Ferrugem asiática: situação atual na região dos Chapadões nos estados de MS, MT e GO
Edson P. Borges, Alfredo R. Dias, Renato A. Guazina e Rafael A. BorgesPesquisadores da Fundação Chapadão - Área de Fitossanidade - edsonborges@fundacaochapadao.com.br
Nos últimos anos, a ferrugem asiática tem se tornado um dos relevantes problemas para o agronegócio das principais regiões produtoras no Brasil. Isso porque pode causar acentuadas perdas técnicas e econômicas, refletindo negativamente na rentabilidade do produtor e até mesmo na economia do país. Em condições ótimas, as perdas na produtividade podem variar de 10% a 90%. A sua chegada a partir da safra 2001/02, perdas de 13 bilhões de dólares já foram atribuídas a esta doença, segundo dados do Consórcio Antiferrugem (2009). As perdas causadas pelas epidemias de ferrugem asiática são causadas pela redução da área foliar disponível e necessária a fotossíntese, pela queda prematura das folhas e do aumento dos custos de produção com a utilização de um número elevado de pulverizações de fungicidas.
A ocorrência da ferrugem pode variar de um ano para o outro, tanto no progresso temporal do número de relatos (mês e número de ocorrência) quanto no padrão espacial das epidemias (local de ocorrência). Segundo dados obtidos em estudo realizado por Spolti et al. (2009) a taxa de incremento máximo no número de focos indiferente a safra foram observados entre os meses de janeiro e março, período que pode ser definido como crítico no desenvolvimento de epidemias. O atraso no início das epidemias regionais pode estar relacionado à redução da quantidade de inoculo inicial na safra sob influência do clima ou outros fatores, dentre eles, destaca-se o vazio sanitário que consiste na eliminação de soja voluntária interrompendo o ciclo no patógeno na entressafra não permitindo que o fungo faça a ”ponte verde” entre uma safra e outra.
Na região dos Chapadões, em levantamento realizado pela Fundação Chapadão, observa-se uma variação no comportamento da doença entre uma safra e outra, porém é nítido observar um retardo no inicio das epidemias após a implantação do vazio sanitário, com redução do número de focos da doença e também quanto ao momento de detecção do primeiro relato. Comparando as safras 2006/07 e 2007/08, antes e após o vazio sanitário respectivamente, houve um atraso de 25 dias na entrada da doença nas lavouras da região. Na safra seguinte, 2008/09, caracterizou-se como uma safra tranqüila em relação à ferrugem, com índices da doença baixos durante os meses de dezembro e janeiro. Já na safra 2009/10 a pressão da ferrugem foi maior em relação à safra anterior em função do clima propício na região com inverno chuvoso, o que não é comum para a região dos Chapadões, permitindo desta forma a multiplicação dos uredosporos de P. pachyrhizi em plantas daninhas ou em soja tigüera que sobreviveu às margens de matas, postes de energia e estradas, não sendo controladas dentro do período de vazio sanitário.
Durante a safra 2010/11 observou-se um atraso no inicio do surgimento da ferrugem asiática em lavouras na região dos Chapadões, em comparação as safras anteriores, sendo constatado no mês de janeiro. A intensidade da epidemia nesta safra foi baixa, considerando como uma safra tranqüila em relação à ferrugem. Este fato pode estar relacionado ao clima não propício para o desenvolvimento do patógeno (inverno seco) e a redução da quantidade de inóculo inicial na safra devido à obediência e cumprimento do vazio sanitário.
A safra atual de soja tem apresentado alguns problemas na região Sul e Central, no caso de Mato Grosso do Sul, devido, principalmente, aos fatores climáticos, com a falta de chuva e temperaturas elevadas no inicio do plantio afetando o desenvolvimento inicial da cultura, comprometendo a expectativa de produtividade das lavouras. Esses problemas vêm sendo ocasionados pelo fenômeno ”La Niña”. Em relação à ferrugem asiática até o momento (15/01/12), não há relatos de focos da doença no Estado, porém os produtores devem estar em alerta já que em algumas lavouras a soja ainda se encontra em estádio de florescimento, momento mais vulnerável à infecção e devido os Estados vizinhos como Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Paraná já apresentarem foco da doença e o clima tende a se regularizar e as chuvas começam a ficarem mais intensas. Nos meses de janeiro e fevereiro o clima geralmente é favorável para o desenvolvimento e disseminação da ferrugem na região merecendo atenção dos agricultores.
