Importância e Manejo do Mofo Branco na Cultura da Soja


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Publicado em: 01/10/2008

Importância e manejo do mofo branco na cultura da soja

Silvânia H. FurlanEngenheira-agrônoma, Doutora, Pesquisadora Científica do Instituto Biológico, C.P. 70, CEP 13001-970, Campinas, SP, silvania@biologico.sp.gov.br

1. Introdução

Atualmente, o mofo branco causado pelo fungo Sclerotinia sclerotiorum pode ser considerada depois da ferrugem asiática, a principal doença da cultura da soja pelos prejuízos ocasionados nas últimas safras.

O fungo tem como hospedeiros mais de 300 espécies pertencentes a aproximadamente 200 gêneros botânicos; entre as mais importantes culturas estão, além da soja, o feijoeiro, o girassol, o algodoeiro, o tomateiro industrial, a batata e algumas outras hortaliças.

Os estudos sobre esta doença são reduzidos para a cultura da soja, visto que ela ganhou grande importância especialmente nas safras 2006/07 e 2007/08, sendo o patógeno (agente causal) disseminado para várias regiões e estados produtores.

A disseminação se dá principalmente pelas sementes, que podem estar infectadas com o micélio do fungo, ou por meio da contaminação, devida à presença de estruturas de sobrevivência denominadas de escleródios.

Sintomas de mofo-branco em soja e micélio de S. sclerotiorum no solo

Atualmente não é difícil o produtor de soja adquirir sementes, ou mais comumente grãos no lugar das sementes, em que os escleródios as acompanham, transportando tais estruturas a longas distâncias.

As condições de clima favoráveis para seu desenvolvimento são alta umidade e temperaturas amenas. Nesta situação uma lavoura de soja pode sofrer, em média, perdas de 30% ou mais, em períodos chuvosos e quando medidas preventivas não são tomadas.

Na ausência de hospedeiro suscetível, como as culturas citadas, o fungo pode persistir por um longo período no solo através das suas estruturas de resistência (escleródios), caracterizadas pela sua dureza e coloração escura, com forma semelhante a fezes de rato, que sobrevivem imersos no solo por um período médio de cinco anos ou mais, podendo chegar até 10 anos.

Os sintomas iniciais da doença são lesões encharcadas nas folhas ou qualquer outro tecido da parte aérea que normalmente tenham tido contato com as flores infectadas. As lesões espalham-se rapidamente para as hastes, ramos e vagens. Nos tecidos infectados aparece uma eflorescência branca que lembra algodão, constituindo os sinais característicos da doença.

Até a cultura chegar ao florescimento dificilmente a doença torna-se importante, depois deste período é disseminada rapidamente porque a flor é fonte primária de energia, servindo de alimento para o fungo iniciar novas infecções.

Quando a cultura é colhida, os escleródios formados nos tecidos vegetais, podem cair ao solo e novamente tornarem-se fonte de inóculo para a cultura subseqüente e irem assim se multiplicando sucessivamente quando houver plantas hospedeiras.

2. Manejo da doença

Não há disponibilidade de cultivares de soja resistentes geneticamente ao mofo branco, podendo sim haver diferenças de suscetibilidade entre eles. Diversidades no dossel, porte ou arquitetura de plantas podem influenciar no desenvolvimento da doença.

Em geral, as formas de prevenção do mofo branco constituem no uso de sementes sadias, racionalização do volume de água na lavoura, fuga de épocas muito favoráveis como alta umidade e temperaturas mais baixas, incremento de microrganismos antagônicos no solo como o Trichoderma, cobertura do solo com Brachiaria visando uma barreira física à germinação dos escleródios presentes no solo, rotação de cultura com gramíneas e uso de fungicidas em tratamento de sementes e parte aérea.

O uso de fungicidas em parte aérea pode ser necessário quando outras medidas não são suficientes para assegurar o controle. Ainda, podem influenciar no sucesso de controle o espaçamento de plantas, a densidade de semeadura, a arquitetura da planta, o que afetam a aeração e o sombreamento da lavoura.

