Manejo de Plantas Daninhas em Função do Sistema de Cultivo do Arroz Irrigado no RS


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Publicado em: 01/08/2011

Manejo de plantas daninhas em função do Sistema de Cultivo do Arroz Irrigado no Rio Grande do Sul

Nixon da Rosa Westendorff1; Marcos André Nohatto1;Rafael Salles Rubin1 e Dirceu Agostinetto21Eng. Agrônomo, Programa de pós-graduação em Fitossanidade, FAEM/UFPel. nwestendorff@gmail.com2Eng. Agrônomo, Prof. Dr., DFS/FAEM/UFPel

O arroz é o cereal mais consumido e o segundo mais cultivado no mundo, ocupando área de aproximadamente 158 milhões de hectares e produção de cerca de 662 milhões de toneladas de grãos em casca, o que corresponde a 29% do total de grãos usados na alimentação humana (SOSBAI, 2010).

No Brasil, na safra 2010/11, o arroz ocupou área de cerca de 2,8 milhões de hectares, com produção de 13,8 milhões de toneladas, sendo a Região Sul a maior produtora (72%) e o Rio Grande do Sul (RS) o maior produtor. O RS possui 40% da área semeada e é responsável por 64% da produção nacional do grão. A produtividade no RS, 7,6 mil kg por hectare, também é a mais alta entre os Estados produtores sendo cerca de 58% maior que a produtividade nacional do grão (CONAB, 2011).

Dentre os fatores que mais interferem na produtividade da cultura do arroz se destaca a competição exercida pelas plantas daninhas. O manejo das plantas daninhas é uma das práticas mais importantes e onerosas para a máxima expressão do potencial produtivo da cultura. As principais plantas daninhas ocorrentes na cultura do arroz estão apresentadas na Figura 1.

Figura 1. Principais plantas daninhas no arroz irrigado. A - angiquinho (Aeschynomene sp.), B - capim-arroz (Echinochloa sp.), C - junquinho (Cyperus sp.) e D - arroz vermelho (Oryza sativa).

O método de manejo das plantas daninhas na cultura do arroz varia em função dos métodos de cultivo, podendo ser convencional, mínimo, pré-germinado, semeadura direta ou por transplante de mudas. Dentre esses se destacam no RS o método convencional (com aração e gradagem), o cultivo mínimo do solo, seja com ou sem preparo antecipado de verão e o cultivo pré-germinado. O cultivo mínimo ocupa cerca de 64% da área cultivada do RS, seguido do cultivo convencional, com cerca de 25% da área cultivada e do cultivo pré-germinado, com cerca de 11% da área (SOSBAI, 2010). Uma das práticas mais largamente utilizadas na lavoura arrozeira é a dessecação da área com herbicidas de ação total como o glifosato, associado ou não a outros herbicidas pré-emergentes ou de pós-emergência inicial. O herbicida glifosato teve seu uso aumentado na lavoura arrozeira após a introdução do sistema de cultivo mínimo para dessecação da cobertura vegetal existente. Essa prática, intensamente realizada para os dois métodos de cultivo mais relevantes na cultura do arroz no RS, será detalhada a seguir.

Cultivo convencional

No cultivo convencional são realizadas em média duas dessecações. Uma anterior ao preparo do solo e a outra no chamado ”ponto de agulha” da cultura. Essa expressão refere-se ao momento, na emergência da cultura, em que ocorre o alongamento do coleóptilo e o ponto de crescimento encontra-se protegido, evitando assim os efeitos do herbicida. Quando há equívoco na tomada de decisão do momento certo de aplicação, pode ocorrer considerável diminuição do estande pela morte de plantas, afetando a população da cultura, com reflexo negativo na produtividade. Porém, essa é uma prática largamente utilizada com resultados considerados satisfatórios no que se refere ao manejo, pois a cultura emergindo no limpo tem sua habilidade competitiva melhorada em comparação as plantas daninhas.

