Breve Retrospectiva de 2011 (Editorial)


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Publicado em: 01/02/2012

Breve retrospectiva de 2011

Luiz Ataides JacobsenEngº Agrº. Emater/RS. Passo Fundo.jacobsen@emater.tche.br

O movimento denominado Primavera Árabe tem início na Tunísia e em 14 de janeiro é deposto o mandatário deste país. Os protestos em prol da democracia chegam à Síria, no Egito tira do poder o ditador-presidente no cargo desde 1981 e põe fim num regime de 33 anos no Iêmen. Ativistas chineses inspirados pelos acontecimentos árabes promovem manifestações em todo o país. Cuba aprova conjunto de medidas abrindo espaço para o capital privado e a propriedade privada ressurge na ilha caribenha, enquanto que a Rússia depois de 18 anos de espera passa a fazer parte da Organização Mundial do Comércio.

Contrastando, nos Estados Unidos, protestos populares atribuem aos grupos financeiros a responsabilidade pela crise econômica e o desemprego no país. O movimento conhecido como ”Ocupem Wall Street” gerou protestos similares em muitas grandes cidades do mundo que a partir de outubro contabiliza 7 bilhões de habitantes. Somando a isto as dificuldades econômicas na União Européia, pode-se assegurar que 2011 não foi monótono.

O Brasil e o agronegócio nacional se não passaram incólumes pelas escaramuças no campo econômico e político internacional, pelo menos não foram vítimas de grandes abalos. As expectativas iniciais de crescimento da economia nacional senão foram atingidas pelo menos não foram decepcionantes como aconteceu em 2009. O crescimento da economia brasileira foi projetado em 4,5% no mês de janeiro de 2011 pelo Fundo Monetário Internacional, mas a projeção caiu para 3,8% em setembro. Instituições nacionais estimam que o Brasil deverá crescer 3,6% em 2011.

A taxa SELIC começou 2011 em 10,75% e empregada como uma das ferramentas para conter a inflação que parecia avançar além da meta, foi elevada para 12,5% entre 21 de julho e 20 de agosto, passando a partir daí assumir direção descendente até chegar ao final do ano em 11,00%. A inflação, medida pelo IPCA, depois de mostrar-se aquecida acabou ficando em 6,5%, ou seja, o teto estabelecido pelo governo, mas mesmo assim acima dos 5,91% apurados em 2010. Com a inflação de 6,5% no ano a taxa real de juro de um empréstimo agrícola captado a 6,75% (nominal) significa 0,23%.

No comércio externo o Brasil teve um saldo positivo de US$ 29,80 bilhões, superando em 47,02% o saldo da balança comercial de 2010. O resultado foi o melhor desde 2007 quando a balança comercial foi superavitária em US$ 40,03 bilhões.

As exportações agropecuárias mantiveram seu bom desempenho, pois cresceram 23,75% sobre o ano anterior e foram responsáveis por 36,9% do total das exportações nacionais em valor (Quadro 1). O destaque ficou por conta do complexo soja que participou com 25,5% das exportações agropecuárias, seguido pelo setor sucroalcooleiro, cujo crescimento foi expressivo graças aos bons preços praticados no mercado externo e onde o açúcar é responsável por 92,34% das exportações do segmento. O setor de carnes que vinha ocupando o segundo lugar no ranking das exportações agropecuárias, além de ceder espaço para o álcool e o açúcar teve redução de 1,6% no volume exportado em 2011 quando comparado com o período anterior, mas mesmo assim cresceu 14,7% em valor. Dentre as carnes exportadas apenas a de frango apresentou leve crescimento (2,14%) no volume exportado, enquanto que o volume de carne bovina reduziu em 10,96% e a carne suína em 4,40% no comparativo com o ano anterior. No caso comércio exterior de milho, mesmo que o volume tenha sido inferior ao de 2010 o valor das exportações cresceram 22,82% graças ao preço médio de US$ 277, 45/t muito acima dos US$ 197,98/t de ano anterior. Em síntese, o desempenho favorável das exportações agropecuárias deveu-se mais aos preços internacionais do que o crescimento do volume exportado. Dentre os principais produtos da pauta exportadora, a exceção ficou por conta do complexo soja, cujo volume cresceu 10,77% e do algodão que além ter aproveitado cotações elevadas, incrementou em 47,98% o volume. Por conta principalmente no aumento das exportações de trigo e arroz o segmento de cereais também apresentou crescimento de 4,96% na quantidade exportada.

Quadro 1. Valor das exportações agropecuárias nacionais por setores selecionados (US$ milhões).

Do lado das importações agropecuárias que somaram US$ 17,08 bilhões em 2011, destacou-se a importação de papel e celulose com US$ 2,12 bilhões, trigo (US$ 1,83 bilhões), pescados (US$ 1,25 bilhões), borracha natural (US$ 1,10 bilhões), além de lácteos e malte, respectivamente com importações de US$ 616 e US$ 503 milhões. Em 2011 o setor de lácteos manteve-se deficitário na balança comercial.

