na superfície do solo tem sido um desafio constante nas condições de clima tropical.

O milheto tem sido utilizado para cobertura de solo antecedendo a semeadura da soja, com importante papel no controle de plantas invasoras (Kichel & Miranda 2000). O sorgo forrageiro também tem mostrado ser bom produtor de palha na safrinha (Machado, 2003). No entanto, ainda é um desafio estabelecer esquemas de rotação compatíveis com diferentes espécies e sistemas de produção, com retorno econômico das culturas.

A Brachiaria ruziziensis tem demonstrado ser uma importante alternativa para produção de palha durante a estação seca, tanto em cultivo solteiro (Lamas & Staut, 2005), quanto em cultivo consorciado com milho, por aumentar o aporte de resíduos na superfície do solo e proporcionar retorno econômico na sucessão subseqüente (Ceccon, 2007).

Este trabalho apresenta uma síntese dos métodos de produção de palha e grãos na safrinha em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e parte de Goiás.

Milho Safrinha com linha intercalada de B. ruziziensis

2. Avaliação em lavouras

Foram avaliadas 89 lavouras de milho safrinha, sendo 12 com braquiária em consórcio, na primeira quinzena de julho de 2007, entre os municípios de Eldorado do Sul/MS, Sinop/MT e Santa Helena de Goiás/GO, entre as coordenadas 11º50’04” e 23º45’50” Sul, e 50º34’02” e 56º05’36” Oeste. Ao mesmo tempo, em consulta aos agricultores procurou-se identificar os sistemas e épocas de implantação, as principais espécies de braquiárias e cultivares de milho, e o destino de cada espécie.

Em cada lavoura foi marcada uma linha de cinco metros de comprimento, registrando-se o número de plantas com espigas; desta linha foram coletadas cinco espigas, representativas da lavoura, trilhadas em laboratório e quantificado o rendimento de grãos. Nessa mesma amostra registrou-se o espaçamento entre linhas de milho, a população de braquiária, a cobertura de solo e, identificaram-se as principais espécies de plantas infestantes.

O rendimento de massa seca da braquiária e a quantidade de resíduos vegetais foram avaliados mediante a coleta de massa em uma amostra de 0,5 m2, sendo que uma sub-amostra foi seca em estufa a 60ºC, por 72 horas.

3. Resultados

Dentre as oitenta e nove lavouras avaliadas, seis estão localizadas em Goiás, 21 em Mato Grosso e 65 em Mato Grosso do Sul. A altitude média foi de 493 m, com média de 870 m em Goiás, e 478 m em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, sem permitir a separação quanto ao espaçamento entre linhas de milho.

A cobertura do solo por resíduos vegetais, avaliada através de notas percentuais de solo coberto, foi em média de 33%, predominantemente com resíduos de soja, milho e plantas daninhas. No entanto, nas lavouras com braquiária em consórcio a cobertura estava entre 70 e 99%.

Quanto ao espaçamento entre linhas, verificou-se que 20% das lavouras avaliadas estavam com 0,45 ou 0,50 m, e os outros 80 % estavam com espaçamento de 0,70 a 0,90 m, sendo 43 % das lavouras cultivadas em espaçamento de 0,90 m (Figura 1).

Figura 1. Porcentagem de lavouras de milho safrinha em função dos espaçamentos entre linhas, na região Centro-Oeste, 2007

O espaçamento entre linhas de milho pode determinar o tipo de consórcio que o agricultor pode utilizar. Contudo, os melhores rendimentos de grãos de milho foram observados nos espaçamentos 0,45 m, 0,70 m e 0,80 m (Figura 2). Esses maiores rendimentos nos espaçamentos menores e intermediários, podem não ser devidos ao espaçamento, mas sim aos níveis de investimento em cada lavoura, inclusive no que tange à observância da época de semeadura, e o melhor controle de insetos-pragas e plantas invasoras.

Figura 2. Percentual de lavouras de milho safrinha, por faixas de rendimento de grãos e espaçamento entre linhas, na região Centro-Oeste, 2007.

