A Cigarrinha Dalbulus maidis e os Enfezamentos do Milho no Brasil


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Publicado em: 01/08/2021

18 Edição 182 Digital - plantiodireto.com.br A cultura do milho pode ser atacada por várias espécies de insetos-pragas, desde a emergên- cia até a fase de maturação. Atu- almente a cigarrinha-do-milho Dalbulus maidis (Delong & Wolcott) (Hemiptera: Cicadellidae) (Figura 1) é considerada uma praga chave na cultura desse cereal pela trans- missão dos patógenos responsá- veis pelas doenças comumente conhecidas como enfezamentos do milho. Os enfezamentos são do- enças provocadas por dois patóge- nos denominados molicutes, que causa o enfezamento vermelho (maize bushy stunt phytoplasma - MBSP), e espiroplasma (corn stunt spiroplasma - Spiroplasma kunkelii - CSS), responsável pelo enfeza- mento pálido, sendo que ambos os patógenos ocorrem no floema e são transmitidos de forma per- sistente pela cigarrinha. Os enfe- zamentos são considerados hoje como um dos principais desafios fitossanitários da cadeia produtiva do milho no Brasil. Além dos enfe- zamentos, a cigarrinha pode tam- bém transmitir o vírus responsá- vel pela doença chamada virose da risca (maize rayado fino virus - MRFV). Dependendo das condi- ções do ambiente, do híbrido utili- zado e da idade em que as plantas são infectadas, essas doenças po- dem provocar perdas expressivas na produtividade da cultura. Aspectos taxonômicos e bioeocológicos da cigarrinha-do-milho A cigarrinha-do-milho é um inseto sugador pertencente a or- dem Hemiptera e família Cicadelli- dae. Como outros representantes de Cicadellidae, D. maidis apresen- A cigarrinha Dalbulus maidis e os enfezamentos do milho no Brasil Crébio José Ávila1, Charles Martins de Oliveira2, Suélen Cristina da Silva Moreira3, Rodolfo Bianco4, Marco Antonio Tamai5 1Embrapa Agropecuária Oeste 2Embrapa Cerrados 3Fundação Chapadão 4Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná 5Universidade do Estado da Bahia Figura 1. Adulto da cigarrinha-do-milho, Dalbulus maidis (presença de duas manchas circulares negras entre os olhos compostos) (A) e pre- sença de adultos da cigarrinha no interior do cartucho do milho (B). PRAGAS

ta quatro fileiras de espinhos nas tíbias das pernas posteriores. Os adultos apresentam co- loração amarelo-palha, medem de 3,7 a 4,3 mm de comprimento e apresentam duas manchas cir- culares negras facilmente visíveis na parte dorsal da cabeça, entre os olhos compostos, característica que facilita a sua identificação no campo (Figura 1A). Desloca-se la- teralmente sobre a planta quando perturbada e pode ser encontrada preferencialmente no cartucho das plantas de milho (Figura 1B). As fêmeas são geralmente maiores que os machos e fazem postura endofítica, ou seja, inse- rem seus ovos no mesófilo das fo- lhas do milho, preferencialmente próximo da nervura central. O período embrionário é de cerca de 8 dias e as ninfas (fase jovem) passam, em geral, por cinco insta- res com duração média de 17 dias à temperatura de 26ºC. Os adultos apresentam longevidade de 51 a 77 dias e cada fêmea pode oviposi- tar entre 400 a 600 ovos. O ciclo de ovo a adulto varia de 15 a 27 dias, dependendo da temperatura e da umidade do ambiente. O milho é a única planta hospedeira para a cigarrinha-do- milho no Brasil, onde o inseto se abriga, se alimenta e se reproduz, completando seu ciclo biológico. Entretanto, durante os períodos de entressafra, a cigarrinha pode uti- lizar outras espécies de gramíneas para alimentação ou abrigo, po- rém sem se reproduzir, tais como sorgo, braquiárias, capim colo- nião, marmelada, aveia, trigo, tri- ticale e cana-de-açúcar, especial- mente, quando estes hospedeiros são cultivados próximos ao milho. Em condições adequadas, a cigar- rinha-do-milho pode ser capaz de produzir de 4 a 6 gerações durante o período de cultivo do milho. Agentes causais, modo de transmissão e danos causados por D. maidis e pelos enfezamentos na cultura do milho Os enfezamentos (vermelho e pálido) são doenças sistêmicas e vasculares causadas por molicutes (fitoplasma e espiroplasma), que são bactérias que não apresentam parede celular. Esses patógenos se alojam e colonizam os vasos condutores (floema) do milho pro- vocando desordens fisiológicas, hormonais e bioquímicas, que se refletem em sintomas foliares e na formação das espigas menores e deformadas, prejudicando assim o desenvolvimento e, consequente- mente, reduzindo a produtividade. O modo de transmissão dos molicutes pela cigarrinha-do-mi- Figura 2. Folha do milho com presença de fumagina. Figura 3. Sintomas do enfezamento vermelho em milho.

