Podridão de Fitoftora da Raiz e da Haste da Soja


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Publicado em: 01/02/2012

Podridão de fitóftora da raiz e da haste da soja

Erlei Melo Reis1, Ricardo Trezzi Casa2, Andrea Camargo Reis1 e Anderson Danelli11Faculdade de Agronomia da Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, RS - erleireis@upf.br2Universidade do Desenvolvimento de Santa Catarina, CAV/UDESC, Lages, SC

Autoria das imagens: Dirceu Gassen; Flavio Gassen; Erlei Melo Reis e capturadas na internet.

Introdução

Esta doença radicular tem ocorrido com freqüência nos cultivos de soja no sul do Brasil. Não ocorre generalizadamente e com muita intensidade numa grande região mas sim de forma localizada e em partes da lavoura.

A severidade da doença e os danos correspondentes dependem da suscetibilidade do cultivar, da precipitação pluvial, do tipo de solo, da compactação do solo. Provavelmente, o cultivo de cultivares de soja suscetíveis em monocultura, plantio direto e solos compactadas, tem propiciado condições para sua ocorrência freqüente e danos elevados. A doença é mais severa quando o solo é mantido encharcado por vários dias quando as plantas são ainda jovens momento em que ocorre a infecção.

Na presente safra (2011/12), embora com a ocorrência de déficit hídrico (Figura 1), a doença de maior ocorrência em lavouras de soja é (15/12/11) a podridão radicular de fitóftora.

Figura 1. Com a ocorrência de déficit hídrico a podridão radicular de fitóftora foi a doença de maior ocorrência em lavouras de soja na safra 2011/2012.

Nomes comuns

Recebe as denominações populares de podridão de fitóftora ou podridão negra da base da haste da soja. Não somente causa podridão radicular, mas também, da base da haste por isso deveria chamar-se de podridão de fitóftora da raiz e da haste da soja.

Danos

O fungo pode atacar as plantas em qualquer estádio de desenvolvimento causando podridão de sementes, morte de plântulas em pré e pós-emergência, murcha e morte de plantas adultas.

Ainda não se tem estimativas dos danos causados por esta doença em soja, no Brasil. Nos Estados Unidos são relatados danos de até 40%.

No Planalto Médio do RS, lavouras cultivadas com cultivares suscetíveis, foram dizimadas por esta doença na safra 2004.

Etiologia

O agente causal é Phytophthora sojae Kauffmann & Gerdemann, pertencente ao Reino Estramenópila (ex-fungos), Ordem Peronosporales, Família Pythiacea (Alexopoulos et al., 1996).

A palavra Phytophthora é de origem grega (Phyto = planta + phthora = destruidor) significando destruidor de planta.

O estramenópila P. sojae, produz esporangióforos simples, indeterminados. Esporângios, ou conídios, tipicamente terminais, piriformes (32–53 x 42-65 µm), não papilados (Figura 2).

Figura 2. Esporângio (conídio) de Phytopthora sojae.

Os microroganismos do grupo dos oomicetos, (Pythium, Phythophthora, Peronospora, Pseudoperonospora, Plasmopara, Bremia, Albugo) classificados como fungos no passado hoje pertencem ao Reino estramenópila (Alexopoulos et al., 1996). Esse grupo de microrganismos se diferencia dos fungos verdadeiros, por várias características estruturais, bioquímicas, fisiológicas e moleculares. Duas características marcantes dos estamenópla são a presença de flagelos e a ausência do ergosteros na membrana celular. Os zoosporos são dotados de dois flagelos laterais um anterior com cílios e outro posterior liso. Os flagelos servem para dar mobilidade ao esporo. Por isso, os estramenópilas desenvolvem em ambientes com água líquida no solo. Os solos desestruturados com períodos de encharcamento oferecem as condições necessárias para o seu deslocamento para encontrar as raízes da soja e penetrá-las.

