Manejo de Brachiaria ruziziensis em consórcio com milho safrinha e rendimento de soja em sucessão
Gessi Ceccon, Luiz Alberto Staut e Carlos Hissao KuriharaPesquisadores, Embrapa Agropecuária Oeste BR 163, km 253, caixa postal 661 - CEP 79.804-970, Dourados, MS.E-mail: gessi@cpao.embrapa.br, staut@cpao.embrapa.br, kurihara@cpao.embrapa.br
Milho safrinha e B. ruziziensis em semeadura simultânea: produção de palha e grãos em plantio direto (esquerda). B. ruziziensis semeada 7 dias após a semeadura do milho safrinha: menor produção de palha da braquiária (direita).
As condições edafoclimáticas interferem diretamente e de diferentes formas sobre a produção agrícola de uma região. Os restos culturais auxiliam na manutenção da umidade e na redução da oscilação da temperatura do solo e com sua decomposição proporcionam aumento da fertilidade do solo, de forma a minimizar as adversidades do ambiente e possibilitar a elevação dos índices de produtividade das culturas.
Nas condições de clima tropical, é relativamente fácil produzir palha, tendo em vista as altas temperaturas e condições favoráveis de umidade, no entanto, também são responsáveis pela rápida decomposição, deixando o solo descoberto, conforme verificado por Bastos Filho et al. (2007).
O milho é uma das espécies que proporciona altos rendimentos de grãos e de palha, porém, apresenta baixa eficiência para cobertura do solo e supressão de plantas daninhas, diminuindo os benefícios inerentes ao sistema plantio direto. Cultivado em consórcio com braquiária o milho pode associar a quantidade de palha por ele produzida com a capacidade da forrageira em cobrir o solo.
Em cultivos na safra verão, o milho consorciado com espécies forrageiras tem sido bastante estudado, com importantes resultados para formação de pastagens, na integração com pecuária (KLUTHCOUSKI et al., 2000; BORGHI; CRUSCIOL, 2007). No entanto, em condições de safrinha, ainda há poucos estudos para esse consórcio, visando a formação de pastagem, condição esta que pode representar uma importante alternativa para o aumento do aporte de resíduos vegetais (CECCON, 2007a), sem reduzir significativamente o rendimento de grãos. No verão, a disponibilidade de água é maior, o que diminui a competição entre as duas espécies, comparativamente com a safrinha, quando a disponibilidade de água, incidência de luz e temperatura são menores. Com isso, produzir grãos e palha/pasto com menor consumo de defensivos (herbicidas para supressão da forrageira e de plantas daninhas) requer maior habilidade no manejo das duas espécies, porém atende a demanda de produzir com sustentabilidade.
Mesmo havendo interferência da forrageira sobre a produtividade do milho, ela atenua as perdas que ocorrem quando a cultura está em competição exclusiva com as plantas daninhas, garantindo a redução no banco de sementes (COBUCCI et al., 1999). Para Gimenes (2007), as plantas daninhas monocotiledôneas são mais afetadas pela presença de uma braquiária em consórcio com milho, comparativamente com as plantas daninhas as dicotiledôneas, com maior efeito sobre a Digitaria horizontalis, independente da densidade de semeadura da forrageira.
Este trabalho contém informações sobre a distribuição e população de plantas, e dessecação de B. ruziziensis, visando maximizar o rendimento de massa da forrageira e o rendimento da soja em sucessão, em plantio direto.
Métodos de distribuição da braquiária
Em diagnóstico realizado em propriedades agrícolas da região Centro-Oeste, Ceccon (2007b) identificou seis métodos de implantação do consórcio de milho safrinha com braquiária. Os métodos diferiam basicamente quanto ao espaçamento entre linhas do milho, posicionamento das sementes e mecanismo de distribuição da forrageira. Nesse levantamento, houve destaque para dois métodos de distribuição da braquiária: 1) semeadura com linha de braquiária intercalar às linhas do milho para produção de palha em plantio direto, e 2) implantação com semeadora de grãos miúdos, tendo-se como objetivo a produção de palha e a formação de pastagem. O consórcio com linha intercalar evoluiu e na safrinha 2008 foi cultivado em dez mil hectares na região Norte-noroeste do Paraná (PR..., 2008).