lho é do tipo persistente e propa- gativa. Persistente, porque após a aquisição dos patógenos em plan- tas com sintomas de enfezamen- tos, o inseto permanece infectivo por praticamente toda a sua vida. Propagativa, pois os patógenos se multiplicam e circulam no corpo do inseto vetor. Após adquirir os patógenos em plantas doentes, a cigarrinha-do-milho necessita de 3 a 4 semanas para ser capaz de transmitir os patógenos, chama- do de período latente. O período de retenção dos patógenos no in- seto, ou seja, por quanto tempo a cigarrinha permanece infectiva é relativamente longo (três a quatro semanas). Embora períodos entre 60 e 120 minutos sejam suficien- tes para a cigarrinha adquirir o patógeno, e períodos entre 30 e 60 minutos para a cigarrinha trans- mitir o fitoplasma e espiroplasma, respectivamente, períodos maio- res de alimentação aumentam a eficiência tanto da aquisição como da transmissão. No milho, a cigarrinha pode causar danos diretos quando as ninfas e os adultos se alimentam da seiva, no floema das plantas, embora esse tipo de dano seja pe- queno e pontual em comparação aos danos causados pela trans- missão dos patógenos. Todavia, quando ocorre em alta população, a cigarrinha pode sugar a seiva das plantas e excretar uma subs- tância açucarada decorrente de sua alimentação, denominada de “honeydew”. Essa substância ex- pelida pela cigarrinha favorece a proliferação de fungos do gênero Capnodium que causam a fumagina no limbo foliar, deixando a super- fície da folha do milho escura (Fi- gura 2). A ocorrência de fumagina resseca as folhas do milho pela maior absorção do calor solar e interfere negativamente na fotos- síntese da planta, podendo assim afetar o desenvolvimento e a pro- dutividade da cultura. Todavia, os maiores danos causados pela ci- garrinha no milho são decorrentes da sua capacidade de transmitir de forma eficiente três patóge- nos para as plantas de milho que causam os enfezamentos e a viro- se da risca. De um modo geral os enfezamentos podem reduzir em mais de 70% a produção de grãos na planta doente de uma cultivar de milho susceptível, em relação à uma planta sadia. A redução da produtividade é sempre direta- mente proporcional à incidência de plantas com enfezamento. Sintomas dos enfezamentos Os sintomas dos enfezamen- tos manifestam-se caracteristica- mente em maior intensidade na fase de produção das plantas de milho. Os sintomas do enfezamen- to vermelho geralmente se carac- terizam pelo avermelhamento das folhas, ocorre das bordas para o centro e no ápice das folhas, se- guido por seca que também ocorre das bordas para o centro das folhas (Figura 3). Já os sintomas do enfe- zamento pálido são caracterizados por lesões em formas de estrias cloróticas, que percorrem a base das folhas paralelamente às ner- vuras (Figura 4). Além desses sin- tomas foliares é possível observar outras alterações nas plantas de Figura 4. Sintomas do enfezamento pálido em milho.

