Intensidade de doenças foliares e relato de injúrias em lavouras de trigo Cereais de Inverno


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Publicado em: 01/08/2017

Introdução Os estados do Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina correspondem por 91 % da produção nacional de trigo (Triticum aestivum L.), aproximadamente 1,92 milhões de toneladas do grão (Conab, 2017). As condições climáticas desta região, principalmente o excesso de chuvas durante o cultivo do trigo, torna o ambiente favorável à ocorrência de epidemias de doenças. (CASA & REIS, 2016). As doenças foliares do trigo são causadas por microrganismos necrotróficos e biotróficos, dependendo de suas exigências nutricionais. Entre estes, os fungos apresentam maior importância econômica por sua frequência e intensidade em lavouras conduzidas no sul do Brasil (FERNAN- DES & PUCININI,1999; NAVARINI & BALARDIN, 2012; CASA & REIS, 2016). Os fungos necrotróficos possuem a capacidade de sobreviver em sementes e restos culturais de seus hospedeiros, a exemplo dos agentes causais da mancha amarela [Drechslera tritici-repentis (Died.) Shoemaker], septoriose [Stagonospora nodorum (Berk.) E. Castell. & Germano] e mancha marrom [Bipolaris sorokiniana (Sacc.) Shoemaker] (CASA et al., 2002) (Figua 1). Os fungos biotróficos necessitam do tecido vivo de seus hospedeiros para sobreviverem, como os agentes causais do oídio [Blumeria graminis f.sp. tritici (DC.) Speer] (Figura 2) e ferrugem da folha (Puccinia triticina Erikss) (Figura 3). Intensidade de doenças foliares e relato de injúrias em lavouras de trigo José de Alencar Lemos Vieira Junior1, Ricardo Trezzi Casa2, Daniel Souza3 e Monica Farias3 1Eng. Agr. Doutorando CAV-UDESC, Professor IDEAU, Consultor Rota Agrícola ; 2Eng. Agr. Dr. Professor do Departamento de Agronomia, CAV-UDESC; 3Graduando em agronomia, CAV-UDESC. Cereais de Inverno do trigo no Brasil (Reis & Luz, 1976; Picinini et al., 1993; KIMATI, 1995; REIS et al., 2008; BIANCHIN, 2011). Entretanto, a aplicação de defensivos agrícolas sem critério técnico pode resultar no aumento do custo de produção, contaminação dos agroecossistemas (ZAMBOLIM et al., 2003) e causar fitotoxicidade a cultura (VIEIRA JUNIOR, 2017). A detecção das doenças predominantes e a determinação da sua incidência, auxilia a assistência técnica na implementação de práticas de manejo, como na escolha dos fungicidas a serem aplicados, promovendo o manejo racional e sustentável destes químicos. O dano no rendimento de grãos ocasionado por estas doenças varia de intensidade em função do ambiente, reação genética do cultivar e práticas culturais de manejo (BARROS et al., 2006; CASA & REIS, 2016). O dano causado pela mancha amarela pode chegar a 48 % (RESS & PLATZ, 1983), 62 % por oídio (REIS & CASA, 2007), 80 % pela ferrugem da folha e 80 % por helmintosporiose (MEHTA, 1993). Devido ao aumento da intensidade das doenças foliares e na ausência de cultivar resistente a todas as doenças ou de outro meio de controle mais eficaz, o controle químico apresenta-se como alternativa para garantir o potencial produtivo O objetivo do trabalho foi obter a intensidade de doenças foliares em lavouras de diferentes cultivares de trigo conduzidos em sistema de semeadura direta e rotação de cultura na região nordeste do Rio Grande do Sul e relatar injúrias pela aplicação de defensivos. Material e métodos O levantamento foi realizado na safra 2015, nos municípios de Bom Jesus, Lagoa Vermelha, Muitos Capões e Vacaria, região nordeste do Rio Grande do Sul. Foram avaliadas duas lavouras comerciais para cada cultivar de trigo (Tabela 1), totalizando 12 lavouras conduzidas