26 Edição 182 Digital - plantiodireto.com.br Introdução A crescente demanda por ali- mentos em nível global impulsio- nada principalmente pela China e a redução dos estoques internacio- nais levaram ao aumento da cota- ção das commodities no mercado internacional pandêmico. O Brasil com sua área agrícola de aproxi- madamente 70 milhões de hecta- res tende a aproveitar essa opor- tunidade e consolidar, ainda mais, sua vocação agrícola. Por sua vez, reforça ainda mais o compromisso do empresário rural brasileiro au- mentar sua eficiência na produção de alimentos para atender tanto a demanda interna, reprimida, e a do consumo mundial de forma racional e sustentável. O País é o maior exportador de carne bovi- na por apresentar o maior reba- nho bovino comercial do mundo, e sexto maior produtor de leite, ati- vidade que vem crescendo a uma taxa anual superior à dos países que apresentam produções mais elevadas. Quão importante como o volume da produção é a estabili- dade produtiva: um dos requisitos necessários para o adequado aten- dimento de mercados consumido- res. A pecuária brasileira tem a sua base alimentar em pastagens e é afetada negativamente pela sazo- nalidade da produção em termos quantitativos e qualitativos. Nesse contexto, a conservação de forra- gem pela silagem é uma estratégia a ser utilizada para suprir volu- moso de qualidade aos rebanhos durante o período de escassez das pastagens e garantir a estabilidade produtiva. No inverno, por exem- plo, na região Sul, muitas vezes, às áreas agrícolas e máquinas estão ociosas e potencialmente podem ser alternativas para produção de cereais de inverno para grãos, pas- tagens ou para forragear os reba- nhos com o excedente que podem ainda ser conservados estrategica- mente para às épocas de escassez garantindo uma maior constância na produção ou para a comercia- lização gerando renda e diluindo os custos fixos da empresa rural. Silagem de cereais de inverno: um alimento estratégico para a sustentabilidade da produção animal no subtrópico brasileiro Roberto Serena Fontaneli1; Renato Serena Fontaneli2;3; Carlos Bondan3; Henrique Pereira dos Santos2; Sérgio de Oliveira Juchem4; Rodrigo Pizzani5; Arthur Pegoraro Klein6; Emanuel Cassol Dall Agnol6; Marcelo André Klein2; Manuele Zeni6; Jessica Aneris Folchini6; Maria Eduarda Tramontini Ceolin7; Mylena Palma Consoli Webber7; Andrei Guimarães Strapazon7; Maria Eduarda Gubert7 1Docente Uergs – Campus Erechim, RS. 2Embrapa Trigo – Passo Fundo, RS. 3Docente FAMV/UPF, Passo Fundo, RS. 4Embrapa Pecuária Sul - Bagé, RS. 5Docente Setrem - Três de Maio, RS. 6Pós-graduação Agronomia UPF e estagiário Embrapa Trigo Passo Fundo, RS. 7Graduação em Agronomia UPF, estagiário Embrapa Trigo e bolsista CNPq. INTEGRAÇÃO LAVOURA-PECUÁRIA
Já para a pecuária de corte e leite, que exige uma boa base alimentar com pastagens e forragens conser- vadas, a silagem de plantas forra- geiras tanto de inverno como de verão é indicada pela pesquisa, di- fundida pela extensão rural e cada vez mais empregada pelos pecua- ristas. No Brasil subtropical os ce- reais de inverno são cultivados com os propósitos de produção de grãos, cobertura para o siste- ma plantio direto e alimentação animal na forma de pastejo, feno e silagem. A produção animal, baseada no uso de pastagens e de forragens conservadas, é uma das alternativas mais competitivas e rentáveis de exploração do fator produtivo da terra. Todos os cere- ais de inverno possuem caracte- rísticas que permitem a sua utili- zação para a produção de silagem (LEHMEN et al., 2014). A concen- tração de carboidratos solúveis e o teor de matéria seca são essenciais para que o processo fermentativo no silo ocorra adequadamente (ROOKE; HATFIELD, 2003). Quan- do o cereal de inverno é colhido no momento adequado e o processo de ensilagem é realizado corre- tamente, o alimento conservado pode apresentar valores de proteí- na superiores ao da silagem de mi- lho, entretanto com menor valor energético e mais fibras. A silagem é o produto final de um processo chamado de ensila- gem, em que certa quantidade de biomassa de plantas forrageiras inteiras ou parte dela, úmida ou pré-emurchecida, fragmentada, compactada, em um silo vedado a passagem de ar, o que permite que esta biomassa seja fermenta- da por bactérias epifíticas ou ino- culadas, ficando por certo tempo até sua estabilização pelo aumento