milho como o encurtamento dos internódios, redução na estatura das plantas, espigas pequenas, fa- lhas na granação, grãos chochos, proliferação de espigas, emissão de perfilhos na base das plantas, plantas improdutivas, prolifera- ção de radículas e colonização de outros patógenos como os fungos dos gêneros Pythium e Fusarium, especialmente na base do colmo das plantas. Também pode ocor- rer um aumento considerável no quebramento e tombamento das plantas, particularmente nas cul- tivares suscetíveis. No campo, porém, esses sin- tomas podem se confundir, tor- nando muito difícil distinguir os dois tipos de enfezamento, sen- do comum também a ocorrência simultânea dos dois patógenos numa mesma planta. O diagnós- tico baseado em sintomas nem sempre é conclusivo na distinção visual entre os enfezamentos ver- melho e pálido e, às vezes, pode ocorrer confundimento com ou- tras doenças e deficiências nutri- cionais. A correta identificação das doenças só é possível por meio de análises em laboratório utilizan- do-se a técnica de PCR (Polimerase Chain Reaction) com oligonucleo- tídeos (primers) específicos capa- zes de determinar qual patógeno está presente nas plantas ou mes- mo no inseto-vetor. Sintomas da virose da risca Além dos enfezamentos, a cigarrinha-do-milho transmite o vírus responsável pela virose da risca. Os sintomas iniciais se caracterizam pela ocorrência de pontos cloróticos ou linhas-curtas, distribuídas de forma uniforme na parte superior de folhas jovens e, geralmente, nas nervuras secun- dárias e terciárias (Figura 5). Pos- teriormente os pontos tornam-se mais numerosos e coalescem, ao longo das nervuras, formando ris- cas com mais de 10 cm de compri- mento. Essas riscas são facilmente observadas quando as folhas são colocadas contra a luz do sol. As plantas infectadas podem apre- sentar redução no crescimento, abortamento das gemas florais bem como espigas e grãos meno- res que o tamanho normal. Figura 5. Sintomas do vírus da risca em milho.

Panorama dos enfezamentos do milho em algumas regiões do Brasil A ocorrência de surtos epi- dêmicos de enfezamentos cau- sando danos expressivos tem sido observado em várias regiões do Brasil desde à década de 1990. Por exemplo, surtos de enfezamentos já foram registrados em Quirinó- polis/GO (safrinha 1997), Paragua- çu/SP (safra 2001/2002), sudoeste de Santa Catarina e norte do Rio Grande do Sul (safra 2005/2006), sul de Mato Grosso do Sul, sudoes- te de Goiás e no Triângulo Minei- ro (safra 1994/1995). Entretanto, a partir da safrinha 2015, surtos mais graves de maior amplitude e persistência, vem ocorrendo nas regiões de Luís Eduardo Maga- lhães (BA), no sudoeste de Goiás, no Triângulo Mineiro e noroeste de Minas Gerais. Mais recentemente (2020/2021) a região sul do país também tem apresentado proble- mas graves com os enfezamentos. Nos Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o IDR- Paraná e Adapar, Epagri e Emater/ RS, com apoio das respectivas Se- cretarias de Agricultura Estaduais, tem realizado monitoramento de cigarrinhas e do complexo de enfe- zamentos em diversos municípios de todas as regiões produtoras de milho, seja de 1ª ou 2ª safra. Resul- tados desses levantamentos indi- cam que a cigarrinha e os enfeza- mentos se encontram distribuídos em todas as regiões produtoras de milho destas regiões. No entanto, nas amostras de plantas e insetos coletados, após análise por PCR, constatou-se a maior prevalência do enfezamento pálido e em me- nor proporção do enfezamento vermelho e o vírus da risca. Nas regiões norte, centro- oeste e oeste destes Estados (PR, SC e RS) é onde ocorrem problemas mais severos de danos provocados pelo complexo de enfezamentos, os quais se sobressaem nas regi- ões mais quentes, com baixa al- titude e com período mais longo de semeadura ou em regiões com milho de 1ª e 2ª safra, em sequ- ência. Essa maior incidência