Proteção integrada do trigo
Lucas Navarini e Vanderlei Doneda TononPesquisadores da FUNDACEP/CCGL TEC, Cruz Alta, RS - E-mail: navarini@fundacep.com.br
As doenças que ocorrem no trigo provocam redução na produtividade desde o início do estabelecimento da cultura. Para evitar esses prejuízos e garantir o potencial produtivo recomenda-se que a proteção das plantas seja programada e realizada através do manejo integrado. Para isso, considera-se como básico para o efetivo manejo das doenças, o conhecimento quanto à reação às doenças de cada cultivar, a escolha correta dos fungicidas, o estágio adequado da cultura para a aplicação dos fungicidas e a implantação de um sistema de rotação de culturas. Práticas de manejo cultural da lavoura que visam à diminuição do inóculo são imprescindíveis para o controle da maioria das doenças, apresentando influência decisiva sobre a sua incidência e a severidade. Contudo, a predisposição climática pode alterar a predominância epidêmica das doenças incidentes, proporcionando diferenças significativas entre as regiões de cultivo.
Doenças
O clima, fator preponderante no aparecimento e evolução das doenças na cultura do trigo, propiciou que no inverno passado houvesse alterações no quadro dos problemas fitossanitários encontrados nas lavouras do Rio Grande do Sul. Considerando que os invernos da região sul do Brasil são predominantemente chuvosos e geralmente com temperaturas amenas, a ocorrência de ferrugem da folha do trigo (Puccinia triticina) é bastante comum. PICININI, (1995) quantificou reduções de até 80% na produtividade de grãos, enquanto que REIS et al., (2000) verificaram um dano de 10,5 a 18,7 kg ha-1 para cada 1 % de incidência foliar da ferrugem.
O inverno de 2009 caracterizou-se pelo maior número de dias chuvosos e nebulosos, com temperaturas menores que o normal. Por exemplo, em Cruz Alta, situada na região central do Estado do Rio Grande do Sul, observaram-se médias de temperaturas mínimas próximas a 5oC. Estes fatores atrasaram o início da epidemia de ferrugem, favorecendo a predominância de doenças como a mancha amarela (Drechslera tritici repentis), o desenvolvimento de bacterioses como a estria bacteriana (Xanthomonas campestris pv. undulosa) e o branqueamento da folha (Pseudomonas syringae pv. syringae), além de viroses como o vírus do mosaico comum. Manchas foliares é a denominação genérica atribuída para quatro diferentes doenças fúngicas: mancha marrom (Bipolaris sorokiniana), mancha amarela (Drechslera tritici-repentis), mancha da gluma (Stagonospora nodorum) e mancha salpicada (Septoria tritici). Este conjunto de doenças é considerado o complexo mais danoso para a cultura do trigo (MEHTA, et. al., 1992), chegando a acarretar perdas de até 80% na produtividade (BARROS, 1985; HETZLER, et. al., 1991; MEHTA, 1993).
Portanto, o ano com clima atípico como foi o de 2009, possibilitou o aparecimento de doenças que em outros anos não se constituíram em problemas de ordem técnica e econômica para a cultura. Estas diferenças e as constatações realizadas pelo setor de fitopatologia da CCGL TEC - FUNDACEP permitiram caracterizar algumas enfermidades normalmente não ocorrentes, mas que no inverno de 2009, no entanto, prejudicaram a produção gaúcha de trigo em algumas regiões. O prognóstico para o presente inverno é de que será semelhante ao de 2009, ou seja, frio e chuvoso, pelo menos em seus meses iniciais, gerando a expectativa de um cenário de doenças similar ao da safra passada.
Em áreas sem rotação de culturas, ou seja, de trigo sobre trigo, observou-se, além da predominância de manchas foliares frente às ferrugens, uma maior ocorrência de mal-do-pé (Gaeumannomyces graminis) e vírus do mosaico comum. Estas doenças são favorecidas pelo encharcamento originado pela campactação dos solos e aumentadas pelas baixas temperaturas e longos períodos de nebulosidade, condições ocorrentes no inverno passado. Em lavouras da região mais quente do Estado do Rio Grande do Sul, por exemplo, nos municípios de Santa Rosa e São Luis Gonzaga, foram encontradas áreas com quase 20% de incidência destas doenças, comprometendo de forma significativa o potencial produtivo de algumas lavouras.
