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Publicado em: 01/02/2011

Mercado: fontes de informação e análise

Luiz Ataides JacobsenEngº Agrº. Emater/RS, Passo Fundo, RS - jacobsen@emater.tche.br

A partir de 1980, intensificou-se o processo de internacionalização das economias capitalistas, convencionalmente chamado de globalização. Houve enorme integração dos mercados financeiros mundiais e um acelerado crescimento do comércio internacional, viabilizado pela queda generalizada das barreiras protecionistas, principalmente dentro dos grandes blocos econômicos.

O processo de liberalização econômica, a formação de blocos regionais como o NAFTA e o MERCOSUL, o avanço tecnológico das comunicações, a menor possibilidade de conflitos bélicos entre países economicamente desenvolvidos, têm favorecido o comércio de produtos agrícolas, colocando em xeque a geografia da produção primária.

A década de 1990 foi marcada por transformações que exigiram rápida e nem sempre fácil reestruturação na agricultura brasileira. A abertura comercial, desregulamentação, formação do Mercosul, estabilização econômica e o desmantelamento do aparato estatal de políticas públicas, associadas às mudanças nos padrões de consumo acirraram a concorrência, levando à fusões e aquisições de empresas a montante e jusante do setor agrícola. O Plano Real em 1994, que extinguiu o regime da elevada inflação e teve como âncora a agricultura, trouxe consigo algumas alterações que marcaram ainda mais significativamente essa década. Assim foi o caso da terra que deixou de ser usada como proteção antiinflacionária, ou ativo para fins de especulação. O processo inflacionário que acompanhou a agricultura brasileira por longo período, gerou uma certa ansiedade e havia o temor de não poder comprar amanhã o que era possível hoje. A mentalidade patrimonialista criada, levou a imobilização dos recursos monetários, ficando escasso o capital de giro, restando como única opção recorrer aos financiamentos. Estava se formando um ciclo de baixa renda e incapacidade de poupança. Os desafios ficaram além da capacidade de produzir, exigindo melhores técnicas de gerenciamento da atividade agrícola, independentemente do seu tamanho.

Entretanto, com o passar do tempo as discussões que giraram em torno dos problemas, chega-se ao século XXI vislumbrando-se oportunidades, tanto na demanda interna impulsionada pela melhoria e distribuição de renda, quanto no caminho das exportações agropecuárias, cujo crescimento foi de 271,19% do ano 2000 até 2010 em dólares americanos.

Este texto, sem nenhuma pretensão de esgotar o tema, mas contribuir na resposta aos novos desafios, pretende informar sobre os dados passíveis de serem ser utilizados, além daqueles relativos a oferta e demanda, transformados em informações e algumas maneiras de aproveitá-los na tomada de decisão no mercado de commodities já que neste caso se pode utilizar de apenas duas dimensões gerenciais: gestão dos custos de produção e logística, com pouca ou nenhuma comunicação entre produtor e consumidor.

População e Alimentos

Antes de buscar alguma possível mudança para alavancar a produção agropecuária é preciso, pelo menos rapidamente, avaliar aspectos demográficos mundiais. Assim, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a taxa de fecundidade (nº de filhos por mulher) foi de 4,92 entre os anos de 1950/55 e a expectativa é de que seja 2,02% em 2045/50. De 1965 até 1970 a população mundial cresceu a taxa de 2,02% ao ano e a expectativa é de que entre 2045 até 2050 esta taxa seja de 0,34%. A população mundial aumentou 87% de 1970 até 2010 (6,9 bilhões de habitantes) e a projeção daqui até 2050 é crescer 32%, atingindo 9,1 bilhões de pessoas, ressaltando que estas viverão muito mais tempo.

Os dados revelam que a população mundial crescerá menos nos próximos anos, naturalmente não de forma homogênea, pois haverá taxas menores nos países desenvolvidos e maiores em países cujo desenvolvimento ainda é incipiente, como no caso da África Subsaariana. Entretanto, mesmo com taxas menores no que respeita ao crescimento populacional, o aumento da produção terá que acontecer e deverá ser principalmente por meio do rendimento por unidade de área, já que as possibilidades de aumentar a área cultivada é limitada e nem sempre desejável quando se consideram os impactos ambientais.

