Dicas para implantação do consórcio milho-braquiária
Gessi CecconEngenheiro Agrônomo, Doutor em Agricultura, Analista na Embrapa Agropecuária Oeste, Dourados, MS. E-mail: gessi@cpao.embrapa.br
Ao iniciar a atividade de semeadura o agricultor precisa definir se o objetivo do consórcio é de formação de palha ou de pasto, ou palha e também pasto. Dependendo do objetivo, a forma de implantação difere, quanto à espécie de braquiária, método de semeadura e população de plantas de braquiária.
Linha intercalar de Brachiaria ruziziensis, palha para proteger o solo e colher mais soja em sucessão.
O consórcio pode ser implantado em duas safras (verão ou das águas e safrinha ou de outono-inverno). Contudo, o consórcio realizado na safra de verão tem maior disponibilidade de água e proporciona maior crescimento das plantas. Durante o verão é utilizado maior área da propriedade para lavoura. Isso possibilita utilizar mais área para formação de pastagem e maior quantidade de pasto ofertado aos animais após a colheita do milho, quando comparada com o consórcio implantado na safrinha.
Na safrinha a maturação do milho coincide com período seco ou frio, e resulta em menor crescimento da forrageira, e consequentemente menor quantidade de pasto. A implantação do consórcio realizada no outono-inverno requer planejamento para utilização de outros alimentos antes da colheita do milho safrinha, tendo em vista o longo período de baixa oferta natural de pasto nesse período.
Três fatores interferem diretamente no crescimento das culturas: disponibilidade de água, de luz solar e de temperatura. Durante o cultivo de verão esses fatores aumentam com a evolução de cultivo, enquanto que na safrinha, diminuem. Dessa forma, a produção de massa será menor na safrinha, e a competição entre as espécies será maior. Nesse caso, diferentes arranjos de plantas devem ser implantados, com maiores populações no verão e menores na safrinha.
Normalmente, o milho deve ser semeado como se fosse cultivo solteiro, em sua respectiva estação de cultivo. No entanto, para a semeadura da braquiária vários métodos de implantação podem ser utilizados e alguns são descritos abaixo.
Implantação com sementes de braquiária misturadas ao adubo
As sementes da forrageira podem ser misturadas ao adubo, desde que não seja distribuído muito profundo, além disso, é uma operação trabalhosa e depende de ser realizada próximo do momento de plantio, devido ao risco de salinização das sementes, e consequente perda do poder germinativo. As sementes podem ser distribuídas a lanço quando implantadas na safra de verão, mas tanto no verão como na safrinha, deve ser dada preferência para implantação com semeadora, a fim de proporcionar maior uniformidade na distribuição e profundidade das sementes.
Implantação com duas operações de semeadura
Consiste em realizar uma operação para cada espécie, e devem ser realizadas com menor intervalo de tempo possível, a fim diminuir a possibilidade de ocorrência de chuva entre as duas operações de semeadura, e garantir a implantação das duas espécies. Utiliza-se uma semeadora para semeadura de grãos miúdos para forrageira. O milho é semeado normalmente com a mesma semeadora utilizada para plantio de soja. Ambas as operações de semeadura são realizadas no mesmo sentido, devendo-se ter o cuidado para não sobrepor as linhas das cultura. A profundidade de semeadura do milho e do capim deve estar em torno de 4 cm. Semeadura muito superficial (0 a 0,5 cm de profundidade) torna as plantas vulneráveis a períodos de estiagem, podendo dificultar a formação ideal do consórcio.
Alta população de brachiaria para produzir palha após a colheita do milho safrinha.
Semeadura de milho safrinha imediatamente após a colheita de soja. Agricultor evita atividades que demandam mais tempo e mão de obra.
Implantação à lanço, com caixa adicional
Nas condições de safrinha, a distribuição de chuvas é desuniforme. O método de distribuição das sementes de braquiária à lanço deve ser simultânea à semeadura do milho, mas pode representar menor precisão do consórcio, tendo em vista que as maiores taxas de germinação são verificadas quando as sementes são incorporadas ao solo. As sementes não incorporadas dependem da umidade de uma próxima chuva. Havendo chuva logo após a semeadura a germinação acontece, e significa emergência defasada entre milho e braquiária, e por consequência menor competição entre as duas espécies. Porém se não houver chuva logo após a semeadura, a germinação da braquiária pode não acontecer, ou então ter baixo crescimento, diminuindo a qualidade da cobertura do solo. No entanto, este é um método que viabiliza o consórcio em cultivos de milho em espaçamento reduzido.
Implantação com linha intercalar
O consórcio com linhas alternadas de milho e braquiária pode ser realizado com a mesma semeadora utilizada para plantio de soja, ajustando-a para semeadura de uma linha de milho e outra de braquiária. Na linha do milho utiliza-se um disco para semear milho, e na linha de braquiária, um disco para semear sorgo. Este método, desenvolvido pela Embrapa Agropecuária Oeste, é uma tecnologia reconhecida pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA), através do Zoneamento de Riscos Climáticos para os Estados de Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo.
Para plantios de milho em espaçamento de 45 a 50 cm entre linhas, a semeadura de uma linha de braquiária e duas linhas de milho é uma alternativa para viabilizar o crescimento das duas culturas e proporcionar acesso do agricultor ao financiamento agrícola.
A Brachiaria ruziziensis destaca-se pelo crescimento inicial rápido, excelente cobertura do solo e facilidade para dessecação para implantação da soja, porém o Panicum maximum cv Aruana e Tanzânia, a B. decumbens, e a B. brizantha cv. Xaraés também podem ser utilizadas, porem com maiores cuidados, tendo em vista a necessidade de maior dose de herbicida para dessecação antes da semeadura da soja.
A adubação deve ser realizada apenas na linha do milho, o que diminui a competição entre a braquiária e o milho, tornando assim desnecessário aplicar herbicida pós-emergente para supressão da braquiária. A competição pode ser evitada também com a diminuição da população de plantas de braquiária.
Após a colheita do milho safrinha é importante o pastejo por animais, para facilitar a entrada de luz e, consequentemente, melhorar a rebrota da forrageira. Além disso, quanto mais tarde for realizada a dessecação da forrageira para semeadura da soja, maior será a produção de massa, e melhor será a eficiência do herbicida dessecante.
Contudo, para obter os benefícios do cultivo consorciado, é importante seguir critérios indicados pela pesquisa, e ter acompanhamento da assistência técnica, a fim de evitar a interferência de uma espécie no crescimento da outra durante o cultivo e maximizar seus benefícios para a cultura em sucessão.
Publicado na Revista Plantio Direto, edição 124, julho/agosto de 2011.