Rotação de Culturas
O principal componente de rendimento que determina o potencial produtivo da cultura do trigo é o número de grãos por metro quadrado, que é conseqüência do número de espigas, que por sua vez é constituído pelas plantas aptas por metro quadrado. As doenças que acometem o trigo em seu estabelecimento comprometem a produtividade pela diminuição do número de grãos, enquanto que as doenças foliares comprometem a produtividade através da qualidade, prejudicando o enchimento de grãos.
Portanto, a sanidade radicular da lavoura é de fundamental importância para se almejar o número de grãos por metro quadrado que a cultivar é capaz de proporcionar, garantindo a máxima produtividade. Para alcançar este objetivo, entre outras medidas, o produtor deve implantar um sistema de rotação de culturas. Esta prática constitui-se num poderoso aliado para diminuir a pressão do inóculo na fase inicial do trigo e retardar a progressão das doenças ao longo do ciclo da cultura.
Por outro lado, manutenção da área foliar verde durante a maturação é fundamental para garantir a qualidade e conseqüentemente também a produtividade (REYNOLDS et al., 2000; RICHARDS, 2000). Este fato torna a senescência foliar precoce (proporcionada pelas doenças) um fator que afeta seriamente o potencial fotossintético durante o enchimento de grãos (ZHANG et al., 2006). Por isso, o atraso da senescência foliar vem a ser uma característica agronômica desejável (QUIRINO et al., 2000; SUBHAN E MURTHY, 2001). A manutenção da folha bandeira verde é particularmente importante porque é a última folha que senesce, intercepta mais luz do que as folhas mais baixas (GOODING et al., 2000), e contribui com cerca de 30 a 50% dos fotoassimilados para o enchimento de grãos (SYLVESTER - BRADLEY et al., 1990). É por estes motivos que as estratégias para proteger a folha bandeira e atrasar o processo de senescência são de fundamental importância para garantir maior produtividade com qualidade.
A proteção integrada do trigo busca, através de práticas de manejo da lavoura, eliminar quaisquer fontes de patógenos, bem como proteger as folhas do trigo de sua infecção. Para isso, a rotação de culturas é imprescindível para diminuir o problema com doenças como o mal-do-pé, vírus do mosaico comum e o complexo de manchas foliares. Resultados de trabalhos realizados no Rio Grande do Sul mostraram que a rotação de culturas pode diminuir significativamente a severidade final do complexo de manchas foliares, seja sob tratamento com fungicidas ou sem tratamento de fungicidas. Desta forma, torna-se muito importante a escolha das culturas que devem anteceder o trigo, projetando a diminuição do inóculo, não só de doenças como as manchas foliares, mas também de doenças da espiga.
A resteva de milho pode potencializar a incidência de giberela em trigo, uma vez que nesta resteva normalmente estão presentes algumas espécies de Fusarium spp. que encontraram no milho condições favoráveis para a sua multiplicação. Estes fungos ficam ativos na palha do milho, proporcionando altos níveis de inóculo para o trigo. Já culturas como a soja, ou até mesmo o nabo forrageiro, propiciam uma significativa diminuição de inóculo. São culturas que diminuem a multiplicação dos fungos causadores de manchas foliares e de doenças da espiga, prevenindo sua entrada precoce na lavoura de trigo.
Figura 1. Quantidade acumulada de manchas foliares expressa através da Área Abaixo da Curva de Progresso de Manchas Foliares – AACPMF - para a cultivar de trigo FUNDACEP HORIZONTE. Cruz Alta – RS/2010.