Fatores sócio-econômicos e demográficos, como o custo de oportunidade do tempo da mulher, a urbanização, a renda e a composição da família exercem influência sobre o padrão de consumo alimentar familiar. Assim o aumento da renda per capita implica em substituição de cereais, raízes e tubérculos por carnes, frutas, leite e seus derivados. Aumenta também o consumo de alimentos processados. Nos países industrializados, a população gasta entre 10% e 15% da renda com alimentos, enquanto nos países em desenvolvimento esse percentual pode chegar a 50% e até 75%, de acordo com economistas.

De certa forma isto nos indica que as tendências são para maior produção de lácteos, frutas, carnes, principalmente de frango e suínos e ainda alimentos mais processados. Os prognósticos são de que a produção de carne seguirá aumentando acima do crescimento populacional.

A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO na sigla em inglês) estimam que a população mundial crescerá a taxa anual de 1,1% entre 2010 até 2019. Projetam ainda que o crescimento no consumo de trigo será de 1,2% e o de arroz 1,1% ao ano. Quanto as oleaginosas, as projeções indicam crescimento de 1,9% anualmente. Para o segmento de carnes as projeções são de 1,5% para bovinos, 1,8% para suínos e 2,4% para aves.

Como visto, os prognósticos são de que a produção de carne seguirá aumentando acima do crescimento populacional, com as carnes de aves, principalmente frangos, liderando esse crescimento no futuro, dando sequência ao que já vem acontecendo, visto que a FAO verificou que o aumento da produção de carne bovina no mundo foi de 235,4% desde o período 1948/50 até 2010, a produção de carne suína foi de 590,1% e a carne de aves atingiu o espetacular aumento de 2.051,1%.

Outro indicador que reforça a expectativa no aumento do consumo de carnes no mundo é o fato dos países desenvolvidos consumirem 80,7 kg per capita anualmente, e aqueles em desenvolvimento apenas 31,6 kg. A média mundial é de 41,9 kg per capita.

Estima-se que para produzir um kg de frango, desde a alimentação da matriz até a ave para o abate, portanto envolvendo toda a cadeia, não se tratando de conversão, é necessário 1,74 kg de milho e 0,63 kg de farelo de soja. O mesmo tratamento indica que para obter um kg de carne suína é necessário 3,35 kg de milho e 1,20 kg de farelo de soja. Mesmo que a tecnologia possa reduzir algumas gramas de milho ou de farelo de soja para obter um kg de carne destas espécies, parece inquestionável a crescente demanda por estes grãos.

Crescimento da Economia

O crescimento da economia e principalmente se for bem distribuído leva naturalmente ao aumento de consumo de alimentos nos países em desenvolvimento e implica em modificações na dieta. Neste aspecto o ano de 2009 apresentou uma retração, depois que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do mundo ter sido negativo (-0,6%) e encolhido a economia dos Estados Unidos e dos países na zona do Euro. Apesar do impacto da crise financeira mundial ter tido um reflexo bem menor do que em outras economias, o agronegócio brasileiro não passou ileso, como indica a redução de 9,82% no valor das exportações agropecuárias em 2009 quando comparadas com o ano anterior.

Para o Banco Mundial a economia está passando de uma fase de recuperação para um crescimento mais lento e no entendimento desta instituição mais sólido. Na percepção do Fundo Monetário Internacional (FMI) nas economias avançadas o crescimento segue em ritmo aquém do esperado e o desemprego ainda elevado. De outro lado, em muitos países emergentes a economia cresce de forma vigorosa, mas com pressão inflacionária. A instituição prevê para 2011 um crescimento mundial de 4,4% (Quadro 1).

Quadro 1. Resultado e perspectivas para o crescimento de economias selecionadas (var. % anual).

O FMI prevê que as economias em desenvolvimento da Ásia continuarão crescendo com muita rapidez e que também outras regiões como a África subsahariana terão mais vigor na evolução do PIB, projetado em 5,5% para 2011. Isto estaria refletindo a força da demanda interna e consequentemente a demanda mundial por matéria-prima. Também as demais economias emergentes e em desenvolvimento deverão manter crescimento vigoroso de 6,5% para 2011 e 2012. Crescimento da economia de forma mais débil ficará por conta dos países mais ricos, como aqueles da zona do euro ou o grupo dos 31 países integrantes da OCDE.