Os dados até aqui apresentados refletem a balança comercial da agropecuária nacional e não do agronegócio como algumas publicações apresentam, pois estas não contemplam as importações de adubos ou fertilizantes (Cap 31 da NCM) por exemplo, que em 2011 somaram 20.712.575 toneladas no valor de US$ 9,14 bilhões. Em 2011 só o estado do Rio Grande do Sul, totalmente dependente do mercado externo no setor de fertilizantes, importou 3.473.473 toneladas no valor de US$ 1,62 bilhões. No Brasil houve incremento de 34,23% nas importações de 2011 sobre o ano anterior. Segundo a Associação Nacional para a Difusão de Adubos (ANDA) a entrega de fertilizantes ao consumidor final de janeiro a novembro de 2011 havia crescido 16,3% sobre igual período de 2010.

No segmento de máquinas agrícolas automotrizes a fabricação de tratores e colhedoras ficou um pouco abaixo dos números alcançados em 2010, mas mesmo assim o resultado não pode ser considerado decepcionante. Segundo a Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA) em 2011 foram fabricados 63.403 tratores de rodas, dos quais 12.616 exportados e também a fabricação de colhedoras automotrizes foi de 7.566 unidades e 2.389 exportadas. Este segmento encerrou o ano com 19.987 empregos (posição em 31 de dezembro), além de ter obtido uma receita de US$ 3,18 bilhões oriundas das exportações.

A produção nacional de grãos em 2011 pode ser considerada muito boa, com a soja atingindo segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) um récord de 75.324.300 toneladas nos 24.181.000 ha colhidos. A colheita dos principais grãos (soja, milho, arroz e trigo) somou 152.333.100 toneladas, que se concentram na região Sul e Centro-Oeste do país (Figura 1). A colheita de milho na 1ª safra foi de 35.925.900 toneladas com rendimento médio nacional de 4.538 kg/ha e 6.183 kg/ha na região Centro-Sul. Esta produção somada as 21.588.300 toneladas da 2ª safra totalizou 57.514.100 toneladas, volume bem superior ao consumo de 48.411.500 projetado para 2011, possibilitando a exportação de 9.459.144 toneladas ao preço médio de U$$ 16,65/saca, valor até então não obtido com as exportações deste cereal e ainda manter um estoque de passagem da ordem de 9,5 milhões de toneladas.

Figura 1. Distribuição do somatório da colheita de soja, milho, arroz e trigo no Brasil referente a safra 2010/11 (%).

A colheita nacional de arroz foi de 13.613.100 toneladas, concentrada no Rio Grande do Sul que contribuiu com 74,13%. A estimativa do consumo nacional foi de 12.500.000 toneladas. A abundante oferta gaúcha proporcionou a exportação de 1.271.855 toneladas do cereal (NCM 10061010 até 10064000).

A produção de trigo da ordem de 5.881.600 toneladas (94,05% na região Sul) teve excelente desempenho sobretudo no Rio Grande do Sul, tanto em quantidade quanto em qualidade, mas mesmo assim enfrentou dificuldades para comercialização no mercado interno e a saída foi a exportação de 2.340.326 toneladas (US$ 297,29/t FOB), destinadas na maioria para países do continente africano. As importações nacionais de trigo atingiram 5.740.445 toneladas (US$ 319,19/t FOB) e 701.464 toneladas de farinha. Do total de grãos importados 79,20% tiveram como origem a Argentina, 11,965 o Uruguai e 6,34% o Paraguai. O estado adquirente da maior parcela das importações foi São Paulo (21,21%), Ceará (14,24%) e Bahia (9,20%).

No Quadro 2 aparecem os preços praticados no mercado internacional para algumas commodities que costumam afetar as cotações no mercado interno.

Quadro 2. Cotações FOB no Golfo do México, portos argentinos e cotação da soja em US$/saca na Bolsa de Chicago. 2011

De maneira geral as cotações registradas no mercado internacional ao logo de 2011 foram favoráveis para a produção brasileira de grãos. Os preços mostraram tendência de crescimento ao logo dos primeiros oito meses e a seguir, em função da crise econômica, sobretudo na Europa, com a consequente valorização da moeda americana, acabaram recuando.

No mercado interno o arroz foi o produto mais penalizado pela abundante oferta. O preço médio recebido pelos agricultores no Rio Grande do Sul que foi de R$ 28,18/saca em junho de 2010 recuou para R$ 18,42 em maio de 2011. O trigo, cereal que também não foi contaminado pelas cotações externas, só não foi mais prejudicado por ter sido atendido pelos programas de apoio à comercialização, sobretudo o Prêmio de Escoamento de Produto (PEP).

Com relação ao câmbio, a moeda norte-americana começa 2011 cotada a R$ 1,6510 e chega no dia 26 de julho valendo R$ 1,5345, o que significa neste período um Real valorizado em 7,59%. A partir de setembro como sempre ocorre quando a economia internacional passa por turbulências, o dólar americano volta a valorizar-se e a moeda nacional fecha o ano desvalorizada em 11,98%.

Publicado na Revista Plantio Direto, edição 127, janeiro/fevereiro de 2012.