Nematoides em Soja


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Publicado em: 01/04/2015

Nematoides em Soja: distribuição populacional no Rio Grande do Sul

Carolina Cardoso Deuner1; Valéria Cecília Ghissi2; Elaine Deuner3 e Aline Tischer31Dra., Professora e Pesquisadora da Faculdade de Agronomia e do PPGAgro/UPF. carolinadeuner@upf.br2Doutoranda do PPGAgro/UPF.3Alunas do Curso de Agronomia da Universidade de Passo Fundo.

Os nematoides fitopatogênicos são de grande importância para o setor agrícola, podendo causar danos significativos em diversas culturas, como é o caso da soja. Dentre os nematoides fitoparasitas dessa cultura destacam-se no Rio Grande do Sul, o causador de galhas (Meloidogyne javanica), das lesões radiculares (Pratylenchus brachyurus) e o de cisto (Heterodera glycines). Os danos causados por esses nematoides dependem, entre outros fatores, da densidade populacional, da suscetibilidade da cultura e das condições do meio em que vivem (NICKLE, 1984).A ocorrência de nematoides provocando danos à agricultura acontece mundialmente. Desta forma, os levantamentos populacionais destes constituem-se em aliados importantes na detecção e na quantificação dos prejuízos causados em diversas culturas (TIHOHOD, 2000). Segundo Silva et al. (2000), o estudo de ocorrência de doenças e o conhecimento dos níveis populacionais dos patógenos envolvidos são importantes para o direcionamento das atividades e na orientação de medidas de manejo adequadas.

Nematoide de galha

Em todos os países sojicultores das regiões tropical e subtropical, o problema com nematoides do gênero Meloidogyne está se tornando crítico. Entre os nematoides que parasitam a soja no Brasil, destacam-se os gêneros Meloidogyne javanica e Meloidogyne incognita. Existem registros destes nematoides antes do início do cultivo da soja no país e esses tem causado danos crescentes nas regiões produtoras. Isto deve-se a baixa eficiência na rotação de culturas e a carência de variedades resistentes adaptadas as regiões de cultivo. Os nematoides prejudicam a agricultura não somente por reduzir as colheitas, ou seja, pelos danos quantitativos, mas também por danos qualitativos como redução do número e tamanho dos grãos, frutos e tubérculos. Os danos são causados nas raízes podendo variar de 10 a 30%, onde ocorre a formação de galhas que dificultam a absorção de água e nutrientes afetando o crescimento das plantas e podendo torná-las totalmente improdutivas (DEUNER et al., 2012). O sintoma típico do ataque de nematoides do gênero Meloidogyne é a hiperplasia, ou seja, um engrossamento das células do córtex radicular chamada de galha (Figura 1a e 1b). Porém, as galhas não são os únicos sintomas e há casos de ataques por estes nematoides sem o aparecimento dessas malformações (KIMATI et al., 2005). Quando se trata de leguminosa, há a possibilidade de os nódulos causados pelas bactérias fixadoras de nitrogênio serem confundidas com galhas. O que pode diferenciar é o fato de os nódulos poderem ser facilmente destacados da raiz, enquanto as galhas, por ser um engrossamento da própria, não poderão ser destacadas. As folhas das plantas atacadas normalmente apresentam manchas cloróticas ou necroses entre as nervuras, o que caracteriza a folha “carijó”. Outro sintoma que pode ser observado é o amarelecimento da planta, que se verifica pela deficiência de nitrogênio resultante de uma nodulação prejudicada pelo nematoide. O amarelecimento de plantas na lavoura ocorre mais em reboleiras (Figura 1c), e em áreas que o nematoide foi recentemente introduzido, pode não ocorrer sintomas na parte aérea.

Figura 1. Sintomas de galha (a), fêmeas dentro da galha (b) e sintomas de amarelecimento em lavoura de soja causada pelo nematoide Meloidogyne spp.(c).

Nematoide das lesões radiculares

O nematoide das lesões radiculares pertence ao gênero Pratylenchus, mundialmente reconhecido como um dos maiores problemas em culturas de grande importância econômica, como soja, milho, algodão, feijão, café, cana-de-açúcar, forrageiras, hortaliças e frutíferas. Esse gênero ocupa o segundo lugar entre todos os nematoides parasitas de plantas. Atualmente, existem 70 espécies do gênero Pratylenchus que estão distribuídas em todo o mundo, parasitando dezenas de espécies vegetais. No Brasil, as espécies mais importantes considerando as perdas, os danos, a distribuição geográfica e o número de plantas hospedeiras são P. brachyurus, P. zeae e P. coffeae. Nos últimos anos, o P. brachyurus tem causado danos elevados e crescentes, além de perdas preocupantes de culturas em várias regiões do Brasil, especialmente no Cerrado. Os sintomas mais observados pela ação deste nematoide são as necroses e as podridões causadas no sistema radicular das plantas (Figura 2a), isto deve-se as lesões causadas por este nematoide que favorece a entrada de outros agentes patogênicos com fungos e bactérias. Na parte área são observados áreas necrosadas ou murchas, também pode ocorrer desfolhamento quando o ataque for severo, refletindo em danos. Assim como nas outras espécies de nematoides, pode-se observar a formação de reboleiras desuniformes nas lavouras (Figura 2b).

