Ferrugem Asiática da Soja


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Publicado em: 01/02/2012

Ferrugem asiática da soja: a passos lentos

Emerson M. Del Ponte e Felipe Dalla LanaFaculdade de Agronomia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul - E-mail: emerson.delponte@ufrgs.br

Dentre as doenças que acometem a cultura da soja no Brasil, a ferrugem asiática, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, ainda causa certa preocupação aos agricultores. Além dela, o mofo-branco, a mancha alvo e a antracnose, doenças também causadas por fungos, vêm despertando a atenção nos anos recentes em algumas regiões. Porém, a ferrugem asiática continua sendo a doença-alvo dos programas de controle que se baseiam no uso de fungicidas. A boa notícia, no caso da ferrugem, é que, após uma década de convívio com a doença no Brasil, já se dispõe de alternativas de manejo que resulte em controle eficiente da doença.

Ancorados em resultados da pesquisa, as recomendações e os programas de controle com fungicidas, quando bem conduzidos, tem o potencial de garantir bons níveis de produtividade, mesmo em condições climáticas favoráveis à ferrugem e outras doenças. Em contrapartida, a lavoura exige maior cuidado e investimento e, não raro, custos indiretos podem estar envolvidos, tais como a perda de sensibilidade de populações de patógenos da soja aos fungicidas, fato que tem suscitado questionamentos acerca da sustentabilidade do manejo vigente da doença com fungicidas no longo prazo.

No caso da ferrugem preconiza-se, de maneira geral, monitorar a lavoura quando esta se aproxima do florescimento e fazer uma proteção (química) até a fase final de enchimento de grãos. Dentre aos produtos com melhores resultados, destacam-se algumas misturas comerciais de triazol e estrobilurina aplicadas com uma tecnologia que garanta uniformidade de cobertura e máxima proteção, o que aumenta a chance de se ter uma boa eficiência de controle e retorno do investimento.

Quanto ao manejo, as decisões envolvem quando iniciar as aplicações e o intervalo de reaplicações respeitando o período residual do produto, especialmente quando há condições de risco à doença. O número de aplicações será variável em função dessas decisões que devem levar em conta outros fatores locais e de cunho técnico. Se as decisões não forem acertadas como, por exemplo, iniciar tardiamente a primeira aplicação (quando já há ferrugem na lavoura) ou escolher um produto com baixa eficiência, pode ser tarde demais para recuperar o investimento em se tratando de epidemias ferrugem asiática da soja em anos favoráveis. Por outro lado, não há razão alguma para se utilizar aplicações de fungicidas desnecessariamente, ou seja, quando não está configurada uma situação de risco. As decisões devem ser feitas pelo técnico responsável pela lavoura subsidiado por informações atualizadas e acreditadas como aquelas divulgadas pelo Consórcio Antiferrugem.

Entendendo os padrões de dispersão da ferrugem

Em artigo anterior (Plantio Direto Dez/2010) foi apresentada uma retrospectiva do monitoramento e análise da dispersão da ferrugem asiática após uma década desde a sua detecção no país, com base nos dados divulgados pelo Consórcio Antiferrugem. Uma afirmativa recorrente em qualquer artigo escrito pelos especialistas no Brasil, e que é corroborada por aquela análise, é a seguinte: ”em se tratando de ferrugem, nenhuma safra é igual a outra”. A afirmação continua válida e isso ocorre devido à complexidade dos processos que influenciam na dinâmica das epidemias de doenças de plantas especialmente em uma área de cultivo de dimensão continental como é o Brasil.

Dentre os fatores que mais afetam a dinâmica da ferrugem asiática bem como de outras doenças da cultura, destacam-se aqueles relacionados ao clima. As variações relacionadas ao atraso/antecipação no estabelecimento da doença e lento/rápido progresso estão intimamente relacionados com condições de umidade que permitem, primeiro, a sobrevivência do inóculo na entressafra e, posteriormente, facilitam o estabelecimento e progresso das epidemias nas lavouras. Quanto mais cedo a doença se instalar e condições de alta umidade permanecerem, tais como maior frequência de eventos e volume de chuvas, maior a probabilidade de perdas se o manejo não for adequado. Do contrário, condições de estiagem podem retardar o início das infecções e o avanço da doença, especialmente na região Sul do Brasil onde o risco de estiagem é maior.

Monitoramento contínuo

Após anos de monitoramento e estudos dos padrões de dispersão da ferrugem no Brasil já é possível se prever com certa confiabilidade e menor subjetividade, após o início da safra, como a doença irá se comportar no seu decorrer, pelo menos no nível regional. De maneira objetiva, modelos matemáticos da ferrugem permitem quantificar o risco da doença e, quando acoplados em sistemas de informações geográficas, permitem a geração de mapas de risco, informação que pode ser bastante útil no manejo da doença no nível de uma grande região produtora, seja para indicar áreas de risco para a doença se estabelecer ou mesmo, no caso de mapas de prognóstico, embasar as decisões de aplicação de fungicidas.