As plantas daninhas encontradas em todas as regiões foram o capim carrapicho - Cenchrus echinatus e o capim colchão - Digitaria spp., além de picão preto – Bidens pilosa L., Leiteiro – Euphorbia heterofilla L., e trapoeraba – Commelina benghalensis L. Verificaram-se ainda infestações localizadas de: Hortelã-brava – Hyptis brevipes Poit. em Sinop, Sapé – Imperata brasiliensis Trim. em Nova Mutum, Vassourinha de botão – Borreria verticilatta Meyer, em Sorriso, Assa peixe – Vernonia spp., em Alto Garças, todas em MT (Lorenzi, 1991). Em São Gabriel do Oeste/MS, a infestação por capim carrapicho é alta, uma vez que alguns agricultores utilizam-no como planta para cobertura de solo no outono-inverno.

3.1. Métodos de implantação do consórcio

Os métodos ou sistemas para implantação da braquiária podem ser divididos quanto: época de implantação (2), espaçamento entre linhas de milho (2), posição da semente no solo (3) e mecanismo de distribuição das sementes (4) (Tabela 1).

Tabela 1. Métodos de semeadura do consórcio de milho safrinha com B. ruziziensis identificados na Região Centro-Oeste, Embrapa Agropecuária Oeste, 2007, 2007.

(1) Sistema Santa Fé.

Quanto aos métodos de cultivo em consórcio, em Mato Grosso e Goiás, predomina o método com mistura da semente de braquiária ao adubo (Método 1), em espaçamento de 0,50 m, sem supressão da B. ruziziensis, que em alguns casos, após a colheita do milho, é utilizada para pastejo e posterior dessecação e semeadura da soja.

Em Mato Grosso do Sul foram identificados, basicamente, três tipos de implantação de braquiária com milho safrinha: -braquiária distribuída a lanço seguida do milho semeado em seguida em linhas de 0,45 m, 0,50 m ou 0,80 m; -braquiária semeada com semeadora de grãos pequenos (0,20 m entre linhas) e o milho semeado em seguida em linhas de 0,80 m; -braquiária implantado simultaneamente ao milho, em caixa com disco de sorgo na entrelinha do milho, com espaçamento de 0,80 ou 0,90 m.

Apenas um sistema (3) em que a braquiária é implantada na segunda operação de semeadura, em linhas espaçadas de 0,20 m entre si, é aplicado uma subdose de nicosulfuron (Sanson) com 6 g i.a. ha-1 para supressão da braquiária, que após a colheita do milho é utilizada para pastejo.

No Paraná, foram feitas algumas tentativas de consórcio na região do Arenito Caiuá, na região de Maringá, porém ainda pouco expressivo em termos de adoção pelos agricultores em escala comercial(3).

A escolha do método de semeadura do consórcio, aliado às condições climáticas, ao híbrido de milho e a espécie forrageira pode interferir na maior ou menor competição entre as espécies e produção de grãos e forragem, com ou sem manejo com herbicida. Além disso, é importante considerar a facilidade operacional, o custo de implantação, a interferência na produtividade do milho e na disponibilidade de forragem após a colheita do milho (Tabela 2).

Tabela 2. Características do consórcio entre milho safrinha e B. ruziziensis avaliados na região Centro-Oeste. Embrapa Agropecuária Oeste, 2007.

Espaçamento= distância entre as linhas do milho, PopM= população de milho, PopB= população de braquiária, RGM= rendimento de grãos de milho, MassaRuzi= produtividade de massa seca de B. ruziziensis, Resíduos Vegetais= massa seca de restos culturais na superfície do solo.

3.1.1. Principais métodos de implantação

Dentre os métodos encontrados, destacam-se os três principais: semente de braquiária misturada ao adubo, semeadura intercalar e semeadura adicional, realizada com semeadora de grãos miúdos (Figura 3). A implantação com adubo, em espaçamento 0,50 m proporcionou maior uniformidade no rendimento de milho e de B. ruziziensis entre as lavouras. Já no método com uma linha intercalar de B. ruziziensis foi possível encontrar maiores rendimentos de grãos de milho, porém quando isso acontece, o rendimento de forragem foi menor, e no método de implantação com operação adicional, com semeadora de grãos miúdos, houve menor rendimento de massa da B. ruziziensis, possivelmente pela aplicação de herbicida para supressão (Figura 3).