Outro aspecto importante no manejo da doença, principalmente influenciando na eficácia dos fungicidas, é o potencial ou densidade de inóculo no solo, representados pelo número de escleródios por metro quadrado e pela capacidade do fungo em disseminar e atacar as plantas. Este potencial pode variar entre os isolados de cada região.

Em solos infestados, com médio ou elevado número de escleródios, são recomendadas medidas integradas de controle devido à rapidez de desenvolvimento da doença nas condições de ambientes mais favoráveis, uma vez que as medidas isoladas não têm se mostrado eficientes, como o uso exclusivo de fungicidas. Nesses casos, é recomendado o incremento dos microrganismos antagônicos no solo e também práticas culturais como a rotação de culturas, eliminação de resíduos culturais, o manejo da água de irrigação.

Se a lavoura apresentar uma palhada espessa, esta vai dificultar a formação e liberação dos apotécios e ascosporos. Sabe-se que com uma camada de palha rala não se obtém sucesso no manejo da doença. A palhada densa representa uma das principais ferramentas no controle físico por agir sobre a germinação dos escleródios e por conseguinte reduzir a formação dos apotécios (corpos de frutificação). Estes não devem ser confundidos com cogumelos, embora haja alguma semelhança entre eles.

Em feijoeiro, a resistência genética do hospedeiro está restrita a algumas cultivares de feijão branco obtidas do Canadá as quais, embora com potencial de uso nos programas de melhoramento, não apresentam possibilidades de utilização direta pelos produtores.

Apotécios de S. sclerotiorum no solo

O fungicida a ser aplicado, seja de ação de contato ou sistêmica, deve ser posicionado no alvo no momento correto e de forma adequada para se obter um controle econômico e racional da doença. As pulverizações devem ser realizadas uniformemente, com boa distribuição nos tecidos da planta e se possível, alcançando a superfície do solo, onde surgem os apotécios e desenvolvem o micélio (parte vegetativa, de coloração branca).

O mesmo é válido para a aplicação dos produtos formulados à base de Trichoderma. Neste caso é de grande importância conhecer a idoneidade do fabricante para assegurar que o mesmo tenha boa viabilidade dos isolados do fungo antagônico para que resulte em eficiência de controle.

O controle químico e biológico do mofo branco requer muita atenção do produtor e sua eficiciência depende sobretudo da época e modo de aplicação. A primeira pulverização deve ser feita preventivamente, na abertura das primeiras flores – é o chamado estádio R1. Deve ser feita quando há histórico na área e as condições forem favoráveis à doença, quando normalmente podem surgir os primeiros apotécios. Além disso, a qualidade de aplicação do produto químico ou biológico é tão importante quanto a época, porque é preciso alcançar as partes inferiores da planta e a superfície do solo, além de proteger as flores para uma maior eficiência.

O período crítico da doença vai do florescimento até a formação das vagens. As flores são muito importantes em todo o ciclo. A partir do fechamento das plantas o produtor precisa redobrar os cuidados nas lavouras devido ao micro-clima formado.

Em todo o período crítico que vai do início do florescimento até formação de vagens são necessárias em média de duas aplicações dos produtos, com intervalos médios de 12 a 15 dias.

Grãos de soja com scleródios em formação

Para feijoeiro, o volume de calda necessário para a aplicação do produto é em média de 500 litros por hectare, ou mais. As aplicações podem ser feitas de forma convencional através de trator ou através do uso do pivô central, misturando-se à água de irrigação (fungigação), com lâminas variando de 5 a 10 mm. Os dois métodos são eficientes desde que a distribuição do produto seja bem uniforme.

Na cultura da soja, o volume de aplicação deve ser melhor avaliado, já que o uso das caldas nesta cultura, comparativamente ao feijoeiro, têm um volume bem reduzido. O mais importante neste caso, se utilizar volume abaixo de 250 L/ha, é realizar a aplicação com o maior rigor possível, para que se minimizem as falhas de aplicação, não se permitindo errar o alvo.