O maior número de linhas de braquiária nas entrelinhas do milho é uma das alternativas para aumentar o rendimento de massa da forrageira, porém causa redução no rendimento de grãos de milho (Tabela 1). Em Dourados, MS, o milho safrinha solteiro, embora com maiores valores, não diferiu estatisticamente do rendimento de grãos do milho com uma e com duas linhas intercalares de braquiária, enquanto que o rendimento total de massa (RTM) foi maior nas diferentes modalidades de consórcio. A vantagem do consórcio com uma linha intercalar consiste na facilidade de implantá-lo em condições da propriedade agrícola na sucessão soja-milho safrinha, o que requer pequenos ajustes na semeadora. Por outro lado, no consórcio com três e quatro linhas de braquiária obtém-se maior rendimento de massa da forrageira, contudo, observa-se redução mais acentuada no rendimento de grãos e de palha do milho. Portanto, este sistema é mais adequado para formação de pastagem. Assim sendo, o objetivo do agricultor (produzir palha ou pasto) pode indicar o melhor método de implantação do consórcio.
Tabela 1. Desempenho do consórcio com diferentes números de linhas da B. ruziziensis nas entrelinhas do milho, em Dourados e São Gabriel do Oeste, MS, em 2007.
População de braquiária na linha intercalar
Quando se objetiva produzir grãos e palha, uma linha intercalar da braquiária é suficiente para atender as necessidades de quantidade de palha para plantio direto, desde que seguidas às indicações técnicas dessa modalidade de consórcio (CECCON, 2009). Salienta-se ainda que, as reduções no rendimento de grãos do milho, mesmo estatisticamente não significativas, podem ser minimizadas através do ajuste na população de plantas da forrageira.
Em trabalho realizado em Dourados, MS (Figura 1), verificou-se que o aumento do número de plantas da forrageira aumentou linearmente o seu rendimento de massa seca total, quando associado ao incremento no rendimento de colmos velhos (colmos verde-escuros, crescidos sem a interferência de fatores externos, como a supressão por herbicidas). Como consequência, houve competição com as plantas de milho, de forma a se observar redução linear no rendimento de grãos com o aumento da população da forrageira na entrelinha. O incremento no rendimento de massa seca de colmos velhos observado como resposta ao número de plantas, estava associado tanto ao maior crescimento das folhas quanto à manutenção do número de colmos por planta.
Figura 1. Desempenho do consórcio em diferentes populações de plantas de B. ruziziensis na entrelinha do milho safrinha, em Dourados, MS, 2008.
Época de semeadura da braquiária
Para os cultivos no verão, uma das alternativas, de forma a permitir o controle de plantas daninhas, é a implantação defasada da forrageira em relação à semeadura do milho, principalmente em áreas com altas populações de plantas daninhas, principalmente com monocotiledôneas. Em condições de safrinha, essa modalidade pode apresentar dificuldades para implantação, tendo em vista a menor disponibilidade de chuvas e o menor crescimento da forrageira com as menores temperaturas. Em Dourados, MS verificou-se incremento no rendimento de grãos de milho quando a B. ruziziensis foi semeada 13 dias após a semeadura do milho (Figura 2). Porém esse incremento no rendimento de milho estava associado à diminuição do rendimento de massa seca da forrageira. Destaca-se, porém, que no referido experimento, efetuou-se irrigação no sulco de semeadura em todas as quatro épocas de semeadura da braquiária, para garantir a germinação das sementes e emergência das plântulas, sendo que, em condições de safrinha, essa umidade pode não estar disponível.
Figura 2. Desempenho do consórcio, em função de épocas de semeadura (dias após a semeadura do milho) de B. ruziziensis na entrelinha do milho safrinha, em Dourados, MS, 2008.
O incremento no rendimento de grãos observado com a defasagem da semeadura da forrageira, também pode estar vinculado ao risco da ocorrência de estiagem no período, que pode prejudicar o rendimento de massa seca da forrageira de forma ainda mais acentuada do que o observado. Além disso, a semeadura defasada é mais uma operação agrícola, o que implica em maior custo para o agricultor.
De modo semelhante ao observado no experimento com diferentes populações de plantas de braquiária, constatou-se estreita relação entre o rendimento de massa seca total e de colmos velhos. Porém, a defasagem entre as épocas de plantio de milho e da forrageira também induziu a diminuição do rendimento de colmos velhos, permitindo concluir que o atraso na semeadura da cultura intercalar resultou na diminuição do crescimento vegetativo das plantas. Neste sentido, a semeadura defasada não é o sistema mais indicado para implantação de consórcio no outono-inverno
Semeadura de soja em 1o de novembro de 2008, 14 dias após a dessecação da B. ruziziensis.
Soja após o consórcio: em períodos de estiagem a palha faz a diferença.