Figura 3. Lavouras de milho safrinha: rendimento de grãos e de massa seca de B. ruziziensis em três métodos de implantação de consórcio (2ª operação, uma linha intercalar de B. ruziziensis, e misturada ao adubo), na região Centro-Oeste, 2007.

3.2. Cultivares de milho e espécies de braquiária

Verificou-se grande variação de marcas e tipos de híbridos de milho, incluindo a utilização de ”semente crioula” até híbridos simples de alto investimento. No entanto, quanto às braquiárias, predomina o consórcio com B. ruziziensis.

A população de milho é uniforme e varia entre 48 e 50 mil plantas por hectare, independente do sistema de consórcio. No entanto, a população de braquiária varia de 63 a 312 mil plantas por hectare.

A implantação da B. ruziziensis é basicamente na mesma época de semeadura do milho, exceto em Primavera de Leste/MT e Chapadão do Sul/MS, onde houve implantação de B. ruziziensis juntamente com a adubação de cobertura, porém proporcionando baixa produção de massa.

3.3. Destino das espécies

O destino do milho independe da lavoura estar ou não em consórcio. A B. ruzizizensis normalmente é utilizada para pastejo na entressafra e para cobertura do solo, com posterior semeadura da soja. Alguns agricultores colhem a semente da B. ruziziensis para semeadura posterior ou para comércio com outros agricultores.

O consórcio de milho safrinha com uma linha intercalar de B. ruziziensis tem despertado interesse de técnicos e agricultores por ser um sistema em que na mesma operação de semeadura do milho safrinha é semeada também a B. ruziziensis, que permanece produzindo massa verde até a semeadura da soja. No entanto, faz-se necessário avaliar ajustes de manejo que permitam o máximo de produtividade das duas culturas.

4.Conclusões

O principal sistema de produção de palha e grãos na safrinha é o consórcio de milho safrinha com B. ruziziensis.

Em Mato Grosso do Sul predomina a implantação da B. ruziziensis na entre-linha do milho em espaçamento de 0,80 m entre linhas.

Em Mato Grosso e Goiás predomina a mistura da semente de B. ruziziensis ao adubo e o milho em espaçamento de 0,50 m.

Referências

CECCON, G. Milho safrinha com solo protegido e retorno econômico em Mato Grosso do Sul. Revista Plantio Direto, Passo Fundo, ano 16, n. 97, p. 17-20; jan./fev. 2007.

KICHEL, A. N.; MIRANDA, C. H. B. Uso do milheto como planta forrageira. Campo Grande, Embrapa Gado de Corte, 2000. 7p. (Embrapa Gado de Corte. Gado de Corte Divulga, 46)

KLUTHCOUSKI, J. et al. Sistema Santa Fé - Tecnologia Embrapa: integração lavoura-pecuária pelo consórcio de culturas anuais com forrageiras, em áreas de lavoura, nos sistemas plantio direto e convencional. Santo Antônio de Goiás: Embrapa Arroz e Feijão, 2000. 28 p. - (Circular Técnica / Embrapa Arroz e Feijão, 38).

LAMAS, F. M.; STAUT, L. A. Espécies vegetais para cobertura de solo no cerrado de Mato Grosso. Dourados: Embrapa Agropecuária Oeste, 2005. 6p. (Embrapa Agropecuária Oeste. Comunicado técnico, 97).

LORENZI, H. Plantas daninhas no Brasil: terrestre, aquáticas, parasitas, tóxicas e medicinais. 2. ed., Nova Odessa, SP, 1991. 440p.

MACHADO, L. A. Z.; ASSIS, P.G.G. de; PALOMBO, C. Sorgo para pastejo/corte e cobertura do solo na safrinha em Mato Grosso do Sul. Dourados, Embrapa Agropecuária Oeste, 2003. 9p. (Embrapa Agropecuária Oeste. Boletim de Pesquisa.)

Publicado: Revista Plantio Direto, edição 102, novembro/dezembro de 2007. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.