Manejo de plantas daninhas resistentes na cultura do milho
Décio KaramPesquisador, Embrapa Milho e Sorgo, Sete Lagoas, MG - karam@cnpms.embrapa.br
1. Situação Brasileira da cultura do milho
O milho uma das principais culturas da agricultura brasileira, não somente no aspecto quantitativo, como também no que diz respeito à sua importância estratégica, por ser base da alimentação animal e, consequentemente, da alimentação humana, tem sido plantado tanto no verão como no inverno (safrinha). A produção brasileira de milho 1ª. Safra (verão) alcançou em 2010 a produção de 56 milhões de toneladas sendo destas 61% proveniente da 1ª. Safra e 39% da 2ª. Safra (safrinha). O rendimento médio do Brasil para a 1ª. Safra está na ordem de 4,2 t/ha, enquanto para a 2ª. Safra este rendimento encontra-se no patamar de 3,0 t/ha. A distribuição da produção está, na safra de verão, em maior concentração no sul do país enquanto que a produção da safrinha concentra-se atualmente na região centro-oeste do país, sendo o Mato Grosso o maior produtor deste cereal no inverno.
2. Plantas Daninhas presentes na cultura do milho
O espectro de espécies infestantes ocorrentes nas lavouras brasileiras de milho abrange tanto plantas monocotiledôneas como Brachiaria plantaginea (capim-marmelada), Brachiaria decumbens (capim-braquiária) Cenchrus echinatus (timbete), Digitaria ssp (milhã), e Eleusine indica (capim-pé-de-galinha), quanto dicotiledôneas: Amaranthus ssp. (caruru), Cardiospermum halicacabum (balãozinho), Bidens ssp (picão-preto), Euphorbia heterophylla (leiteira), Ipomoea ssp (corda-de-viola), Raphanus raphanistrum (nabiça), Richardia brasiliensis (poaia-branca), Commelina benghalensis (trapoeraba) e Sida ssp (guanxuma) variando o grau de infestação de acordo com as práticas culturais utilizadas.
Dentre as espécies mais presentes na cultura de milho nas últimas safras de verão, pode-se ressaltar, por região, as seguintes plantas daninhas: Região Centro-Oeste: Bidens pilosa, Ipomoea ssp, C. benghalensi, C. echinatus e Digitaria horizontalis; Região Sudeste e Sul: B. plantaginea, B. decumbens (sudeste), B. pilosa, C. benghalensis, Digitaria ssp, Sida ssp e Euphorbia heterophylla. Nas safras de inverno, por sua vez, há maior infestação das espécies dicotiledôneas com redução da infestação das gramíneas.
Tabela 1. Principais plantas daninhas presentes na cultura do milho
De modo geral, as espécies monocotiledôneas causam maiores prejuízos ao rendimento do milho do que espécies dicotiledôneas. A composição das plantas daninhas vem sendo alterada em função de sua dinâmica populacional, de práticas culturais ineficientes e utilização inadequada de produtos herbicidas, ocasionando elevação dos custos de produção e maiores impactos ambientais.
3. Agrotóxicos
De acordo com a legislação brasileira os produtos utilizados na agricultura foram nominados como agrotóxicos, embora muitos profissionais não aceitem esta nominação por entenderem que os mesmos apresentam características de proteção de cultivo muito menos tóxica que outros agentes químicos utilizados em diversas áreas como na própria medicina. O Brasil passou a ser o maior consumidor destes produtos em 2008 com vendas superiores a 7 bilhões de dólares. Segundo as classes de uso, os herbicidas têm sido o agrotóxico mais utilizado na agricultura mundial e consequentemente na agricultura brasileira. Em relatório apresentado pelo IBAMA a comercialização de herbicidas superou 127 milhões de toneladas em 2009 distribuídos em 90 ingredientes ativos e mais de 440 marcas comerciais. Dentre os agrotóxicos mais comercializados destaca-se o glyphosate e seus sais bem como atrazine e 2,4D. Atualmente o glyphosate e seus sais, com suas mais de 60 marcas comerciais registradas, correspondem a aproximadamente 76% do volume comercializado de herbicidas no Brasil. Se olharmos o consumo por estado podemos verificar que em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, e Paraná o herbicidas glyphosate encontra-se entre os cinco agrotóxicos mais comercializados, enquanto a atrazine só não esta entre os cinco mais comercializados no estado do Mato Grosso.
