Ferrugem Asiática da Soja


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Publicado em: 01/10/2009

Ferrugem asiática da soja: panorama e perspectivas para o manejo

Emerson Del Ponte1, Piérri Spolti2 e Cláudia Godoy31Professor Adjunto, Dr., Laboratório de Epidemiologia de Plantas, Depto de Fitossanidade, Agronomia, UFRGS, Porto Alegre, RS - E-mail: emerson.delponte@ufrgs.br2Pesquisador, MSc., Bolsista DTI3-CNPq, Lab. de Epidemiologia de Plantas, UFRGS3Pesquisadora, Dra., Embrapa Soja, Londrina, PR.

Desde a sua detecção no Brasil em 2001, a ferrugem asiática ainda figura no topo do ranking das doenças de maior importância para a cultura da soja no Brasil. A merecida posição é devida ao significativo impacto econômico gerado pela doença no agronegócio. Os números divulgados pelo Consórcio Antiferrugem (CAF) mostram que o ”custo ferrugem”, em valor acumulado desde as primeiras epidemias severas até a safra de 2008/09, já ultrapassa US$ 13 bilhões. O cálculo é uma estimativa que leva em conta, com base em relatos regionais, as perdas diretas em produção nas lavouras afetadas, as perdas em arrecadação e os custos com o tratamento para o seu controle. (Consórcio Antiferrugem, 2009).

A evolução temporal do ”custo ferrugem” foi atualizada pelo CAF considerando a safra 2008/09. Os dados mostram uma queda nas perdas em produtividade a partir da safra 2003/04. Nas safras 2007/08 e 2008/09, as perdas em produtividade devido à ferrugem representaram menos de 1% da produção nacional, sendo o custo total da ferrugem devido basicamente às aplicações de fungicidas, com significativo decréscimo na última safra comparado à safra anterior (Figura 1).

Figura 1. Custo com aplicações de fungicidas, perdas em produtividade e custo total (fungicida + perdas) decorrentes da ferrugem da soja no Brasil. Fonte: Consórcio Antiferrugem.

Na safra 2008/09 poucos foram os registros de perdas decorrentes da ocorrência da ferrugem, que foram localizados em regiões onde as condições ambientais foram extremamente favoráveis, como foi o caso do Estado da Bahia que registrou chuvas acima da média para o período. As maiores perdas de produtividade ocorreram devido a períodos de veranicos em diferentes regiões do País, o que desfavorece o progresso das epidemias. No entanto, o número médio de aplicações nessa safra atingiu o valor máximo de todas as safras monitoradas (Figura 2).

Figura 2. Evolução do número médio de aplicações com fungicidas para o controle da ferrugem da soja no Brasil a partir da safra 2005/06. Fonte: Consórcio Antiferrugem.

Desde a safra 2003/04 o custo ferrugem havia estabilizado acima de US$ 2 bilhões anuais, tendo decrescido nessa última safra, abaixo desse patamar. O que pode se perceber é que a decisão de manejo da doença, especialmente a aplicação de fungicidas, está sendo baseada em um cenário de alto risco, talvez ainda devido à memória recente das primeiras epidemias severas quando não se dispunha de ferramentas eficientes para o controle e ao potencial de dano da doença. A ocorrência generalizada de epidemias em praticamente todas as regiões produtoras de soja do Brasil na safra 2006/07 foi devido às condições ambientais mais favoráveis à doença, o que não foi verificado nas safras posteriores, exceto as perdas no Estado da Bahia na safra 2008/09 (Figura 3).

Figura 3. Caracterização do impacto da ferrugem da soja em três safras no Brasil, onde epidemia significa perdas em produtividade pela doença. Fonte: Consórcio Antiferrugem (http://www.consorcioantiferrugem.net).

Padrões das epidemias nas últimas safras

Desde a safra 2005/06, focos de ferrugem em lavouras comerciais não têm sido observados antes do mês de novembro, em contraste com os primeiros anos. A maioria das detecções tem ocorrido principalmente entre os meses de janeiro e fevereiro (90 a 120 dias após 1o de outubro), período que pode ser definido como crítico no estabelecimento e desenvolvimento das epidemias. A Figura 4 apresenta o progresso de relatos de ferrugem no Brasil onde as curvas das duas últimas safras são mais deslocadas para a direita, significando um atraso no estabelecimento da doença. Na safra que se inicia no Brasil (2009/10), dados do Consórcio Antiferrugem já mostram os primeiros relatos da ferrugem nos estados do Tocantins e Goiás ainda na primeira quinzena de setembro, em lavouras irrigadas, o que demonstra a disponibilidade de inóculo naquelas regiões e também a presença de inóculo em soja voluntária em diversas regiões, devido ao inverno chuvoso.

