Dessecação pré-colheita da soja no cenário da safrinha
Sebastião Pedro da Silva Neto11Pesquisador Embrapa Cerrados Planaltina, DF - E-mail: sebastiao.pedro@cpac.embrapa.br
Com o aumento do custo de produção nas lavouras de soja no Cerrado brasileiro, representado principalmente pelo aumento nos preços dos fertilizantes nos últimos anos, o plantio de milho ou sorgo safrinha em sucessão à soja precoce tem sido uma alternativa importante para viabilizar a agricultura na região, pois possibilita melhoria do giro financeiro do produtor, mantém o solo coberto na estação seca, melhora a eficiência do uso de fertilizantes, reduz o custo do controle de ervas daninhas, quebra o ciclo de doenças da soja, principalmente da ferrugem-asiática, bem como agrega palha ao sistema para melhorar a eficiência do plantio direto, além de racionalizar o uso das máquinas e da mão-de-obra da fazenda.
A técnica da dessecação possibilita antecipar a colheita da soja, permitindo o plantio da cultura em sucessão dentro da época propícia a receber mais chuvas e em condições de plantio livre de invasoras, favorecendo assim um bom desenvolvimento da safrinha. A dessecação pode antecipar a colheita entre 3 a 7 dias, dependendo da umidade do grão no momento da dessecação, do produto utilizado e das condições climáticas após o procedimento. Embora possa parecer curto, esse período pode representar muito na produtividade da safrinha.
A decisão do momento adequado para aplicar o dessecante é o ponto nefrálgico da operação de dessecação. A aplicação antecipada pode acarretar perdas consideráveis na produtividade da soja; por outro lado, a aplicação atrasada não apresentará resultados significativos na antecipação da colheita, frustrando o objetivo principal da operação. O momento adequado para a dessecação é quando a soja completa sua maturação fisiológica, pois aí se dá o maior acúmulo de matéria seca, e, a partir dessa fase, a cultura só perde água. Isso ocorre a partir do estádio R 6.5, onde já não se têm perdas no rendimento. O mais recomendável é que se faça a dessecação entre os estádios R 6.5 e R 7. Utiliza-se normalmente o estádio R 7, por ser de mais fácil visualização a campo.
Para tornar essa decisão de forma mais precisa, existem vários parâmetros que podem ser utilizados para identificar com segurança o momento mais adequado para se fazer a dessecação:
(1) quando os grãos de soja estiverem com 58% de umidade ou menos;
(2) quando as folhas e vagens estiverem mudando da coloração verde intenso para verde claro a amarelo;
(3) quando, ao abrir a vagem, os grãos estiverem desligados um do outro (não presos por fibras, ”desmamados”);
(4) quando a superfície dos grãos estiver passando do aspecto esbranquiçado para o aspecto brilhoso;
(5) quando existir pelo menos uma vagem sadia sobre a haste principal que tenha atingido a cor de vagem madura, normalmente amarronzada ou bronzeada.
A escolha dos herbicidas para a dessecação vai depender das espécies de ervas daninhas predominantes na área. Caso predominem gramíneas, deve-se optar por Gramoxone (Paraquat a 200 g.L-1) na dosagem de 1,0 a 1,5 L.ha-1 de produto comercial, na vazão de 150 a 200 L.ha-1, com o espalhante adesivo Agral na proporção de 0,1% do volume da solução. Caso predominem ervas daninhas de folhas largas, deve-se optar por Reglone (Diquat a 200 g.L-1) na dosagem de 1,0 a 2,0 L.ha-1, na vazão de 150 a 200 L.ha-1, com o espalhante adesivo Agral na proporção de 0,1% do volume da solução. No caso de infestação mista de gramíneas e folhas largas, deve-se optar pela mistura dos dois produtos anteriormente citados na proporção de 0,75 L.ha-1 de Gramoxone e 1,0 L.ha-1 de Reglone, na vazão de 150 a 200 L.ha-1, adicionados de 0,1% de Agral. Ambos os herbicidas possuem ação de contato, não apresentam resíduos na soja, e tem seu processo de absorção completado em 30 minutos, sendo que chuvas após este período não interferem no funcionamento do produto. O intervalo de segurança de ambos os produtos é de sete dias. Pode-se utilizar também o herbicida Finale (Glufosinato de amônio a 200 g.L-1). Utilizar a dose de 2,0 L/ha do produto + 0,7 L/ha (0,2% v/v) de espalhante adesivo a base de lauril eter sulfato de sódio a 28%, aplicado sobre a cultura,10 dias antes da colheita.
