Evolução Tecnológica das Semeadoras de Plantio Direto Mecanizadas no Brasil


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Publicado em: 01/10/2009

Evolução tecnológica das semeadoras de plantio direto mecanizadas no Brasil

Ruy Casão Junior, Augusto Guilherme de Araújo e Rafael Fuentes LlanilloPesquisadores do Instituto Agrônomico do Paraná, Londrina, RS - E-mails: ruycasao@iapar.br; agaraujo@iapar.br; rfuentes@iapar.br

Esta é a segunda parte do artigo elaborado com informações do relatório intitulado”Sistema Plantio Direto no Sul do Brasil: fatores que promoveram a evolução do sistema e desenvolvimento de máquinas agrícolas” (Casão Junior, Araújo e Fuentes Llanillo, 2008), cujo objetivo foi analisar o processo de evolução tecnológica do sistema plantio direto (SPD) no sul do Brasil, com ênfase no desenvolvimento do setor de máquinas agrícolas, e contribuir para a compreensão dos fatores que determinaram a consolidação desse sistema conservacionista de manejo do solo na região. O trabalho baseia-se nos depoimentos de 66 profissionais ligados à indústrias e revendas de máquinas, agricultores, instituições públicas de pesquisa e assistência técnica, cooperativas agropecuárias, entre outros, os quais foram registrados entre dezembro de 2007 e fevereiro de 2008.

Primeiros passos para consolidação das semeadoras de precisão

Do ponto o de vista de Carmen Galli, da Semeato, houve dois fatos marcantes no processo de desenvolvimento de máquinas para o SPD, quais sejam, o desenvolvimento da semeadora de fluxo contínuo TD e o da semeadora de precisão PAR, esta já no início dos anos 90. Como novidades, a PAR possuía linhas com articulação em paralelogramo (popularmente conhecidas como sistema pantográfico), melhor distribuição de sementes (Figura 8) e superava as deficiências do modelo PS que apresentava dificuldades na semeadura em solo não mobilizado e com palha.

Figura 8. Semeadora modelo PAR possuía linhas com articulação em paralelogramo para melhor distribuição de sementes.

Segundo Paulo Montagner, ex-diretor de engenharia da Semeato, a empresa comercializava, na década de 80, muitos componentes para adaptações de semeadoras para plantio direto em conseqüência da liderança e resultados satisfatórios de Franke Dijkstra e Nonô Pereira, contudo, sob condições de solo e cobertura vegetal distintas da região daqueles pioneiros, o desempenho das máquinas era deficiente. Segundo ele, o maior sofrimento foi encarar o SPD na região de Pato Branco, sudoeste do PR, onde não era possível penetrar nos solos argilosos com discos duplos desencontrados e, de modo similar, na região do vale do rio Ivaí, centro do PR. Isto ocorreu de 1990 a 1993. ”Daí começamos a entender que as máquinas americanas não iam bem aqui. Vimos então, a necessidade de elaborar projetos específicos para situações extremas do Brasil, e não adiantava simplesmente copiar as máquinas americanas. Passamos a diagnosticar as diferentes condições de solo, cobertura, clima e desenvolvemos maquinas apropriadas para diferentes condições”.

Ainda segundo Montagner, nos anos 90 surgiu na Semeato a Linha 90, que conseguiu trabalhar em solos argilosos sem embuchamento a partir da transformação de uma máquina da John Deere, a Maximerg 2, pela substituição, na linha de plantio, da disposição do sulcador, do limitador de profundidade e compactador. Aquilo foi um marco e consolidou, na época, a TD para grãos finos e a PAR, PSE e PSM para grãos graúdos. Rubens Dias de Moraes, presidente da Jumil conta que quando o SPD iniciou, a fábrica teve dificuldade de acompanhar essa expansão em função da distância em relação ao sul do Brasil e o custo da pós-venda. Quando o Paraná iniciou sua expansão, a Jumil passou a se dedicar do Paraná para o norte e ainda na década de 70, seu tio Justino aproximou-se de Bartz e Nonô iniciando estudo de semeadoras para o SPD. Relata que contaram com a colaboração da Unicamp para realizar o cálculo estrutural das semeadoras quando surgiram a Magnum 2800, 2850, 2880. Segundo ele, o maior desafio foi dominar a tecnologia de fabricação das semeadoras para o SPD, nos aspectos de resistência, peso, posição dos carrinhos, das molas, dos sulcadores, e os decorrentes do aumento da potência dos tratores, a maior profundidade de trabalho e a velocidade.

Pedro Fankhauser cita que depois da semeadora de precisão 4010 veio a 5030 (Figura 9) que já era com linhas em paralelogramo como todas da Fankhauser até hoje e em seguida a 5010 com 11 a 16 linhas. Em seu depoimento conclui que ”a semeadora de plantio direto tem que ter um peso mínimo, mas que não seja uma coisa absurda. Na época havia idéias de semear sobre terras degradadas. O produtor hoje afofa a terra para iniciar o SPD. Existiam duas correntes de agricultores: os que adequavam o terreno para iniciar o SPD e outra que queria plantar da forma mais barata possível”.

