O Benefício do Consórcio Capim x Culturas na Produção de Grãos


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Publicado em: 01/10/2009

O benefício do consórcio capim x culturas na produção de grãos

Waldo A. R. Lara CabezasEng.-Agr., Dr., APTA - Polo Regional Noroeste Paulista – Votuporanga - SP - E-mail:waldolar@terra.com.br

A experimentação agronômica de campo às vezes nos oferece va-liosa informação, mesmo de forma acidental e não formalizada num protocolo experimental. Cabe ao pesquisador avaliar a importância desse fato para sua divulgação. Acreditamos que este seja o caso, na medida em que a visualização de fatos não quantificados atende ao diálogo da natureza com o pesquisador. Ainda sem muita divulgação, a modalidade de manejo Santa Fé em sistema de plantio direto para a produção de grãos na região Noroeste Paulista do Estado de São Paulo mostra sua vantagem. A experiência relatada a seguir pode ser muito útil na adoção da produção de grãos (milho, soja, sorgo, milheto, etc.) sempre em consórcio com capim, sendo válido tanto para a época de safra como safrinha. Rumando para um sistema de maior diversificação na produção agropecuária e diminuindo os riscos do monocultivo, o capim instalado a baixo custo na entrelinha da cultura principal tem todo sentido para complementar receita via pastejo animal e proteção de solo com cobertura viva numa época propícia para a disseminação de plantas daninhas (outono-inverno).

Em área experimental do Pólo Regional Noroeste Paulista, Votuporanga (SP), a instalação de experimentos com determinados requisitos permite a observação de fatos interessantes, fora de planejamento experimental, que assinalam o caminho a ser trilhado. Nas figuras 1 e 2 mostra-se a área que foi ocupada por um experimento de milho na safra 2007/2008 com cultivo exclusivo e de forma adjacente, na mesma gleba, área de cultivo de milho consorciada com Brachiaria ruziziensis (área não experimental), a poucos metros de distância. As imagens captadas em 03/10/2008 mostram a ocupação principalmente de buva (Conyza bonariensis), quando o solo ficou em pousio, e ausência de plantas daninhas na área ocupada pelo capim na entressafra.

Figura 1. Área experimental adjacente a área comercial mostrando o efeito do manejo em consórcio e exclusivo de milho após a colheita da safra 2007/2008.

Figura 2. Áreas adjacentes de milho colhido em sistema de manejo exclusivo e consorciado.

Etapa de pré-semeadura (safra 2008/2009)

No final de outubro de 2008 foi efetuado a dessecação da área com glifosate para preparo da área destinada à soja na safra 2008/2009. A Figura 3 mostra o contraste entre a área de cultivo exclusivo e consorciado. O glifosatenão afetou a buva, que continuou em pé após a dessecação. O restante da área, com o capim dessecado, encontrou-se isenta de plantas daninhas. Dessa forma, o controle seletivo da buva representa um custo adicional na pré-semeadura da cultura.

Figura 3. Dificuldade na dessecação da área infestada com buva e ausência de plantas daninhas na área adjacente de capim proveniente do consórcio milho - Brachiaria ruziziensis na safra 2007/2008. Imagem captada em 06/11/2008.

A dessecação da resteva de milho em área de cultivo exclusivo contribui à decomposição acelerada da palha de cobertura deixando aparecer o solo sem a proteção proporcionada pelo capim para a próxima cultura (Figura 4). Por sua vez a área protegida pelo capim dessecado, contribui para maior retenção de umidade de solo, ausência de invasoras e a correspondente liberação de nutrientes reciclados pelo capim.

Figura 4. Cobertura total com palha em área de capim dessecado e solo nu em área sem capim.

Safra 2008/2009

Posteriormente, os efeitos de um e outro manejo se refletiram na emergência da soja semeada na safra 2008/2009. Houve um atraso nas chuvas nesta época o que acentuou o efeito negativo da condição de solo com menor cobertura de palha, favorecendo a perda de água por evaporação em relação à área que esteve protegida pela palha de capim dessecado. Como resultado, observa-se na figura 5 captada em 19/02/2009,pouco mais de dois meses após a semeadura, a presença de carrapicho (Cenchrus echinatus L.) na área que não foi cultivada com milho exclusivo. O restante da área não apresentou a concorrência com essa invasora.

Figura 5. Plantas menores em tamanho e com presença de invasoras (setor sem presença de capim).

O plantio de capim intercalado na cultura principal não concorre com o adubo aplicado na cobertura nitrogenada devido ao estiolamento que este sofre sob o sombreamento dessa cultura. Para a Região Noroeste Paulista é recomendável fazer as semeaduras simultaneamente, permitindo o crescimento inicial do capim, necessário para sua reativação após o termino do ciclo da cultura principal. No caso específico do sorgo, é conveniente adiar a semeadura do capim para a fase da cobertura nitrogenada, em vista de seu menor crescimento inicial, podendo facilitar a eventual concorrência com o capim. A opção do cultivo consorciado é valida para qualquer escala de produção, com o benefício de manter plantas vivas no local de produção continuamente.

Estando atentos ao comportamento da natureza poderemos assimilar seus sábios conselhos, gerando renda e cuidando do nosso principal patrimônio e de onde vem toda a produção agropecuária – o solo.

Publicado na Revista Plantio Direto, edição 113, setembro/outubro de 2009. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.