Na fungigação, os produtos com baixa solubilidade em água (hidrofóbicos) levam vantagem. Ao serem injetados na tubulação do pivô central formam uma emulsão, o que pode estar ”compensando” dentre outros fatores, o alto volume de água na aplicação, garantindo a eficiência do sistema. Outra vantagem da fungigação, específica no controle do mofo branco, refere-se ao alcance do produto na superfície do solo, atingindo diretamente o alvo (micélio, escleródios ou apotécios), sejam os químicos ou biológicos, ou no caso dos fungicidas sistêmicos pela possibilidade de reabsorção do produto pelas raízes.

Entre os fungicidas mais indicados e eficientes para o controle do mofo branco estão o procimidone e o fluazinam. Também os benzimidazóis como tiofanato metílico e carbendazim podem apresentar boa eficiência, porém em situações de menor pressão de inóculo, potanto se faz necessário o emprego das diversas medidas de controle, incluindo os produtos biológicos e as técnicas culturais já comentadas.

Além dos fungicidas mencionados, certos herbicidas também podem exercer efeito contra S. sclerotiorum. Em feijoeiro, foi verificada a inibição in vitro do crescimento micelial do fungo com o uso de metribuzin e diuron. Quando aplicados no solo, os dois herbicidas reduziram a produção de estipes, estruturas estas que ”sustentam” os apotécios. Atrazina e simazina não afetaram as estipes, mas os apotécios não se desenvolveram ou não produziram ascosporos na presença deles.

Ainda em áreas produtoras de feijão, foi verificado que o herbicida EPTC inibiu a germinação de escleródios e a produção de apotécios quando os escleródios foram imersos em suspensão do produto por 30 segundos.

Os herbicidas trifluralina, fomesafen, sethoxydim e imazaquin foram avalidos quanto à inibição da germinação carpogênica de cinco isolados de S. sclerotiorum de feijoeiro, cujos escleródios foram incubados em caixas de gerbox contendo areia, onde os produtos foram aspergidos em diferentes doses. Aos 45 dias após a incubação, fomesafen e imazaquin reduziram a germinação dos escleródios e número de estipes de todos os isolados. Aos 55 dias da incubação, trifluralina e imazaquin reduziram o número de estipes e apenas trifluralina reduziu o número de apotécios.

No Instituto Biológico, foi avaliada a seletividade in vitro de alguns herbicidas e fungicidas frente a duas formulações do produto contendo o antagônico Trichoderma viride, utilizando diferentes concentrações dos químicos: os herbicidas trifluralina e metolachlor, até 100 ppm do ingrediente ativo, não reduziram significativamente a esporulação do fungo, bem como os fungicidas azoxystrobin e procimidone. Os dados do trabalho são interessantes para o manejo da cultura, visto que o produto biológico pode ser utilizado no período de pré-plantio, visando a colonização dos escleródios presentes no solo, ou poderá estar associado aos fungicidas para o manejo do mofo branco ou de outras doenças da parte aérea na cultura da soja. Portanto, a aplicação destes herbicidas de pré-emergência ou dos fungicidas não inviabilizariam o uso do antagônico.

Trabalhos desta natureza precisam ser incrementados para uma recomendação correta de medidas que visam o manejo do mofo branco.

3. Custo do manejo

O custo do manejo da doença deve ser calculado de acordo com o preço de cada produto (químico ou biológico), sua dose de registro e número de aplicações necessárias, seja uma ou duas, dependendo da necessidade, a qual é determinada principalmente pela pressão de inóculo (escleródios no solo) e ocorrência de chuvas.

Hoje, os produtos mais específicos (fluazinam e procimidone) apresentam um custo considerado relativamente elevado para o sojicultor, porque devido ao seu modo de ação não atuam eficientemente sobre as outras doenças da soja como a ferrugem asiática, septoriose, antracnose, mancha-alvo, etc.

Além disso, estes produtos não têm registro para a cultura da soja, o que impede a sua recomendação. O Ministério da Agricultura (MAPA) e as empresas de defensivos vêm se mobilizando neste sentido visando agilizar o registro dos produtos sabidamente eficientes para o controle do mofo branco em feijoeiro, através da obtenção de extensão de uso, em caráter emergencial, dada a importância que a doença vem apresentando frente aos elevados prejuízos que foram ocasionados sobretudo na última safra de soja (2007/08).

