Sobressemeadura de Forrageiras


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Publicado em: 01/08/2011

Sobressemeadura de forrageiras: aumento da disponibilidade de pasto e palha

Luís Armando Zago MachadoEngenheiro Agrônomo, MSc., Pesquisador, Embrapa Agropecuária Oeste, Dourados, MS.E-mail: zago@cpao.embrapa.br

A integração lavoura-pecuária (ILP) tem sido uma importante forma de diversificação e rotação de culturas, principalmente para as lavouras de verão, porque permite diminuir o risco da atividade agrícola, além de aumentar a disponibilidade de palha para realização do plantio direto. Para a atividade pecuária este sistema é interessante porque possibilita reduzir ou eliminar a estacionalidade da produção de forragem. O aumento temporário de área com pastagens anuais, em sucessão às culturas de verão, pode suprir a falta de forragem que ocorre durante a estação seca (MACHADO; CECCON, 2010). Desta forma, o agricultor continua com a maior parte de sua propriedade na produção de grãos, durante o verão, e, na estação seca (inverno), época em que as culturas apresentam maior risco ou menor lucratividade, o produtor passa a produzir pasto e se dedica a engorda de animais ou a produção de leite.

Nestes sistemas, grande parte dos problemas de falta de pasto é solucionada, mas ainda pode haver redução na disponibilidade de forragem na transição das estações das águas e seca. Nos meses de abril a maio, a queda na temperatura e a menor incidência de chuvas determinam redução no crescimento das pastagens perenes; as forrageiras anuais ainda estão em fase de estabelecimento e não apresentam condições de pastejo.

Algumas práticas e tecnologias estão sendo estudadas visando o aumento da disponibilidade de pasto para este período. Uma das soluções é a sobressemeadura de forrageiras, pratica que permite antecipar o estabelecimento de pastagens. Imitando o que ocorre na natureza, as sementes da forrageira são distribuídas na superfície do solo para germinar antes da colheita da cultura para grãos, normalmente a soja. A sobressemeadura de forrageiras sobre a pastagem nativa visando à formação de pastagens de inverno, é utilizada na região Sul do Brasil. Nesta condição o método é limitado, já que a pastagem nativa continua com algum crescimento e compete por água e nutrientes com as espécies que estão se estabelecendo. Outra modalidade de sobressemeadura é feita com a distribuição das sementes no final do ciclo das culturas anuais de verão. Nessa mesma região, o azevém é implantado em sobressemeadura nas áreas de soja, com relativo sucesso.

Na região Centro-Oeste, alguns agricultores tem obtido bons resultados com a sobressemeadura de espécies de Brachiaria em áreas de soja (Figura 1), porém ainda faltam estudos. Lara Cabezas (2004) obteve resultados promissores com sementes de milheto revestidas com polímero. Pacheco et al. (2008) obtiveram resultados satisfatórios com a sobressemeadura de forrageiras, em quatro estádios de desenvolvimento da soja. De acordo com Altmann (2011), a sobressemeadura deve ocorrer entre os estádios R 5.2 e R 6 da soja. De acordo com Pacheco et al. (2009) a ausência de folhas de soja na superfície do solo, resulta na maior emergência das sementes forrageiras.

Figura 1. Brachiaria ruziziensis estabelecida em sobressemeadura no final do ciclo da soja, Faz. Boa Esperança, Rio Brilhante, maio/2009

Em trabalhos desenvolvidos na Embrapa Agropecuária Oeste, em Dourados, MS, com a semeadura de Brachiaria brizantha cv. Marandu, em diversos estágios de crescimento da soja, foi observado melhor resultado quando esta operação ocorreu no estádio V 2 (Figura 2). Neste estudo, utilizando cultivar de ciclo médio, e com a sobressemeadura no final do ciclo da soja (R 6), realizada no final do mês de fevereiro, não foram obtidos resultados satisfatórios (MACHADO et al., 2007). A provável causa do insucesso pode ter sido o uso de forrageira inadequada e a falta de umidade para a emergência das sementes, já que neste período (final de fevereiro) as chuvas já não são muito frequentes.

