Minhocas Urobenus sp.


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Publicado em: 01/08/2011

Minhocas Urobenus sp.: das matas para as áreas sob plantio direto

Marie L. C. Bartz1, George G. Brown2, Marcio Gonçalves3, Marcos Locatelli4,Samuel W. James5 & Dilmar Baretta61Pós-Doutoranda na Universidade do Estado de Santa Catarina/Centro de Ensino Superior do Oeste, Chapecó/SC,bartzmarie@gmail.com;2Pesquisador na Embrapa Floresta, Colombo/PR, browng@cnpf.gov.br;3Mestrando do Curso de Pós-Graduação em Manejo do Solo na Universidade do Estado de Santa Catarina/Centro de Ciências Agroveterinárias, Lages/SC;4Graduando do Curso de Zootencia na Universidade do Estado de Santa Catarina/Centro de Ensino Superior do Oeste, Chapecó/SC;5Pesquisador e Taxonomista no Biodiversity Institute/University of Kansas, Kansas/EUA, sjames@ku.edu; 6Diretor de Pesquisa, Professor e Pesquisador na Universidade do Estado de Santa Catarina/Centro de Ensino Superior do Oeste, Chapecó/SC, dilmarbaretta@gmail.com.

As minhocas, organismos símbolo do plantio direto no Brasil, são reconhecidas por desempenharem papel chave nos processos de fertilidade do solo e podem servir como indicadoras de qualidade do mesmo. A presença ou ausência, a quantidade e a diversidade de espécies de minhocas podem também indicar a sustentabilidade dos sistemas de manejo adotados numa propriedade agrícola. Além disso, existem espécies que são normalmente indicadoras de ecossistemas naturais (florestas) e outras indicadoras de ecossistemas perturbados como agroecossistemas ou plantios florestais.

O projeto SisBIOTA, coordenado pelo Dr. Dilmar Baretta, diretor de Pesquisa da Universidade do Estado de Santa Catarina/Centro de Ensino Superior do Oeste (UDESC/CEO), e financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (FAPESC), está avaliando a importância das propriedades físico-químicas e da biodiversidade de organismos do solo como indicadores da qualidade ambiental no estado de Santa Catarina. O projeto inclui avaliações da qualidade do solo em sistemas de plantio direto, integração lavoura-pecuária, pastagem, reflorestamento de eucalipto e vegetação nativa (floresta e campo) e envolve a colaboração de pesquisadores de instituições nacionais e internacionais (UDESC, FURB, EMBRAPA Florestas, USP/ESALQ, USP/CENA, Instituto Butantan, Université de Rouen – França, Universidade de Coimbra – Portugal, Kansas University – EUA).

Em agosto de 2011, nas avaliações realizadas em Xanxerê, Chapecó e São Miguel do Oeste, entre outras minhocas comumente encontradas em áreas agrícolas assim como novas espécies (Fimoscolex, Glossoscolex, Amynthas, Dichogaster spp.), encontraram-se indivíduos do gênero Urobenus, considerado indicador de ecossistemas bem preservadas (matas nativas) e/ou com densa camada de matéria orgânica superficial. A espécie Urobenus brasiliensis, descrita pelo inglês William Benham em 1867, é frequentemente encontrada em florestas na região Sul e Sudeste do Brasil, e sua ausência em sistemas cultivados havia sido atribuída à movimentação do solo e/ou à ausência de uma densa e diversificada camada de serapilheira, necessária para a sobrevivência desta minhoca.

De modo geral, as comunidades de minhocas são influenciadas em diferentes sentidos pelo tipo de uso do solo que integra um número variado de fatores de manejo: enquanto o uso de químicos e o preparo do solo agem negativamente, a fertilização com materiais orgânicos ou as rotações de culturas podem beneficiar as minhocas (Figura 1). No caso específico da minhoca Urobenus sp., ainda não se conhece muito sobre sua biologia (ciclo de vida), mas sabe-se que ela habita a camada superficial do solo (0 a 10 cm) e é altamente exigente de proteção da camada orgânica (palhada) que a protege do sol, assim como de teores elevados de matéria orgânica, que é sua fonte de alimento.

Figura 1. Práticas de manejo agrícola afetando as populações e a diversidade de minhocas tanto positivamente quanto negativamente, dependendo primariamente dos seus efeitos no solo e sua adequação como habitat para as minhocas.

A constatação dessa espécie e seus casulos (cápsula que abriga o embrião das minhocas, equivalente ao ovo) (Figura 2 e 3), em lavouras sob plantio direto e de integração lavoura-pecuária sob plantio direto na região Oeste de Santa Catarina, indica que estes sistemas, igual às florestas da região, oferecem condições para a sobrevivência desta espécie, que provavelmente migrou da mata para os campos agrícolas. A presença dessa espécie é importante, pois além de indicar altos teores de matéria orgânica no solo, sua atividade na superfície desses ecossistemas auxilia na incorporação da palhada ao solo e na aeração da camada superficial. Com o projeto SisBIOTA, espera-se confirmar o papel dessa e de outras espécies de minhocas como indicadoras da qualidade do solo e a importância do manejo agrícola como ferramenta fundamental para a sustentabilidade ambiental dos ecossistemas avaliados, em especial evidenciar mais um benefício do sistema plantio direto (mínimo revolvimento do solo, manutenção de cobertura permanente do solo e rotação de culturas com adubação verde): o de ”preservar a biodiversidade de espécies de minhocas nativas”.

Figura 2. Minhoca Urobenus sp. e seu casulo (cápsula que contém o embrião da minhoca).

Figura 3. Casulo da minhoca de Urobenus sp. em lavoura sob plantio direto.

Referências

Brown, G. G.; Senapati, B.K. ; Pashanasi, B.; Villenave, C.; Patrón, J.C.; Lavelle, P.; Barois, I.; Blakemore, R.J.. Earthworms stimulate plant production. In: Brown, G.G.; Fragoso, F. (Org). Minhocas na América Latina: Biodiversidade e ecologia. Londrina: Embrapa Soja, p. 509-517, 2007.

Publicado na edição 124 da Revista Plantio Direto, julho/agosto de 2011.