da concentração [H+] em um nível de acidez moderado. Este processo consiste em preservar ao máximo as características nutricionais da forragem no momento da colheita. Porém, há uma série de condicio- nantes e etapas criteriosas a serem seguidas para atingir a eficácia al- mejada. A ensilagem deve visar o aproveitamento da forrageira em seu estádio ótimo de desenvolvi- mento, conciliando produtividade e valor nutritivo. O seu objetivo é minimizar as perdas de matéria seca (MS) e de energia e manter a qualidade da fração protéica da forrageira durante a estocagem, conservando o valor nutritivo e as características para alimentação dos animais o mais próximo possí- vel aos da forragem original. Para tal, a ocorrência de um processo de fermentação eficiente é funda- mental (TOMICH et al. 2003) Cereais de inverno para ensilar No processo de escolha de cultivares para silagem, é interes- sante observar as indicações de manejo de cultivares comerciais e aspectos práticos como, por exem- plo, a presença ou não de aristas que alguns técnicos e produtores acreditam que podem injuriar o aparato bucal dos animais. Na ver- dade é uma crença que não é rela- tada ou confirmada na literatura internacional e Embrapa em par- cerias com a UPF, Uergs e outras instituições estão pesquisando nas condições e com os genótipos brasileiros. Segundo Fontaneli et al. (2019) existem diferenças a se- rem avaliadas como: a) Cultivares de trigo de du- plo propósito com aristas são in- dicadas preferencialmente para realização de pré-secados na fase vegetativa (exemplo BRS Tarumã e BRS Tarumaxi); b) Cultivares de trigo de du- plo propósito sem aristas ou pe- quenas aristas apicais, podem ser utilizadas tanto para elaboração de pré-secados na fase vegetativa e na fase reprodutiva, bem como si- lagem de planta inteira ou de grão úmido no final da fase reproduti- va. Essas cultivares permitem até três cortes ou pastejos no ciclo da cultura (exemplo BRS Umbu e BRS Pastoreio); c) Cultivares de trigo precoce sem aristas que permitem apenas um corte na fase reprodutiva (Tbio Energix); d) Cultivares de cevada pro- duzem forragem precoce de ele- vado valor nutritivo e médio po- tencial de produção de massa seca por hectare (exemplo BRS Cauê); e) Cultivares de aveia devem ter boa tolerância ao acamamento para a produção de uma silagem de qualidade (exemplos Embrapa 139 Neblina, URS 21, URS Guapa, URS Brava, URS Altiva, IPR Afrodi- te, URS Corona, URS Taura, UPFA Gaudéria, UPFA Ouro, UPFA Fuer- za e Barbarasul); f) Cultivares de triticale (Em- brapa 53, BRS Minotauro e BRS Sa- turno). Cultivo dos cereais de inverno As lavouras cultivadas devem ser manejadas para serem ensila- das no fim de inverno e início de primavera, devem ser conduzi- das visando alta produtividade de grãos, de acordo com algumas indicações, por exemplo: a) Esco- lha de espécies e cultivares, adap- tados, produtivos e resistentes aos principais fatores bióticos e abióticos; b) Época de semeadura entre março e junho, respeitando a época indicada para cada cul- tivar; c) Adubação de acordo com a análise de solo; d) Densidade de semeadura de 300 a 400 sementes aptas por metro quadrado; e) Pre- ferir sempre que possível semea- dura em linhas espaçadas de 0,17 a 0,20 m entrelinhas; f) Adubação de cobertura conforme indicação da espécie/cultivar e histórico da área visando alta produtividade. Momento de ensilar A indicação para colheita de forragens ensiladas diretamente deve ser quando as plantas de ce-