Figura 2. Número de plantas de Brachiaria brizantha cv. Marandu quando semeada em diferentes estágios de desenvolvimento da soja. Fonte: adaptado de Machado et al. (2007).

Novos estudos foram conduzidos com soja de ciclo precoce para que a sobressemeadura das forrageiras fosse realizada no início de fevereiro, antes da queda das folhas da soja, no estádio R 6. Os resultados foram animadores, sendo que a emergência de plantas foi maior em 2008, quando as precipitações foram normais e a soja apresentava bom desenvolvimento. Além disso, na semana posterior à sobressemeadura, ocorreram diversas precipitações, que totalizaram 81 mm (Figura 3). Em 2009, as precipitações ocorridas no verão foram inferiores à média, comprometendo o desenvolvimento da soja. Na semana posterior à sobressemeadura, as precipitações ocorridas somaram apenas 42 mm e as temperaturas foram mais elevadas que em 2008. Para que ocorra sucesso na sobressemeadura é necessário tempo úmido e chuvoso por alguns dias após esta operação (LANDERS, 2007). Além dos aspectos meteorológicos, Altmann (2011) destaca que o sucesso da sobressemeadura está relacionado ao ciclo de crescimento da cultivar de soja e à espécie semeada.

Figura 3. Temperaturas médias e precipitações ocorridas no período de 11 de fevereiro a 17 de março, de 2008 e de 2009, em Dourados, MS.

No presente estudos foram empregadas as taxas de semeadura de 4 kg/ha de sementes puras viáveis (SPV) para B. ruziziensis, B. decumbens, capim-Tanzânia e capim-Aruana, de 5 kg/ha de SPV para B. brizantha e de 15 kg/ha de SPV para milheto e sorgo-forrageiro.

Nos dois anos de avaliação o capim-Tanzânia apresentou a maior densidade de plântulas emergidas (Tabela 1). Como a sobressemeadura é um assunto relativamente novo, foi utilizada a taxa de semeadura recomendada para uma situação desfavorável, realizada com semeadoura em linha (KICHEL; KICHEL, 2001). Com estas taxas, baseada em peso de sementes foi utilizado maior número de sementes para os capins Aruana e Tanzânia, em relação às demais (Tabela 1).

Tabela 1. Taxa de semeadura, densidade de plantas, relação semente/planta e custo da semente de forrageiras sobressemeadas no final do ciclo da soja, em 2008 e 2009, Dourados, MS.

O número de plantas obtido em todos os tratamentos no primeiro ano com B. ruziziensis, B. decumbens e com os capins Tanzânia e Aruana, no segundo ano, foi suficiente para formação de pastagem de acordo com Kluthcouski e Aidar (2003). Segundo estes autores, o número desejado é de quatro a seis plantas por m2 de B. brizantha, quando consorciada com culturas. Já de acordo com Zimmer et al. (1983), para que uma pastagem tropical se estabeleça a contento, são necessárias 10 a 20 plantas por m2, dependendo do hábito de crescimento das espécies. Atenderam a este critério todos os tratamentos do primeiro ano e, apenas o capim-Tanzânia, no segundo.

A percentagem de sementes que geraram plântulas foi variável em função das espécies e do ano. As sementes de capim-Tanzânia foram as que geraram mais plântulas, superior a milheto e capim-Xaraés, não sendo significativamente diferentes de B. ruziziensis e B. decumbens.

O fato do capim-Tanzânia ter apresentado maior número de plantas emergidas talvez tenha relação com o tamanho reduzido de suas sementes, que é 7,5 vezes menor que as de capim-Xaraés. Estas sementes devem ter ultrapassado a camada de palha com maior facilidade e logo atingiram a superfície do solo.

A percentagem de sementes que geraram plântulas pode demonstrar melhor a habilidade de uma determinada espécie em germinar na superfície solo, em número absoluto de plantas/m². No primeiro ano, 69% do total de sementes puras viáveis do capim-Tanzânia emergiram, sendo significativamente superiores às demais, embora sem diferir de B. ruziziensis e B. decumbens. Já no segundo ano, quando ocorreram menores precipitações, apenas 6% das sementes puras viáveis de capim-Tanzânia geraram plântulas; mesmo assim, foram superiores às demais espécies, não diferindo das duas citadas anteriormente, além do sorgo-forrageiro.

