Safra de Grãos 2009


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Publicado em: 01/06/2010

Safra de grãos 2009/10: uma breve análise

Luiz Ataides JacobsenTexto para discussão.Engenheiro agrônomo, EMATER/RS, Passo Fundo, RS

Segundo informe conjunto divulgado em junho pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) e pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), contemplando as perspectivas sobre a agricultura, está previsto um crescimento da produção de alimentos em 70% até 2050 e que este será liderado pela América Latina e Europa Oriental. É promissor ainda o prognóstico de que com o crescimento econômico nos países em vias de desenvolvimento, haja alteração na dieta, reduzindo o consumo de grãos, raízes e tubérculos, e ficando mais orientada para carnes e processados, favorecendo os produtos animais e laticínios. Com uma classe média em expansão no mundo, o consumo de alimentos deverá ficar menos sensível às alterações de preços e da própria renda, tal como acontece nos países desenvolvidos.

No segmento de commodities o relatório projeta um crescimento de 40% até 2019 para o Brasil, tomando como base o período 2007-09. Para a Rússia e Ucrânia a expectativa é aumentar 26% e 29% respectivamente. Figuram ainda a China e a Índia, entre os maiores produtores agrícolas da próxima década.

A OCDE em outro informe recente, também acredita numa transformação da estrutura econômica do mundo, prevendo que seus 31 países membros detentores de 60% do Produto Interno Bruto mundial no ano de 2000, reduzirão esta fatia para 43% em 2030, sinalizando um desenvolvimento menos concentrado.

Diante deste cenário prospectivo podemos analisar o desempenho da safra brasileira de grãos em 2009/10, especialmente no caso da soja e milho e ainda do trigo pela expressão que ocupa quando se trata de cultivo de inverno, pois esta recente colheita parece já indicar a viabilidade em atingir o crescimento esperado para a próxima década.

Soja

Tomando como referência a safra de 2000/01 verifica-se que a área colhida com soja no Brasil cresceu 67,21% até esta última de 2009/10. A produção por outro lado aumentou 78,78%, alcançando nesta última safra 68,71 milhões de toneladas, fruto dos 23,36 milhões de ha cultivados e do rendimento de 2.941 kg/ha.

Nestes 10 anos considerados a geografia da produção teve alguma alteração, pois na safra 2000/01 a região Sul participava com 42,32% da produção nacional e o Sudeste com 7,48%. Na safra 2009/10 estas duas regiões diminuíram suas participações, enquanto as demais ocuparam maior espaço, conforme pode ser verificado na Figura 1.

Figura 1. Distribuição regional da produção brasileira de soja. Safra 2009/10. Fonte: CONAB.

Na região Sul a menor participação no volume de soja produzido no país reflete o aumento da área e produção em outros estados da federação, pois esta região, no período considerado teve crescimento de 56,34% na produção e 49,07% na área cultivada. Inclusive, o Rio Grande do Sul que apresenta consideráveis oscilações no rendimento incrementou a produção em 59,37% nestes últimos dez anos e 27,03% na área cultivada com a leguminosa. Dentre os quatro estados que responderam nesta safra por 73,12% da produção nacional apenas o Rio Grande do Sul (2.490 kg/ha) apresentou rendimento inferior a três toneladas por ha. O rendimento no Paraná foi de 3.148 kg/ha, seguido pelo Mato Grosso com 3.036 kg/ha e Goiás com 3.000 kg/ha.

Se por um lado a produção da safra 2009/10 foi excelente, atingindo o maior volume ao longo da história da soja no Brasil, os preços recebidos pelos agricultores estão aquém das expectativas construídas em cima das cotações da safra antecedente. Depois dos picos de preços em 2007/2008 os fundamentos de mercado, com a safra mundial abundante, encarregaram-se de reduzir as cotações, e isso associado a valorização do Real em 33,81% ao longo de 2009 fez recuar o valor do grão no mercado interno (Figura 2).

Figura 2. Preço médio mensal da saca de soja (R$/60kg) recebido pelos agricultores no RS. Fonte: EMATER/RS.