Figura 1. Numero de herbicidas registrados no Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA) para uso na cultura do milho.
a. Consumo de Herbicidas na Cultura do Milho
Na cultura do milho estima-se que o uso de herbicidas tem alcançado aproximadamente 70% das áreas cultivadas com este cereal, onde no verão o uso de associações de grupos de herbicidas tem sido constante, perfazendo em quase 90% das áreas tratadas com estes produtos. Na safra de inverno (segunda safra), o uso de apenas uma só molécula (atrazine) tem ocorrido na maioria das aplicações.
4. Resistência/tolerância de plantas daninhas
A alteração da comunidade infestante pode acontecer em função de herbicidas que selecionem espécies menos sensíveis ao produto utilizado, com o passar do tempo estas plantas estarão dominando a população. Espécies foram selecionadas na década de 80 com o uso continuado de metribuzin e imazaquin dificultando o manejo de plantas daninhas na cultura da soja. Euphorbia heterophylla e Acanthospermum hispidum tornaram-se espécies dominantes em sistemas de produção que utilizavam os dois produtos herbicidas. Mais recentemente a utilização continua de sulfoniluréias e algumas imidazolinonas contribuíram para a seleção das espécies Cardiospermum halicacabum, algumas Ipomoea, Desmodium tortuosum, Senna obtusifolia e outras.
Com o sistema de plantio direto algumas espécies foram selecionadas em função da troca de produtos herbicidas para o manejo das plantas daninhas. Digitaria insularis (capim colchão), Spermaccoce latifolia (erva quente) e Erigeron bonariensis tiveram suas frequências aumentadas em função do novo sistema conservacionista implantado. Atualmente, após a inicio da soja transgênica houve um aumento do uso de herbicidas a base de glyphosate espécies como as Commelinas (trapoerabas), Ipomoeas (corda de violas), Richardia brasilienses (poaia branca), Tridax procumbens (erva de touro), Chamaesyce hirta (erva de santa luzia), Chloris polydacyla (capim branco) e Boehavia diffusa (erva tostão) tem aumentado sua incidência nos sistemas de produção que utilizam este grupo de herbicidas.
Manejo inadequado de plantas daninhas na cultura do milho
Atualmente, muito dos problemas verificados no controle de plantas daninhas podem ser minimizados com o uso correto das técnicas de aplicação de defensivos agrícolas.
a. Manejo Inadequado
Falhas no manejo e controle, frente aos entraves impostos pela presença de plantas daninhas que abrangem métodos de controle e práticas culturais inadequados como: controle químicos, seleção desacertada do ingrediente ativo, incompatibilidade entre o período de aplicação e estádio fenológico oportuno da cultura e aplicação em condições de clima, temperatura, doses e períodos desconformes, atuam como agravantes da situação além de fornecer subsídios mínimos para a ocorrência de fenômenos como a tolerância ou resistência a herbicidas. Estas falhas podem ocorrer tanto na dessecação quanto nas aplicações após a implantação da cultura pelos fatores citados como também pelo uso de doses abaixo do limite aceitável para o controle eficaz das plantas daninhas.
b. Tecnologia de Aplicação
Importante salientar que atualmente, muito dos problemas verificados no controle de plantas daninhas podem ser minimizados com o uso correto das técnicas de aplicação de defensivos agrícolas. A escolha de pontas de pulverização específicas para redução do efeito de deriva, que apliquem no volume de calda e na pressão adequados para pulverização somados ao cuidado com o horário de aplicação, onde as temperaturas estejam mais amenas e com umidade relativa do ar igual ou superiores a 60%, são fatores que contribuem para que o produto ou associações a serem utilizadas possam atuar de forma mais eficiente possível no manejo das plantas daninhas.
5. Plantas daninhas resistentes a herbicidas
O surgimento de plantas daninhas resistentes a herbicidas sempre estará associado a mudanças genéticas na população em função da seleção ocasionada pela aplicação repetida de um mesmo herbicida ou herbicidas com um mesmo mecanismo de ação. A variabilidade genética está presente nas populações infestantes e caso um produto é sempre utilizado nesta população, as plantas resistentes irão sobreviver aumentando, nos anos subsequentes, a frequência destas plantas na população até que ocorram somente plantas resistentes.
A resistência de plantas daninhas foi primeiramente notificada no Brasil na década de 80 com o surgimento de Euphorbia heterophylla resistente a herbicidas inibidores da enzima ALS (acetolactato sintase) conforme relatado no site internacional de monitoramento de plantas daninhas resistentes a herbicidas (http://www.weedscience.org/in.asp). A partir desta data outras espécies foram descritas como resistentes, sendo que os herbicidas inibidores da enzima ALS são os produtos que mais selecionaram plantas daninhas resistentes no Brasil e no mundo. Com a introdução das culturas transgênicas resistentes ao herbicida glyphosate, à pressão de seleção imposta pelas glicinas tende a aumentar e consequentemente o surgimento de mais populações resistentes a este grupo herbicida deverão aparece.