dos enfezamentos também ocorre nas regiões com bacia leiteira, quando o milho de silagem é semeado em diferentes épocas, a exemplo de Toledo, PR. Também, maior po- pulação de cigarrinhas tem-se ve- rificado nas semeaduras de milho antecipadas, em pequenas áreas e isoladas, formando ilhas de atra- ção. Neste caso, devido à alta capa- cidade migratória das cigarrinhas, ocorre o chamado efeito de con- centração, quando a área é peque- na e os insetos são muitos. Nessa situação deve-se, necessariamen- te, recomendar cultivares com alta tolerância aos enfezamentos, além é claro, de todas as boas práticas agrícolas descritas na Figura 7. Na região sul do estado de Mato Grosso do Sul, em geral, não ocorre o cultivo de milho no verão, época em que predomina o cul- tivo extensivo de soja. Dessa for- ma, as populações da cigarrinha- do-milho que colonizam o milho safrinha na região, cultivado em sucessão à soja, são oriundas de populações migratórias do inse- to-vetor que chegaram de outras regiões produtoras de milho no país, sendo essas populações co- lonizadoras relativamente baixas inicialmente. Entretanto, com o aparecimento de milho tiguera em meio ao cultivo da soja, especial- Figura 6. Número médio mensal de cigarrinhas, Daubulus maidis, capturadas/armadilha ade- siva em cultivos de milho de verão e de safrinha em Dourados/MS e Ponta Porã/MS, durante dois anos consecutivos.

Figura 7. Conjunto de boas práticas agrícolas para o manejo dos enfezamentos do milho e das populações da cigarrinha Dalbulus maidis. mente do milho RR (resistente ao glifosato) que é de difícil controle químico, as populações da cigar- rinha e o inóculo dos patógenos tem ocorrido com mais frequência e em níveis populacionais mais altos no cultivo safrinha. Esse ce- nário sugere que o milho tiguera tem atuado como uma ponte ver- de tanto para o inseto-vetor como para os patógenos causadores dos enfezamentos do milho. No Cerrado do Oeste da Bahia os primeiros casos de tombamen- to de plantas, quebra e/ou podri- dão do colmo, começaram a ser relatados em 2013, especialmente em lavouras de milho irrigado cul- tivadas no outono/inverno, na fase de enchimento de grãos. Em 2015, na mesma época do ano, o fenôme- no tornou-se mais comum e como resultado de um trabalho conjunto entre a consultoria Círculo Verde Pesquisa, Embrapa e a Pioneer foi comprovado que o problema se tratava dos enfezamentos trans- mitidos pela cigarrinha. Na safra 2015/16 estimou-se em aproxi- madamente 100 mil hectares de milho irrigado com alta infestação da cigarrinha e ocorrência dos en- fezamentos, e de maneira menos intensa em 150 mil hectares de se- queiro. Os prejuízos em algumas áreas irrigadas foram estimados em até 100 sacos/hectare, muito devido a elevada suscetibilidade dos híbridos cultivados na época. Na safra 2020/21 o problema com o inseto continua ainda preocu- pante, porém muito variável entre as sub-regiões, sendo as áreas da Roda Velha, Anel da Soja, Rosário e Jaborandi da Bahia, com histórico de infestações mais severas. As al- tas populações do inseto na região devem-se a diversos fatores, sendo o período prolongado de cultivo do milho, conferido pelas áreas de pi- vô-central para produção de grãos e sementes, como um dos mais relevantes. As condições climáti- cas são favoráveis a ocorrência de gerações consecutivas do inseto, como temperaturas médias anu- ais elevadas e de inverno acima dos 20ºC. O controle menos rigoro- so da praga em áreas de milho sa- frinha de baixo investimento e/ou com potencial produtivo compro- metido pela falta de chuvas é outro obstáculo para a redução popula- cional do inseto e dos patógenos por ele transmitidos. O manejo do inseto melhorou consideravelmente com o passar dos anos. A presença de tigueras de milho em lavouras de soja re- duziu, em consequência do me- lhor manejo de gramíneas como o capim-amargoso e pé-de-galinha. Houve também, após uma forte campanha de conscientização, a redução das áreas de “milho co- bertura”, prática que consiste na semeadura de grãos colhidos para produção de massa, onde não se realiza controle de pragas e doen- ças. Já nos primeiros anos após a constatação do problema, diversos trabalhos foram conduzidos pelas estações de pesquisas privadas da região avaliando a suscetibilidade