Apesar de ser um ano influenciado pelo fenômeno ”La Niña” onde se caracteriza por períodos de estiagem durante a safra não se descarta a importância do monitoramento das lavouras durante todo ciclo da cultura identificando o foco nos primeiros sintomas, intensificando neste período em que a chuva tende a se regularizar, onde o clima úmido e quente se torna propício para o surgimento da doença. Neste momento além do monitoramento é importante destacar que para controlar a doença de forma eficaz, é fundamental a escolha correta do fungicida, dando preferência aos produtos com mistura de triazól e estrobilurinas, ampliando o espectro da proteção devido modo de ação diferencia-do entre esses grupos químicos; uso correto de técnicas de aplicação integrando escolha da ponta de pulverização e volume de calda, ajustados ao alvo e a cultura, proporcionando adequada distribuição do produto na planta protegendo todos os terços, principalmente no terço inferior (baixeiro); e não menos importante, o momento ideal para aplicação do fungicida.
Em relação à aplicação de fungicida, alguns trabalhos mostram comportamentos diferentes no controle da doença em relação ao momento e número de aplicações, podendo comprometer a eficiência do produto caso seja aplicado em período errado. A média estimada do número de aplicações para o controle da ferrugem asiática esta entre 2 e 3 aplicações por hectare, dependendo da época de plantio, da cultivar, da tecnologia empregada e especialmente do monitoramento efetivado por cada produtor.
Alguns produtores dispensam o monitoramento e adotam aplicações calendarizadas em suas lavouras, podendo levar ao insucesso no controle da doença, por iniciar a aplicação tardiamente em áreas onde as plantas já apresentam severidade elevada da ferrugem ou fazer aplicações desnecessárias.
O monitoramento da doença, na lavoura e região ou até mesmo das massas de ar vindas de outros Estados que tenham foco da doença, é importante para a definição tanto das aplicações inicias, que podem ser realizadas de forma preventiva quando a presença de foco na região ou curativa no surgimento dos primeiros sintomas na lavoura; quanto para as reaplicações, levando em consideração as condições climáticas, estádio de desenvolvimento da planta, período de residual do produto e a severidade da doença na cultura. Então, a dica para controlar a ferrugem de forma eficiente é: Acertar o momento da primeira aplicação, não errar a segunda e se necessário realizar a terceira e quarta aplicação.
Com a utilização de fungicidas para o controle da ferrugem asiática na cultura da soja, dependendo do produto a ser aplicado outras doenças também são controladas, agindo sobre a mancha-alvo, oídio, antracnose e doenças de final de ciclo, porém não se devem deixar de lado outras medidas que possam auxiliar no manejo dessas doenças, como a escolha da cultivar, rotação de cultura, nutrição equilibrada das plantas, sementes de boa qualidade livres de patógenos, utilizar população de plantas e espaçamento entre linhas adequadas para cada cultivar.
Outra doença que merece atenção pelos sojicultores é causada pelo fungo Sclerotinia sclerotiorum, sendo conhecida por mofo-branco ou podridão branca da haste. Devido seu alto grau de polifagismo sendo capaz de atacar mais de 400 espécies de plantas e por apresentar estruturas de resistência (escleródios) uma vez introduzida em uma área cultivada, este fungo constituem problema de difícil de controle.
Em regiões altas (acima de 600 metros) do Brasil que registram temperaturas noturnas amenas (variando de 10-21°C) e chuvas abundantes esta doença vem causando sérios danos a cultura da soja com perdas significativas, podendo chegar a 50%.
Para minimizar as perdas causadas por esse patógeno são recomendadas diversas táticas de manejo, dentre elas o uso de sementes livre do patógeno e tratadas com fungicidas, rotação de culturas com plantas não hospedeiras (milho, aveia branca, trigo, sorgo, milheto ou braquiária), manutenção da cobertura do solo com palhada, plantas com arquitetura mais eretas e resistentes ao acamamento em conjunto com aplicações foliares de fungicidas no período em que a soja se encontra mais vulnerável a infecção, da plena floração (R2) ao início da formação de vagens (R4).
O uso dos fungicidas, com princípios ativos procimidona, iprodione, fluazinam, fluopyram, dimoxystrobin e boscalid tem apresentado bons resultados de controle, diminuindo a incidência e severidade da doença. A associação da aplicação de fungicidas e outras medidas de manejo são estratégias que visam evitar o desenvolvimento de populações do patógeno resistentes aos produtos disponíveis no mercado, proporcionando resultados satisfatórios contra esse patógeno.
Referências Bibliográficas
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SPOLTI, P.; GODOY, C. V.; DEL PONTE, E. M. Sumário da dispersão em larga escala das epidemias de ferrugem asiática da soja no Brasil em quatro safras (2005/06 a 2008/09). In: Resumos da Reunião do Consórcio Antiferrugem Safra 2008-09, Londrina: Embrapa Soja, p. 11-19, 2009.
BORGES, E. P.; TOMQUELSKI, G. V.; ANSELMO, J. L.; KANEKO, F. I.; LEAL, A. J. F. Pesquisa Tecnologia e Produtividade, Safra 2010-11. Chapadão do Sul, 4 ed., p. 234, 2011.
Publicado na Revista Plantio Direto, edição 127, janeiro/fevereiro de 2012.