Época de dessecação inapropriada para um controle eficaz das plantas daninhas.
Manejo inadequado da cobertura de inverno no período de dessecação antes do plantio da cultura de verão.
Em 2008 houve o primeiro relato de planta daninha resistente aos herbicidas inibidores do fotosistema II (atrazine), Bidens subalternans, ocorreu no Paraná. A preocupação do surgimento de plantas daninhas resistentes baseia-se, por exemplo, no fato de que em populações de B. pilosa já foram detectados resistência a herbicidas inibidores da enzima ALS da família das sulfonilureias e imidazolinonas, herbicidas que são utilizados na cultura da soja, feijão e milho. Outro exemplo de resistência múltipla observada é do Parthenium hysterophorus com resistência aos herbicidas chlorimuron-ethyl, imazethapyr, foransulfuron + iodosulfuron-methyl e chloransulan-methyl herbicidas utilizados em diferentes culturas em sucessão. Com isto o manejo de populações que apresentam esta resistência múltipla do picão preto torna-se de extrema dificuldade, pois estes mecanismos de ação são os mais utilizados nestas culturas em sucessão.
Mais recentemente, o surgimento de Lolium multiflorum (azevém) resistente aos herbicidas inibidores da enzima EPSP sintase (glycines), poderá ocasionar alguma dificuldade de controle da mesma em cultivares de milho resistente ao glyphosate. Isso também pode ocorrer com as espécies Conyza spp. (buva), Euphorbia heterophylla (leiteiro) e Digitaria insularis (capim amargoso) já relatados, no Brasil, como resistentes ao glyphosate.
a. Controle de plantas daninhas tardias para beneficiar a colheita
A aplicação dirigida de herbicidas nas entrelinhas do milho tem um caráter complementar, com o objetivo principal de melhorar as condições de colheita, ajudando o controle das chamadas plantas daninhas tardias. Com o advento das aplicações sequenciais, em que as doses dos herbicidas são diminuídas, a aplicação dirigida de herbicidas nas entrelinhas do milho torna-se cada vez mais importante, complementando a aplicação feita na pré-emergência ou nas fases da pós-emergência.
Esses herbicidas são aplicados nas entrelinhas do milho, de forma que o jato do pulverizador atinja somente as folhas baixeiras e não atinja as folhas de cima do milho. Para que isso seja possível, as plantas de milho devem estar no estádio acima de quatro pares de folhas (pós-emergência avançada), com uma altura mínima de 40 a 50 cm. Os herbicidas usados nessa operação não são seletivos para o milho e podem causar injúrias à planta se a pulverização não for direcionada. Essa é uma operação limitada pela altura das plantas de milho. Se o milho estiver muito alto, a barra do pulverizador pode quebrar a cana do milho.
Essa modalidade de controle tem sido adotada e alguns equipamentos já estão disponíveis no mercado. Entre os produtos mais comumente utilizados estão os herbicidas à base de paraquat e glufosinato de amônio, que têm ação de contato e não apresentam efeito residual. Cuidados devem ser tomados com a aplicação de herbicidas sistêmicos não seletivos, evitando o contato do produto com a planta de milho.
Manejo inadequado de plantas daninhas na cultura do milho
Infestação de plantas tigueras de soja em plantio da cultura do milho
b. Operações de pós-colheita
A não ser em caso de produtores que dispõem de um conjunto de irrigação que possibilite replantar a área colhida com uma cultura de inverno, ou, no caso de áreas mantidas em sistemas agrícolas de sucessão, como a safrinha, uma vez realizada a colheita, as áreas permanecem, em muitos casos, abandonadas até seis meses, deixando um espaço de tempo livre para as plantas daninhas se multiplicarem através de suas estruturas reprodutivas. Para que na safra seguinte a população de plantas daninhas não esteja aumentada, o produtor deverá controlá-las antes da reprodução. Para tal podem ser usados os herbicidas para o manejo de plantio direto, ou algum meio mecânico para roçar a parte aérea.