Rendimento de soja após consórcio
Por ser uma espécie perene, a braquiária continua produzindo massa após a colheita do milho safrinha, e com maior disponibilidade de chuvas e altas temperaturas em setembro/outubro, sua massa produzida nesse período pode ser maior do que a massa produzida durante o cultivo de milho safrinha. Assim, quanto mais tardia for realizada a dessecação, maior será a quantidade de palha sobre o solo, e por consequência, melhores serão as condições para cultivo da soja em sucessão.
Essas informações foram observadas no cultivo de soja após milho safrinha solteiro e após consórcio, onde, entre os dias 11 e 12 de dezembro de 2008 foram verificadas as seguintes condições no tratamento com milho solteiro versus consórcio, respectivamente: temperatura máxima 47,3 x 39,4 oC, mínima de 38,2 x 33,7 oC, umidade relativa do ar máxima 35,3 x 58,0 %, mínima 15,1 x 29,0 %, evidenciado os benefícios do consórcio em produzir palha e raízes, e mantendo a palha na superfície do solo. Assim, o rendimento de grãos da soja foi maior quando a dessecação foi feita mais próxima da semeadura (11 dias antes da semeadura). Este fato coincidiu com maior quantidade de palha deixada pela braquiária, sendo que o rendimento de massa seca da parte aérea da B. ruziziensis e de grãos de soja (Figura 3) foram ajustados pelo modelo de regressão linear.
Figura 3. Rendimento de massa seca de B. ruziziensis (RMB) e rendimento de grãos de soja (RGS) em diferentes épocas de dessecação da braquiária, em Dourados, MS, 2008.
Esses resultados proporcionam estabilidade produtiva e estão de acordo com os resultados apresentados por Nunes et al. (2009), avaliando soja após B. decumbens, em diferentes épocas de dessecação. Para os autores, a época mais adequada para dessecação de B. decumbens com glyphosate (1,3 kg de ia. ha-1) foi entre 7 e 14 dias antes da semeadura da soja.
No presente trabalho, as dessecações foram realizadas durante o mês de outubro, em condições ideais. No entanto, nas dessecações realizadas em condições de altas temperaturas e baixa umidade relativa do ar, conforme ocorre normalmente em setembro, os benefícios do consórcio podem não ser percebidos, devido à menor produção de massa da braquiária. Além disso, existe a possibilidade de haver rebrota da forrageira, o que requer uma segunda dessecação, aumentando o custo de produção da soja.
A maior quantidade de palha da cultura anterior interfere positivamente no rendimento da cultura em sucessão, podendo ser mais do que a alelopatia que eventualmente pudesse ter influenciado no crescimento inicial da soja. A produção de palha é um caminho para a obtenção de incrementos no teor de matéria orgânica do solo, e o cultivo de espécies forrageiras perenes na safrinha, proporciona maior disponibilidade de nutrientes para soja em sucessão, principalmente no que se refere ao potássio (SALTON et al., 2008), liberado da palha próximo do florescimento da soja, e atende ao período de maior demanda da cultura por nutrientes. Os benefícios da palha sobre a cultura em sucessão são mais evidenciados em safras com adversidades climáticas, conforme verificado em 2008.
Com o retorno das chuvas a partir de setembro, a braquiária aumenta sua produção de massa verde, e com isso, a época de dessecação pode ser relacionada também com a quantidade de palha desejada e a época de semeadura da soja em sucessão, tendo em vista um intervalo de 10 a 15 dias entre a dessecação da braquiária e a semeadura da soja. A dessecação mais próxima da semeadura da soja normalmente coincide com melhores condições de ”tecnologias para aplicação de defensivos”.
Conclusões
O aumento na população de plantas de B. ruziziensis aumenta seu rendimento de massa e reduz o rendimento de grãos de milho safrinha.
A defasagem na semeadura da braquiária incrementa o rendimento de grãos de milho, porém, reduz o rendimento de massa da braquiária.
Os rendimentos de grãos de milho e de massa de B. ruziziensis podem ser maximizados com semeadura simultânea e baixa população de plantas de braquiária.
O rendimento de massa da braquiária e de grãos de soja em sucessão podem ser maximizados pela época de dessecação da forrageira.
Literatura consultada
BASTOS FILHO, G.; NAKAZONE, G.; BRUGGEMANN, G.; MELO, H. Uma avaliação do plantio direto no Brasil. Revista Plantio Direto, n.101, p.14-17, set./out. 2007.
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Artigo publicado na Revista Plantio Direto, edição 113, setembro/outubro de 2009. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.