Quanto de Grãos de Soja o Rio Grande do Sul Deixou de Colher na Safra 2020/21 em Função da Redução da Eficácia no Controle da Ferrugem Asiática pelos Fungicidas Sítio-Específicos? (Erlei Melo Reis + Andrea Camargo Reis + Mateus Zanatta, Instituto AGRIS)


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Publicado em: 01/08/2021

6 Edição 182 Digital - plantiodireto.com.br Quanto de grãos de soja o Rio Grande do Sul deixou de colher na safra 2020/21 em função da redução da eficácia no controle da ferrugem asiática pelos fungicidas sítio-específicos?

Erlei Melo Reis1, Andrea Camargo Reis1 e Mateus Zanatta1 1Instituto AGRIS, Passo Fundo, RS erleireis@institutoagris.com.br Introdução A importância da soja [Glyci- ne max (L.) Merr.] no agronegóccio brasileiro pode ser avaliada pela extensão da área cultivada que na safra 2020/21 foi estimada em 38,2 milhões de hectares e pela produ- ção de grãos na safra anterior de 133,817 mihões de toneladas. No Rio Grande do Sul, na mesma sa- fra, a área cultivada estimada foi de 6,06 milhões de hectares (Co- nab. 2021). A cultura é tão atrativa aos produtores de tal maneira que a área cultivada e a produção de grãos tem aumentado safra após safra. O preço pago pelo saco de 60 kg de grãos atingiu R$ 153,00, na Cotrijal, em Não-Me-Toque, RS, em 28 de julho de 2021. Mesmo as- sim, os produtores esperam maior produtividade, redução do custo de produção, maior preço da soja e maior lucratividade! As doenças da soja que inter- ferem no processo fotossíntético reduzem a área foliar sadia e a efi- cácia na absorção da radiação so- lar pela folhagem refletindo-se na diminuição direta do rendimen- to de graõs (Waggoner & Berger, 1987) o que é indesejável para os produtores. A fitopatologia, parte das ci- ência agrárias, estuda as doenças de plantas tendo como principal objetivo mitigar os prejuízos cau- sados pelas enfermidades parasi- tárias (bactérias, fungos, nematói- des e vírus). A ferrugem asiática da soja (FAS), causada pelo fungo Phakop- sora pachyrhizi Sydow & Sydow (Sydow & Sydow, 1914) tem sido por duas décadas a doença que maior redução causa no rendi- mento de grãos. Se essa doença não causasse dano e não reduzisse o lucro dos produtores, esta infor- mação não faria sentido. No entan- to devem se preocupar evitando gastos desnecessários procurando sempre aumentar o lucro. Em fitopatologia dano é a re- dução da qualidade e da quantida- de da produção causada por um agente nocivo (Nutter et al., 1993) no presente caso a FAS. DOENÇAS

A principal estratégia de con- trole da FAS é a aplicação de fungi- cidas na folhagem visando a ma- nutenção da área sadia por mais tempo possível. Os três fungicidas mais usados são: IDMs, IQes e ISDHs, todos pene- trangtes móveis e sítio-específi- cos, que nas primeiras safras de uso apresentavam controle > 80% (Reis et al., 2017). Porém, nas últi- mas safras apresentam resistên- cia cruzada e múltipla a P. pachyrhi- zi (Klosowski et al., 2016; Schmitz et al., 2014; Simões et al., 2018). Serve de comprovação dessa afir- mação a evolução da redução da eficácia de um fungicida IDM com reflexo negativo no controle da FAS (Figura 1). Este texto visa informar que a atual e crescente redução do con- trole químico da FAS com reflexo Figura 1. Evolução da redução da eficácia de um fungicida IDM no controle da FAS. Fonte: Dados do Ensaio Nacional Cooperativo de Fungicida (Apud, Reis et al., 2017). Foto: Acervo Dirceu Gassen

