Nematóides em soja
Jaime Maia dos Santos1 e Pedro Luiz Martins Soares21Professor Assistente Doutor, Nematologistas. UNESP/FCAV, Departamento de Fitossanidade, Campus de Jaboticabal. jmsantos@fcav.unesp.br,2Professor Substituto Doutor, Nematologistas. UNESP/FCAV, Departamento de Fitossanidade, Campus de Jaboticabal. pedrolms@fcav.unesp.br.
1 Introdução
O enfoque sobre o manejo de nematóide em culturas anuais extensivas, tal como a soja, obrigatoriamente, deve levar em consideração todo o sistema de produção. É de particular importância as culturas que usualmente fazem parte do sistema como culturas de sucessão e/ou rotação. Se a cultura em sucessão também for suscetível ao nematóide-chave da soja na área, certamente, a próxima safra de soja sofrerá expressiva queda de produtividade. Isso porque a população do nematóide continuaria crescendo na cultura em sucessão, de modo que, na safra seguinte, a população inicial no solo estaria numa densidade tal que comprometeria o crescimento da soja. Esse é o caso do milho em sucessão à soja nas áreas infestadas por Pratylenchus brachyurus ou pelos nematóides de galha (Meloidogyne spp.). Por outro lado, não sendo hospedeira, será mais eficaz em reduzir a população do nematóide quanto maior for o ciclo, caso haja um controle eficiente de plantas daninhas, além de outros aspectos intrínsecos da cultura que serão abordados à frente.
2. Nematóides-Chave da soja no Brasil
Nas principais regiões produtoras do Brasil, Meloidogyne javanica e M. Incognita (nematóides de galha), Heterodera glycines (o nematóide de cisto da soja), Rotylenchulus reniformis (o nematóide reniforme) e Pratylenchus brachyurus (um dos nematóides das lesões radiculares) são as espécie de importância econômica para a cultura. Em casos pontuais, como a região geoeconômica de Araguaina-TO, e em algumas outras poucas áreas no País, os nematóides Tubixaba spp. são pragas devastadoras de praticamente todas as culturas, particularmente da soja. À exceção do nematóide de cisto da soja esses nematóides são autóctones nas regiões onde ocorrem, apesar de estarem frequentemente sendo dispersos dentro das fazendas e, até mesmo a distâncias maiores, principalmente por meio de máquinas e veículos. Por conseguinte, são bem adaptadas às condições edafoclimáticas das áreas onde ocorrem. O plantio continuado de culturas suscetíveis certamente levará a densidades de populações no solo tais que, depois de algum tempo, constituirão os principais fatores restritivos ao aumento e manutenção da produtividade da soja.
2.1. Os nematóides de galha (Meloidogyne incognita e M. javanica)
A identificação das espécies de nematóides está subjacente a todos os aspectos da pesquisa, desde a divulgação, execução da legislação quarentenária à seleção de estratégias de controle. Sem o conhecimento de quais são as espécies de nematóides que ocorrem na área, ficamos enormemente limitados quanto ao delineamento de nossas ações de controle. Meloidogyne javanica, no Brasil, é a espécie mais comum em soja (ASMUS, 2001). Infecta a maioria dos genótipos de milho, ainda que a cultura atacada nem sempre expresse um comprometimento acentuado de sua produtividade. Entretanto, a população de ovos e juvenis de segundo estádio que permanece nos solo, após a colheita, irá comprometer a produtividade da soja na safra subseqüente. No caso da fazenda trabalhar, também, com a cultura do algodoeiro, essa seria mais adequada para suceder uma cultura de soja severamente atacada por M. javanica que a cultura do milho, uma vez que esse nematóide não infecta o algodoeiro. Na Figura 1 estão ilustrados os sintomas a campo de lavouras de soja atacadas por M. javanica nas regiões de Campo Novo dos Parecis, MT e Luis Eduardo Magalhães, BA, enquanto a Figura 2 ilustra os caracteres marcantes para identificação da espécie.