Uma prática bastante comum é a associação do glifosato com herbicidas pré-emergentes para a obtenção de residual no controle das plantas daninhas. Os herbicidas mais comumente utilizados nessa associação são o 2,4–D (várias marcas comerciais); o metsulfurom-metílico (Ally®); o clomazone (Gamit®), esse com sua dose aumentada nas últimas safras em função do uso de protetor da semente; e, no sistema Clearfield®, a utilização da metade da dose do herbicida (Only® ou Kifix®).

Cultivo mínimo com preparo antecipado (preparo de verão)

Assim como no cultivo convencional, é comum uma dessecação anterior ao preparo para facilitação das operações. Nesse tipo de método de cultivo, normalmente ocorrem mais duas ou três dessecações, uma entorno de 90 dias antes da semeadura, somente com glifosato, a segunda de 20-30 dias antes da semeadura e a última em ponto de agulha conforme descrito para o cultivo convencional. Cabe ressaltar que cada operação deve ser realizada com a verificação em loco de sua necessidade.

Cultivo mínimo (sem preparo de verão)

Esse método de cultivo caracteriza-se principalmente pela quantidade mínima de operações de preparo do solo, como o próprio nome indica. Ele diferencia-se do método anterior, por ser realizado cerca de 30-60 dias antes da semeadura, não sendo realizada, nesse caso, a dessecação intermediária (90 dias antes da semeadura). Porém, em termos de preparo, é uma prática mais arriscada, visto que sua realização ocorre entre o final do inverno e o início da primavera, período em que, normalmente, as precipitações são mais elevadas, dificultando sua realização.

Controle de plantas daninhas em pré e pós-emergência

O entendimento do modo de atuação dos herbicidas, sua eficiëncia e limitações, no manejo de plantas daninhas apresentam vantagens e desvantagens, principalmente em arroz irrigado, devido às distintas modalidades de aplicação, nos diferentes sistemas de implantação da cultura.

O uso de herbicidas após a semeadura é uma ferramenta que permite que a cultura permaneça livre da competição com as plantas daninhas. Quando o herbicida é aplicado logo após a semeadura do arroz ou, no máximo durante o período que decorre entre a semeadura e o início da emergência das plântulas, caracteriza-se como controle em pré-emergência.

Como exemplo de herbicida aplicado desta forma, na cultura do arroz irrigado, pode-se citar o clomazone, o qual, apresenta eficiência no controle de poaceas (gramíneas), principalmente capim-arroz (Echinochloa sp.), milhã (Digittaria sp.) e papuã (Brachiaria plantaginea) (KARAM et al, 2003).

Devido as suas características físico-químicas, a seletividade do clomazone ao arroz irrigado é limitada. Essa limitação pode ser relacionada à dose aplicada, a cultivar semeada e ao tipo de solo da área e do potencial de água no solo (LEE et al., 2004). No RS, há diversidade de solos com características físico-químicas contrastantes, destinados à produção de arroz. Assim, para cada textura e quantidade de matéria orgânica do solo, o clomazone apresentará comportamento diferenciado, portanto em solos arenosos a dose será reduzida em relação a solos argilosos.

Já, quando a aplicação é realizada após a emergência do arroz e das plantas daninhas, tanto em pulverização com o solo drenado ou diretamente na água de irrigação (benzedura), denomina-se controle em pós-emergência.

Os herbicidas recomendados para a cultura do arroz irrigado, levando em consideração os ingredientes ativos disponíveis no mercado, época de aplicação e resistência das diferentes espécies de plantas daninhas aos herbicidas, estão listados na tabela 1.

Tabela 1. Herbicida, dose, época de aplicação e eficiência de herbicidas indicados para o controle de plantas daninhas do arroz irrigado no RS e SC.

Para o controle em pós-emergência, as principais opções são os herbicidas imazapic+imazethapyr (Only®), imazapyr+imazapic (Kifix®), bispyribac-sodium (Sonora®), metsulfuron-methyl (Ally®), penoxsulam (Ricer®) e cyhalofop-butyl (Clincher®).