Figura 9. Semeadora de precisão 4010 da Fankhauser, que já era com linhas em paralelogramo

No início dos anos 90, cerca de 90% das máquinas eram adaptadas da PS8 da Semeato. Foram vendidos muitos kits para adaptação. Elas plantavam, mas como eram baixas e com o varão articulado até a unidade de semeadura, embuchavam com freqüência e o produtor levava dias para plantar. ”Nós construímos uma máquina alta com linhas intercaladas para fluir a palha entre elas. A 5010 já nasceu assim”.

João de Freitas da Marchesan conta que a semeadora de precisão PST lançada em 1985 para o sistema convencional, passou, na década de 90, a ser adaptada para o SPD. Em 1991 aumentaram o diâmetro dos discos duplos de 13” para 15” para evitar aderência de solo nos cubos dos eixos, comuns em terrenos argilosos, mas a máquina ainda permaneceu como convencional. Introduziram da SDA os discos duplos desencontrados e passou a ser vendida para SPD com os discos desencontrados. Lembra que o adubo continuava sendo depositado ao lado das sementes. O disco de corte introduzido somente facilitava as sementes e não o adubo.

Foi a partir de 1992 que a fabrica alinhou todos os rompedores de solo, posicionando o disco de corte na mesma linha dos discos duplos desencontrados para abertura de sulco do adubo e sementes. Nesta época havia muitas oficinas realizando adaptações nas máquinas a pedido dos produtores. O problema identificado era a falta de peso na linha. A máquina, com o depósito cheio de fertilizante semeava adequadamente, mas quando este esvaziava as sementes ficavam expostas. O chassi, por sua vez, passou a não suportar os esforços solicitantes, pois possuía uma seção transversal de 70 x 70 mm.

No início da década de 90 o SPD estava iniciando sua expansão nas regiões de solos argilosos e os fabricantes, na sua maioria, utilizavam discos duplos desencontrados desalinhados do disco de corte, para fertilizante, e alinhados com o disco de corte para sementes o que acarretava, após os primeiros anos de adoção do SPD, uma compactação superficial do solo. Isso logo fez surgir as hastes sulcadoras através da adaptação por oficinas regionais. Além disso, as semeadoras já possuíam rodas articuladas que facilitavam o trabalho em terraços e ondulações do terreno e os fabricantes tinham consciência dos problemas com embuchamento e, é claro, já havia algumas iniciativas para superar mais este desafio.

Desta forma, estavam postas as primeiras bases para que as semeadoras de precisão pudessem enfrentar os desafios da expansão do SPD principalmente em solos mais argilosos e com maior presença de palha sobre o terreno.

Superação dos problemas de compactação do solo e embuchamento

Em 1994, a Marchesan posicionou as linhas em zig-zag, pois com o aumento da quantidade de palha os problemas de embuchamento se tornaram muito freqüentes. Nesta ocasião a fabrica, que possuía 6 versões para o SPD, passou para 12 versões, ou seja, somente com discos duplos desencontrados; com disco de corte e discos duplos; disco de corte e haste sulcadora; com todos esses componentes opcionais e ainda com a possibilidade de vir com duas barras e posicionar as linhas em zig-zag. O modelo PST2 D44 era o mais completo e famoso (Figura 10).

Figura 10. Semeadora modelo PST2 D44 da Marchesan.

A partir de sugestões do produtor Maurício Sakai, as quais geraram o modelo Itapeva (ou D56), mais robusta. tomou-se a decisão, em 1998, de reforçar o chassi com barras porta-ferramentas de 100 x 100 mm de secção transversal, surgindo então a PST3. Essa mudança exigiu a troca de todas as peças fundidas de engate na máquina, e aperfeiçoamentos no sistema de controle de profundidade, regulagens, caixa de câmbio, caixas de plástico alem de máquinas com maiores dimensões. O mercado absorveu este custo pois estava pedindo essas mudanças.

A PST4, por sua vez, incorporou a necessidade do mercado de máquinas com numero ímpar de linhas visando facilitar a troca da configuração de soja, a 45 cm de espaçamento, para milho, a 90 cm.

A indústria Vence Tudo lançou em 1991 a semeadora de precisão PA para plantio direto e, em 1994, a SA múltipla (Figura 11). Até aquela época a fabrica somente produzia para os pequenos produtores. À medida que foram melhorando as máquinas foram ampliando as regiões. Até a SA o principal mercado era o sul do Brasil. A partir de 1996/97 iniciaram a fazer um importante trabalho de avaliação das máquinas com o IAPAR que resultou em ótima troca de experiência e desenvolvimento do produto na empresa. No princípio a semeadora era montada no trator, portanto tinha de ser leve e exigir baixa potência para ser tracionada. Isto era obtido com um sulcador estreito, com ângulo de ataque pequeno, um bom disco de corte e como a região é ondulada, deveria ter um bom sistema de acabamento de semeadura com aterrador eficiente. Como no Alto Jacuí (Centro Norte do RS) 70% dos solos são argilosos, a exigência era grande sobre o fabricante. Assim, uma máquina que trabalha bem nessas condições poderá enfrentar bem quase todas as regiões do país. Os discos aterradores, por exemplo, são utilizados até hoje e copiados por muitos fabricantes, pois dependendo da condição são essenciais.