Figura 4. Número acumulado de focos de ferrugem asiática da soja cadastrados no site do Consórcio Antiferrugem. Safras 2005/06 - 2008/09. Fonte: Consórcio Antiferrugem.

Estratégias de manejo

Segundo o CAF, as medidas disponíveis atualmente para reduzir o risco de danos pela ferrugem envolvem: a) utilização de cultivares de ciclo precoce e semeaduras no início da época recomendada; b) a eliminação de plantas de soja voluntárias e a ausência de cultivo de soja na entressafra por meio do ”vazio sanitário”; c) o monitoramento da lavoura e a utilização de fungicidas por ocasião do aparecimento dos sintomas ou preventivamente (Tecnologias, 2008).

De todas as medidas, sem dúvida, o uso de fungicidas é a medida de maior eficiência desde que se configure uma situação de alto risco de perdas na produção. Iniciado em 2006, em três estados, o vazio sanitário correspondem um período de 60 a 90 dias com a ausência de plantas de soja na entressafra. Atualmente é regularizado em 11 estados e no Distrito Federal. A adoção do vazio sanitário se baseia no princípio da redução do inóculo da doença, uma vez que visa interromper o ciclo de vida do fungo na entressafra, que sem a ”ponte verde”, pode levar a um atraso no estabelecimento da doença na próxima safra. A partir do início da adoção do vazio sanitário tem sido verificado um atraso no estabelecimento da doença, conforme mostram os dados de monitoramento do CAF, onde o número de relatos tem diminuído proporcionalmente nos meses de dezembro e janeiro.

Manejo com fungicidas

A diminuição progressiva das perdas em produtividade pela doença é devida, além de situações de baixo risco em algumas regiões por conseqüência de estiagens, ao controle eficiente com fungicidas, cuja média no número de aplicações no país tem estabilizado ao redor de 2 aplicações (Figura 2). Os produtos que tem mostrado mais alta eficiência são as misturas de fungicidas dos grupos triazóis e estrobilurinas, que tem modo de ação diferenciado, ampliando o espectro da proteção. Um estudo recente sumarizou os ensaios de testes de eficiência conduzidos desde a safra 2003/04 até 2006/07, destacando a superioridade geral das misturas na eficiência do controle e no retorno em produtividade (Scherm et al., 2009), mas com desempenho similar ao triazol tebuconazol que, até 2007/08, era o fungicida mais utilizado devido ao grande número de marcas comerciais, a presença de genéricos no mercado aliado a alta eficiência no controle da ferrugem e o menor custo comparado com as misturas prontas. A Tabela 1 apresenta dados de eficiência média no controle da doença nos ensaios cooperativos da safra 2008/09.

Tabela 1. Agrupamento de fungicidas de acordo com a eficiência média de controle dos tratamentos nos ensaios cooperativos, realizados na safra 2008/09, para os produtos aprovados na Reunião de Pesquisa de Soja da Região Central do Brasil (RPSRCB).

Fungos menos sensíveis aos fungicidas

A partir da safra 2007/08 tem sido observada uma diminuição na eficiência de controle com os triazóis em ensaios realizados em semeaduras tardias, provavelmente devido à seleção de populações menos sensíveis do fungo a esse grupo químico. Embora as ferrugens sejam posicionadas em um grupo de baixo risco de perda de sensibilidade do patógeno aos fungicidas do grupo dos triazóis (Brent & Hollomon, 1998), fatores como a maior frequência de aplicações seqüenciais de fungicidas de um mesmo grupo, a utilização de subdoses e as aplicações curativas podem aumentar o risco de seleção de populações menos sensíveis naturalmente existentes devido à variabilidade natural.

Com isso, o CAF, a partir de 2008, passou a orientar que nas regiões produtoras nos Estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, onde o problema foi observado, que fossem utilizadas preferencialmente misturas de triazóis e estrobilurinas, como uma estratégia anti-resistência. Os ensaios cooperativos, realizados na safra 2008/09, onde foram avaliados os produtos aprovados na Reunião de Pesquisa de Soja da Região Central do Brasil (RPSRCB) e as novas formulações, também indicaram que as misturas de triazóis e estrobilurinas apresentam uma maior eficiência de controle quando comparadas somente com os triazóis (Tabela 1), sendo esse fato mais evidente nas semeaduras tardias.

