Trigo mourisco: uma planta de triplo propósito e uma opção para rotação de culturas em áreas sob plantio direto
Vilson Antonio Klein1; Luciano Leite Navarini2; Matheus Baseggio3;Tiago Madalosso3 & Leandro Oliveira da Costa3
1Professor Titular, Universidade Passo Fundo, Passo Fundo, RS - vaklein@upf.br;2Doutorando do Curso de Pós-Graduação em Agronomia UPF,3Acadêmicos de Agronomia. FAMV/UPF
Agradecimentos
Ao CNPq pela bolsa produtividade em pesquisa, a Capes pela Bolsa de Mestrado e ao CNPq, a Fapergs e a FUPF pelas bolsas de iniciação científica.
Introdução
O sistema plantio direto está alicerçado na cobertura do solo pelos resíduos culturais, protegendo a superfície do solo contra o impacto das gotas da chuva e aumentando a infiltração de água no solo (Ruedell, 1998). O uso de sistemas de rotação de culturas com elevada adição de fitomassa ao solo tem demonstrado ser uma prática eficaz na melhoria da qualidade do solo (Amado e Eltz, 2003).
Essas plantas de cobertura do solo, tanto de inverno como de verão ou de entressafra, não devem competir com as culturas produtoras de grãos, geradoras de renda econômica. Então essas plantas de cobertura devem ser semeadas após a colheita da cultura principal (Fiorin, 1999).
A rotação de culturas preconiza a alternância ordenada de diferentes culturas, num espaço de tempo, na mesma área, obedecendo finalidades definidas, sendo que uma espécie vegetal não é repetida, no mesmo lugar, com intervalo menor do que um a três anos (Derpsch, 1985)
No Rio Grande do Sul as culturas de cobertura mais utilizadas são a aveia preta e o azevém no inverno e o nabo forrageiro no outono. Outras plantas como a ervilhaca, mucunas, crotalária não têm tido grande aceitação em função do custo da semente ou mesmo por não apresentarem rusticidade suficiente para um estabelecimento e desenvolvimento rápido, além de competirem pelo mesma época do ano, com as principais culturas produtoras de grãos. Constata-se portanto uma falta de opções de família distinta da Poaceae (gramíneas) com potencial técnico e econômico para serem utilizadas.
A destacar que a planta a ser utilizada para cobertura do solo deve produzir uma boa quantidade de massa seca de qualidade, ter sistema radicular agressivo e rápido desenvolvimento inicial, além de boa sanidade e não ser hospedeira de pragas e ainda facilidade de produção de sementes de qualidade e de baixo custo.
Outra característica importante da planta de cobertura do solo é a relação C/N do material vegetal, uma vez que é essa que determina sua taxa de decomposição. Culturas como ervilhaca e nabo possuem taxa de decomposição maior do que aveia preta (Ceretta et al.(2002). O reflexo disso é o fenômeno da imobilização de N, maior em plantas com relação C/N maior.
O trigo mourisco ou trigo sarraceno (Fagopyrum esculentum Moench) é uma planta dicotiledônea pertencente à família Polygonaceae, sem nenhum parentesco com o trigo comum. O trigo mourisco é uma planta rústica, de ciclo curto, de múltiplos usos e tem sido redescoberto em vários países, devido ao seu potencial como alimento nutricêutico, dietético e medicinal. A farinha originária do trigo mourisco não possui glúten sendo recomendada para pessoas com intolerância ou alergia ao glúten. Os grãos, feno ou silagem do mourisco podem ser usados na alimentação de animais, pois alcança o mesmo valor nutritivo de gramíneas (Silva et al. 2002).
Outra utilização é como planta de cobertura (adubação verde) em função da sua grande tolerância à acidez e capacidade de utilização de sais de fósforo e potássio pouco solúveis no solo, consegue assim bom desenvolvimento em solos pobres. Pasqualetto et al. (1999) ainda destacam o eficiente controle de plantas daninhas, tanto de espécies monocotiledôneas quanto dicotiledôneas, decorrente da utilização do trigo mourisco como cultura de cobertura. Em função dos exsudatos radiculares e pelo fato de ser uma planta de família distinta de todas as cultivadas efeitos positivos sobre doenças de plantas cultivadas devem ocorrer e ser estudados.
Visando avaliar e apresentar uma alternativa de planta de cobertura do solo, com características técnicas e econômicas e que ainda pudesse trazer resultados econômicos (colheita de grãos) realizou-se este estudo.
Material e métodos
O experimento foi instalado e conduzido na área experimental da Universidade de Passo Fundo, no município de Passo Fundo – Rio Grande do Sul, com coordenadas S - 28° 12´ 36´´ e W - 52° 23´42´´ com altitude média de 700 m, clima do tipo Cfa 1 (subtropical chuvoso) segundo a classificação de Köeppen.
O solo da área experimental pertence à unidade de mapeamento Passo Fundo, classificado como Latossolo Vermelho Distrófico típico, relevo ondulado e substrato basalto.
Para a semeadura foram abertos sulcos espaçados em 45 cm com uma semeadora adubadora e incorporado 250 kg de adubo (0-20-20). A semeadura de dois cultivares, um precoce e o outro tardio, foi realizada manualmente, nos dias: 21/12/09; 04/01/10; 19/01/10 e 01/02/10.
Avaliou-se a massa verde e seca da parte aérea das plantas e a altura em duas épocas. A composição do tecido vegetal da parte aérea da primeira época 72 DAS, no Laboratório de Solos e tecido Vegetal da FAMV/UPF seguindo metodologia descrita por Tedesco et al (1995).