Tratamento de sementes
Aliado a rotação de culturas, o tratamento de sementes com fungicidas é imprescindível para garantir a lavoura livre de patógenos. O principal papel do tratamento de sementes de trigo com fungicidas é evitar a transmissão de doenças através das sementes com a sanitização. Atualmente, os resultados de pesquisa mostram a necessidade de se utilizar mais de um fungicida com ativos diferentes para obter uma completa sanitização das sementes. Visto que alguns fungicidas têm alta eficiência sobre alguns gêneros de fungos e deficiências de controle sobre outros. O tratamento de sementes também tem um papel importante em garantir o pleno desenvolvimento radicular e por conseqüência produzir plantas vigorosas. O ataque de fungos no início do desenvolvimento das raízes, muitas vezes imperceptível, pode proporcionar um dano significativo à produtividade da lavoura. Sem considerar que os fungos podem aumentar significativamente sua população, quando não manejados adequadamente no início do desenvolvimento do trigo através do tratamento de sementes.
Um fator importante a se considerar no tratamento de sementes de trigo é a dose de ingrediente ativo do fungicida por hectare. Esta aplicação muitas vezes é feita em base a cem quilos de sementes em vez de dose por hectare, prática que pode proporcionar sub-doses em lotes com baixo peso de mil sementes. Portanto, para se obter o resultado esperado, tanto na sanitização das sementes, quanto na proteção inicial da plântula deve-se atentar para a dose de ingrediente ativo por hectare. Experimentos realizados no inverno de 2009, na FUNDACEP, revelaram que o tratamento de sementes proporcionou ganhos significativos na produtividade de grãos de 2,55 sacos.ha-1 na média de duas cultivares em seis repetições (Figura 2) e também, na qualidade tecnológica da farinha de trigo, medida pela força de glúten (Figura 3).
Figura 2. Produtividade média de grãos (kg.ha-1) de duas cultivares em seis repetições submetidas ao tratamento de sementes (TS) com fungicidas. Cruz Alta – RS/2010.
Figura 3. Força de glúten (W) média de duas cultivares em três repetições submetidas ao tratamento de sementes (TS) com fungicidas. Cruz Alta – RS/2010.
Tratamento de parte aérea
Atualmente o uso de fungicidas de parte aérea na cultura do trigo tem três grandes objetivos: controle de ferrugem da folha, controle de manchas foliares e controle de giberela. Notadamente, existem diferenças interessantes entre o controle de ferrugem e o controle de manchas foliares. Na safra de 2009, nos estudos desenvolvidos na FUNDACEP, constatou-se que os melhores programas de controle químico com fungicidas para manchas foliares continham mais triazol. Enquanto que os programas de controle de ferrugem da folha sem fungicidas estrobilurinas não foram efetivos (Figura 4). Desta forma, ficou evidenciado que o reforço com mais uma dose de triazol, nas atuais doses recomendadas para aplicação das misturas fungicidas de estrobilurina com triazol, mostraram ganhos significativos tanto em controle das manchas (Figura 4) quanto em produtividade de grãos (Figura 5).
Figura 4. Quantidade acumulada de manchas foliares e de ferrugem da folha expressa através da Área Abaixo da Curva de Progresso de Doenças -AACPD. Média de doze cultivares em seis repetições. Cruz Alta – RS/2010.
Figura 5. Produtividade média de grãos em sacos por hectare para os tratamentos fungicidas aplicados na cultivar de trigo FUNDACEP HORIZONTE em duas regiões do Estado (quente e intermediária). Cruz Alta – RS/2010.
Experimentos realizados em três locais do estado do Rio Grande do Sul com a nova cultivar de trigo FUNDACEP HORIZONTE, resistente à ferrugem da folha e suscetível às manchas foliares, mostraram ganhos significativos de produtividade pela adição de mais triazol nas misturas de triazol com estrobilurina (Figura 5). Os dados mostraram que na região mais quente do Estado, mais propensa ao desenvolvimento das doenças, os prejuízos na produtividade de grãos foram significativamente maiores do que na região com temperatura média menor.