Embora não sendo recomendado, devido seu custo mais baixo, tem sido utilizado sem embasamento técnico o herbicida Glifosate na dessecação pré-colheita de soja convencional (não geneticamente modificada RR). Este produto possui ação lenta como dessecante pré-colheita, não atingindo o objetivo da antecipação da colheita. Além disso, possui ação sistêmica, pode deixar resíduos no grão e compromete vigor e germinação da semente, no caso de lavouras destinadas à produção de sementes.
Os herbicidas registrados para dessecação pré-colheita da soja devem ser utilizados de acordo com a recomendação dos fabricantes. Sendo que o intervalo de segurança de 7 dias para o Paraquat e Diquat e de 10 dias para o Glufosinato de amônio. Respeitado o intervalo de segurança, os produtos não deixam resíduos na soja.
No caso de uma dessecação bem feita, o produtor poderá ter os seguintes benefícios:
(1) antecipação da colheita de 3 a 7 dias;
(2) uniformização da maturação;
(3) venda antecipada da soja obtendo melhor preço;
(4) acesso a capital de giro para aquisição de insumos em momentos adequados;
(5) plantio da cultura subsequente no limpo;
(6) aproveitamento de melhor umidade no solo para a cultura subsequente;
(7) melhor resultado da safrinha;
(8) dessecação de plantas daninhas adultas;
(9) transporte de grãos sem impurezas;
(10) menor desconto no armazém em razão de impurezas; e
(11) otimização do uso das colheitadeiras.
As primeiras sojas colhidas encontram o mercado interno com seus estoques baixos e o mercado internacional vulnerável às especulações decorrentes da incerteza do tamanho da colheita da safra sul-americana, portanto historicamente o produtor tem conseguido melhores preços de venda. O dinheiro que entra pela venda das primeiras sojas colhidas é utilizado para antecipar a quitação de contas referentes ao custeio da safra e com isso o produtor consegue diminuir em parte o custo financeiro da lavoura. A antecipação da colheita permite que a safrinha receba mais chuvas e escape dos rigores do inverno em algumas regiões, e com isso tenha condição de resultar em produtividades mais elevadas, já que a safrinha é altamente dependente do clima. A dessecação tem também uma vantagem adicional no controle de ervas daninhas jovens e adultas de todas as espécies, e com isso o plantio da safrinha pode ser feito no limpo sem a necessidade da dessecação pré-plantio.
O custo do controle de ervas daninhas na safrinha pode ser amortizado pelo custo da dessecação pré-colheita da safra ou vice-versa, tendo em vista que uma operação elimina a necessidade da outra. A lavoura de soja que possua ervas daninhas durante a colheita cria dificuldades para a colheita sobrecarregando o trabalho mecânico das colheitadeiras. A dessecação pré-colheita elimina esse problema. Além disso, as cargas de soja provenientes das lavouras em colheita, ao darem entrada nos armazéns, são analisadas e as impurezas são descontadas do peso total. Uma vez que a dessecação pré-colheita diminui o percentual de impurezas do produto colhido, consequentemente ela desonera o custo do frete.
Outro fator a ser considerado na avaliação da viabilidade da dessecação pré-colheita da soja é o fato de permitir a racionalização do uso das colheitadeiras sem a perda excessiva de umidade do grão de soja na lavoura, o que frequentemente ocorre na lavoura por atraso na colheita. Ao antecipar a colheita de uma parte de sua lavoura de soja, o produtor tem possibilidade de colher parte equivalente dentro da faixa de umidade ideal.
A dessecação para antecipação da colheita de soja apresenta vantagens que podem ser bem aproveitadas pelo agricultor, sobretudo o que pretende fazer safrinha em sucessão à soja. É, portanto, uma operação que, dependendo da situação, pode ser altamente viável numa visão de benefício-custo.
Revista Plantio Direto, edição 121, janeiro/fevereiro de 2011, Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.