Figura 2. Lesões radiculares (a) e reboleiras desuniformes causadas pelo nematoide Pratylenchus brachyurus em raiz de soja (b).

Nematoide de Cisto

A cada ano a área cultivada com soja vem aumentando significativamente, e consequentemente, novos patógenos surgem causando prejuízos nas lavouras. No ano de 1991/92 foi detectada pela primeira vez no Brasil a ocorrência de H. glycines, conhecido pelo nome comum de nematoide de cisto. No Rio Grande do Sul sua ocorrência foi descrita no ano de 1995 (BONATO, 2002) e atualmente, esse nematoide encontra-se disseminado em todas as regiões produtoras de soja do Brasil, sendo considerado o mais destrutivo na cultura. Os danos nas lavouras de soja causados pelo nematoide de cisto podem variar de 10 a 90% dependendo do nível de infestação do patógeno no solo, da suscetibilidade do cultivar, fertilidade do solo e da raça do nematoide (SANTANA et al., 2009). Os sintomas aparecem em reboleiras e, em muitos casos, as plantas podem ficar atrofiadas e cloróticas com poucas vagens ou acabar morrendo. Os sintomas exibidos na parte aérea podem ser facilmente confundidos com distúrbios fisiológicos, compactação do solo ou deficiência de nutrientes como nitrogênio e potássio. Sendo assim, a maneira de realizar o diagnóstico correto é observar nas raízes pontos brancos ou amarelos que são as fêmeas adultas que emergiram da raiz, que posteriormente vão para o solo e adquirem coloração amarela a marrom dependendo da idade (Figura 3a e 3b).

Figura 3. Raízes de soja com fêmea (a) e cisto contendo ovos e juvenis de Heterodera glycines (b).

O laboratório de Nematologia da Universidade de Passo Fundo-RS vem conduzindo estudos nessa área e mediante a importância do assunto sediou o V Encontro Regional da Sociedade Brasileira de Nematologia em novembro de 2014. Em estudos realizados na UPF de 2012 a 2014, com o objetivo de identificar os gêneros de nematoides presentes no estado e mapear a sua incidência e distribuição populacional foram processadas 420 amostras de solo e 235 amostras de raízes de soja, coletadas em lavouras do Rio Grande do Sul. Como resultado verificou-se que os principais nematoides encontrados foram Pratylenchus spp., Meloidogyne spp. e H. glycines. Desses, destaca-se os dois primeiros, devido a maior incidência nas amostras de solo e raízes avaliadas em todos os anos (Figura 4). No ano de 2012, Pratylenchus spp. e Meloidogyne spp. obtiveram incidência de 21,7%, seguido de H. glycines com 17,4%. Em 2013, a incidência de Pratylenchus spp. foi superior aos demais gêneros com 32,4%, seguido de Meloidogyne spp. com 28,7% e H. glycines com 21,6%. Ao contrário dos anos anteriores, em 2014, a maior incidência foi verificada para Meloidogyne spp. com 38,4%, seguido de Pratylenchus spp. com 31,4% e H. glycines com 4,6%.

Figura 4. Incidência de espécies de nematoides em amostras de solo e raiz de soja nos anos 2012, 2013 e 2014 no estado do Rio Grande do Sul. UPF, Passo Fundo/RS, 2015.

Com relação à distribuição populacional dos nematoides em 2012, verificou-se que foram detectados nematoides em nove municípios da região norte do estado, com destaque para Boa Vista do Cadeado que apresentou nível alto para Meloidogyne spp. no solo (Tabela 1).

Tabela 1. Distribuição populacional de nematoides na cultura da soja em municípios do Rio Grande do Sul no ano de 2012. UPF, Passo Fundo/RS, 2015.

Para o ano de 2013, verificou-se que dos 79 municípios avaliados, Meloidogyne spp. obteve nível alto em 6, Pratylenchus spp. em 16 e H. glycines em 8. Para Meloidogyne spp., os municípios que obtiveram nível alto no solo foram Não-Me-Toque, Santa Bárbara do Sul, Tio Hugo e Victor Graeff, e nas raízes foram Boa Vista do Incra, Passo Fundo, Santa Bárbara do Sul e Tio Hugo. Para Pratylenchus spp., o município que obtive nível alto no solo foi Coqueiros do Sul, e nas raízes foram Catuípe, Serro Largo, Chapada, Estrela Velha, Gaurama, Guarani das Missões, Ibirubá, Não-Me-Toque, Passo Fundo, Paulo Bento, Salto do Jacuí, São Luiz Gonzaga, Tapejara, Três de Maio e Vacaria. A detecção de cistos de H. glycines em nível alto foi verificada nos municípios de Boa Vista do Incra, Cerro Largo, Erval Grande, Santa Bárbara do Sul, Santiago, Santo Ângelo, São Luiz Gonzaga e Tupanciretã (Tabela 2).