Figura 1. Lavouras de soja atacadas por Meloidogyne javanica. A) Reboleira de plantas cloróticas em lavoura do Município de Campo Novo dos Parecis-MT. B) Raízes com galhas formadas pelo nematóide coletadas nos bordos da reboleira. C) Reboleira causada pelo mesmo nematóide em lavoura do Município de Luis Eduardo Magalhães-BA, exibindo plantas mortas em conseqüência do efeito concomitante de um veranico. D) Raízes de plantas dos bordos da reboleira exibindo galhas.
Figura 2. Caracteres morfológico e bioquímico suficientes para identificação de Meloidogyne javanica. A e B) Padrões perineais aos microscópios eletrônico de varredura e fotônico, respectivamente. C) Fotomicrografia da região labial do Macho. D) Fenótipo isoenzimático para esterase.
A identificação de M. javanica com base em caracteres morfológicos do padrão perineal é relativamente segura. Conforme ilustrado na Figura 2A e B, o padrão é formado por estrias finas, com altura do arco dorsal variável e são observadas faixas em ambos os lados da configuração que interrompem as estrias, chamadas de campos laterais. A configuração perineal de M. incognita é formada por estrias grossas, usualmente exibindo um arco dorsal alto e não se observa a presença de campos laterais, como evidenciado na Figura 3A. Nas áreas correspondentes aos campos laterais são observadas estrias bifurcadas. Outras se dobram e terminam no períneo. A região labial do macho de M. javanica não exibe disco labial conspícuo nem estrias transversais (Figura 2C). Em M. incognita, ao contrário, o disco labial do macho é proeminente (Figura 3C) e, geralmente, são observadas estrias transversais (Figura 3C e D). O fenótipo isoenzimático para esterase é um valioso recurso para confirmar a identificação da espécie. Não é um recurso para ser utilizado na rotina, mas quando a análise morfológica do padrão perineal e da região labial dos machos não forem suficientes, dado às variações que ocorrem nesses caracteres, ou quando a experiência do técnico ainda não lhe proporcionar a necessária segurança. Embora já tenham sido relatadas diferenças no fenótipo isoenzimático para esterase de cada uma dessas espécies, o fenótipo padrão para M. javanica é constituído por três bandas, conforme a Figura 2D. No caso de M. incognita, esse fenótipo é constituído por uma única banda na altura da banda de menor mobilidade de M. javanica (Figura 3B). Pelo fato do fenótipo de M. javanica ser menos variável, esse foi adotado como padrão, de modo que M. javanica deve ser incluído em todas as corridas eletroforéticas. O número e a posição relativa das bandas do fenótipo de uma população qualquer, em relação ao fenótipo de M. javanica são tomados como base para o diagnóstico (ESBENSHADE & TRIANTAPHYLLOU, 1990).
Figura 3. Caracteres morfológicos e bioquímico suficientes para identificação de Meloidogyne incognita. A) Eletromicrografia de varredura da configuração perineal. B) Fenótipo isoenzimático para esterase. C e D) Eletromicrografia de varredura e fotomicrografia, respectivamente, da região labial do macho. As setas indicam a presença de estrias transversais na região labial.
2.2. O nematóide de cisto da soja (Heterodera glycines)
O nematóide de cisto da soja foi relatado no Brasil em 1992. Não é uma espécie autóctone em nosso País, como o são várias espécies dos nematóides de galha (Meloidogyne spp.), Pratylenchus brachyurus e Rotylenchulus reniformis. Esses e muitos outros são encontrados em plantas nativas, em áreas de vegetação natural, confirmando que sempre estiveram em nossos ecossistemas. Internamente, no entanto, esses nematóides são freqüentemente transportados de um talhão a outro, de uma fazenda a outra e de uma região a outra. A história de Heterodera glycines em nosso País, por outro lado, teve início no final de 1991 quando os primeiros focos da praga foram detectados, embora o fato tenha sido relatado em 1992. A hipótese de que o nematóide teria chegado ao Brasil antes da soja, não tem nenhuma evidência em seu favor. Aliás, embora não tenham sido publicados, relatos orais dão conta de que nos EUA, o nematóide foi introduzido nos anos de 1950 ao inicio da década de 60.