dos híbridos comerciais ao com- plexo molicutes/vírus. Campanhas de informação, palestras e dias- de-campo também contribuíram para divulgar as boas práticas de manejo da praga Em Minas Gerais o enfeza- mento pálido apresentou incidên- cia que variou de 15,7% a 77,5% e os danos à produção foram es- timados entre 60,7% e 84,1%. Em estudos realizados na Bahia, Minas Gerais, São Paulo e Paraná a inci- dência do enfezamento vermelho foi de 40%, do enfezamento pálido de 35% e por ambas as doenças de 25%. Em Tocantins 30 híbridos co- merciais de milho foram testados e a incidência média de enfeza- mentos nesses híbridos variou de 2,0% a 65,8%. Os materiais com maior susceptibilidade sofreram uma quebra de aproximadamente 30% em relação aos híbridos mais resistentes. Embora a cigarrinha-do-mi- lho e os enfezamentos sejam um problema grave em diversas regi- ões do Brasil, poucos estudos têm estimado quantitativamente os danos provocados por esses pató- genos em nosso país. As estimati- vas de danos em termos de perdas na produção e perdas econômicas são essenciais para o dimensiona- mento dos problemas causados por D. maidis e pelos enfezamen- tos, que podem auxiliar nas toma- das de decisão visando reduzir os impactos negativos causados por essas doenças. Manejo da cigarrinha-do-milho e dos enfezamentos O milho é a única planta hos- pedeira na qual a cigarrinha se re- produz. Dessa forma, a disponibili- dade de plantas de milho, cultivada ou crescendo espontaneamente (tigueras ou plantas voluntárias de milho) é condição essencial para a manutenção e multiplicação do inseto-vetor e dos patógenos que ele transmite, e consequentemen- te para a disseminação dos enfe- zamentos. Na ausência do milho, como nos períodos de entressafra, a cigarrinha pode utilizar a migra- ção a longas distâncias para loca- lizar novas áreas de cultivo desse cereal ou permanecer localmente utilizando outras espécies de plan- tas como alimento ou abrigo ou se multiplicando em milho tiguera. Para o manejo das popula- ções da cigarrinha e dos enfeza- mentos na cultura do milho são recomendadas um conjunto de práticas agrícolas, essencialmente de caráter preventivo, já que não existem medidas curativas para o manejo dessas doenças, e basea- das em táticas de controle quími- co, biológico e cultural da cigarri- nha. A implementação exclusiva de um único método de controle não garante um manejo eficaz do inseto-vetor e das doenças. Em adição, as práticas agrícolas de controle devem ser adotadas de forma conjunta tanto em nível de propriedade como em nível de re- giões produtoras. O controle eficiente do milho tiguera, durante o cultivo de verão, seria uma das mais importantes estratégias para a redução popula- cional da cigarrinha e dos patóge- nos por ela transmitidos nos cul- tivos do milho safrinha. Além do milho tiguera, o cultivo de milho verde para consumo humano em chácaras e sítios da região também contribui para o desenvolvimento populacional da cigarrinha-do- milho e das doenças associadas a ela. Para o manejo da cigarrinha na cultura do milho existem basi- camente as táticas de controle quí- mico, biológico e cultural. Experi- mentos conduzidos na Fundação Chapadão em Chapadão do Sul/ MS, durante a safrinha de 2021 evidenciaram que o uso exclusivo de inseticidas nas sementes ou em pulverização não apresentou efici- ência adequada para o controle da cigarrinha no milho. No entanto, a associação de inseticidas quími- cos aos biológicos proporcionou uma