Como há uma relação cada vez maior entre o setor agrícola e o setor de energético, com crescimento mais vigoroso da economia haverá maior demanda de energia, impactando na cotação de algumas commodities agrícolas. Os preços estarão mais relacionados com o crescimento da produção de etanol a partir do milho nos Estados Unidos e biodiesel a partir de óleos vegetais na Europa. A força destes impactos depende dos produtos utilizados, mas até aqui, predominam nos EUA e UE, culturas cujo desempenho energético é extremamente baixo. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos projeta para a safra 2010/11 a utilização de 6,73 milhões de óleo de soja para combustível no mundo e 7,6 milhões de óleo de canola, além de algo próximo a 105 milhões de toneladas de milho destinadas à produção de etanol pelos americanos.

As cotações do petróleo que experimentaram uma elevação considerável em 2010 em razão da vigorosa demanda mundial, saindo de US$ 76,37/barril em janeiro para US$ 91,80 em dezembro, isto depois de chegar a estar cotado em US$ 43,24 no mês de fevereiro de 2009, dão suporte para as indicações de organismos internacionais de que a pressão de alta continuará ao longo de 2011 em resposta a oferta limitada. A cotação do barril de petróleo tipo Brent em janeiro deste ano foi de US$ 96,29, corroborando a projeção elaborada pelo FMI de que ao longo de 2011 o valor será em torno de US$ 90,00/barril.

A inflação, em muitos países puxada atualmente pelo elevado preço dos alimentos provocam impacto variável. Em muitas economias a desvalorização do dólar acaba freiando a elevação dos preços internos, ou seja, o aumento não se dá na mesma proporção das cotações internacionais das matérias-primas praticadas em dólar dos Estados Unidos. Entretanto, nos países que já carregam um pesado fardo de pobreza, o aumento dos preços dos alimentos passam a exercer forte pressão, como é o caso dos países de baixos ingressos e déficit de alimentos (PBIDA – 77 países conforme critério da FAO), dado a elevada porcentagem que a alimentação ocupa dentro das suas cestas de consumo.

O impacto da elevação dos preços dos alimentos pode ser também identificado na inflação brasileira de 5,9% em 2010, a mais elevadas desde 2005 e alertando para as possibilidade de crescer ainda mais em 2011 com o índice de 0,83% de janeiro.

O Índice de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA) tem como população objetivo as famílias com rendimentos mensais compreendidos entre um e quarenta salários mínimos, qualquer que seja a fonte. O IPCA é utilizado pelo Banco Central do Brasil para o acompanhamento dos objetivos estabelecidos nas metas de inflação e como pode ser visto no Quadro 2 a contribuição do grupo alimentação e bebidas (23,31% do orçamento das famílias) teve peso muito maior em 2010 do que no ano anterior.

Quadro 2. Variação do IPCA e variação por grupo em 2009 e 2010.

O Banco Mundial adverte que ”não se poderá excluir uma repetição das condições ocorridas em 2008 caso os preços dos alimentos continuarem aumentando”. Segundo projeções, os preços ao consumidor aumentarão 6% nas economias emergentes e em desenvolvimento e 1,5% naquelas avançadas.

Câmbio

A supremacia do dólar como reserva de valor foi selada durante a conferência de Bretton Woods (1944), que atrelou a moeda norte-americana ao ouro e redefiniu as relações monetárias entre os países. E, mesmo após o presidente Richard Nixon suspender o sistema de câmbio fixo do dólar em 1971, cancelando sua conversibilidade direta ao ouro, a moeda norte-americana tem se mostrado, até hoje, a principal referência de valor no mundo. ”O dólar serve de base para tudo e, em relação à participação no comércio internacional, ele permanece imbatível”, avalia o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro. Ele enumera o euro, a libra esterlina, o franco suíço e o iene como as outras moedas que se destacam no comércio mundial.