reais de inverno estejam no está- dio de desenvolvimento, descrita por grãos pastosos a massa firme, com cerca de 70% de umidade, para resultar em boa compacta- ção, com alto teor de carboidratos solúveis resultando em boa fer- mentação e estabilização rápida com baixo pH. Após o estádio de grãos em massa firme, ocorrerá dificuldade de compactar bem e eliminar oxigênio, que resultará em desenvolvimento de micror- ganismos indesejáveis e produção de micotoxinas. Quando a umida- de for maior que 70%, as plantas devem ser manejadas para redu- ção de umidade, ou seja, aumento da concentração de MS, processo denominado de emurchecimento. Pode-se proceder ao corte após a evaporação do orvalho e deixar se- car de 2 a 6 horas, até atingir cerca de 45 a 65% de umidade. O corte de cereais de inverno para ensilagem deve ser realizado de 5 a 15 cm acima da superfície do solo, independente se procedi- do com segadeira de barras ou dis- co. Segadoras e condicionadoras aceleram a perda pelo rompimen- to de camadas de cutícula, que pode ser manejada com ancinhos para espalhar e enleirar quando necessário para melhorar a efici- ência do processo. Produção de biomassa ensilável Existe uma variabilidade de fatores que podem afetar a produ- ção da biomassa aérea em função dos genótipos, estádio de desen- volvimento, efeito de ano, precipi- tação pluviométrica, fertilidade do solo. Observa-se que não somente a quantidade como a qualidade dos materiais são alterados por es- ses fatores. Fontaneli et al. (2009) e Leh- men et al. (2014) estudaram o ren- dimento de biomassa de genótipos de espécies de cereais de inverno e obtiveram rendimentos varian- do entre 4,7 a 13,4 t de biomassa seca ensilável e média na ordem de 7,9 t. Sendo importante consi- derar que além da variabilidade no rendimento existe a variabili- dade do valor nutritivo, estrutura de planta, características morfoa- natômicas desses materiais para o desejado desempenho animal (tabela 1). Figura 1. Ilustra os estádios de desenvolvimento de cereais de inverno precoce
Tabela 1. Rendimento de biomassa ensilável (MS t/ha), ciclo (dias), altura (cm), teor de matéria seca (MS %), pH e N-amoniacal/N total, teores de proteína bruta (PB%), fibra em detergente neutro (FDN %), fibra em detergente ácido (FDA %) e digestibilidade estimada da MS (DEMS) de silagens de cereais de inverno. Embrapa Trigo, Passo Fundo, RS, (2009 e 2014).
Quantidade e qualidade de forragem Em trabalho clássico os cientistas Blaser e Novaes (1990) ilustram o efeito inversamente proporcional entre o acúmulo da biomassa seca e o decréscimo da qualidade da forragem, sendo que há um ponto ótimo de qualidade e quantidade de biomassa ensilável. Uma dicotomia que é transversal ao manejo da forragem para fins de ganhos por animal ou por área. O registro de Blaser e No- vaes (1990) desafiou a forma de conservar as forragens no período vegetativo e com isso, na prática desenvolvida em reduzir o teor de umidade através do emurche- cimento, pois as forragens no pe- ríodo vegetativo são impróprias para a ensilagem direta. Ademais, a desidratação de forragens para ensilagem é capaz de aumentar a razão ácido lático:acético, reduzir a produção de amônia e restrin- gir a produção de ácido butírico, além de haver economia de car- boidratos solúveis, diminuir a so- lubilização do nitrogênio e evitar a produção de efluentes (Berto e Mühlbach, 1997). Tais respostas são relacionadas à redução de pro- cessos indesejáveis que podem ocorrer durante o processo de en- silagem, que surgem com a demo- ra na queda do pH ou então a alta atividade de água. Já Cerutti (2018) relata em seu estudo que os cere- ais colhidos em estágio vegetativo, resultaram em silagens com me- lhores atributos bromatológicos, porém com inferiores estimativas de produção de leite por área. A utilização de alimentos conservados, como a silagem pré- secada de cereais de inverno, vêm se tornando uma ferramenta para manutenção da produtividade do sistema pecuário intensivo. No en- tanto, a quantidade e a qualidade da forragem produzida pelos ce- reais de inverno são dependentes de diversos fatores, dos quais cabe destacar a variabilidade entre as espécies, entre genótipos de mes- ma espécie, e suas adaptabilida- des às diferentes condições am- bientais (HORST et al. 2017). Considerando a cultivar de aveia branca UPF-7, o corte das plantas entre o início do floresci- mento e o estádio de florescimen- to pleno, está indicado para a ob- tenção de silagem de aveia de boa qualidade para o consumo animal (BOIN, et al. 2005). Figura 2. Ilustra relação entre o acúmulo de biomassa e atributos qualitativos das forragens (BLASER e Novaes, 1990).