Algumas características dos principais herbicidas utilizados em pós-emergencia da cultura do arroz são apresentados a seguir:

Only®: é um herbicida que pertence ao grupo químico das imidazolinonas, cujo mecanismo de ação é a inibição da enzima ALS, tendo sido desenvolvido para uso no sistema de produção Clearfield®. É recomendada a adição de adjuvante à calda de pulverização. Quando houver altas infestações de arroz-vermelho e/ou houver germinação escalonada, recomenda-se, a aplicação sequencial do herbicida, com a primeira aplicação em pré-emergência da cultura e das plantas daninhas (logo após o plantio) e uma segunda aplicação, em pós-emergência, quando as plantas daninhas estiverem entre os estádios de 4 folhas a um afilho (14-21 dias).

Kifix®: herbicida do grupo químico das imidazolinonas, inibidor da enzima ALS, também desenvolvido para uso em cultivares do sistema de produção Clearfield®, com exceção do cultivar IRGA 422CL. Apresenta amplo espectro de controle de plantas daninhas no arroz irrigado, podendo também ser utilizado em pré-emergência das plantas daninhas e cultura. É recomendada a adição de adjuvante à calda de pulverização. Em áreas com alta infestação de plantas daninhas, principalmente arroz vermelho, para que se obtenha um melhor controle e manejo das plantas daninhas recomenda-se aplicação sequencial, ou seja, efetuar a primeira aplicação do herbicida em pré ou pós- emergência inicial, estádio de 2-4 folhas do arroz vermelho, e a segunda aplicação, em pós-emergência, para novas re-infestações no estádio de 2-4 folhas (AGROFIT, 2011).

Sonora®: herbicida do grupo químico dos pyrimidyl-benzoatos, inibidor da enzima ALS. Para melhorar sua ação, recomenda-se o uso de espalhante-adesivo e inundação da lavoura até 7 dias após a aplicação do herbicida (AGROFIT, 2011).

Ally®: herbicida pertencente ao grupo químico das sulfoniluréias, inibidor da ALS, sendo utilizado para controle de plantas daninhas de folhas largas. A mistura desse herbicida com tebuconazole, parathion methyl, chlorpyrifos e diclofop methyl apresenta incompatibilidade. Recomenda-se a aplicação no afilhamento da cultura e o uso de óleo mineral emulsionável (AGROFIT, 2011).

Ricer®: herbicida pertencente ao grupo químico das triazolopirimidinas, inibidor da ALS. Apresenta flexibilidade quanto à época de aplicação, podendo ser utilizado também em pré-emergência das plantas daninhas e do arroz. A adição de adjuvante à calda é obrigatória (AGROFIT, 2011).

Clincher®: herbicida pertencente ao grupo químico do ácido ariloxifenoxipropiônico, inibidor da enzima Acetil Coa carboxilase (ACCase). Recomenda-se a utilização de adjuvante à calda. No momento da aplicação, caso o solo esteja muito seco, entrar com água na lavoura e logo que o solo estiver em condição normal de umidade e as plantas daninhas em pleno vigor vegetativo, aplicar o herbicida, voltando a inundar até 3 dias após aplicação (AGROFIT, 2011).

Considerações finais

Nenhum método de manejo, aplicado isoladamente, será eficiente no manejo de plantas daninhas na cultura do arroz irrigado, sendo necessária a integração de diferentes métodos, visando manter o nível populacional da planta daninha abaixo daquele que cause dano ou perda econômica à cultura. Além disso, a utilização exclusiva do método químico de controle de plantas daninhas pode acentuar o desenvolvimento de casos de resistência na cultura do arroz, o que acarretará em aumento do uso de herbicidas, e consequente custo de produção e impacto ambiental decorrente do incremento no uso de agrotóxicos.

Publicado na Revista Plantio Direto edição 124, julho/agosto de 2011.