Mesmo tendo perdido um pouco de espaço para o euro na composição das reservas externas dos bancos centrais, o dólar ainda representa algo por volta de 70% destas reservas. Apesar do dólar se manter na posição de moeda forte do mundo, os analistas passaram a acreditar em possíveis mudanças para um futuro não muito longínquo e a razão apontada são os acordos regionais de moedas, com os bancos centrais dos países signatários dando preferência para as cestas de moedas envolvidas neste comércio regional. Cita-se como candidatas a possíveis moedas emergentes compondo essas cestas, o nosso Real, o Yuan (China) e o Bath (Tailândia).

A política cambial refere-se à determinação da taxa de câmbio e é um dos pilares da política macroeconômica, que inclui ainda a política fiscal, monetária e comercial. No Brasil é de uso exclusivo do governo federal e executada pelo Banco Central. A partir de 13/01/1999 o Brasil adota o sistema de câmbio flutuante. Neste regime, o mercado determina a taxa, e o Banco Central opera para evitar oscilações que julgar não consistentes com suas metas macroeconômicas. Neste sentido podemos interpretar que as autoridades monetárias estão buscando o aperfeiçoamento permanente do regime de câmbio flutuante e que não há metas para a taxa de câmbio, como ocorre com a inflação. O Banco Central, desde a adoção do regime flutuante atua no mercado, ora comprando, ora vendendo dólares por meio das chamadas operações compromissadas. Como é notório, ultimamente as operações são de compras, o que levou as reservas internacionais brasileiras fecharam no patamar histórico de US$ 288,57 bilhões, aumentando 20,75% em relação a 2009.

Mesmo com este esforço, teimosamente o Real continua com uma trajetória de valorização e ao longo de 2009 a moeda nacional valorizou-se 33,81%. No dia dois de janeiro com R$ 1,00 adquiría-se US$ 0,4292 enquanto em 31 de dezembro já era possível comprar US$ 0,5743. O mesmo comportamento, porém menos intenso, se manteve em 2010, com a moeda nacional acumulando valorização de 3,74%. Nos primeiros 45 dias deste ano o dólar valorizou-se 1,04% frente o Real.

Medidas como aumento do IOF de 2 para 6% foram implementadas, bem como recolhimento compulsório, visto que a posição vendida dos bancos atingiu US$ 16,8 bilhões no final de 2010 e foi o maior valor da história. Para o economista Pedro Rossi da UNICAMP a cotação da taxa de câmbio depende do fluxo cambial líquido (que é dado pela entrada e saída de divisas do país) e da vontade dos bancos em manter ou variar sua posição cambial (considerando que somente os bancos podem carregar posições cambiais à vista). Sendo assim, o economista raciocina que pode haver situações em que a entrada líquida de dólares é importante, mas o real se desvaloriza já que os bancos querem aumentar a posição comprada em dólares, ou na situação oposta a moeda nacional pode valorizar-se quando os bancos preferem se ver livre dos dólares. Isso explica que nem sempre a variação da taxa de câmbio pode ser entendida exclusivamente pelo fluxo de divisas.

O que se pode observar é que a valorização do Real frente ao dólar não é um fenômeno único, pois outras moedas estão se comportando de forma semelhante. É ilustrativo o que está acontecendo entre o Euro e o Dólar. No final de 2001 bastava US$ 0,8895 para adquirir um Euro, mas ao fim de 2010 era necessário US$ 1,3384 para comprar a mesma unidade monetária. Isto significa que o Euro neste período valorizou-se 50,47% diante da moeda americana, ou esta perdeu 33,54% do poder de compra diante da moeda européia. Neste período, a inflação americana medida pelo Índice de Preço ao Consumidor (CPI na sigla em inglês) foi de 23,75%.

É interessante observar na Figura 1, que quanto mais difícil o cenário internacional, mais o real será depreciado, e melhorando o cenário externo mais o real se valoriza. Outro exemplo foi a valorização acumulada do dólar em 9% no dia 25 de maio de 2010, quando a economia grega passava por turbulências.

Figura 1. Variação acumulada do dólar de 01/10/2009 até 31/12/2009 em %.