Outra aspecto é a ausência de formação de ergosterol. Portanto, os fungicidas do grupo dos triazóis e benzimidazóis são ineficientes no controle dos estramenópilas.

Os esporângios germinam indiretamente por uma vesícula evanescente, membranosa, delicada, que rapidamente se expande e se rompe liberando zoósporos completamente formados (Figura 3). Algumas vezes os zoósporos podem permanecer presos dentro do esporângio e ai germinar.

Figura 3. Liberação de zoósporos de Phytophthora do zoosporângio.

Os zooporos, esporos móveis nadam na água líquida no solo, são ovóides, abruptamente apontados num ou nos dois extremos, e achatados nas laterais. Têm dois flagelos, um curto dirigido anteriormente e o outro, quatro ou cinco vezes mais longo e direcionado posteriormente (Figura 4) Ao final do período móvel, que pode durar vários dias, o movimento dos zoósporos se torna lento, e errático precedendo o encistamento.

Figura 4. Zoósporos biflagelado de Phytophthora sojae.

O encistamento pode ser desencadeado por agitação ou por cátions bi ou trivalentes. Os cistos frequentemente germinam imediata e diretamente, produzindo tubos germinativos, os quais geralmente incham para formar um apressório quando em contato com uma superfície sólida. Após curto período de tempo, o crescimento normal do micélio é retomado a partir do apressório. Os cistos, algumas vezes, germinam produzindo zoosporos secundários, deixando vazia a membrana do cisto.

O oosporos (estruturas de dormência ou repouso) se formam após o anterídio fertilizar o oogônio (Figura 5). Os esporos dormentes apresentam parede espessa, lisa internamente, citoplasma finamente granulado, com um corpo esférico refratário no centro o grânulo de reserva bem desenvolvido. Os oosporos podem germinar 30 dias após sua formação. A germinação ocorre em água destilada e é estimulada por níveis baixos de nutrientes e exudatos radiculares.

Figura 5. Oosporos de Phytophthora sojae.

O micélio é cenocítico (sem septos) quando jovem e torna-se septado com a idade. Ramifica-se na maioria das vezes em ângulos retos e há uma pequena constrição na base de cada ramificação. As hifas são de 3-9µm de largura e levemente espiralada.

Variabilidade genética

P. sojae apresenta mais de 39 raças fisiológicas. Por isso, no melhoramento genético da soja deve ser considerada a(s) raça(s) ocorrente. Devido ao fenômeno de variabilidade genética, pode ocorrer a quebra da resistência de cultivares lançados como resistentes. quando surge uma nova raça.

Ciclo das relações patógeno-hospedeiro (Figura 6).

Figura 6. Monociclo da podridão de fitóftora em soja (Danelli & Reis).

Sobrevivência e fontes de inóculo primário

Restos culturais

O parasita P. sojae persiste no solo como oosporos tanto abrigados nos tecidos dos restos culturais como livres no sol após a decomposicão. Os oogônios e oosporos são formados em raízes e hastes infectadas. Muitos oosporos são formados nas raízes, base das hastes de cultivares suscetíveis e tolerantes. Podem sobreviver por muitos anos sem o hospedeiro. Os oosporos germinam com temperatura acima de 15 oC, na primavera e favorável a produção de esporângios. Sua viabilidade pode ser quantificada usando o corante brometo de tetrazólio como descrito por Sutherland & Cohen (1983).

Deposição e penetração

Os zoósporos são atraídos pelas sementes e raízes que liberam no solo a genisteina e isoflavanóides. Se encistam (Paralizam de nadar) na superfície da raiz e imediatamente germinam e a penetram.

Exepcionalmente o fungo pode atacar folhas basais da planta quando partículas de solo contendo o patógeno são respingadas sobre elas durante chuvas. Daí para pecíolos e hastes.

Colonização

As hifas crescem intercelularmente nos tecidos radiculares. O crescimento intracelular ocorre nos hipocótilos. Haustórios digitados e globular penetram as células do hospedeiro em cultivares suscetíveis.