No período de dois anos analisados, o preço de balcão da soja no Rio Grande do Sul ficou entre os extremos de R$ 49,97 em julho de 2008 e R$ 32,75 em março de 2010, o que significa um recuo de 34,46% ou R$ 17,22 por saca. Nos mesmos meses avaliados, a cotação da oleaginosa em Chicago foi de US$ 33,06/saca e US$ 20,88 respectivamente, ou seja, redução de 36,84%. Entre agosto de 2009 e janeiro de 2010 os preços no mercado interno foram parcialmente sustentados, pelos prêmios excepcionalmente elevados no porto de Paranaguá, chegando a US$ 79,92 por tonelada no mês de setembro.

Milho

A produção de milho, importante para todos estados brasileiros, envolvendo 2.030.122 estabelecimentos agropecuários (IBGE – Censo Agropecuário 2006), se dá em uma primeira safra que abrange todas as regiões do país e numa segunda safra ou ”safrinha”, concentrada na região Centro-Sul. Como elemento básico na formulação de rações, desempenha papel estratégico na produção de proteínas animais, além de apresentar a marcante característica de ter cotações, normalmente muito abaixo dos seus eventuais substitutos e complementos.

A produção nacional de milho na safra 2009/10 foi de 53,46 milhões de toneladas e que somada ao estoque inicial de 11,03 milhões de toneladas e ainda às 500 mil toneladas importadas alcança uma disponibilidade interna de 64,99 milhões de toneladas. Esta produção foi obtida com 34,05 milhões de toneladas colhidas na 1ª safra e 19,41 milhões da 2ª safra, no caso, responsável por 36,31% do volume total produzido. A produção atual da 1ª safra foi 4,97% inferior aquela de 10 anos atrás (2000/01), enquanto a segunda safra teve incremento de 200,59%. Quanto a área plantada, na 1ª safra houve decréscimo de 25,56% e crescimento de 109,78% na 2ª safra.

Graças a 2ª safra de milho, o Brasil conseguiu aumentar em 26,41% a produção do cereal no período de 10 anos, sem ter tido a necessidade de incorporar nenhum hectare de campo ou mata nativa. Alongou o perfil da oferta ao longo do ano, contribuindo para a menor dispersão dos preços e custos menores no carregamento dos estoques. O expressivo incremento da segunda safra brasileira pode, pelo menos em parte, ser creditada às mudanças no ambiente institucional, com a abertura comercial brasileira, o Mercosul e a desregulamentação da cadeia do trigo, promovendo acentuada redução na área de cultivo desse cereal, abrindo espaço para o milho. Além disso, também as mudanças no ambiente técnico, com a rápida difusão do plantio direto, reduzindo substancialmente o espaço temporal entre a operação de colheita da cultura antecessora e o plantio do milho, parece se constituir em fator impulsor da expansão da safrinha.

Mesmo sendo o maior volume de produção de milho da 2ª safra no Centro-Oeste (61,21%), a participação do estado do Paraná (29,82%) fez com que a geografia da produção total não sofresse tanta alteração, mantendo a região Sul como a principal produtora (Figura 3).

Figura 3. Distribuição da produção brasileira de milho (1ª e 2ª safra). Safra 2009/10. Fonte: CONAB

Observando-se a evolução das regiões geográficas do país no abastecimento interno, nota-se a região Sul com linha de tendência constante, enquanto há clara inclinação da região Centro-Oeste substituir a produção do Sudeste que já representou 26,37% no quinquênio 1990/95.

O preço mínimo do milho nas distintas regiões do país é de R$ 17,46/60kg (Sul, Sudeste, GO, MS, DF), R$ 13,98 (MT e RO) e R$ 20,10 para o Norte (exceto RO) e Nordeste. Mas como o comportamento do preço do milho no mercado interno tem acompanhado as tendências das demais commodities agrícolas, não tem mantido um patamar superior ao preço mínimo estabelecido para o grão, forçando a intervenção do governo via mecanismos de apoio à comercialização.

O elevado estoque de passagem existente e por conseqüência uma disponibilidade interna do grão, recorde em termos de volume, superior em 40,18% ao consumo de 46,36 milhões de toneladas projetado para 2009/10 significa total segurança quanto ao abastecimento e deprime as cotações, como pode ser visualizado na Figura 4. A exportação de 8,5 milhões de toneladas previstas talvez não se confirme, pois nos primeiros cinco meses de 2010 somaram apenas 2,06 milhões, ao preço médio FOB de US$ 10,81/60kg.