Os efeitos da valorização do Real já a longo tempo está sendo sentido sobre a agropecuária, visto que diminui a receita em reais obtida pelo segmento agrícola exportador e reduz o preço em reais de produtos agropecuários estrangeiros importáveis, o que força, via concorrência, a redução do preço em reais no mercado interno, fato que ficou evidente em 2009 quando o preço mínimo estabelecido para o trigo ficou sendo em dólares, muito acima daquele praticado no mercado internacional, forçando a interferência governamental que acabou negociando 72% da safra nacional e 95% da colheita gaúcha. Nem a pequena produção do estado de São Paulo, grande centro consumidor, foi capaz de avançar sem que o Estado tivesse que interferir em 73% do trigo colhido.

Os efeitos das alterações na taxa de câmbio sobre os preços dos produtos agrícolas dependem da maior ou menor inserção ou dependência, tanto do produto nacional no mercado externo quanto do produto importado no mercado doméstico. As commodities mais beneficiadas no caso de uma desvalorização cambial são aquelas com forte inserção no mercado internacional e cujos custos não estejam alicerçada em bens, serviços ou insumos com alta sensibilidade à taxa de câmbio. Os preços em reais de produtos importados como o trigo sobem, tornando-se menos competitivos em relação ao substituto nacional. Por outro lado, um produto como o feijão, voltado para o mercado interno e com volumes reduzidos transacionados no mercado internacional, arca com a elevação de custos sem obter nenhum benefício.

Cotação das commodities agropecuárias

Os preços dos produtos agropecuários estão sujeitos a grandes oscilações normalmente provocadas por choques na oferta e difíceis de serem previstas. Apresentam, entretanto alguns movimentos característicos, denominados de tendências. Essas tendências podem ser observadas quando se dispõe de séries históricas. Numa economia aberta, os preços daqueles produtos que o país transaciona no mercado internacional (tradeables), são determinados pelos seus respectivos preços externos, taxa de câmbio e tarifas. Por outro lado, os preços dos produtos domésticos (nontradeable) são influenciados pelas variáveis denominadas fundamentais como níveis de produção, consumo e estoques, além da sazonalidade.

Mesmo tendo papel destacado na produção de produtos agropecuários, o Brasil tem pequena capacidade de influenciar os preços dos produtos de exportação, quando comparado aos grandes produtores agrícolas como os Estados Unidos e a União Européia. Na maioria dos produtos agrícolas exportáveis, os preços domésticos são alterados por acontecimentos no mercado internacional e as oscilações nos preços recebidos pelos produtores estão relacionados às variações exógenas. Em síntese, o Brasil não é formador de preço, mas um país tomador de preços internacionais, especialmente no caso do milho, soja e trigo, objetos da análise deste texto.

No caso dos grãos mencionados Um dos maiores desafios do mercado é a capacidade dos agentes de se antecipar na previsão dos preços, ampliando suas chances de sucesso. A escola mais tradicional é chamada fundamentalista e objetiva analisar os fatores ligados à oferta e demanda que possam indicar para onde se movem os preços. Atualmente não é mais possível ignorar a participação dos fundos de investimento no mercado de commodities agropecuárias, visto que as oscilações (volatilidade) agora também seguem a entrada e saída desses fundos. Os fundos de investimento podem ser definidos como uma concentração de recursos financeiros captados de pessoas físicas e jurídicas, fracionadas em cotas e destinadas às aplicações financeiras, em títulos públicos e privados, nos mercados de renda fixa, renda variável e derivativos, de acordo com o regulamento e a política de investimento do fundo.

Vimos que a oferta e demanda que fazem parte dos fundamentos do mercado, o câmbio, o posicionamento dos fundos de investimento, o prêmio que se trata de ágio ou deságio incorporado ao preço do produto em função das condições do local de embarque e ainda em menor escala o frete é que vão ”construir” o preço a ser recebido pelo produtor de milho, soja e trigo no Brasil.

Pode-se exemplificar usando o caso da soja em que na média do período 2005/10 os agricultores recebem preço (de balcão no RS) que em relação a Bolsa de Chicago variaram de 85,34% no 2º trimestre até 92,2% no 4º trimestre (Figura 2)

Figura 2. Porcentual de preço recebido pelos produtores de soja, média trimestral em relação às cotações da Bolsa de Chicago (2005 – 2010).

No período analisado, envolvendo 72 meses os extremos ficaram entre 76,30% em junho de 2007 e 13,63% superior a cotação de Chicago no mês de outubro de 2009, quando os estoques americanos estavam muito baixos e o prêmio no porto de Paranaguá chegou a US$ 75,33/tonelada. Inclusive, graças aos bons prêmios, de agosto a dezembro de 2009 o preço de balcão recebido no RS foi superior às cotações médias mensais de Chicago (Figura 3).

Figura 3. Prêmio concedido a soja brasileira no porto de Paranaguá em US$/tonelada.

No mercado interno, analisando os preços recebidos pelos agricultores do Rio Grande do Sul de julho de 1994 até dezembro de 2010, portanto 198 meses com os valores sendo corrigidos pelo IGP-M, observa-se que em 64 deles o preço esteve aquém de R$ 40,00/saca e em 105 meses foi inferior a R$ 45,00. Em 78 meses o preço foi superior a R$ 47,00 e em 21 deles a partir do segundo semestre de 2002 até o final do primeiro semestre de 2004, período em que o dólar americano esteve cotado sempre acima de R$ 2,85. Acima de R$ 50,00 foram 59 meses, não esquecendo tratar-se de preços nominais corrigidos pelo IGP-M. O maior valor obtido nesta série é de R$ 77,20/saca, equivalente ao preço de balcão nominal recebido em outubro de 2002.

É ilustrativo os R$ 50,04 recebido pelos agricultores gaúchos como média do mês de abril de 2004, para demonstrar a importância do câmbio na composição do preço. Neste mês a cotação em Chicago foi de US$ 9,85/bu (US$ 21,72/saca) e o preço praticado aqui no estado representava 79,28% daquele da Bolsa, mas o dólar estava cotado em R$ 2,906.

A informação extraída dos parágrafos acima é de que preços de balcão para a soja gaúcha acima de R$ 50,00/saca são raros e indicam estabelecer uma linha de resistência, cujo rompimento evidentemente pode ocorrer, mas em função de algum evento crítico, ou seja nos possibilita informação para avaliar um pico de preço a ser aproveitado.

Para avaliar as possibilidades de preço no mercado interno (preço de balcão) é preciso ter em conta que no RGS, como foi explicado, normalmente o preço recebido eqüivale de 85% até 90% daqueles praticados no mercado internacional. Logo, é possível estimar preço para o mercado local levando em conta distintas possibilidades no mercado externo possíveis cotações do dólar no mercado interno (Quadro 3).

Quadro 3. Expectativa de preço da soja no mercado gaúcho, considerando distintas cotações na bolsa de Chicago e possibilidades para a cotação do dólar no mercado interno com a previsão de receber 85% do preço internacional.

No Quadro 3 identificamos que se recebermos o equivalente a 85% de Chicago a variação da saca de soja poderá ser de R$ 31,48 caso a cotação externa seja de US$ 10,00/bushel e o valor da moeda americana R$ 1,68. Com o mesmo câmbio pode-se receber, conforme o exemplo, até R$ 50,37 caso a cotação atinja US$ 16,00/bushel (fato raro). Usando o mesmo exemplo, mas com uma relação de 90% entre o mercado interno e externo os valores mínimos e máximos mudam para R$ 33,33 e R$ 53,33/saca. No caso desta hipótese o valor recebido poderia ser de R$ 66,67/saca, caso o dólar estivesse cotado em R$ 2,10.

Para o caso do milho e do trigo é possível usar método semelhante para identificar possibilidades de remuneração no mercado nacional, levando em conta as particularidades das Unidades da Federação e características específicas destes grãos, sem esquecer de consultar publicações importantes como o Acompanhamento da Safra Brasileira elaborado pela CONAB, o relatório também mensal World Agriculture Supply and Demand Estimates do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA na sigla em inglês) e ainda o Prospective Plantings a ser divulgado em 31 de março deste ano pelos americanos, o International Commodities Prices da FAO, dentre outras, com periodicidade semanal e diárias.

Revista Plantio Direto, edição 121, janeiro/fevereiro de 2011. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.