Alvady Avelino Gehlen Mattei; Pedro Alexandre Varella Escosteguy; Walter Boller
Introdução
O calcário agrícola é o corretivo mais utilizado para a neutralização da acidez do solo. Embora a eficácia desse corretivo em neutralizar a acidez seja amplamente reconhecida, a eficiência da calagem pode ser baixa, devido a distribuição desuniforme. Isso é comum em solos manejados sob plantio direto, em que doses mais baixas são aplicadas superficialmente, contrastando com o praticado em áreas com preparo convencional (NAHASS & SEVERINO, 2003).
Nesse contexto (doses baixas, aplicadas em superfície) é difícil uniformizar a distribuição do calcário aplicado a lanço. Em parte, isso ocorre devido à composição granulométrica e à baixa umidade do calcário. Esse corretivo é composto de partículas com diferentes diâmetros, que reagem em intervalos de tempo diferentes no solo (SBCS, 2016).
Para atender à legislação brasileira, cerca da metade da composição granulométrica do calcário é constituída de partículas com diâmetro menor que 0,30 mm, ou seja, de fração fina, tipo pó. Essa fração é a mais reativa no solo, o que possibilita a correção rápida da acidez do solo, além de ser a fração mais móvel no perfil do solo, características que favorecem a calagem em superfície, praticada no sistema plantio direto. Contudo, a fração fina do calcário é a que mais dispersa, quando o calcário é distribuído com equipamentos de discos centrífugos, e ocorrem ventos com maior velocidade, que causam a deriva desse produto.
Além disso, a distribuição dessa fração difere das outras partículas que compõem o calcário. Essas têm diâmetros que variam entre 0,30 a 2,0 mm, e podem constituir até 50% da quantidade aplicada do calcário (COELHO, 2004).
No sistema plantio direto, não são realizadas operações subsequentes à aplicação do calcário, como arações ou gradagens, como no sistema convencional de preparo do solo, as quais amenizavam a uniformidade da distribuição. Adicionalmente, a desuniformidade da aplicação de calcário se deve ao uso majoritário dos distribuidores centrífugos (BALASTREIRE; COELHO, 2000), pois possuem alta capacidade operacional, facilidade de operação e manutenção, muitas possibilidades de ajustes e de doses aplicadas, e aparente facilidade de calibração (FARRET et al., 2008).
Nesses equipamentos, as partículas do calcário são distribuídas devido ao contato desse produto com aletas ou palhetas montadas em um disco ou rotor giratório. Isso resulta no lançamento do produto pela força centrífuga e plantiodireto.com.br - Edição 178 o direcionamento delas regulado pelo ângulo das palhetas sobre o disco (DALLMEYER, 1985). A força centrífuga gerada nos discos, com auxílio das palhetas, atua nas partículas do calcário, fazendo com que essas sejam arremessadas até uma certa distância. Nesse processo, ao abandonar os discos ou rotores, as partículas maiores, que são mais pesadas, se deslocam com maior velocidade e, por consequência, alcançam distâncias maiores, em relação as frações mais finas do calcário. Com isso, ocorre a segregação, ou seja a separação das partículas de diferentes tamanhos e pesos específicos.
Em se tratando de calcário seco, ou baixa umidade, como é comum, a segregação acarreta desuniformidade na distribuição de calcário pelos distribuidores centrífugos, fazendo com que as partículas mais finas fiquem a mercê das correntes de ar (vento), as partículas de tamanho médio, se concentrem na região central da faixa de aplicação, e as partículas maiores se depositem mais nas extremidades dessa faixa. Nas duas extremidades da faixa de alcance do calcário, a dose distribuída é menor e deve haver sobreposição na próxima passada da máquina aplicadora, ou seja, a largura de trabalho deve ser menor que a largura total de lançamento. Isso faz com que na região de sobreposição se encontre maior quantidade de partículas grandes e na região central, maior quantidade de partículas pequenas e médias.
Por essa razão, a lavoura apresentará faixas onde o calcário reage mais rapidamente e outras onde a neutralização da acidez será mais lenta, o que não é desejável, para a fertilidade do solo (BOLLER, 2009).
Assim, a composição granulométrica de partículas com diferentes tamanhos e pesos, a baixa umidade, e as doses baixas, geralmente, aplicadas para a calagem de solos manejados com plantio direto, além da utilização de equipamentos de discos centrífugos, são fatores que favorecem a desuniformidade da distribuição desse corretivo da acidez no solo, causando manchas de acidez, o que pode limitar a produtividade agrícola. Nesse contexto, é importante achar alternativas para melhorar a distribuição do calcário, aumentando a uniformidade da calagem.
Com este trabalho, objetivou-se verificar se o aumento da umidade do calcário melhora a distribuição das partículas, ao longo do perfil transversal de aplicação, utilizando distribuidor centrífugo.
Material e Métodos
O calcário utilizado no trabalho foi adquirido em Caçapava- RS. A composição granulométrica (Tabela 1) e, consequentemente, a eficiência relativa, estimada com os resultados dessa composição e os valores de reatividade dos diferentes diâmetros de partículas, foi de 71,6%. A granulometria e a reatividade são aquelas tipicamente observadas em calcários de rochas do RS, que são duras e dificultam a moagem. Assim, a granulometria dos calcários típicos desse estado, geralmente, apresenta entre 50 a 60 % de partículas com diâmetro menor que 0,30 mm. A composição granulométrica do calcário utilizado foi considerada como referência (Testemunha), para comparar os resultados dos tratamentos testados. Os tratamentos testados constam na Tabela 2 e foram arranjados em parcelas subdivididas, em que as doses foram alocadas na parcela principal e a umidade do calcário na subparcela. O delineamento experimental utilizado foi o completamente casualizado.