Na página do Consórcio Antiferrugem (CAF), desde a safra 2009/10, um informativo de risco vem sendo disponibilizado ao público em geral, mas especialmente direcionado à assistência técnica. Em resumo, conforme detalhado no artigo anterior (Plantio Direto Dez 2010), a interpretação do especialista é feita com base na análise dos mapas de risco (30 dias passados e 10 dias futuros) e os relatos de focos divulgados em tempo quase real pela rede de laboratórios do Consórcio Antiferrugem.

Nas duas safras anteriores (2009/10 e 2010/11), um total de 10 informativos foi elaborado, cinco em cada safra. As duas safras foram bastante contrastantes em termos de número de relatos, principalmente devido à entrada precoce e expansão rápida nas regiões do país na safra 2009/10, o que não foi verificado em 2010/11. Para exemplificar, enquanto 333 focos foram registrados até 23 de dezembro de 2009, apenas 38 foram relatados na safra 2010/11, no mesmo período. Seguindo a tendência, um mês depois (23 de janeiro) já havia 1359 relatos em lavouras comerciais na safra 2009/10, contrastando com apenas 219 na safra 2010/11. Com a entrada tardia da doença na safra 2010/11, a doença se espalhou no sul do Brasil apenas no mês de fevereiro, já com potencial de causar bem menos impacto, o que levou a safra ter um recorde de produção com chuvas distribuídas e lavouras protegidas.

Situação e perspectivas para a safra 2011/12

Com base nos dados de dispersão da ferrugem da soja divulgados pelo CAF até o dia 24 de janeiro de 2012, o cenário é de novamente um padrão distinto, mas com certa similaridade com algumas safras anteriores. Até o momento, a safra 2011/12 apresenta-se com o menor número de relatos da ferrugem até essa data em função do atraso do estabelecimento das epidemias. Até o dia 24 de janeiro de 2012 o número de 94 focos relatados pela rede oficial é bastante inferior ao mesmo período na safra passada, quando 250 focos já haviam sido registrados (Figura 1).

Figura 1. Número acumulado de focos de ferrugem asiática em três momentos em cada safra a partir de 2006/07.

Diversos fatores podem ter contribuído para o atraso nas epidemias, em maior ou menor nível de influência, e variável por região produtora. Dentre esses, pode-se citar a consolidação de estratégia eficiente de manejo, como semeadura na época recomendada, vazio sanitário e o controle químico aplicado preventivamente. No entanto, certamente as condições de estiagem no Sul do Brasil contribuíram para retardar sobremaneira a dispersão das epidemias nos Estados do Sul, especialmente no Paraná, cuja rede de laboratórios que foi sempre referencia quanto à agilidade e divulgação de focos de ferrugem, demonstra que a estiagem contribuiu para retardar o avanço da doença no mês de janeiro. Já no estado do Mato Grosso, o retorno das chuvas nos meses de dezembro e janeiro tem contribuído para a dispersão da doença, o que resultou no aumento do número de relatos oficiais conforme previsto nos mapas de risco que, desde o primeiro informativo de risco da safra, em meados de dezembro, já se alertava a presença de condições de mais alto risco para a doença.

Nos três informativos de risco preparados na presente safra, o terceiro divulgado em 19 de janeiro, de maneira consistente foi previsto um baixo risco da doença para a região sul do Brasil e mais alto risco em todos os períodos na região Centro Oeste, especialmente no Mato Grosso (Figura 2). Como perspectiva até o final da safra, é possível que os números continuem baixos mesmo que a doença disperse rapidamente em determinadas regiões com o retorno das chuvas no sul do Brasil. No Centro-Oeste a cultura já está próxima do final do ciclo, portanto com pouco potencial de dano para essas lavouras, mas que exige ainda atenção em áreas plantadas tardiamente em função da presença local do inóculo e persistência das chuvas, que pode inclusive prejudicar as operações de colheita.

Figura 2. Mapas de monitoramento de risco climático para a ferrugem asiática da soja no periodo critico para o estabelecimento e progresso das epidemias no Brasil nas safras 2010/11 e 2011/12. Fonte: www.consorcioantiferrugem.net - informativos de risco.

Como a história se repete e máxima deve prevalecer, duas safras de aparente tranquilidade podem ser sucedidas por uma safra similar ou mesmo pior do que àquelas em que o controle foi mais difícil devido ao avanço precoce da ferrugem. Ficar de olho no monitoramento e previsão de ocorrência de fenômenos climáticos como El Niño e La Niña quando nos aproximamos de um novo plantio pode ser um indicador de como será a batalha contra a ferrugem, uma vez que até o momento algumas relações entre padrões de clima e de dispersão da ferrugem no Brasil já estão bem conhecidas.

Publicado na Revista Plantio Direto, edição 127, janeiro/fevereiro de 2012.