Quando os japoneses descobriram o Rhizobium japonicum, passaram-se alguns anos até o início da produção de inoculantes. Enquanto isso, a cultura da soja foi levada para os EUA e, naturalmente, conhecendo-se o papel da simbiose da cultura com as bactérias fixadoras de nitrogênio, houve o interesse em se levar, também, o R. japonicum. Entretanto, como a tecnologia de produção do inoculante ainda não estava disponível, os americanos levaram solo coletado diretamente nos campos, no Japão e aplicaram em fazendas da Carolina do Norte com o propósito de introduzirem o simbionte. Desse modo, também levaram o nematóide de cisto da soja que havia sido descrito no Japão e nomeado Heterodera glycines Ichinohe, 1952. No Brasil, inicialmente, a presença do nematóide foi detectada em três pontos, no final de 1991, tendo sido um em Minas Gerais, outro em Goiás e outro no Mato Grosso do Sul, mas espalhou-se rapidamente pelas principais regiões produtoras do País, de modo que, cinco anos mais tarde, já havia se espalhado por uma área estimada em 2.000.000 ha (SILVA, 1999).
Conquanto os danos causados por esse nematóide tenham sido alarmantes, nos primeiros anos após os registros da ocorrência da praga no Brasil, atualmente é aceito que os nematóides de galha (Meloidogyne spp.), abordados no item anterior, causam perdas à cultura ainda maiores. Isto porque, embora a distribuição geográfica do nematóide de cisto esteja em constante expansão no País, os nematóides de galha já estão presentes na maioria das áreas onde a soja é cultivada, comprometendo o desenvolvimento e a produtividade da cultura. Embora H. glycines infecte, também, algumas outras espécies de plantas, esse nematóide, nos agroecossistemas brasileiros é uma praga específica da soja. Esse fato torna o manejo da praga tecnicamente mais fácil com rotação de culturas, mormente se considerarmos que os sistemas de produção de soja, no Brasil, usualmente, já envolvem essa prática, quer com milho quer com algodão ou outras não hospedeiras (ASMUS, 2001).
Reboleiras de tamanhos variáveis e bordos bem definidos, exibindo plantas cloróticas e atrofiadas, como ilustrado na Figura 4A são típicos da presença de H. glycines. Nas raízes dessas plantas são observados pontos esbranquiçados e salientes que são as fêmeas parcialmente imersas (Figuras 4B e C). Trata-se de uma espécie anfimítica cujo macho foi ilustrado na Figura 4C. Em razão disso, a recombinação genética, como a principal fonte de variabilidade, já permitiu o surgimento de 16 raças desse nematóide em todo o mundo. No Brasil, em pouco mais de uma década, após os registros da ocorrência da praga, já foram reconhecidas duas novas raças não encontradas em outras partes do mundo. Para os nematóides de galha, a condição de espécies partenogenéticas faz com que a principal causa de variabilidade seja a mutação que ocorre em freqüência muito menor. Com efeito, aqui no Brasil, M. incognita com quatro raças é a espécie que exibe a maior variabilidade.
Figura 4. Heterodera glycines em soja. A) Reboleira de plantas cloróticas e atrofiadas. B) Fêmeas do nematóide parcialmente imersas nas raízes (setas). C) Fêmea globosa com a região anterior imersa na raiz e um macho vermiforme próximo (seta). D) Cistos do nematóide. E) Reboleiras pequenas às margens de uma estrada (setas) denotando a dispersão do nematóide pelo trânsito de máquinas e veículos.