Referências BERTO, J. L.; MÜHLBACH, P. R. F. Silagem de aveia preta no estádio vegetativo, submetida à ação de inoculantes e ao efeito do emurchecimento. Revista Bra- sileira de Zootecnia, 26, 651-658, 1997. BLASER. R. E.; NOVAES, L.P. Manejo do complexo pastagem-animal para ava- liação de plantas e desenvolvimento de sistemas de produção de forragens. 1990. In: Pastagens/SBZ. Piracicaba: FE- ALQ, 1990. p. 157-205. BOIN, C.; FLOSS, E. L.; CARVALHO, M. P. et al. 2005. Composição e digestibilidade de silagens de aveia branca produzidas em quatro estádios de maturação. B. Indústr. Anim., N. Odessa, v.62, n.1, p.35- 43, 2005 CERUTTI, W. G. Silagem pré-secada de cereais de inverno com ou sem uso de aditivos. 2018. 50 F. TESE (Doutorado em Zootecnia) Pós-graduação em Zootecnia, Área de concentração Produção Animal, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2018. FONTANELI, Ren. S.; FONTANELI, Rob. S.; SANTOS, H. P., et al. Rendimento e valor nutritivo de cereais de inverno de duplo propósito: forragem verde e silagem ou Considerações Finais A produção de cereais de in- verno nas áreas ociosas durante o inverno para produção de forra- gem e a conservação do alimento excedente em forma de feno e sila- gem é uma estratégia a ser consi- derada para intensificar a produ- ção pecuária no sul do Brasil. Pois reduz os riscos de falta de alimen- to para os animais durante o ano e permite destinar mais área no verão para produção de grãos em detrimento de silagem de milho. Portanto, é fundamental o in- centivo à prática de ensilar cereais de inverno também para proteção e estruturação dos solos e para ciclagem de nutrientes; produ- zir volumosos de qualidade tanto para períodos de escassez quanto para comercialização (silos bola ou ‘bags’); redução dos riscos da falta de volumosos por intempé- ries climáticas; redução pela com- petição das áreas de verão pelo plantio de milho para silagem, permitindo que o milho seja des- tinado à comercialização e gerar mais renda. Silagens de cereais de inverno, bem elaborada, tanto com emurchecimento (pré-secados) ou colheita direta, tem sido utilizada como único volumoso tanto para novilhas leiteiras ou misturadas com a tradicional silagem de mi- lho para vacas em produção. É importante considerar a oportu- nidade de armazenamento de for- ragem para as diversas espécies e classes animais de ruminantes em sistemas de integração lavoura- pecuária na região sul-brasileira, utilizando parte das áreas ocio- sas disponíveis em quase todas as propriedades rurais. grãos. Revista Brasileira de Zootecnia, 38, 2116-2120, 2009. FONTANELI, Ren. S.; KLEIN, A. P.; FONTA- NELI, Rob. S. et al.2019. Silagem de cere- ais de inverno para o aumento da renda e sustentabilidade da pecuária de leite no sul do Brasil. Rev. Plantio Direto, Aldeia Norte: Passo Fundo. n.171, set/out, 2019. HORST, E. H.; NEUMANN, M.; MAREZE, J. et al.2017. Silagem pré-secada de cere- ais de inverno em estádio de pré-flo- rescimento: revisão. PUBVET, v.11, n.4, p.415-423, Abr., 2017. LEHMEN, R. I., FONTANELI, Ren. S., FON- TANELI, Rob. S., SANTOS, H. P. dos. Ren- dimento, valor nutritivo e características fermentativas de silagens de cereais de inverno. Ciência Rural, 44, 1180-1185, 2014. ROOKE, J.A; HATFIELD, R.D. Biochemis- try of ensiling. In: BUXTON et. al. Silage science and technology . Madison: US- DA-ARS, 2003. p.95-135. TOMICH, T.R. et al. Características quí- micas para avaliação do processo fer- mentativo de silagens: uma proposta para qualificação da fermentação. Co- rumbá: Embrapa Pantanal, 2003. 20p. (Documentos, 57).