Agricultores que não conhecem arado ou terraços
Dirceu N. GassenEngenheiro-Agrônomo, Mestre em Agronomia,Gestor Técnico da Cooperativa dos Agriculturesde Plantio Direto - Cooplantio eEditor Técnico da Revista Plantio Diretodirceu@dirceugassen.com
Nas décadas de 1970 e de 1980 as escolas de agronomia ensinavam a intensa preparação do solo, com arado, escarificadores e grades, como a melhor tecnologia para o desenvolvimento de plantas. A queima da palha e a preparação do solo eram recomendadas para melhor eficácia de herbicidas. Nessa época, os grandes negócios estavam associados à indústria de tratores, arados, escarificadores e grades, com toda a rede de reposição de peças envolvidas, representando o maior custo na planilha de desembolso da lavoura. O componente tangível, mais evidente, do agricultor era o complexo de máquinas. A potência e o desempenho do trator eram o centro das atenções e também, a expressão de poder do homem dominando os recursos naturais.
Foi um desafio contestar essa cultura estabelecida no mundo todo. Esse mérito pertence aos pioneiros do plantio direto que preconizavam semear, manejar plantas e colher grãos, sem arar o solo, o que parecia uma ”loucura”. Eles se organizaram em grupos, sob a lógica de ”agricultores ajudando agricultores”, formando clubes amigos da terra ou clubes do plantio direto. Esses pioneiros iniciaram uma das maiores revoluções e mudanças de rumo da agricultura brasileira.
A adoção do plantio direto reduziu em 2/3 a necessidade de tratores e resultou na extinção das indústrias de arados escarificadores e grades. Também a potência dos tratores foi reduzida para tamanhos médios e a durabilidade dessas máquinas passou de 10 para 20 anos. A necessidade de reposição de pneus e peças, o consumo de combustíveis e lubrificantes reduziu para 1/3 do que se era necessário com a prática do preparo convencional de solos.
Depois desse período de mudanças, os jovens, que nasceram na década de 1990, hoje estudantes de cursos relacionados com técnicas agrícolas e agronomia e filhos de agricultores, não aprenderam mais sobre arados, grades, desestruturação de solos e sobre construção de terraços de retenção de água e controle de erosão.
Essa percepção de mudança aconteceu com a pergunta de um formando do curso de agronomia, em janeiro de 2011. O que é terraço? Minha primeira reação à pergunta foi de perplexidade, principalmente, por que na minha infância e adolescência, como filho de agricultor, depois como estudante de agronomia, entre os desafios da agricultura se destacavam a marcação de ”curvas em nível” e a correta construção de terraços. Lembro ainda das aulas práticas e treinamentos, recomendando ”10 passadas de arado para cima e para baixo da linha do terraço”, além dos arremates da construção para reter ou conduzir a água. Era um trabalho penoso e um desafio conferir o resultado depois da primeira chuva intensa. Nas noites de trovoadas e de chuvas, o pesadelo de ver os terraços ”arrebentados” pelas enxurradas, a necessidade de refazer a preparação de solo, semeadura etc. Para quem não viveu o desastre das perdas de solos com o sistema convencional de aração, gradagens e construção de terraços nas décadas de 1970 e 1980, jamais entenderá a grande ”revolução” que foi a adoção do plantio direto.
Refletir e entender as perguntas de jovens profissionais que assumem a gestão da agricultura e aceitar que em sua vida podem não ter conhecido um ”arado” e, que não construíram um terraço, parece algo inaceitável, para quem nasceu e deu os primeiros passos na agricultura com a introdução da ”operação tatu”. Por isso, para o agrônomo formado em 1977, foi muito profunda a reflexão induzida pelas perguntas: O que é um terraço? Como funciona e como se usava o arado?
Vivemos novos tempos de precisão na agricultura, de tratores sem tratoristas, de equipamentos completamente controlados por aparelhos eletrônicos, com eficiência inimaginável. Claro, o uso prático da tecnologia e do conhecimento gerados pela ciência depende da sabedoria de pessoas, que tenham paixão e visão para aplicar a inovação disponível. A agricultura, a produção de alimentos e a responsabilidade de conservação dos recursos naturais continuam sendo a atividade de pessoas, especialmente de jovens, que assumem a fase que sucedeu o arado e os terraços e, já se pode assumir, também a fase de adoção do plantio direto que hoje é inquestionável.
Publicado na Revista Plantio Direto 124, julho/agosto de 2011.