Quando H. glycines completa seu ciclo de vida a fêmea morre em seu sítio de alimentação. O corpo retendo os ovos assume a coloração amarronzada e se torna um cisto, a estrutura de resistência da praga (Figura 4D). No período das chuvas, os cistos em meio ao barro que é aderido aos pneus e engrenagens de máquinas e veículos são eficientemente transportados a curtas e longas distâncias. À medida que porções de barro com cistos em seu interior vão se desprendendo dos pneus e engrenagens, a praga vai sendo deixada na trajetória. As enxurradas das chuvas colocam os cistos em contatos com as raízes de plantas de soja e novos focos da praga se estabelecem. Na Figura 4E as várias reboleiras pequenas indicadas pelas setas, às margens da estrada, evidenciam a dispersão da praga por máquinas e veículos. Com o passar do tempo, as operações de máquinas, enxurradas, o trânsito de pessoas e outros meios dispersam o nematóide pela fazenda. A seta maior no canto esquerdo inferior da Figura 4E está indicando a dispersão do nematóide para o interior da lavoura seguindo as linhas de operação das máquinas.
2.3. O nematóide das lesões radiculares (Pratylenchus brachyurus)
As espécies de Pratylenchus Filipjev são genericamente referidas como os nematóides das lesões radiculares devido aos sintomas na forma de lesões necróticas que causam nas raízes de seus hospedeiros, sendo considerados, no Brasil e no mundo, o segundo grupo de nematóides de maior importância econômica. Esses nematóides são endoparasitos migradores de corpo fusiforme, cujo comprimento dos adultos varia de 0,3 a 0,9 mm (LOOF, 1991). O gênero inclui 74 espécies válidas. Outras 28 espécies são consideradas ”inquirendae” e outras quatro ”nomina nuda” (SANTOS, 2009). Provavelmente, essas fizeram com que SIDDIQI (2000) considerasse 89 espécies válidas no grupo. Seis das espécies de Pratylenchus ocorrem em nossos agroecossistemas, sendo que P. brachyurus (Figura 5) é a de maior importância econômica para a soja. Recentemente, no entanto, P. penetrans (Figura 6) foi encontrado atacando uma lavoura de soja em Tocantins.
Figura 5. Principais caracteres morfológicos para identificação de Pratylenchus brachyurus. A) Eletromicrografia de varredura da placa labial indivisa (seta). B) Eletromicrografia de varredura da região labial angulosa, exibindo dois anéis (seta), sendo o anel da base de menor diâmetro que o primeiro anel do corpo. C) Fotomicrografia da região anterior exibindo o estilete (seta) com nódulos basais esféricos. D) Fotomicrografia da fêmea exibindo a posição da vulva (seta). E) Gônada desprovida de espermateca funcional (a seta indica a posição da vulva). F) Saco pós-uterino (seta). G) Cauda hemisférica com término liso, característica da espécie. H) Variação na forma da cauda (as setas em ambas indicam o ânus). Barra das escalas = 10 µm ou outro valor conforme indicado.
Figura 6. Caracteres morfológicos mais marcantes para identificação de Pratylenchus penetrans. A) Eletromicrografia de varredura da região labial da fêmea exibindo três anéis (setas) e placa labial na forma de ”H” (seta); a seta cheia indica a abertura anfidial. B) Fotomicrografia da região anterior da fêmea exibindo a região labial distinta do corpo (”set off”) com duas constrições sutis nos lados denotando a presença de três anéis (setas). C) Fotomicrografia da fêmea inteira; a seta indica a posição relativa da vulva. D) Fotomicrografia da espermateca funcional; a tricolumela é indicada pelas letra TC. E) Fotomicrografia do saco pós-uterino. F) Cauda cônica com término liso. G) Variação na forma da cauda com término crenado (a seta em ambas indica o ânus). H) Cauda do macho com a bursa envolvendo toda a cauda (seta). Barras das escala = 10 µm ou outro valor, conforme indicado.