melhor performance na efi- ciência de controle da cigarrinha, quando comparado a utilização dos produtos isoladamente. Com relação ao emprego de inseticidas, o controle da cigarri- nha-do-milho deve ser realizado por meio do tratamento das se- mentes e em pulverizações foliares nas fases inicias da cultura (entre a emergência e a fase V8). O trata- mento de sementes industrial tem sido mais adequado, quando com- parado ao tratamento feito pelos próprios produtores em suas pro- priedades (“on farm”), em razão da maior precisão e uniformidade da dose do inseticida aplicado nas se- mentes. No caso de pulverização, é imprescindível o monitoramento das populações da cigarrinha nas plantas de milho para verificar a necessidade ou não do seu contro- le. A fase inicial da cultura é con- siderada o período crítico para o controle, uma vez que quanto mais precoce for a infecção das plan- tas, maiores serão os prejuízos à produção da cultura. No uso de inseticidas químicos é necessá- rio respeitar a dose e o intervalo de aplicação recomendados pelo fabricante, sendo recomendado também que os produtores façam a rotação de princípios ativos dos produtos visando minimizar o ris- co de desenvolvimento de popula- ções resistentes do inseto-vetor. Entretanto, segundo a Ada- par/Siagro, o controle das cigarri- nhas mediante pulverizações tem resultado num aumento exagera- do na venda de inseticidas para cultura do milho no Estado do Paraná. Na comparação dos dois últimos anos houve um aumento de seis vezes no uso de inseticidas, tanto no milho de 1ª safra, quanto no milho 2ª safra. Esse aumento exagerado trouxe preocupação, tanto do ponto de vista econômico, quanto agroecológico bem como com respeito a ressurgência e re- sistência de pragas aos produtos aplicados na cultura. Observações experimentais e em lavouras co- merciais de milho, quando foram semeadas cultivares suscetíveis aos enfezamentos, mesmo com número exagerado de pulveriza- ções, não houve redução dos da- nos na cultura. Tal fato mostra a relevância da escolha de cultivares

com pelo menos moderada tole- rância às doenças, devendo ser esta a estratégia mais importante para a convivência com o proble- ma. Salienta-se que, com cultiva- res suscetíveis, as doenças sempre aparecem, mesmo reduzindo a população de cigarrinhas na área, tornando assim o controle inefi- caz. Esses resultados confirmam o fato de que medidas de controle tomadas isoladamente tem pouca eficiência no manejo dos enfeza- mentos do milho. Observações visuais da ci- garrinha na cultura do milho em três horários do dia (6h, 12h e 17h) em Chapadão do Sul/MS eviden- ciaram que no período da manhã (6h) as cigarrinhas ficavam em re- pouso, com pouca movimentação, mesmo quando perturbadas. No horário mais quente do dia (12h) o inseto ficava mais concentrado no cartucho da planta, enquanto que à tardinha (17h) as cigarrinhas apre- sentavam-se mais agitadas, prova- velmente, em comportamento de dispersão. Com isso verificou-se que as pulverizações realizadas no final da tarde demostraram uma melhor eficiência de controle da cigarrinha, quando comparado ao período matinal. Essa melhoria da eficiência de controle ocorreu provavelmente porque o inseto com maior mobilidade apresenta maior probabilidade de entrar em contato direto com a calda inse- ticida. Em outro monitoramento da cigarrinha-do-milho realizado em Dourados e Ponta Porã, no sul de Mato Grosso do Sul, os pesqui- sadores constataram que os picos populacionais ocorreram no perí- odo seco da entressafra de milho, em setembro e agosto, para os dois anos consecutivos em que o es- tudo foi conduzido em Dourados (Figura 6). Neste caso, esses picos podem estar relacionados com populações migratórias da cigarri- nha que chegaram após a colheita do milho safrinha de outras regi- ões do país. Como os híbridos comerciais de milho apresentam diferentes graus de