Avaliou-se também a qualidade forrageira da parte aérea das plantas da última época de semeadura 51 DAS. Avaliou-se a proteína Bruta; fibra em detergente neutro; fibra em detergente ácido; nutrientes digestíveis totais; energia líquida de lactação; energia líquida de mantença; energia líquida de ganho; digestibilidade da massa seca seguindo metodologia descrita por Silva e Queiroz (2004).
Resultados e discussão
Os resultados demonstraram que efetivamente o trigo mourisco é uma planta de implantação fácil e rápido desenvolvimento inicial, atingindo massa verde de até 30 Mg/ha e massa seca de até 7 Mg/ha com altura de até 1,30 m aos 72 DAS (Figura 1). Na segunda coleta de material vegetal a produção de massa seca ultrapassou 8 Mg/ha para o cultivar precoce,aos 79 DAS. Estas produções foram superiores às obtidas por Menezes e Leandro (2004), sendo que a produção de matéria seca do trigo mourisco semeado em Goiânia foi inferior a 4 Mg/ha.
Figura 1. Produção de massa seca da parte aérea de trigo mourisco coletado em duas épocas de duas variedades semeadas em quatro épocas.
Tabela 1. Resultados de análise de tecido vegetal de trigo mourisco, coletado 72 dias após a semeadura.
Na Tabela 1 está apresentada a composição química do tecido vegetal de trigo mourisco da primeira época de semeadura 72 DAS. Observa-se uma maior concentração de potássio e nitrogênio e dos micronutrientes zinco, manganês e ferro demonstrando boa capacidade de reciclar os nutrientes do solo. Resultados semelhantes foram encontrados por Menezes e Leandro (2004), que notaram maior extração de N, K e Ca e de micronutrientes pelo trigo mourisco em comparação com outras espécies vegetais de cobertura.
Na Tabela 2 observa-se a elevada capacidade da planta em reciclar nutrientes como o N e o K, chegando a 112 kg/ha de N e 214 kg/ha de K, nutrientes estes que estão mais sujeitos a perdas por lixiviação, enxurrada ou volatização.
Tabela 2. Produção de massa seca e massa de nutrientes reciclados por hectare e a relação C/N das plantas 72 DAS
A relação C/N do tecido vegetal da parte aérea do trigo mourisco foi de 21/1 o que enquadra este material como de rápida decomposição com valores semelhantes aos da ervilhaca, tremoço e ervilha forrageira e menos da metade da aveia preta, representando reflexos positivos sobre o suprimento de N para plantas não leguminosas. Isto indica que para o sistema produtivo de grãos do Sul do Brasil a utilização do trigo mourisco imediatamente após a colheita da cultura de verão, principalmente o milho, é uma excelente opção para anteceder a implantação da cultura produtora de grãos de inverno como trigo, cevada ou aveia, com significativa redução na necessidade de aplicação de N mineral via adubação.
Os resultados da análise da qualidade forrageira do trigo mourisco aos 51 DAS (tabela 3) apresentou resultados muito promissores como planta forrageira podendo ser uma opção muito interessante para alimentação animal, principalmente gado leiteiro em uma estação (outono) onde existe um sério problema de falta de forragem , denominado de vazio outonal.
Tabela 3. Resultados da análise da composição da massa seca do trigo mourisco 51 DAS.
Conclusões
O trigo mourisco é uma excelente opção como planta de cobertura do solo e recicladora de nutrientes, bem como, uma alternativa de produção de grãos e forragem.
Referências
AMADO, T.J.C.& ELTZ, F.L.F. Plantio direto na palha rumo à sustentabilidade agrícola nos trópicos. Ciência & Ambiente. UFSM. Santa Maria:27:49-66.2003
CERETTA,C.A.; BASSO, C.J., HERBES, M.G., POLETTO. N., SILVEIRA,M.J. Produção descomposição de fitomassa de plantas invernais de cobertura de solo e milho, sob diferentes manejos da adubação nitrogenada. Ci. Rural. 32, p.49-54, 2002.
DERPSCH, R. Adubação verde e rotação de culturas. In. Encontro Nacional de Plantio Direto, 3., 1985, Ponta Grossa, Anais... Castro: Fundação ABC, 1985. p.85-104.
FIORIN, J.E. a ROTAÇÃO DE CULTURAS E AS PLANTAS DE COBERTURA DE SOLO. Informativo Fundacep. Ano VI, nº02, abril/1999.8p.
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PASQUALETTO, A. ; LEANDRO, W. M. ; BATISTA, R. G. ; BERNON, N. ; SCHIRA, G. . Levantamento da flora emergente de plantas daninhas em sistemas de cobertura de solo. Pesquisa Agropecuária Tropical (UFG), Goiânia, v. 29, n. 02, p. 127-134, 1999.
RUEDELL, J.A. A soja numa agricultura sustentável. In. FUNDACEP FECOTRIGO. A soja em rotação de culturas no plantio direto. Cruz Alta, 1988.p.1-31
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TEDESCO, M. J.; GIANELLO, C.; BISSANI, C. A.; BOHEN, H.; VOLKWEISS, S. J. Análise de solo, plantas e outros minerais. Departamento de solos – Faculdade de Agronomia. UFRGS. Porto Alegre. 1995. 174 p.
Revista Plantio Direto, edição 117, maio/junho de 2010. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.