A ausência de revolvimento do solo, com a introdução do plantio direto, a partir do final da década de 1960, a suscetibilidade da soja e das culturas incluídas em seus sistemas de produção e as condições edafoclimáticas favoráveis foram os principais condicionantes para que P. brachyurus se tornasse uma das principais pragas da soja, em quase todas as regiões produtoras do País. Perdas superiores a 50% e até perda total em talhões de soja já foram observadas. Nas Figuras 7A e B foram ilustrados danos causados por P. brachyurus em soja na região de Sorriso-MT. Não raro são observadas reboleiras nas lavouras ainda menores que a ilustrada na Figura 7B. Essas pequenas reboleiras dão um aspecto irregular ao dossel da cultura e, das raízes dessas plantas atrofiadas são recuperados até mais de 20.000 espécimes por 10 g de raízes.
Figura 7. Pratylenchus brachyurus em soja e em culturas usualmente incluídas em seu sistema de produção. A) Reboleiras em soja na região de Sorriso-MT. B) Detalhe de uma reboleira. C) Lavoura severamente infestada em Nova Ubiratã-MT. D) Raízes de plantas infectadas (I) e não infectadas (NI). E) Reboleiras em cultura de milho causada por P. brachyurus e P. zeae. F) Reboleira em cultura de algodoeiro causada por P. brachyurus e Meloidogyne incognita.
O cultivo de milho nas lavouras infestadas, na safrinha, propiciaria o contínuo aumento da população do nematóide, de modo que, na safra de verão subseqüente, as perdas na soja seriam ainda maiores. A menos que a variedade de milho não seja hospedeira do nematóide, essa informação deve nortear as decisões da equipe responsável pelo planejamento geral da fazenda. Para o talhão da lavoura ilustrada na Figura 7C, no Município de Nova Ubiratã-MT, recomendou-se a imediata destruição da cultura com o propósito de interromper o ciclo de vida da praga. Certamente, a produção do talhão não cobriria os custos, considerando-se os riscos intrínsecos da atividade e a demanda de tratos culturais, inclusive para o controle da ferrugem asiática, além do fato de que a população de plantas daninhas invadiria a área e inviabilizaria a condução da lavoura. Deve ser considerado, também, o fato de que a população do nematóide continuaria crescendo e infestando o solo, se o ciclo da praga não fosse interrompido.
Pratylenchus brachyurus é um endoparasito migrador. Se a cultura estiver em fase de crescimento, poucos indivíduos serão encontrados no solo. As raízes das plantas atacadas se tornam necróticas e escurecidas, com fácil desprendimento do córtex (Figura 7D) e, comumente, a haste se torna arroxeada (Figura 7D). Embora também ocorra clorose nas plantas infectadas por P. brachyurus, essa é sempre menos intensa que a observada nas reboleiras formadas por H. glycines (Figura 4A), ou mesmo por M. javanica (Figura 1A). A acentuada redução no crescimento das plantas é muito mais característica das infecções por P. brachyurus (Figura 7B e C) que a clorose das plantas. A altura de inserção das vagens nas reboleiras é consideravelmente reduzida. Com isso, na colheita, muitas vagens ficam no campo e as sementes produzem plantas tigüera que continuarão hospedando o nematóide, assim como outras pragas e patógenos. As Figuras 7E e F são de lavouras de milho e de algodão, respectivamente, em áreas previamente cultivadas com soja. Em 7E P. brachyurus era a espécie dominante, enquanto em 7F P. brachyurus e M. incognita estavam presentes com a predominância da segunda. Se a cultura da soja for plantada nessas áreas, na próxima safra, sem a adoção prévia de uma medida de manejo dos nematóides, certamente, ocorrerão perdas consideráveis.