Variedades resistentes

O uso de variedades resistentes é a estratégia ideal de controle devido ao valor da tecnologia já estar agregada à semente. Até a entrada da ferrugem no Brasil, quatro genes dominantes para resistência haviam sido descritos na literatura, os quais juntamente com outros genes descritos recentemente têm sido incorporados em programas de melhoramento no Brasil e nos Estados Unidos. Variedades nacionais, com genes maiores de resistência, estão sendo lançadas e têm apresentado um bom desempenho em testes de resistência a campo e deverão ser incluídas em programas de manejo da doença nos próximos anos. No entanto, a estabilidade dessa resistência com base em genes maiores é incerta devido à grande variabilidade do patógeno demonstrada no grande número de raças já descritas para esse fungo. Em vista disso, a utilização de fungicidas continuará necessária para garantir a sobrevida das variedades resistentes. A vantagem dessa nova tecnologia é a maior estabilidade de produção caso as condições climáticas não permitam a aplicação do fungicida no momento correto.

Perspectivas para a safra 2009/10

Conforme se observa nos dados do CAF, cada safra tem apresentado um padrão distinto quanto à dispersão espacial e temporal das epidemias e o seu impacto na produtividade e no manejo de risco. Não seria improvável que nessa próxima safra, ainda que difícil de se fazer uma previsão logo no seu início, os padrões da doença sejam distintos dos observados até então. Tal variabilidade decorre da variação dos padrões de precipitação nas diferentes regiões produtoras, fator chave no desenvolvimento das epidemias, associado com a disponibilidade de inóculo. Nas duas últimas safras o cenário que se apresentou foi de certa tranqüilidade em relação à ferrugem, contrastando com a safra 2006/07, aliado a uma postura de prevenção frente a uma situação de alto risco, o que não se configurou.

Para determinadas regiões, como no Sul do Brasil, os padrões de precipitação são influenciados pelas condições de temperatura da superfície do oceano pacífico na região denominada Niño 3.4. Em um estudo de modelagem de risco realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, utilizaram-se dados de precipitação de 30 anos para 24 locais na principal região produtora do estado do Rio Grande do Sul. A precipitação diária nos meses mais críticos (fevereiro e março) foi usada em um modelo de previsão da severidade máxima da doença (Santos et al., 2009). O estudo demonstrou que a probabilidade de ocorrência de epidemias severas aumenta em anos de El Niño, especialmente em função de anomalias positivas na temperatura do mar no trimestre Outubro-Novembro-Dezembro (trimestre OND). No entanto, o mesmo estudo demonstrou que há regiões que são mais afetadas que outras, mas, na média, o risco aumenta em anos de anomalias positivas da temperatura do mar naquela região, que resulta em incremento de precipitação pluvial no sul do Brasil justamente no mês de fevereiro – o período mais crítico para o estabelecimento e desenvolvimento das epidemias nessa região. Em anos de La Niña, por outro lado, o risco tende a ser um pouco menor do que em anos considerados neutros. Um evento de La Niña foi registrado no período 2007/08, justamente no ano em que não se observou epidemias severas no país (Figura 3).

Desde que a ferrugem se espalhou por todas as regiões do Brasil, o fenômeno El Niño foi observado nas safras 2002/03 e 2006/07. Para a primeira, a ferrugem estava começando a se dispersar nas regiões de soja no Brasil. No segundo evento foi o ano em que se registraram epidemias severas de maneira generalizada no país. Na ocasião o fenômeno foi considerado como um evento de fraco a moderado. As condições atuais da superfície do mar se encontram com anomalias positivas e as projeções por modelos dinâmicos e estatísticos indicam a persistência do fenômeno ao longo da safra. Para o trimestre OND, a probabilidade é de 85% para ocorrência de El Niño que até o momento está sendo estimado como moderado. Com isso, é de se esperar um mais alto risco de perdas pela ferrugem, especialmente no Sul do Brasil.

Referências Bibliográficas

BRENT, K.J; HOLLOMON, D.W. Fungicide resistance: The assessment of risk FRAC monograph, n.2, Global Crop Protection Federation. 48p. 1998.

SANTOS, T.V.; MAIA, A.N.H., MARTINS, E.J., DEL PONTE, E. M. Avaliação do risco climático e da influência de ENOS em epidemias de ferrugem asiática da soja no Rio Grande do Sul. Anais do XVI Congresso Brasileiro de Agrometeorologia, Belo Horizonte, MG. 2009.

SCHERM, H.; CHRISTIANO, R.S.C.; ESKER, P.D.; DEL PONTE, E.M.; GODOY, C.V. Quantitative review of fungicide efûcacy trials for managing soybean rust in Brazil. Crop Protection, 28:774-782. 2009.

TECNOLOGIAS DE PRODUÇÃO DE SOJA – Região Central do Brasil 2009 a 2010. Sistemas de Produção 13, Embrapa Soja: Londrina, PR. 263p. 2008.

Publicado na Revista Plantio Direto, edição 113, setembro/outubro de 2009. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.