Tabela 2. Distribuição populacional de nematoides na cultura da soja em municípios do Rio Grande do Sul no ano de 2013. UPF, Passo Fundo/RS, 2015.

Em 2014 foram avaliados 37 municípios, sendo que Meloidogyne spp. obteve nível alto em 8, Pratylenchus spp. em 3 e H. glycines em 1. Para Meloidogyne spp., os municípios que obtiveram nível alto no solo foram Almirante Tamandaré, Boa Vista do Incra, Nicolau Vergueiro, Santo Antônio do Planalto, São Miguel das Missões e Tapera, e nas raízes foram Almirante Tamandaré, Guarani da Missões, Passo Fundo e Tapera. Para Pratylenchus spp., o município que obtiver nível alto no solo foi Almirante Tamandaré e nas raízes foram Almirante Tamandaré, Erechim e Ibirubá. A detecção de cistos de H. glycines em nível alto foi verificada somente no município de Saldanha Marinho (Tabela 3).

Tabela 3. Ocorrência de nematoides em municípios do Rio Grande do Sul no ano de 2014. UPF, Passo Fundo/RS, 2015.

O Rio Grande do Sul apresenta ocorrência generalizada dos nematoides Meloidogyne spp., Pratylenchus spp. e H. glycines, sendo que em alguns municípios apresentam nível alto desses nematoides. Portanto, pressupõe-se que independente do modelo de exploração agrícola adotado pelos agricultores no Rio Grande do Sul, seja monocultura de soja ou rotação de culturas, atrelado ao tráfego intenso de máquinas agrícolas na lavoura, a disseminação dos nematoides que atacam a cultura da soja está aumentando significativamente. Associado a isso, estão outros fatores como precipitação, tipo de solo e cultivo de safrinha, que pode favorecer a manutenção e a multiplicação de algumas espécies de nematoides nas lavouras.Sendo assim, o manejo de nematoides não se dá apenas por meio de uma única ação, mas através de um conjunto de boas práticas agronômicas que irá manter as populações dos nematoides abaixo do limiar de dano econômico, mantendo o rendimento da cultura sem oferecer riscos ao meio ambiente, promovendo no campo uma relação de convivência com estes patógenos (REIS et al., 2012).A eliminação de nematoides em áreas infestadas é praticamente impossível e, além disso, existem as particularidades de cada gênero, sendo que é fundamental conhecer a ocorrência, biologia, sobrevivência, hospedeiros e manejo de cada uma deles visando melhorar a relação de convivência entre patógeno e hospedeiro.

Referências Bibliográficas

DEUNER, C.C. ; GHISSI, V.C. ; TEDESCO, I . Nematoide de galha. In: REIS, E.M.; CASA, R.T.. (Org.). Doenças da soja. ed.:, 2012, v. , p. 385-393.

TIHOHOD, D. Nematologia agrícola aplicada. Jaboticabal: FUNEP, 1993. 372p.

BONATO, E. R. Distribuição do nematóide de cisto da soja (Hetrodera glycines Ichinohe, 1952) no Rio Grande do Sul. Nematologia Brasileira, v. 26, 2002.

KIMATI, H.; AMORIM, L.; REZENDE, J.A.M.; BERGAMIN FILHO, A.; CAMARGO, L.E.A. Manual de Fitopatologia: Doenças das plantas cultivadas, volume II. 4.ed. São Paulo: Agronômica Ceres, 2005. 663 p.

NICKLE WR. History, development and importance of insect nematology. In: WR Nickel ed. Plant and Insect nematodes. New York: Marcel Dekker, p. 627-653. 1984.

REIS, E.M.; CASA, R.T.; DEUNER, C.C.; GHISSI, V.C. Manejo integrado das doenças. In:

REIS, E.M.; CASA, R.T. (Org.). Doenças da soja. ed.:, 2012, p. 405-434.

SANTANA, H. et al. Variabilidade genética em populações de campo do nematóide de cisto da soja provenientes dos estados do Paraná e Rio Grande do Sul. Tropical Plant Pathology, v. 34, n. 4, p. 261-264, 2009.

SILVA, S. A.; JULIATTI, F. C.; SANTOS, M. A.; TAKATSU, A. Ocorrência de fitonematóides em amostras recebidas no laboratório de nematologia da UFU no período de 1997 a 1999. In:

CONGRESSO BRASILEIRO DE NEMATOLOGIA, 22., 2000, Ubelândia: Anais... Uberlândia: UFU, 2000. p. 123.

Artigo publicado na edição conjunta 142 e 143 da Revista Plantio Direto, julho a outubro de 2014.