Os fungicidas eficazes para o controle do mofo branco não pertencem ao grupo dos triazóis e estrobilurinas, comumente empregados para o controle da ferrugem asiática, do oídio e das doenças de final de ciclo. Portanto, representam um custo adicional dentro do manejo do complexo de doenças da soja.

Tais produtos registrados para o controle do mofo branco em feijoeiro por ter um custo comparativamente mais elevado para o produtor de soja, podem muitas vezes levar ao uso de doses reduzidas para compensar o alto custo. No entanto, isso implica na perda de eficiência e no controle insatisfatório da doença. Assim, a redução de doses não deve ser realizada e também o risco de resistência do fungo a estes fungicidas pode ser potencializado, principalmente quanto ao uso dos sistêmicos.

Os benzimidazóis, embora menos eficientes a Sclerotinia sclerotiorum, podem apresentar um menor custo em relação a procimidone e fluazinam, com outra vantagem adicional por apresentar eficiência no manejo de outras doenças, especialmente a antracnose e a mancha-alvo.

O custo de uma ou duas aplicações específicas para o mofo branco, dentro do manejo das doenças, pode ser inviável ao produtor de soja, dependendo do ano agrícola. Enfatiza-se que a redução de doses dos produtos deve ser evitada, não sendo esta uma solução ao problema. Na cultura do feijão e algodão as aplicações para o mofo branco têm sido realizadas com retorno positivo aos produtores e com eficiência satisfatória, desde que iniciadas na época da pré-florada ou início da florada, e repetidas normalmente de 10 a 15 dias após a primeira. Uma diferença entre a cultura do feijão e a da soja é que o feijoeiro, embora de ciclo mais curto, normalmente tem um florescimento mais longo, podendo elevar a fase de maior suscetibilidade à doença.

Seria importante que o produtor de soja aplique todas as medidas preventivas disponíveis no controle do mofo branco, visando reduzir os custos e obter os benefícios esperados.

Até o momento acredita-se que o produtor de soja tenha um alto custo/benefício no manejo do mofo branco, principalmente porque ele não está ainda preparado para enfrentar o problema no momento correto, desconhecendo a biologia do patógeno e o manejo da doença.

4. Conclusões

O mofo branco vem comprovadamente trazendo prejuízos significativos aos sojicultores de vários estados produtores como MG, GO, SP, PR, MS e BA.

Sclerotinia sclerotiorum é um fungo transmitido pelas sementes, sendo fundamental o uso de sementes sadias. O tratamento químico ou biológico das sementes pode ser eficaz, mas é mais uma medida complementar e que precisa ser comparado em testes na cultura da soja.

Esta doença tem caráter explosivo, são milhões de ascosporos produzidos em cada apotécio, com aptidão e potencial de infecção especialmente em período chuvoso. Isto justifica a adoção de medidas preventivas e integradas de controle em épocas favoráveis à doença.

As medidas culturais discutidas aqui como o espaçamento de plantas, a rotação de culturas, o uso de sementes sadias, o manejo da água de irrigação, o uso de palhada (Brachiaria) são importantes e podem estar associadas ao uso de produtos químicos e biológicos para uma maior eficiência de manejo, devendo tais produtos ser empregados com critério e conhecimento da biologia do fungo.

O controle químico para S. sclerotiorum só é eficiente quando se tem redução do potencial de inóculo no solo obtido por outras medidas, uma vez que se é difícil alcançar o alvo com um baixo volume de aplicação normalmente utilizado na soja, agravado pelo momento de aplicação coincidente ao fechamento das ruas.

Alguns trabalhos em andamento sobre eficácia de fungicidas e produtos biológicos (Trichoderma) na cultura da soja são promissores, mostrando potencial de uso, mas que precisam ser incrementados e oficializados para uma recomendação de uso.

Revista Plantio Direto, edição 107, setembro/outubro de 2008.