c. Dessecação
A dessecação como método de redução da infestação, deve ser realizada de forma a não permitir que as plantas daninhas produzam sementes, o que vem ocorrendo com maior eficácia com o uso das combinações de produtos de ação total com herbicidas de pré-emergencia com grande espectro de ação. Esta deve ser realizada de forma que a cultura inicie no limpo, com uma ou duas aplicações dependendo da infestação na área. Aplicações muito antecipadas podem favorecer a presença de plântulas na época de plantio da cultura, o que poderá ocasionar efeitos competitivos mais precoces. Para evitar isso, à aplicação de herbicidas dessecantes com ação de contato a base de paraquat, tem sido utilizada no momento do plantio. A introdução de novos ingredientes ativos, a exemplo do saflufenacil, permitirá uma melhor rotação de produtos, ampliando o controle das espécies daninhas no momento da dessecação.
d. Manejo da Resistência
Para prevenir ou retardar o aparecimento destas plantas é recomendada a utilização da rotação de culturas, do manejo adequado dos herbicidas com rotação de mecanismos de ação diferenciados, da prevenção da disseminação de sementes através do uso de equipamentos limpos, monitoramento da evolução inicial da resistência e, o controle das plantas daninhas suspeitas de resistência antes que as mesmas produzam sementes. O uso de subdoses ou a superdoses poderá contribuir na seleção de indivíduos resistentes no ambiente, entretanto seu uso não criará nenhuma planta daninha resistente.
Na cultura do milho, o uso dos cultivares resistente a herbicidas já é uma realidade, entretanto, o manejo de plantas daninhas resistentes ou não aos herbicidas não deve tomar as proporções alcançadas na cultura da soja, visto que o uso de produtos do grupo das triazinas tem sido a base para o controle destas neste cereal. Por essa razão, os sistemas que incluem o milho em sucessão ou rotação tornam-se importante no manejo das plantas daninhas, pois várias espécies resistentes selecionadas, principalmente na cultura da soja, como a Euphorbia heterophylla (leiteiro), Bidens spp (picão preto), Conyza spp (buva), são susceptíveis a atrazina e a simazina.
Cuidados devem ser tomados pelos agricultores quando da utilização de cultivares de milho resistente a herbicidas quando presente na sucessão ou rotação com outras culturas que apresentem resistência ao mesmo grupo herbicida. Exemplo disto, o cultivo do milho safrinha em diferentes regiões do Brasil, que geralmente vem após o cultivo da soja, ambas as culturas com resistência ao glyphosate. Com isso, se o uso do manejo de plantas daninhas, através do controle químico, não for bem planejado, poderá haver aumento da pressão de seleção, contribuindo para o surgimento muito mais rápido de das espécies resistentes aos herbicidas.
O uso de culturas de cobertura de solo apresentam efeitos supressores sobre as plantas daninhas. Exemplos destes efeitos podem ser verificados através do sistema de integração lavoura pecuária com a utilização de algumas brachiarias reduzindo a incidência da buva. Outros exemplos muito difundidos são o efeito da aveia preta e do azevém na redução da densidade e biomassa seca de plantas daninhas.
Ressalta-se, portanto, que o uso da rotação e ou sucessão de culturas é um método cultural de controle complementar para plantas daninhas resistentes aos herbicidas fazendo com que o sistema produtivo seja eficiente na redução do tempo necessário para a seleção desta resistência.
6. Milho transgênico resistente a herbicidas
A agricultura moderna (atual) tem sido referencia com a introdução de cultivares resistente a herbicidas obtidos através de mutação ou da inserção de genes. Na cultura do milho a liberação de cultivares resistente a herbicidas inicialmente ocorreu em maio de 2007 com a liberação para comercialização do evento T-25 que confere a resistência ao herbicida glufosinato de amônio. A partir deste outras liberações foram realizadas, setembro de 2008, entretanto estes novos eventos, NK603 e GA21, conferem resistência ao herbicida glyphosate. A partir de setembro de 2009, a liberação para comercialização de cultivares geneticamente modificado apresentava resistência a herbicidas já estavam sendo associados à resistência a insetos. Em novembro de 2009 houve a liberação para comercialização de cultivares que apresentavam a associação de três genes de resistência o que conferiam resistência ao glyphosate, ao glufosinato de amônia e a resistência a insetos, começando uma nova era de inserção de vários genes com diferentes características agronômicas.
7. Manejo de cultivares resistentes em culturas resistentes a herbicidas
Espera-se assim, como vem ocorrendo na cultura da soja, que plantas guaxas ou tigueras resistentes a determinados grupos de herbicidas venham se tornar plantas de difícil controle para os agricultores por apresentarem resistência ao mesmo mecanismo de ação de herbicidas usados em culturas de sucessão como o milho.
Publicado na Revista Plantio Direto edição 124, julho/agosto de 2011.