Figura 4. Preço médio mensal do milho (R$/60kg) recebido pelos agricultores do RS. Fonte: EMATER/RS.

De abril de 2008 até o mesmo mês em 2010 o preço do milho no Rio Grande do Sul diminuiu 36,26%. No Golfo do México em igual período a cotação do grão recuou 36,59%, estando cotado em US$ 154,23/t na semana de 14 a 18 de junho, equivalente a US$ 9,25 por saca de 60 kg.

Mesmo que sejam confirmadas as exportações, ainda haverá no Brasil um estoque de passagem da ordem de 10 milhões de toneladas, volume suficiente para sustentar as cotações atuais por algum tempo, conforme os fundamentos de mercado.

Trigo

A produção nacional de trigo foi de 5,03 milhões de toneladas na safra 2009/10, situando-se 14,58% aquém da colheita anterior. Concentrada na Região Sul (92,10%) onde geograficamente e temporalmente há excedente de produção em relação ao consumo, depende do acesso aos grandes mercados consumidores do Sudeste e Nordeste, enfrentando dificuldades na logística e na concorrência com o produto importado, sobretudo do Mercosul. A Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (OCEPAR) estima que 3,5 milhões de toneladas seriam suficientes para abastecer o mercado sulino. Além da produção superar o consumo regional, os três estados importaram 1,24 milhões de toneladas em 2009 e 629.379 toneladas nos primeiros cinco meses de 2010 ao custo médio de US$ 225,00/t FOB.

Com o preço mínimo estabelecido em R$ 441,00/t para o Tipo 1 - Classe Brando e R$ 530,00 para o Tipo 1 - Classe Pão e a valorização da moeda nacional ao longo de 2009, estes preços acabaram bem acima daqueles praticados no mercado internacional. Assim, com a cotação média do dólar em maio de 2010 (R$ 1,8132), o trigo brando valia o equivalente a US$ 243,22/t e o tipo pão US$ 292,30/t. Neste mesmo mês a cotação do trigo FOB portos argentinos era de US$ 227,00/t e o trigo hard americano era negociado a US$ 190,03/t FOB no Golfo do México.

Por conta do clima adverso a qualidade do trigo colhido na Região Sul ficou aquém do esperado e já alcançada em anos anteriores, comprometendo ainda mais a liquidez do produto, restando a interferência dos instrumentos de apoio à comercialização por parte do governo federal. Somente no RS, através do Prêmio de Escoamento de Produto (PEP) foram negociadas 1,5 milhões de toneladas de trigo gaúcho referente à colheita de 1,8 milhões em 2009. Este instrumento de apoio à comercialização praticamente foi responsável pela comercialização de 67% da safra nacional e contribuiu para a exportação de 1,14 milhões de toneladas de janeiro a maio de 2010, cuja cotação média é de US$ 155,25/t.

O valor recebido pela saca de trigo que no RS chegou a R$ 33,09 na média do mês de abril de 2008 iniciou logo a seguir um persistente decréscimo, chegando em R$ 21,60 um ano depois.

Para atender o consumo nacional de trigo estimado em 10,21 milhões de toneladas foram importadas 5,43 milhões de toneladas do grão em 2009 e 637.537 toneladas de farinha, totalizando US$ 1,40 bilhões com aquisições externas. Das importações do cereal 90,01% delas tiveram como origem o Mercosul (Figura 5).

Figura 5. Origem do trigo importado pelo Brasil em 2009. Fonte: MDIC

Em 2009 a área cultivada com trigo foi 65,38% superior aquela de dez anos passados, mas qualquer tentativa de comparar o rendimento entre dois anos pode é provável algum equívoco, pois no caso desta cultura pode haver grande variação de um ano para outro devido ao clima, seja na quantidade ou qualidade. Entretanto pode-se inferir que a partir da safra 2002 o rendimento da cultura se posiciona em patamar bastante superior aos anos precedentes.

Revista Plantio Direto, edição 117, maio/junho de 2010. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.