2.4. O nematóide reniforme (Rotylenchulus reniformis)
Rotylenchulus reniformis pode causar redução no crescimento e clorose em soja. É a espécie mais distribuída em países tropicais e subtropicais do mundo, atacando mais de 140 espécies de plantas de mais de 115 gêneros, pertencentes a 46 famílias. Nessa extensa faixa de hospedeiros, 57 espécies (incluindo a soja), de mais de 40 gêneros e 28 famílias são considerados de importância econômica. A fêmea do nematóide em raízes e uma reboleira em lavoura de soja estão ilustradas na Figura 8.
Figura 8. Rotylenchulus reniformis em soja. A) Reboleira na lavoura exibindo plantas menores e cloróticas. B) Fêmea do nematóide em seu sítio de alimentação sobre a raiz e parcialmente coberta pela massa de ovos. C) Fêmea do nematóide em seu sítio de alimentação sobre a raiz da qual foi removida a gelatina que a recobre com sua massa de ovos.
Meloidogyne incognita, R. reniformis e P. brachyurus, nessa ordem, são os nematóides-chave do algodoeiro no Brasil. Nenhuma outra espécie tem sido encontrada causando danos a essa cultura, no País. Entretanto, em diferentes regiões do mundo, outras espécies também causam danos severos à cultura. Essas três espécies também são nematóides-chave da soja e estão presentes em praticamente todas as regiões produtoras. Por conseguinte, no planejamento para a próxima safra, não se deve prever o plantio da soja em talhões cultivados atualmente com o algodoeiro e que tenham evidenciado danos causados à cultura por nematóides, como ilustrados na Figura 7F, sem que alguma medida de manejo seja previamente adotada. No passado, pensou-se que os genótipos de soja resistentes ao nematóide de cisto, também eram resistentes a R. reniformis (REBOIS et al., 1970). Posteriormente, estudos genéticos não confirmaram esse fato (ANAND, 1992). Então, dois pares de genes foram propostos como aqueles que conferem resistência a R. reniformis em soja (HARVILLE, 1985). Posteriormente, foi demonstrado que as cultivares de soja resistentes ao nematóide de cisto que foram derivadas da cv. Peking, como, por ex., as cultivares Forrest e Centennial, ou da PI-437-654, como a cv. Hartwig, também são resistentes a R. reniformis (ROBBINS et al., 1994a,b).
3. Manejo de nematóide em soja
O conhecimento da distribuição dos nematóides nas fazendas, essencial para a adoção de práticas racionais de manejo é dificultado pelo tamanho médio das propriedades. No Centro Oeste, em média, as fazendas de produção de soja têm 1000 ha, não sendo raras propriedades com até mais de 10.000 ha. A coleta manual de amostras nessas fazendas torna-se impraticável. Mapas de variabilidade do potencial de produtividade, elaborados com imagens de satélites, indicam, na safra atual, as áreas das lavouras que estão exibindo algum fator restritivo à realização do potencial de produtividade. Como são georreferenciados, possibilitam o acesso preciso a essas áreas, com o auxílio de um GPS, de modo que a amostragem passa a ser dirigida. O mapa de variabilidade do potencial de produtividade estratifica as lavouras de soja em manchas irregulares, com diferentes potenciais de produtividade, representados por diferentes cores. Nesse mapa, a classe I, representada pela cor azul, identifica as áreas do mapa com potencial de produzirem de 65 a 75 sacos/ha; a classe II, representada pelo verde, 55 a 65 sacos/ha, a classe III, laranja, 50 a 55, a IV, amarela, 45 a 50, a classe V, vermelha, 35 a 45, a VI, cinza, 25 a 35 e a classe VII, preta, de 0 a 25 sacos/ha.