Tabela 1. Efeito de quatro aplicações de fungicidas no controle da ferrugem asiática e no rendimento de grãos da soja. potência no controle da FAS sendo que o controle variou de 9 a 78%. Behe (1977) chama a atenção de que ‘a ciência sem números não tem valor, ou sem números não há ciência’. Esses dados mostram tam- bém que o rendimento líquido de- pende da eficácia (%) do controle e do preço (R$) do fungicida. Essa redução na eficácia do controle se reflete direta e linear- mente no rendimento de grãos (Fi- gura 2). Nesse exemplo, a partir do rendimento das parcelas sem fun- gicida (1.927,9 kg/ha), cada ponto percentual de controle incremen- tou 31,63 kg/ha de grãos da soja. O rendimento máximo é ob- tido com controle > a 80% como mostrado na Figura 2 e por Reis et al. (2021a). Portanto, segundo os dados da Tabela 1, apenas um fun- gicida resultou em controle próxi- mo (78%). O montante de redução da produção em função da redução da eficácia dos fungicidas, na área 6,06 milhões de hectares cultivada de soja no RS na safra 2020/21 (Co- nab, 2021) é visualizado na Tabela 2. Foi utilizada no cálculo a função matemática, R = 1.927,9 + 31,633 C (onde R = rendimento de grãos e C = controle) (Figura 2). Espera-se que essa análise possa conscientizar os técnicos que prestam consultoria aos pro- dutores de soja e que estejam pre- ocupados com a sustentabilidade econômica dessa oleaginosa. O Engenheiro Agrônomo pode calcular o prejuízo numa la- voura em função da ‘eficácia’ do controle resultante do fungicida utilizado e da área cultivada to- mando como base os dados da Ta- bela 2. Nos 6,06 milhões de hectares cultivados anualmente o estado sofre uma redução na produção de 1.897.980 a 9.489.900 tonela- das devido ao controle da FAS de 70 e 30%, respectivamente. Qual o montante de recursos financeiros que deixa de circular anualmente nos municípios e no estado devido a deficiência do controle da FAS? no menor rendimento de grãos da soja, tem reduzido o lucro dos pro- dutores e, consequente, menor ar- recadação de impostos municipais e estaduais. Se espera que os usu- ários procurem, cientes do desem- penho dos fungicidas, optar pelos mais eficientes e econômicos. O foco do problema levantado é a evolução da redução da eficácia dos fungicidas sítio-específicos usados no controle da doença e, portanto, chamar a atenção do lei- tor de que a eficácia atual do con- trole da FAS se reflete na redução no rendimento de grãos da soja (Tabela 1). Observe que os fungi- cidas não apresentam a mesma

Tabela 2. Simulação da redução no rendimento da soja em função da eficácia do controle da ferrugem asiática da soja em diferentes exten- sões de áreas cultivadas no Rio Grande do Sul. Figura 2. Relação entre o rendimento de grãos da soja e a eficácia do controle. Fonte: Reis et al., 2021b. Preocupada com a redução do controle, a ADAPAR (Agência de Defesa da Agricultura no Para- ná), em gesto histórico em defesa dos produtores, suspendeu o ca- dastro de fungicidas para o con- trole da ferrugem com controle < 80% (Adapar, 2016). Logo a se- guir, o MAPA suspendeu o registro de produtos com controle < 80% (Mapa, 2016). É importante res- saltar que a eficácia de controle de 80% não tem sido obtida em expe- rimentos conduzidos nas últimas safras (ver dados dos Resultados sumarizados dos ensaios coopera- tivos de fungicidas divulgados na internet). Técnicos e produtores devem ter ciência dessas resolu- ções oficiais. Fica evidente que os produ- tores, por meio de uma simples decisão, podem aumentar o ren- dimento da soja optando por fun- gicidas registrados com maior efi- cácia. Os produtos mais potentes devem trazer em sua formulação a mistura duplas ou triplas de sítio- específicos (IDM, ou IQe, ou ISDH) com multissítios (clorotalonil, ou

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