O estágio em que se encontra a planta no momento da aplicação é decisivo para o controle de manchas foliares. Existem estágios críticos na fenologia da planta de trigo nos quais deve ser implementado os tratamentos com fungicidas. As folhas mais importantes para o enchimento de grãos do trigo são a folha bandeira e as duas folhas localizadas logo abaixo da folha bandeira, denominadas bandeira-1 e bandeira-2. Sendo assim, deve-se proteger essas folhas a partir do momento em que elas estão expostas ao inóculo, ou seja, na fase de elongamento (bandeira-1 e bandeira-2) e na expansão da folha bandeira. Estes dois estágios têm proporcionado as melhores respostas dos fungicidas para o controle de manchas foliares. No entanto, para a ferrugem da folha e seus sucessivos ciclos de infecção, juntamente com as doenças da espiga, como a giberela, prevê-se a possibilidade de uma aplicação adicional no espigamento e/ou florescimento motivado pelo término do residual dos fungicidas ou pela maior suscetibilidade e ciclo do cultivar.
Figura 6. Fotos em detalhe das parcelas submetidas às aplicações fungicidas na cultivar de trigo FUNDACEP HORIZONTE. Cruz Alta – RS/2010.
Por fim, a proteção integrada do trigo para doenças deve considerar a reação individual de cada cultivar a elas, o que pode alterar o rumo das estratégias a serem adotadas e por conseqüência, mitigar os custos da lavoura.
Em experimentos de campo, cultivares resistentes às manchas foliares, mas altamente suscetíveis à ferrugem da folha, usualmente sofreram maiores danos quando comparadas com cultivares altamente suscetíveis às manchas foliares e resistentes à ferrugem da folha. Esta evidência demonstra que a ferrugem da folha é uma doença mais danosa para a produtividade do trigo quando comparada com as manchas. A literatura sugere que esse comportamento tem efeito sobre a concentração de nitrogênio nos grãos de trigo. Geralmente, as ferrugens comprometem mais a concentração de nitrogênio nos grãos quando comparadas ao complexo de manchas foliares (DIMMOCK e GOODING, 2002). Há relatos que os fungicidas possam otimizar o particionamento do nitrogênio para os grãos, considerando seu efeito em manter a folha verde por mais tempo. A figura 7 mostra duas barras para cada cultivar, uma representa as parcelas tratadas e outra as não tratadas com fungicida. É notável a menor porcentagem de nitrogênio na folha bandeira das parcelas tratadas. Este resultado indica que a ação do fungicida em prolongar a vida verde da folha propiciou maior mobilização de nitrogênio das folhas para os grãos. A maior diferença entre tratado e não tratado nas cultivares altamente suscetíveis à ferrugem (FUNDACEP 300, FUNDACEP 52 e FUNDACEP NOVA ERA), quando comparadas com as cultivares resistentes à ferrugem (FUNDACEP CRISTALINO, FUNDACEP RAÍZES e FUNDACEP HORIZONTE), indica a maior imobilização do nitrogênio nas folhas pela ferrugem. A estratégia de infecção biotrófica das ferrugens proporciona tais efeitos. Enquanto as manchas apenas diminuem área foliar, as ferrugens vão parasiticamente extraindo os fotoassimilados da folha para a produção de esporos. Em consequência, as proteínas e carboidratos produzidos pela folha acabam sendo drenados pelo fungo e não pelos grãos.
Figura 7. Porcentagem de nitrogênio residual na folha bandeira no estágio fenológico de grão duro em parcelas não tratadas com fungicida (testemunha) comparadas contra três tratamentos (1º nó, emborrachamento e grão aquoso). Média de seis repetições. Cruz Alta – RS/2010.
Por fim, cultivares comercialmente classificadas como trigo pão e muito suscetíveis à ferrugem da folha, necessitam de maior atenção quando comparadas com cultivares resistentes, pelo fato de necessitarem maior quantidade de N no grão para expressarem a qualidade tecnológica. Em considerando o complexo de manchas foliares, apesar de proporcionar menor comprometimento do ponto de vista da qualidade de grãos, seu manejo é essencial para auferir alta produtividade com qualidade. Portanto, prolongar a vida do dossel foliar com o auxílio dos efeitos positivos proporcionados pelos fungicidas, pode aumentar a recuperação de nitrogênio, através não só da melhoria na absorção, mas também na maior remobilização para os grãos (RUSKE et al. 2003).
Referências Bibliográficas
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Revista Plantio Direto, edição 117, maio/junho de 2010. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.