Quando os nematóides forem os fatores restritivos à produtividade de uma fazenda, eles estarão, geralmente, nas manchas relativas às últimas classes. A classe VII (preta), nesse exemplo (Figura 9C), representa o centro de uma reboleira. Como o gradiente da população do nematóide, pelo menos no início, diminui do centro para os bordos da reboleira, observamos, na Figura 9C que a classe VII (preta) está dentro de uma classe VI (cinza) e essa dentro de uma mancha da classe V (vermelha) que, por sua vez, está numa classe IV (amarela), em 9A. Essa, está dentro de uma área da classe III (laranja). Com efeito, esse padrão de dispersão dos nematóides dentro das reboleiras é típico dessas pragas. Nem o percevejo castanho nem outras pragas e doenças exibem esse padrão de dispersão. Portanto, isso permite tanto a identificação quanto o dimensionamento das áreas infestadas, dentro de cada talhão, conforme foi demonstrado por MARCHIORATO (2008). Com isso, o planejamento das práticas de manejo a serem adotadas na safrinha, em seguida, pode assegurar a redução do impacto da praga na próxima safra de verão. Além disso, esses mapas também possibilitam o monitoramento preciso de todos os talhões da fazenda.
O manejo dos nematóides deve ser encarado como uma prática permanente na fazenda, em vez do que é usualmente praticado. Isto é, ignoram-se os nematóides, até enquanto os danos sejam tidos como toleráveis. Quando o impacto das perdas é sentido, então se procura uma solução. Essa postura é incompatível com os conceitos da Agricultura Sustentável e, as fazendas que não mudarem o seu enfoque, certamente estarão numa espiral que poderá tornar boa parte de suas áreas inviáveis para o cultivo da soja. O manejo dos nematóides na fazenda requer uma contínua vigilância e conhecimento do papel que essas pragas estão tendo no desempenho das culturas.
O solo é um componente vivo do ecossistema e os nematóides são uma fração da biota do solo. A ocorrência de danos causados por essas pragas denuncia que práticas inadequadas vêm sendo adotadas na fazenda. Para corrigi-las, é imperioso que medidas visando a interrupção do ciclo de vida dessas pragas sejam implementadas. A mais comum e a mais praticada no mundo é a rotação/sucessão de culturas, sendo a cultura subseqüente uma não hospedeira do nematóide presente na área. A carência de culturas não hospedeiras e que sejam rentáveis para os produtores é uma das principais limitações. A utilização de cultivares resistentes, se disponível, é outra prática muito eficaz. Em nosso País, no entanto, não tem sido utilizada com o critério requerido. De fato, quando é lançada uma nova cultivar resistente, a comunidade de produtores, doravante, só planta esse material. Isso tem feito com que a pressão de seleção a torne ineficaz, em relativamente pouco tempo e, além disso, uma nova raça do nematóide é selecionada.
A utilização de culturas que interrompem o ciclo de vida dos nematóides e ainda traz outros benefícios, tais como o fornecimento de palhada, a descompactação natural do solo, reciclagem de nutrientes, não hospedem outros patógenos como o agente causal do ”mofo branco” (Sclerotinia sclerotiorum) é outra prática muito utilizada. A cultura de milheto, variedade ADR 300 ou o híbrido ADR 7010, podem ser aliados eficazes. A primeira não hospeda nenhum dos nematóides-chave da soja. Talhões inteiros ou partes deles, onde haja infestação dos nematóides podem ser semeados com esse material na safrinha. Na próxima safra de verão, a população dos nematóides remanescente não será suficientemente alta para impactar a produtividade da cultura. Os benefícios adicionais resultantes da descompactação natural do solo, o fornecimento de palhada, a proteção contra a perda de umidade, a dinamização da biota do solo e a reciclagem de nutrientes também devem ser levados em conta. Se houver o interesse de se adotar outras práticas de manejo dos nematóides, o mapa de variabilidade do potencial de produtividade possibilita a localização e o dimensionamento das áreas infestadas na safra atual, de modo que, na safrinha, essas intervenções possam ser implementadas visando a proteção do investimento maior que corresponde à próxima safra de verão.
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Revista Plantio Direto, edição 121, janeiro/fevereiro de 2011. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS