Condições do ar e angulação das folhas influenciam a qualidade das pulverizações na cultura da soja?
Walter Boller1; Marcelo Cigana Ferreira2 e Deise Isabel da Costa31Eng.-Agr. Dr. Prof. do Curso de Graduação em Agronomia e do Programa de Pós-Graduação em Agronomia (PPGAgro) da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo - RS - E-mail: boller@upf.br2Engenheiro Agrônomo, Mestre em Agronomia, Doutorando do PPGAgro da FAMV/UPF - E-mail: mcfci-gana@gmail.com 3Bióloga Dra. em Agronomia, egressa do PPGAgro da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo
Introdução
As pragas e as doenças que atacam as plantas cultivadas reduzem a produção e depreciam consideravelmente a qualidade dos produtos agrícolas, exigindo medidas de controle ou tratamentos fitossanitários eficazes. A aplicação de produtos químicos, também denominados defensivos agrícolas ou agrotóxicos, é uma atividade complexa e somente apresenta bons resultados quando obedece a princípios técnicos corretos.
Entende-se por tecnologia de aplicação de defensivos agrícolas, o emprego de todos os conhecimentos científicos que proporcionem uma correta colocação do produto biologicamente ativo no alvo, em quantidade necessária, de forma econômica, no momento adequado e com o mínimo de contaminação de outras áreas (MATUO, 1990).
Não raro, o insucesso de um tratamento fitossanitário está associado ao uso de tecnologia de aplicação inadequada e da não observância dos limites impostos pelas condições atmosféricas. Dentro do contexto da tecnologia de aplicação, algumas variáveis do ambiente exercem importante papel, podendo auxiliar ou dificultar a deposição dos produtos fitossanitários sobre os seus alvos e posteriormente afetar a sua absorção e translocação dentro das plantas, facilitando ou dificultando a sua chegada nos órgãos das plantas onde deverão exercer os seus efeitos. Os aspectos mais importantes do ambiente a ser considerados, em aplicações de fungicidas e de inseticidas são a temperatura e a umidade relativa do ar, a velocidade do vento, a presença de orvalho e a ocorrência de chuvas logo após as aplicações. Além destes fatores discutidos com profundidade na bibliografia da área, cabe considerar ainda, no caso de leguminosas em fase reprodutiva, que a modificação do ângulo das suas folhas ao longo do dia pode interferir dificultando ou facilitando a deposição de gotas das pulverizações no interior do dossel das plantas.
Pulverização x Aplicação
As aplicações de fungicidas e de inseticidas, para o controle de doenças e de pragas das culturas agrícolas, via-de-regra, são levadas a termo através da diluição dos produtos em água e posterior distribuição através da pulverização. A pulverização é um processo mecânico que, a partir de um volume de calda, produz determinado número de gotas com diferentes tamanhos (espectro de gotas) e permite que o produto fitossanitário seja distribuído sobre a superfície do alvo a ser tratado (CHRISTOFOLETTI, 1992). No momento em que a pulverização é realizada com o intuito de depositar um produto fitossanitário sobre um alvo específico, passa-se a considerar a operação como uma aplicação.
Desta forma, deve-se ter em conta que as máquinas aplicadoras de produtos fitossanitários por via líquida são capazes de realizar pulverizações, porém o usuário tem de tomar as medidas necessárias para que a operação resulte em uma aplicação, ou seja, que o produto fitossanitário seja depositado em quantidade adequada, no local da planta onde ele efetivamente é necessário.
A qualidade de uma pulverização está condicionada às características do alvo a ser tratado, ao modo de ação dos produtos que estão sendo aplicados e às condições de ambiente que ocorrem durante a operação no campo, além de aspectos da arquitetura foliar da cultura-alvo. Os principais aspectos de qualidade considerados em uma aplicação referem-se à densidade de gotas (número de gotas por unidade de área foliar tratada), ao espectro e à classe de tamanho das gotas, ao índice de área foliar da cultura e como conseqüência, ao volume de calda a ser distribuído em uma área de lavoura. A quantidade de gotas a ser distribuída por unidade de área foliar a ser tratada é uma variável que depende das características do produto a ser aplicado. Assim, um inseticida sistêmico pode ser aplicado com 20 a 30 gotas por cm² (OZEKI & KUNZ, 1994), ao passo que um fungicida com ação de contato ou protetor deve ser aplicado com densidade de 70 a 100 gotas por cm² (AZEVEDO, 2003). Para ajustar a densidade de gotas por unidade de área foliar a ser tratada, é necessário conhecer o índice de área foliar da cultura, no momento em que o tratamento fitossanitário será aplicado, sendo importante lembrar que esta variável não permanece constante ao longo do ciclo de uma cultura (especialmente nas culturas anuais). Muitas vezes, quando é possível antecipar uma aplicação de fungicida (aplicação preventiva), além da maior facilidade para o controle do patógeno, obtém-se uma melhor cobertura das folhas das plantas-alvo, resultando em melhor aproveitamento do potencial do fungicida para controlar as moléstias. Um exemplo típico ocorre na cultura da soja, onde as folhas do terço superior da planta exercem um importante efeito guarda-chuva sobre as folhas mais próximas do solo. Neste caso, existe um fator agravante, pois normalmente as doenças iniciam o seu desenvolvimento nas folhas mais próximas do solo e se a aplicação de fungicida for postergada, a probabilidade das folhas que mais necessitam de proteção do fungicida ser atingidas por uma pulverização torna-se muito reduzida.
As diferenças necessárias na cobertura ou densidade de gotas de uma aplicação de fungicida ou de inseticida, em virtude do estádio de desenvolvimento de uma cultura requerem alterações importantes nas máquinas aplicadoras. Normalmente, as estratégias utilizadas para o aumento da cobertura do alvo (densidade de gotas) podem ser através da redução do tamanho das gotas, mantendo-se o volume constante, ou então, mantendo-se o tamanho das gotas aumenta-se o volume de calda. Ainda, é possível adotar as duas medidas e obter o resultado desejado. Neste sentido, cabe considerar ainda, que o tamanho das gotas é de fundamental importância para o sucesso de uma pulverização, onde a redução do tamanho das gotas permite um aumento da cobertura do alvo, porém há um aumento do risco de perda das gotas por deriva e por evaporação. Por outro lado, quando há necessidade de controlar a deriva, utiliza-se gotas maiores e isso resulta em menor densidade de cobertura do alvo. Neste sentido, a influência das condições do ambiente no momento da aplicação passa a ser de fundamental importância, pois afeta diretamente o comportamento das gotas e a sua possibilidade de depositar-se sobre o alvo ou de evaporar ou ainda de ser arrastadas para fora da área alvo, por ação do vento.
Condições do ambiente no momento das aplicações
As condições da massa de ar situada entre a máquina aplicadora e o alvo da aplicação podem influenciar de forma decisiva no comportamento das gotas geradas por esta máquina e na qualidade do tratamento fitossanitário.
O vento interfere na movimentação das gotas e na sua deposição sobre o alvo da pulverização, podendo agir negativamente ou positivamente em uma aplicação. A ausência de vento pode estar associada com a ocorrência de correntes aéreas convectivas, que são capazes de transportar as gotas mais finas de uma pulverização à distâncias imprevisíveis. Ventos amenos são considerados importantes auxiliares na deposição das gotas no interior do dossel das plantas. Conforme Andef (2004), a condição mais segura para as aplicações ocorre quando a velocidade do vento se encontra na faixa de 3,2 a 6,5 km/h, o que cor-responde a uma brisa leve (perceptível pelo movimento suave das folhas). Por outro lado, vento excessivo (acima de 9,6 km/h) é considerado impróprio para a pulverização. Na impossibilidade de postergar uma aplicação, sob condições de vento excessivo, deve-se optar por gotas de tamanho maior e aumentar a taxa de aplicação, porém isso vai depender do produto a ser aplicado.
A ocorrência de precipitações pluviais logo após as aplicações pode interferir na eficácia de um tratamento fitossanitário. Há produtos que são absorvidos em menos de uma hora, ao passo que outros requerem no mínimo de até quatro a seis horas após a aplicação sem precipitações pluviais.
A temperatura e a umidade relativa do ar são fatores que determinam maiores ou menores perdas de produtos fitossanitários através da evaporação. Quanto menor o diâmetro das gotas, tanto maior a sua superfície específica de contato com o meio e, mais acentuado o risco da sua evaporação.
Para prevenir perdas de defensivos agrícolas por evaporação, devem-se evitar aplicações quando a temperatura do ar ultrapassa 30 ºC e a umidade relativa do ar se encontra abaixo de 60%. A evaporação deve merecer maior atenção quando se pensa em adotar baixos volumes de aplicação. Neste caso, a adição de óleo ou de outros aditivos antievaporantes à calda pode ser uma alternativa para prolongar a vida das gotas e reduzir os riscos de perdas por evaporação das mesmas, antes que cheguem ao alvo. Na maioria dos casos, em condições de baixa umidade relativa e alta temperatura do ar, além de se reduzir o tempo de duração das gotas, a velocidade de absorção das mesmas pelos tecidos vegetais é reduzida, dificultando a atuação dos defensivos aplicados. Por outro lado, temperaturas baixas (abaixo de 15ºC) podem reduzir a eficácia de produtos fitossanitários em geral.
A umidade relativa do ar, além de interferir no comportamento das gotas, afeta a absorção dos produtos pelas plantas. Em condições de baixa umidade relativa do ar, as plantas acionam mecanismos de defesa contra a perda de água, dificultando também a entra-da de produtos aplicados por via líquida. Os valores da umidade relativa do ar costumam ser favoráveis à absorção da calda de pulverização, nas primeiras horas da manhã e ao final da tarde. Ao longo do dia, nas horas mais quentes, a umidade relativa do ar pode atingir valores muito aquém daqueles considerados como limites (60%), favorecendo importantes perdas no processo de aplicação de defensivos e dificultando inclusive a penetração dos princípios ativos no tecido vegetal. Resultados experimentais com aplicações de fungicidas em soja demonstraram redução significativa na eficácia dos tratamentos quando estes foram aplicados nas horas mais quentes do dia quando a umidade relativa do ar ficou abaixo de 55 %, em comparação com as aplicações no início da manhã e ao final da tarde (BOLLER et al., 2003 e BONINI, 2003). Comparando aplicações de fungicida em diferentes horários ao longo do dia, no município de Tupanciretã-RS, Ferreira (2009), constatou que o controle da ferrugem asiática da soja e o rendimento de grãos da cultura foram afetados pelas variações das condições do ar. O menor desempenho dos tratamentos foi observado com aplicações às 13:00 h (temperatura do ar de 36 e 42ºC e umidade relativa do ar de 37 e 31%, respectivamente, nas datas da primeira e da segunda aplicações). Por outro lado, este trabalho demonstrou que além das variáveis do ambiente, é possível que haja outros fatores interagindo, uma vez que as aplicações realizadas às 15:30h e às 18:00h apresentaram os melhores desempenhos do experimento, embora às 15:30h as condições do ar ainda estavam próximas das observadas às 13:00 horas, sendo consideradas inadequadas.
Uma possibilidade concreta para evitar a alta temperatura e a baixa umidade relativa do ar registrada durante parte do dia, pode ser a pulverização noturna, no entanto neste período e nas primeiras horas da manhã é comum encontrar-se orvalho sobre as superfícies vegetais alvos das aplicações. Resultados obtidos por Caus & Boller (2008) e Boller et al. (2010) indicam que a presença de orvalho abundante, nos primeiros momentos da manhã, causa escorrimento da calda fungicida pulverizada e conseqüentemente resulta em perda de eficiência do controle de doenças em soja.
Horários das aplicações e angulação das folhas da soja
O movimento das folhas da soja ao longo de um dia chama atenção, uma vez que no amanhecer estas estão com as extremidades voltadas para baixo e logo nas primeiras horas do dia posicionam-se aproximadamente na horizontal. Durante a manhã, as extremidades das folhas continuam seu movimento ascendente e pouco antes do meio dia até em torno das 16:00 horas, observa-se uma grande parte das folhas em posição próxima da vertical. Do meio da tarde em diante este movimento das folhas se inverte, de modo que em torno das 17:30 às 18:00 horas novamente a maioria delas se encontra próxima da horizontal e, no final do dia, pouco antes do escurecer, as extremidades das folhas estão novamente voltadas para baixo. Este fenômeno muito provavelmente seja dependente de uma série de fatores do ambiente (fertilidade e umidade do solo, temperatura, luminosidade) do arranjo espacial das plantas, bem como da arquitetura das plantas e da geometria das suas folhas (genética).
Experimentos conduzidos em Tapejara-RS (Costa, 2009) e em Passo Fundo (Silva et al., 2009 e Boller et al. 2010), em condições de temperatura e umidade relativa do ar favoráveis, demonstraram que pulverizações realizadas do início ao meio da manhã, na ausência de orvalho, e no final da tarde entre 17:30 e 18:30 horas, resultaram em eficiência de controle de doenças da soja e rendimento de grãos significativamente menores quando comparados com aplicações realizadas entre o meio dia e as 15 horas e 30 minutos. Estas observações sugerem que a modificação do ângulo das folhas da cultura da soja ao longo do dia pode ter refletido em alteração do efeito guarda-chuva causado pelas folhas das camadas superiores. Possivelmente o posicionamento das folhas próximas à horizontal nos períodos do início até o meio da manhã e no final da tarde tenha dificultando a penetração das gotas da pulverização no interior do dossel da cultura. Da mesma forma, sugere-se que do meio-dia até o meio da tarde os espaços abertos entre as folhas (posicionadas próximas à vertical) possam ter favorecido a maior penetração de gotas da pulverização no interior do dossel da cultura.
Conclusões
As condições do ar podem interferir de forma positiva ou negativa no sucesso dos tratamentos fitossanitários. Para tirar o melhor proveito das mesmas, deve-se mensurá-las e interpretá-las corretamente para então tomar a decisão mais adequada em cada caso.
O uso de adjuvantes na calda de pulverização, as regulagens adequadas nas máquinas aplicadoras podem constituir ferramentas de grande utilidade para vencer os desafios impostos por condições atmosféricas adversas durante as aplicações dos tratamentos fitossanitários.
Além de considerar a importância das condições atmosféricas, a observação da angulação das folhas da soja ao longo do dia pode permitir importantes ganhos na eficiência de controle de doenças e pragas da cultura e oportunizar ganhos significativos no rendimento de grãos.
Referências Bibliográficas
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