resistência/tolerância aos enfezamentos, a semeadu- ra de híbridos mais resistentes/ tolerantes à essas doenças, pode também reduzir os riscos de per- das na produção. Estudos têm de- monstrado que, sob as mesmas condições, alguns híbridos podem apresentar menos de 10% de inci- dência de enfezamentos enquanto outros podem atingir mais de 65% de plantas infectadas. De forma geral, os maiores danos causados pelos enfezamen- tos ocorrem em plantios tardios, muitas vezes com escalonamento de semeadura. Em função da ca- pacidade migratória da cigarrinha e da sua preferência por plantas mais jovens, populações do inseto- vetor sempre abandonam plantios mais velhos e colonizam os plan- tios mais novos, causando um efei- to de concentração tanto das cigar- rinhas como dos patógenos nesses plantios tardios. Por esse motivo a semeadura de novas áreas de milho próximas a plantios mais velhos, com sintomas dos enfeza- mentos, sempre deve ser evitada. Entretanto, em regiões onde não há histórico da ocorrência de enfezamentos ou se a cultura atual não foi implantada em sucessão ao cultivo de milho, apenas o efeito do tratamento da semente poderá ser suficiente para minimizar os ris- cos de ocorrência dessas doenças. Em locais onde a incidência dos enfezamentos se encontra alta, o ideal é que a pulverização, visan- do ao controle da cigarrinha-do- milho, seja realizada simultanea- mente por todos os produtores da região, para evitar o fluxo contínuo do inseto proveniente de migração de áreas vizinhas. O controle biológico em po- pulações da cigarrinha-do-milho ocorre naturalmente por meio da ação de parasitoides de ovos, de ninfas e adultos por predadores e por meio de fungos entomopa- togenicos. O uso de patógenos como Beauveria bassiana ou Isaria fumosorosea, aplicados em pulveri- zação tem se tornando uma ferra- menta importante para o manejo da cigarrinha. Embora a ação dos fungos seja mais lenta que dos in- seticidas químicos, o seu uso é efi- ciente na redução das populações do inseto-vetor para os plantios subsequentes. Há, no entanto, a necessidade de condições climá- ticas favoráveis como a alta umi- dade, condição encontrada prin- cipalmente em cultivos irrigados. Existem hoje produtos à base de fungos entomopatogenicos regis- trados no Mapa para o controle de D. maidis em milho. O escalonamento de plantios e o uso de períodos de semeadura muito amplos, mantêm as plantas de milho no campo por mais tem- po, reduzindo os períodos de en- tressafra, que são essenciais para a diminuição da população do ve- tor. A redução dos períodos de se- meadura parece ser também um ponto essencial para permitir a redução das populações da cigar- rinha durante o período de entres- safra do milho. Durante a colheita do milho, uso de máquinas mal reguladas pode resultar em perdas tanto de espigas como de grãos e sua dis- persão durante o transporte tam- bém é muito comum. Os grãos de milho que permanecem no cam- po após a colheita e/ou são dis- persadas durante o transporte, ao encontrar umidade adequada, germinam e dão origem às plan- tas voluntárias de milho. Assim, a redução das perdas de grãos na colheita e no transporte se consti- tui em uma estratégia para a mini- mizar a disseminação de plantas voluntárias de milho. Como a cigarrinha-do-milho é capaz de sobreviver em muitas espécies de gramíneas por perío- dos prolongados de tempo (até 77 dias), após o cultivo do milho não é recomendado semeadura deste grupo de plantas. Todavia, o culti- vo de braquiária com milho, espe- cialmente no cultivo da safrinha, pode ser utilizado desde que a ci- garrinha seja eliminada por falta de alimento com a dessecação da área para semeadura da soja. Esse cultivo tem se mostrado uma es- tratégia importante para a manu- tenção da cobertura e da umidade do solo, que traz benefícios espe- cialmente para o cultivo da soja implantada no verão subsequente.