Soja na Metade Sul do Rio Grande do Sul


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Publicado em: 01/10/2009

Soja na Metade Sul do Rio Grande do Sul: cuidados em tempos de El-niño

Giovani Theisen, Francisco Vernetti Jr. e Júlio J. Centeno da SilvaPesquisadores da Embrapa Clima Temperado Pelotas/RS - giovani@cpact.embrapa.br

Na última década, a área cultivada com soja na metade Sul do RS aumentou mais de 10% ao ano, e a cultura vem sendo inserida tanto em áreas altas quanto nas terras baixas da região. Diversos levantamentos apontam que a metade sul do RS é, praticamente, a única região com área disponível para expansão desta cultura no Estado. Nas terras baixas, a incorporação da soja no sistema de produção de arroz pode melhorar a fertilidade do solo, reduzir plantas daninhas e trazer, onde antes amplas áreas permaneciam em pousio, a possibilidade de uso agrícola e obtenção de recursos financeiros ao produtor. Dentre os componentes de um cenário favorável ao cultivo de soja pode-se citar, ainda, a crescente demanda mundial por alimentos e por energia; a vantagem logística de boa parte da Metade Sul do RS quanto à distância ao porto de Rio Grande, condição que diminui gastos com transporte de fertilizantes e da produção, e a redução do custo de diversos insumos para esta safra 2009/10 quando comparada aos custos do ano anterior.

O ano de 2009 está se caracterizando pela abundância de chuvas em praticamente todas as regiões do RS. O fenômeno El-niño mostra sua força ao trazer precipitações, vendavais e tempestades em freqüência e intensidade acima dos níveis considerados normais, o que tem causado perdas severas nos cultivos de inverno, em fruteiras e nas hortaliças, além de atrasar os preparos e a semeadura dos cultivos de verão. Ademais, os institutos que acompanham o clima mundial indicam que o fenômeno continuará atuando, pelo menos até o final deste ano.

A cultura da soja, diferente do arroz, não tolera o encharcamento prolongado do solo, e esta característica implica na necessidade de se realizar técnicas específicas de manejo quando for cultivada em terras baixas, na rotação com o arroz irrigado. Nesta safra de El-niño, alguns aspectos tornam-se ainda mais importantes, e merecem atenção especial por parte do produtor. Destaca-se, neste sentido, a implantação de estruturas para drenagem da área, o aumento do risco de doenças na fase inicial da cultura e a maior pressão de plantas daninhas. As operações para drenagem e escoamento de água das chuvas são bem conhecidas, e envolvem o uso de valetadeiras, plainas e outras máquinas que fazem limpeza de canais e drenos externos e internos da lavoura. A orientação mais crítica para este ano, é que imediatamente após a semeadura o produtor faça os drenos e valetas internas da área, para tirar o excesso de água previsto em função do El-niño. Como o volume de chuvas estimado é alto, é prudente fazer as valetas e os drenos com planejamento para que passem com exatidão pelo centro das depressões da lavoura, além, de, preferencialmente, ter maior número e profundidade do que nos anos secos.

O excesso de água, além de diminuir a viabilidade das sementes e prejudicar plantas novas e adultas de soja, pode ocasionar o aparecimento de doenças com maior intensidade que os anos mais secos, principalmente na fase inicial da cultura. A indicação nesse sentido é que se adotem medidas preventivas para manter a população da soja, como a utilização de sementes tratadas com fungicidas específicos para esta finalidade (existem diversas marcas comerciais), e semear, nas terras baixas, ao menos dezessete sementes por metro linear, no espaçamento de 45cm entre as linhas. A inoculação com rizobium, que deve ser adicionado às sementes após o tratamento com fungicidas, é importante, de baixo custo e necessária para se obter boa produtividade em áreas de terras baixas, principalmente quando a cultura for implantada sob plantio convencional ou cultivo mínimo. Por fim, os anos chuvosos são caracterizados pela elevada pressão de plantas daninhas, especialmente de gramíneas. O cultivo de soja RR facilita o controle destas invasoras, contudo deve-se evitar o erro freqüente de semear a soja e ver a mesma emergir junto das infestantes. As perdas associadas à competição não são percebidas visualmente, mas comprometem a lucratividade da lavoura. Orienta-se aos produtores para que a emergência da soja ocorra sem a presença de plantas daninhas na lavoura, com a dessecação logo antes ou imediatamente depois da semeadura, ou, ainda, com gradagens nos casos de plantio convencional. Esta medida facilita o controle das invasoras em pós-emergência, reduz a probabilidade de ocorrer resistência aos herbicidas e evita perdas de produção.

Diversas práticas culturais devem ser feitas com exatidão para que a soja apresente produtividade e lucratividade satisfatória quando implantadas em rotação com o arroz irrigado. Além das já citadas, a análise de solo - para adição do tipo certo de fertilizante - e a aplicação de fungicidas e inseticidas somente após a população das pragas atingir o nível de dano econômico, são importantes para que o potencial produtivo da lavoura seja alcançado e mantido até a colheita, e que não se efetuem gastos desnecessários. Nesta safra de verão 2009/2010, devido à forte influência do El-niño, cresce em importância as práticas de drenagem, de estabelecimento de população de soja em nível adequado, e o controle precoce de plantas daninhas, como mencionado. Nas terras baixas da região de Pelotas, por exemplo, as melhores produções de soja são obtidas com semeaduras entre 21 de outubro e 10 de dezembro, e existem diversas cultivares indicadas. Lembramos, contudo, que os cultivares muito precoces geralmente são os menos tolerantes ao encharcamento, e que os cultivares tardios poderão finalizar o ciclo em fins de maio ou mesmo em junho, época caracterizada pela abundância de chuvas, o que dificulta a colheita e prejudica a qualidade da produção.

Informações mais detalhadas sobre a cultura podem ser encontradas nos livros de Indicações Técnicas para o RS e SC (que na internet pode ser obtido nos endereços http://rps. iss.im/files/MioloSoja.pdf e em www. cnpso.embrapa.br) e, para o cultivo em terras baixas, na Estação Experimental Terras Baixas da Embrapa Clima Temperado (53 3275 8400).