Sintomatologia

A podridão de fitóftora pode ser encontrada em qualquer estádio de desenvolvimento da soja.

Os primeiros sintomas são podridão de semente, e morte de plântulas de pré e pós-emergência, necessitando, as vezes, a ressemeadura de grandes áreas. Tais sintomas ocorrem em solos encharcados após a semeadura e são mal interpretados como sendo apenas o dano da falta de oxigênio pelo saturamento do solo com água (Figura 7).

Figura 7. Morte de plântulas de soja em pós-emergência devido ao parasitismos de Phytophthora sojae.

O tombamento de pós-emergência e a podridão de plântulas e base da haste ocorrem sob as mesmas condições e reduzem a população de plantas.

Plantas

Sintomas em plantas dependem da suscetibilidade ou tolerância do cultivar. No caso dos suscetíveis pode surgir o encharcamento das hastes, folhas amareladas, plantas murcham e morrem.

Plantas adultas morrem em função da infecção que ocorre logo na emergência. Estes sintomas incluem clorose internervural e das margens do folíolo e clorose das folhas superiores seguidos de murchamento. As folhas permanecem aderidas à planta após sua morte

Raízes

Destruição das raízes laterais e podridão intensa da raiz principal, anelamento da haste por lesões. Necrose negra da haste pode atingir o 10º nó antes da planta murchar (Figura 8).

Figura 8. Quadro sintomatológico da podridão de fitóftora em plantas de soja. Observar a podridão negra da base da haste.

Sintomas em lavoura

A doença causa a morte de plantas isoladas, ou em grupos, em rebolerias restando algumas plantas sobrevivente no meio das mortas (Figura 9)

Figura 9. Aspecto da intensidade da podridão radicular de fitóftora em lavoura de soja, cultivada com variedade suscetível.

Fatores ambientais predisponentes a doença

Esta podridão é mais comum em solos argilosos, pesados, fortemente compactados, com pé-de-arado superficial que são sujeitos a saturação e inundação. Inundação por chuva dentro de uma semana após a semeadura cria condições favoráveis ao desenvolvimento da doença. A descompactação do solo tem um efeito pronunciado na redução da intensidade da doença.

A doença ocorre principalmente em lavouras de monocultura da soja, em cultivares suscetíveis, com plantio direto, alto teor de KCl no solo, em cabeceira de lavoras, onde o solo é mais compactado.

Solos compactados e a ocorrência de chuvas rápidas intensas encharcam o solo criando condições para a infecção radicular de cultivares suscetíveis, mesmo em anos com déficit hídrico (Ex. safra 2011/12).

A temperatura ótima para a formação e germinação dos oosporos é 24oC. A temperatura ótima para o crescimento da maioria dos isolados é de 25-28oC.

Diferenças sintomatológicas de outras doenças

As principais características que permitem a diagnose diferencial de outras doenças que ocorrem em soja são a coloração negra da base da planta (Figura 8), ausência de cancros pardos nas hastes e ausência de folha carijó.

Manejo da doença

Dentro do conceito de manejo é indicado:

(i) A medida de controle mais eficiente é o cultivo de cultivares resistentes (Consultar anualmente as Indicações da pesquisa para a cultura da soja sobre a reação dos cultivares); cultivando cultivar resistente não é necessário descompactar o solo;

(ii) Descompactação do solo evitando o encharcamento prolongado (Romper a camada compactada com subsolagem, ou com semeadora com sulcador);

(iii) Rotação de culturas com espécies não suscetíveis como o milho;

(iv) O tratamento de sementes misturas de fungicidas que contenham captana ou metalaxil oferece proteção apenas na fase de germinação da semente. O tratamento de sementes não impede a morte de plântulas ou de plantas.

Literatura citada ou consultada

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Publicado na Revista Plantio Direto, edição 127, janeiro/fevereiro de 2012.