O aumento da quantidade de sementes pode viabilizar a sobressemeadura de algumas espécies, porém, o custo das sementes deve ser levado em consideração. Num ano desfavorável, se for dobrada a taxa de semeadura de B. decumbens e de B. ruziziensis, é possível atingir uma densidade de plântulas mínima para formação de pastagem, de acordo com os critérios estabelecidos por Zimmer et al. (1983), a um custo com semente semelhante ao do capim-Tanzânia. Esta alternativa coincide com as observações feitas por Landers (2007), de que na sobressemeadura, é necessária utilização de uma taxa de semeadura de 2,5 a 3 vezes maior que o recomendado para a espécie.

A produção de forragem foi significativamente maior para os capins Tanzânia, Aruana, B. ruziziensis e B. decumbens, em relação a milheto e sorgo. A maior densidade de plântulas do capim-Tanzânia não garantiu maior produção de forragem em relação ao capim-Aruana, B. ruziziensis e B. decumbens; porém, a forrageira se estabeleceu mais rapidamente e foi mais produtiva na primeira avaliação. Desta forma, o solo foi coberto mais rapidamente, evitando o estabelecimento de plantas daninhas. Este é um fator que deve ser considerado, porque ao fazer a sobressemeadura, não é possível realizar a dessecação pré-colheita, como também não pode ser aplicado graminicida após a colheita da soja. A maior densidade de plantas também contribui para a antecipação da entrada dos animais na área (Figura 5).

Figura 4. Plantas de capim-Tanzânia emergidas antes da colheita da soja.

Figura 5. Antecipação do início do pastejo com a sobressemeadura de forrageiras.

A escolha da espécie depende do propósito a que se destina o cultivo da forrageira. Se o objetivo é o uso sob pastejo, durante a estação seca, os capins Tanzânia e Aruana são mais indicados, porque em estudos conduzidos por Machado et al. (2009) e Machado e Assis (2010), foi verificado que estas forrageiras são mais produtivas que as demais nos meses de agosto e setembro, momento que há menor disponibilidade de forragem. Porém, o custo da semente é mais elevado e no caso do capim-Tanzânia, quando do retorno de culturas anuais, é preciso uma dose maior de herbicida para controlá-lo e ainda necessita mais tempo entre a dessecação e a semeadura da cultura de verão. As forrageiras B. ruziziensis e B. decumbens também podem ser utilizadas sob pastejo, mas principalmente para a cobertura do solo, pela facilidade de manejo da palhada.

Como a sobressemeadura é feita a lanço, com distribuidor acoplado a trator ou avião, a uniformidade na distribuição não é uma tarefa fácil, pois as sementes são muito pequenas e leves. O revestimento das sementes com materiais mais densos pode melhorar a uniformidade da distribuição, mas também, pode haver seu desprendimento e estratificação na caixa, causando o entupimento do dosador. Além disto, alguns materiais aderidos à semente podem interferir na emergência. Substâncias como carbonato de cálcio e os fosfatos podem competir por água, no momento da emergência. O adesivo utilizado no revestimento também pode dificultar a emergência caso não seja adequado ou se for utilizado em grande quantidade.

A sobressemeadura pode ser uma importante ferramenta para os agropecuaristas que utilizam sistemas de integração lavoura-pecuária.

Quando esta prática for realizada no início do estádio R6 da soja, as forrageiras conseguem emergir antes da colheita da oleaginosa. O capim-Tanzânia é a espécie mais adaptada a esta prática por emergir com facilidade na superfície do solo. Antecipando a emergência da forrageira é possível ganhar alguns dias na formação da pastagem e em caso de insucesso, ainda há a possibilidade de semeadura da forrageira após a colheita da soja. Com isto, aumenta-se a disponibilidade de pasto para alimentação do rebanho durante o início da estação seca e, com manejo adequado de pastagem, sobra palha para realização do plantio direto da cultura seguinte.

Referências

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Publicado na Revista Plantio Direto, edicao 124, julho/agosto de 2011