em sistema de semeadura direta em sucessão à soja e rotação com aveia branca (Avena sativa). As unidades experimentais foram constituídas por talhões uniformes de 5 ha em lavouras semeadas mecanicamente e submetidas as práticas culturais conforme indicações técnicas para a cultura do trigo (IN- FORMAÇÕES, 2015). Os defensivos foram aplicados conforme escolha de cada produtor. As coletas foram realizadas em lavouras a partir do perfilhamento (ZADOCKS et al., 1974), com caminhamento em ziguezague, em duas diagonais, arrancando uma planta a cada 30 metros (REIS & CASA, 2007), no período de agosto a outubro, totalizando 10 semanas consecutivas. Cada amostra foi composta por 50 perfilhos. As folhas expandidas foram destacadas e através de análise visual separadas em grupos com e sem sintoma e/ou sinal para uma determinada doença. As folhas doentes foram classificadas em manchas foliares, ferrugem ou oídio. Foi considerada doente a folha com no mínimo uma lesão maior que 2 mm para mancha foliar, uma pústula com frutificação visível para a ferrugem da folha e, para oídio, a presença de massa de micélio e conídio. A incidência para cada doença foi submetida a análise de regressão, expressada pela plotagem da incidência versus tempo (BERGAMIM FILHO; AMORIM, 1996) e obtida a AACPI (área abaixo da curva de progresso da incidência), calculada por integração trapezoidal. As injúrias foram diagnosticadas visualmente e, com auxílio do histórico da lavoura, os sintomas comparados com a literatura. Resultados e discussão Houve a detecção de lavouras com fitotoxicidade em folhas de trigo devido a aplicação de fertilizante foliar (Figura 4), fungicidas (Figura 5 e 6) e herbicidas (Figura 7 e 8). O uso excessivo e a mistura de defensivos podem provocar injúrias em folhas, com a expressão dos sintomas dois a três dias após a aplicação, na forma de lesões alongadas e/ou cilíndricas, cloróticas e/ou amareladas (CASA & REIS, 2014). A estiagem do mês de agosto (Figura 9) resultou em atraso, ausência ou redução da eficiência da adubação nitrogenada em cobertura (Figura 10). A planta cultivada em condições de deficiência de nitrogênio pode ser mais susceptível a patógenos (ZAMBOLIM & VENTURA, 1993). Estes fatores ambientais causaram estresse as plantas o que pode facilitar as injúrias por defensivos, sendo importante a diferenciação desses sintomas das doenças bióticas, ou seja, de origem infecciosa. A ferrugem da folha foi a doença predominante em agosto. Após a primeira semana de setembro houve incremento na incidência do oídio, predominando sobre ferrugem da folha e manchas foliares até o termino das avaliações (Figura 11). A doença com a maior área abaixo da curva de progresso da incidência em valor absoluto foi oídio Tabela 1. Reação dos cultivares de trigo à ferrugem da folha, oídio e manchas foliares. (1085), seguido de ferrugem da folha (910) e manchas foliares (359) (Figura 12). A precipitação pluvial média nos municípios analisados foi de apenas 47 mm em todo o mês de agosto, esses índices aumentaram para 269 mm em setembro e 328 mm em outubro, com temperatura média de 15 a 16 oC (INMET, 2015; EMBRAPA, 2015) (Figura 9). A temperatura ótima para desenvolvimento do oídio, varia de 15 a 22 oC (Casa & Reis, 2016) e de 16 a 18 oC para ferrugem da folha. O aumento na precipitação pluviométrica e a temperatura adequada para o desenvolvimento dos agentes causais da ferrugem e do oídio justificam a crescente incidência destas doenças. No entanto, não foi observado o mesmo padrão de intensidade para manchas foliares, apesar do ambiente também ser favorável a mancha amarela, principal mancha foliar da região. As