Figura 11. Semeadora SA múltipla da Vence Tudo lançada em 1994.

Marcos Lauxen da Vence Tudo cita que as empresas investiram muito para obter um bom conjunto de plantio direto no início dos anos 90. Quem veio depois de 1995 já pegou o terreno pronto e foi mais fácil, pois não precisaram investir tanto no desenvolvimento. Cita que a SA 13500 em 1994 teve muito êxito por ser uma máquina múltipla e Ildemar Budke, gerente de vendas complementa que era a única máquina da categoria apropriada para a agricultura familiar, conquistando o prêmio Gerdau na Expointer. Foi um marco que projetou a máquina no país e no exterior, pelas boas características técnicas que possuía. Um grande salto de qualidade foi o desenvolvimento do sistema ”pula-pedra”, vinculando o disco de corte a haste sulcadora, para trabalhar em terrenos pedregosos. Com isso aumentou a demanda, inclusive para máquinas de maior e menor porte. Hoje a SA é fabricada de 3 a 7 linhas de soja e de 7 a 14 linhas de trigo. Depois da SA os produtores passaram a demandar máquinas de arrasto e foram desenvolvidos ainda na década de 90 os modelos SM e SMT.

Pedro Fankhauser lembra que as colhedoras não utilizavam bem os picadores de palha dificultando o serviço das semeadoras. As semeadoras tinham que cruzar terraços e, os produtores com poucas máquinas trabalhavam com o solo úmido. A Fankhauser estava atenta a isso, introduzindo componentes raspadores entre outros dispositivos, mas havia um limite de umidade que as máquinas poderiam iniciar a semeadura. Argumenta que com os trabalhos de pesquisa da Embrapa, IAPAR, Cooperativas entre outros, chegou-se a um consenso dos limites do SPD. Assim, considera que o produtor se capacitou rápido, em 10 anos aprendeu muitos fundamentos, como a hora mais adequada de iniciar a semeadura. Desta forma, as fabricas são mais consultadas por problemas técnicos e não tanto por desconhecimento do produtor.

Pedro Fankhauser conta que a semeadora de precisão 5010 deu origem a 5040 em 1995/96 já com reservatório de plástico, sistema de câmbio, disco de corte com até 20” de diâmetro e a partir de 1998 o sistema de transmissão na linha passou a ser com cardan em vez de correntes, para evitar embuchamentos em áreas com muita palha.

Denardin, da Embrapa Trigo, conta que em 1993 havia 300 mil hectares do SPD no planalto do RS com a criação do projeto METAS, chegou-se a atingir 850 mil em quatro anos. A Semeato não quis desenvolver uma máquina pequena na época, pois achavam que teriam muitos problemas. Mediante isso foi solicitado permissão para fazer adaptações nas semeadoras de precisão e foi convidado o Sr. Eliseu J. Schaedler que fabricava em sua oficina peças para plataforma de milho. Os produtores ficaram muito interessados pelas adaptações realizadas e ele vendeu 1000 kits naquele ano. O ano seguinte já fabricava kits para várias marcas. No terceiro ano surgiu a Sfil que se estabeleceu em Ibirubá (RS). Hoje esta fabrica fatura em média R$ 70 milhões por ano tendo sido adquirida pela AGCO recentemente.

Então no período de 1993 a 1998 todos os fabricantes da época já apresentavam semeadoras de precisão com os componentes alinhados na unidade de semeadura, uso opcional de discos duplo desencontrados ou hastes sulcadoras para abertura do sulco, e alguns ofereciam máquinas com chassi mais alto e componentes de ataque ao solo em zig-zag. Essas eram as principais inovações para que as semeadoras trabalhassem nas novas fronteiras de solos argilosos e com mais palha, principalmente o milho, trigo e aveia. Neste período o SPD passou de 2 milhões para 12 milhões de hectares no país.

Com o uso das hastes sulcadoras surgiu o problema da falta de potência dos tratores da época, os quais tinham em média 80 hp, fazendo com que os produtores passassem a adquirir tratores mais potentes e se preocupar em adaptar hastes mais estreitas e reduzir a exigência de potência e mobilização do solo.

Mario Morgenstern finaliza concluindo que no início dos anos 90 as semeadoras eram inadequadas para SPD em solos argilosos e as adaptações eram muito freqüentes alterando os desenhos das hastes sulcadoras quanto ao ângulo de ataque e espessura, assim como, melhorando o sistema de aterramento. Isso era feito em quase todos os modelos do mercado. As semeadoras melhoraram a partir de 1995, mas foi somente a partir de 2000 que começaram a fabricar máquinas realmente adequadas para regiões com solos argilosos.

Publicado na Revista Plantio Direto, edição 113, setembro/outubro de 2009. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.