Rotação de Culturas como Estratégia para o Controle de Pragas e Doenças em Plantio Direto


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Publicado em: 01/12/2007

Rotação de culturas como estratégia para o controle de pragas e doenças em plantio direto

Atualmente o manejo de doenças tem sido um desafio para a manutenção do sistema de semeadura direta nas principais regiões produtoras do Brasil. A adoção do plantio direto resulta em um novo ambiente na superfície e sub-superfície dos solos. São mudanças de ordem biológica, estrutural e química, que influenciam diretamente sobre muitas das enfermidades que afetam as principais culturas de grãos no sistema agrícola brasileiro. O entendimento destas mudanças é fundamental para que se possa manejar de maneira sustentável as doenças que são favorecidas ou não pelo plantio direto.

Ao defender esta proposta, o pesquisador Olavo Corrêa da Silva, da Fundação ABC, diz que o manejo de doenças em plantio direto atualmente recai no desenvolvimento da supressividade do solo como uma alternativa de controle para as doenças transmitidas via solo. Essa condição, segundo ele, é algo que a assistência técnica e o produtor devem observar ao longo dos anos de estabelecimento do sistema. Quando bem estabelecido, com rotação de culturas, com algumas espécies supressivas, o plantio direto tende a um equilíbrio muito maior em relação às doenças. Quando as doenças transmitidas via solo se apresentam são de baixa intensidade, sem prejuízo à produtividade no sistema.

O conceito de supressividade, de acordo com o pesquisador, é algo novo, que a assistência técnica ao produtor deve considerar e ter o conhecimento do que esse fenômeno representa ao nível de solo. Quando não há intervalos de preparo por escarificação ou por aração, o plantio direto tende a desenvolver esse equilíbrio entre os organismos que vivem no solo. Lavouras de soja estabelecidas em plantio direto, solos que conservam a água, onde existe equilíbrio da biota, com uma absorção e tempo de drenagem adequados, são estruturas que não oferecem riscos ao surgimento de patógenos que possam reduzir ou limitar a produtividade.

Quem faz plantio direto, para que almeje produtividades maiores com equilíbrio ao longo do tempo, obtendo todo proveito do sistema, deve estar ciente desse novo capítulo, que é o desenvolvimento da qualidade de solo. Para isso é necessário estimular supressividade, através de mecanismos como a rotação de culturas, o não revolvimento do solo, o não uso de grade e escarificador, além da adoção de culturas supressivas de inverno como azevém entre outras.

Essas ações podem trazer ao longo do tempo um solo muito equilibrado no seu aspecto biológico. Isto é, as doenças não vão ser agressivas e, se expressivas, não vão limitar a produtividade.

O fenômeno da supressividade dos solos, segundo Olavo, é um processo cumulativo e lento, relacionado à continuidade e longevidade do plantio direto. É importante, portanto, que qualquer sistema de PD seja contínuo, pois intervenções de qualquer tipo de preparo podem reduzir drasticamente a quantidade e a atividade biológica deste solo. ”Qualquer profissional ou produtor que tenha a responsabilidade da condução de um sistema produtivo em PD deve evitar ao máximo qualquer tipo de intervenção de preparo de solo, garantindo assim a continuidade do processo de supressividade. Quando o produtor prepara o solo ele perde todos esses organismos que vinha desenvolvendo com o plantio direto e volta à estaca zero, correndo o risco de um desequilíbrio biológico”, reforça o pesquisador.

Rotação

A rotação de culturas, de acordo com Olavo, constitui uma das principais ferramentas no manejo de várias enfermidades do sistema produtivo, pois está diretamente relacionada à capacidade de estabelecimento que um patógeno possui em determinado solo, e o tempo de decomposição do substrato. A rotação tem como primeira função à eliminação do substrato, que irá depender das condições de temperatura e umidade para o tempo de sua decomposição. A rotação também tem ação direta sobre a atividade microbiana, dependendo das culturas ou coberturas que se alternam no sistema. O maior número de espécies utilizadas em um sistema de rotação de culturas também contribui para o desenvolvimento da supressividade dos solos, pois diferentes exudatos de raízes são fonte nutricional para uma maior amplitude de organismos. Além disso, a interrupção de um hospedeiro suscetível em uma rotação reduz as chances de sobrevivência de um patógeno em um solo com maior número de antagonistas e elevada atividade biológica.