manchas foliares apresentaram menor variação de intensidade, com aproximadamente 10% de incidência durante todo o período avaliado. Os fungos agentes causais das manchas necessitam de um número mínimo de horas de molhamento foliar superficial para que seus esporos germinem e infectem a planta, sendo necessário 11 horas para infecção de Bipolaris sorokiniana, 30 horas para Drechslera tritice-repentis e 48 horas para Stagonospora nodorum. Fonte: Adaptado de INMET e Embrapa. A semeadura direta auxilia na qualidade física, química e biológica do solo, e reduz os processos erosivos devido a manutenção da palhada sobre o solo (Debiasi et al. 2013). Este sistema promove a decomposição lenta dos resíduos o que permite a sobrevivência dos patógenos necrotróficos de uma safra para outra. No entanto, as lavouras deste levantamento foram conduzidas em sistema de rotação com aveia branca. Esta prática reduz significativamente a ocorrência de manchas foliares em trigo, pois um inverno de intervalo é suficiente para redução significativa do inóculo (Prestes et al., 2002). Situação que justifica a menor intensidade das manchas foliares. Assim como, pelo uso de sementes sadias e/ou tratadas com fungicidas específicos. Sintomas de injúria por frio foram detectados no mês de setembro. O congelamento dos tecidos foliares ocasionado pela geada pode causar dano ao rendimento de grãos de trigo, com intensidade a depender do cultivar, do estádio fenológico e de fatores abióticos associados (Silva et al., 2008). A injúria pelo frio normalmente é observada em plantas localizadas na região mais baixa da lavoura. O limbo foliar torna-se descolorido e a evolução dos sintomas são observados pelo afilamento de sua ponta. Nesta safra, plantas entre os estádios de emborrachamento e florescimento sofreram estresse irreversível pelo congelamento dos tecidos. A intensidade da geada inviabilizou a continuidade dos tratos culturais e da colheita dos grãos de algumas lavouras. Conclusões Herbicidas, fungicidas e fertilizantes foliares causam fitotoxicidade em folhas. A doença foliar de maior intensidade em lavouras de trigo conduzidas na região nordeste do Rio Grande do Sul, safra 2015, foi o oídio, seguido por ferrugem da folha e manchas foliares. A geada durante o estádio reprodutivo, principalmente entre o emborrachamento e a floração, pode inviabilizar a continuidade dos tratos culturais e a colheita de grãos de trigo. Referências CASA, R.T.; REIS M.R.. Doenças do trigo: guia de campo para identificação e controle. 2.ed ver. Atual.- Lages: Graphel, 2016. 62p. DEBIASI H., FRANCHINI J.C., CONTE O., BALBINOT JUNIOR A.A., TORRES E., SARAIVA O.F., OLIVEIRA M.C.N.. Sistemas de preparo do solo: trinta anos de pesquisas na Embrapa Soja. Londrina: Embrapa Soja. Disponível em:

http://ainfo.cnptia.embrapa. br/digital /bitstream/item/92107/1/ Doc-342-OL.pdf. Acesso: 27 jul de 2017. FERNANDES, J.M.C.; PICININI, E.C. Controlando as doenças de trigo na hora certa. Passo Fundo: Embrapa Trigo, 1999. (Embrapa Trigo. Comunicado Técnico Online, 22). Disponível: http://www.cnpt. embrapa.br/biblio/p_co22.htm. Acesso em: 06 ago 2017. NAVARINI, L.; BALARDIN, R.S.. Doenças foliares e o controle por fungicidas na produtividade e qualidade de grãos de trigo. Summa Phytopathologica. Botucatu, v. 38, n. 4, p. 294-299, 2012. PRESTES, A,M.; SANTOS, H. P. dos; REIS, E.M.. Práticas culturais e incidência de manchas foliares em trigo. Pesquisa Agropecuária Brasileira. Brasília, v.37, n.6, p. 791- 797, jun 2002. ZADOCKS, J. C.; GHANG, T. T.; KONZAK, C. F. A decimal code for the growth stages of cereals. Weed Research, Oxford, v. 14, n. 6, p. 415- 421, 1974.