Nos solos supressivos normalmente os patógenos não se estabelecem, ou se estabelecem e não causam dano, ou causam baixo nível de dano e declinam. Estes solos normalmente possuem uma biota com organismos antagonistas com elevada capacidade de competição. O manejo de doenças transmitidas via solo nestas condições é mais simples e normalmente a rotação de culturas tem um efeito decisivo. Por outro lado, nos solos condutivos, os patógenos se estabelecem, persistem e causam danos. Estes tipos de solos requerem um manejo mais complexo, no qual vários métodos de controle são utilizados conjuntamente para se evitar epidemias com potencial de dano. Os patógenos, como se sabe, possuem muitas formas de sobrevivência para continuar seu ciclo de parasitismo no ambiente. Estas formas de sobrevivência estão relacionadas à quantidade de inóculo primário de uma doença, e à intensidade da epidemia potencial.

Organismos supressores

É verdade que o não revolvimento do solo no sistema de plantio direto pode favorecer o desenvolvimento e a sobrevivência de algumas pragas, porém a persistência de fungos, bactérias e vírus entomógenos, controladores de pragas, é muito mais vantajosa.

É importante preservar e melhorar a qualidade do solo, propiciando a sustentabilidade do agroecossistema. Como exemplo pode-se citar algumas espécies de corós que estão associadas à presença de palha na superfície do solo. As fêmeas do coró-da-pastagem necessitam de palha para elaborar seus ninhos, onde depositam os ovos. Essa palha servirá de alimento para as larvas logo após a emergência.

Outras espécies de corós, como o coró-do-trigo, também ocorrem em áreas aradas e gradeadas, sem palha na superfície do solo. O índice de sobrevivência de corós em áreas lavradas é maior do que em áreas sob plantio direto, pela ausência de inimigos naturais em solo desnudo, demonstrando que o ambiente sob plantio direto também favorece o desenvolvimento de populações de inimigos naturais que provocam o colapso das populações de espécies praga.

Já em relação ao mofo branco, disse o pesquisador Olavo Corrêa, ao contrário do que se pensava no passado, que o plantio direto favorecia, hoje se tem certeza que, por suas ações diminui essa doença. Quem está no PD bem feito tem menos problema. Primeiro, porque a palhada em quantidade na superfície é um impedimento físico ao fungo. Segundo, porque quanto mais organismos supressores, fungos e bactérias benéficos forem desenvolvidos em plantio direto ao longo do tempo, eles atacam as estruturas de resistência e o fungo é menos viável ainda. Então, quanto mais equilibrado o solo, menos importante é essa doença que nas regiões altas tem se tornado decisiva na produtividade da soja e do feijão.

Inseticidas

Como os inimigos naturais estão na área, cabe ao agricultor preservá-los, orientou o agrônomo, e isso se consegue aplicando dois conceitos.

Primeiro, utilizando inseticidas de baixo impacto ambiental (seletivos), que não eliminem as várias espécies benéficas do PD. Com isso ganha-se um maior equilíbrio. Inseticidas como os piretróides que apresentam custo financeiro muito baixo, tem um custo biológico infinitamente maior e destrutivo ao sistema, muito parecido como uma grande queimada no ambiente. Então a decisão por um inseticida não passa somente por uma decisão econômica, de valor, mas também por um equilíbrio para que as pragas sejam menos freqüentes, reduzindo o uso de inseticidas, evitando a ressurgência pela falta de inimigos naturais.

O segundo conceito é o de que algumas pragas potenciais do plantio direto que são favorecidas pelo não revolvimento, devem ser monitoradas, como corós e grilos. A área técnica do produtor deve verificar a população destes insetos para saber se eles estão saindo do ponto de equilíbrio. Porque mesmo muitos corós que são pragas, são extremamente benéficos ao sistema por abrir canais e aumentar a drenagem dos solos. Então o conhecimento disso, aliado a práticas como a quebra de ciclo biológico de lepdópteras de lagartas que atacam o milho e trigo, são fundamentais.

A utilização de inseticidas via tratamento de sementes como alternativa eficiente no sistema de plantio direto, também foi defendida pelo pesquisador da Fundação ABC. Para ele, inseticidas seletivos agridem menos o ambiente, são menos prejudiciais aos inimigos naturais e provocam efeitos mínimos sobre o ambiente, mantendo assim o equilíbrio do sistema. O profissional também colocou-se radicalmente contra o conceito de Praga Zero, que no seu entendimento é extremamente errôneo, onde se busca evitar o crescimento de inimigos naturais e no qual se trabalha muito perto da ressurgência.

Revista Plantio Direto, edição 102, novembro/dezembro de 2007.