Na Safra 2009 (panorama)


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Publicado em: 01/02/2010

Na safra 2009/2010 o manejo para controle das doenças foi diferenciado

As condições de verão de El Niño, com chuvas acima das médias favorecem as doenças e evidenciam as diferenças de rendimento das lavouras de soja que foram bem manejadas daquelas que não receberam a devida atenção. Nessa safra os focos de ferrugem-asiática foram identificados antes em diversas regiões do Brasil e o índice de freqüência, segundo dados do Consórcio Anti-ferrugem é o maior das últimas quatro safras.

De acordo com o pesquisador e professor da Universidade de Passo Fundo, Dr. Carlos Alberto Forcelini, a ocorrência precoce da ferrugem está associada ao clima chuvoso e ao atraso da semeadura da soja. A semeadura tardia é o que causa maior preocupação nessa safra. A ferrugem chegou mais cedo e em torno de 50 % da soja foi semeada mais tarde, aumentando o tempo de convivência e o risco de perdas nessa safra, ressaltou.

Os primeiros relatos de ferrugem na safra 2009/10 no Rio Grande do Sul ocorreram no final de novembro em soja voluntária, nos municípios de Santiago e Três de Maio. Posteriormente também foi detectada nos municípios de Júlio de Castilhos, Erebango e Novo Machado em lavouras comerciais de soja semeadas em outubro/novembro. Comparando ao ano anterior a detecção dos primeiros focos ocorreu quase um mês antes, quando os primeiros focos em lavouras comerciais no RS foram citados em 20 de janeiro, revelou Lucas Navarini da Fundacep, de Cruz Alta, RS.

Ele acrescentou que em 14 de janeiro já se registravam ocorrências em oito municípios de diferentes regiões, fato que demonstra sua rápida dispersão no Estado. Se considerarmos estes dados iniciais, em meados do mês de janeiro tínhamos mais de 1% (1,61%) de incidência de ferrugem no Estado, considerando os 496 municípios gaúchos (sendo que nem todos cultivam soja), e mais de 40% (41,67%), quase metade das regiões apresentam focos de ferrugem (5 das 12 regiões).

Na região de Chapadão do Sul, no Mato Grosso, o pico da ferrugem que costumava ocorrer na segunda quinzena de janeiro, apareceu já no começo do mês. ”O índice de severidade vem aumentado, no início do ano foi registrado no baixeiro das plantas em torno de 15 a 20%, todavia isto não preocupou, pois todas as fazendas da região fizeram as aplicações no momento oportuno. Esse índice deverá aumentar tão logo inicia o período de colheita da safra tendo em vista a quantidade de esporos que são jogados no ar”, comentou Edson Borges, da Fundação Chapadão.

A ferrugem não foi a única doença a antecipar seu surgimento este ano. Em Santa Catarina, de acordo com Ricardo Casa, da Udesc, de Lages, a ocorrência de míldio foi antecipada, com incidência e severidade um pouco mais elevada, provavelmente pelas características de suscetibilidade das cultivares. O oídio está com menor incidência e severidade que na safra anterior. ”No norte do Estado foi constatada a ferrugem em meados de janeiro, em Canoinhas, antecipando a ocorrência se comparado com a safra anterior, disse Casa.

É consenso que as doenças são um fator comprometedor do rendimento da lavoura de soja. O professor Forcelini apresentou, durante reunião de treinamento dos assistentes técnicos da Cooplantio, realizado em janeiro, em Passo Fundo, os resultados de experimentos feitos na safra 2007/08 com três cultivares e diferentes tratamentos, constatando produções entre 13 e 19 sacas/hectares a mais onde houve proteção com fungicidas.

Pontos fundamentais para melhorar o manejo

Carlos Alberto Forcelini listou as 10 principais razões para fazer o manejo correto de doenças (Revista Plantio Direto 114) e com isso conseguir melhor proteção e maior rendimento da lavoura. A primeira razão é a de que as cultivares precoces tem área foliar menor do que as tardias. Hoje, o ideal é que as cultivares precoces tenham quatro a cinco metros quadrados de área foliar para cada metro quadrado de lavoura (Revista Plantio Direto 61, 2001), ou seja um índice de área foliar (IAF) de 4 a 5 para 1, explicou.

As cultivares precoces são produtivas, mas tem ciclo curto, e pouco tempo para reagir a estresses e danos de pragas ou doenças. Além disso, elas têm menor capacidade de reação e necessidade de manter folhas verdes em todo o dossel da planta.

Numa análise simples, se uma cultivar com IAF 6:1 perder 20% da área foliar por praga ou doença sobrará 4,8 m2 de folha para encher o grão. Em outro cenário, de uma cultivar precoce, que este ano está crescendo menos pelo atraso da semeadura, com excesso de chuva e nebulosidade talvez chegue a 3 metros quadrados, se perder os mesmos 20 % ficará com 2,4 m2. ”É preciso tomar maior cuidado no manejo, sendo mais rigoroso e conservador, no sentido de fazer uma proteção especial”, afirmou Forcelini. Estudos mostram que a morte antecipada da folha pela ferrugem-asiática pode causar perdas de até 80 kg/ha/dia.

Em experimento feito na safra 2006/07, relacionando a área foliar e o rendimento, com situação climática parecida com a do verão de 2009/10, uma cultivar precoce, no estado R1, tinha IAF 4:1, com a perda de área foliar na fase de enchimento de grãos, resultou na produção de 40 sacos/ha, e perdas causadas por doenças.

Mais vagens no terço médio e inferior da planta

Ao analisar a porcentagem de vagens no perfil da planta de soja verifica-se uma variação entre os cultivares (Figura 1), onde a cultivar CD 214 apresenta menos vagens no terço inferior e mais no terço mediano, enquanto a Apolo a maior porcentagem está no baixeiro da planta. Em algumas variedades há uma redistribuição das vagens na planta do meio para baixo. Essas cultivares não podem ser manejadas da mesma forma. Para as com maior proporção de vagens no terço inferior é necessário manter a folhas, porque se elas caem paralisa o processo de enchimento de grãos destacou Forcelini. Esse é um fator que ele considera fundamental no manejo para altos rendimentos.

Figura 1. Índice de legumes nos terços basal, médio e superior de quatro cultivares de soja.

Outro fator importante é o aumento da suscetibilidade da soja às doenças. De acordo com o professor o melhoramento genético que chegou para garantir maior produtividade na lavoura acabou por abrir espaço para as doenças, uma vez que as plantas estão perdendo rusticidade. ”Hoje se pode assumir que as cultivares de soja são mais suscetíveis à doenças. Por exemplo, o oídio, que até a safra 1994/96 era desconhecida em soja, hoje é observada com severidade em quase todas as lavouras. Por isso, não podemos manejar a soja como fazíamos anos atrás”, afirmou Forcelini.

A cultivar Apolo é mais suscetível ao oídio e a indicação para controle é quando ela atinge 20 % das folhas cobertas pela doença. É um índice muito elevado de severidade, considerou o pesquisador.

Durante a reunião Forcelini apresentou ao grupo de técnicos, os dados sobre uma área onde não havia sido aplicado fungicida para o manejo do oídio, com 100 % de desfolha das plantas e a produtividade chegou a 1.634 kg. Onde houve o controle com a aplicação de diferentes fungicidas, o rendimento chegou a 2.506 kg/ha. Mesmo assim, considerou que houve perdas nas áreas tratadas pelo nível de dano recomendado, havendo necessidade de iniciar o controle mais cedo.

Doenças secundárias

A monocultura de soja e áreas contínuas extensivas propicia o aumento das doenças mantidas na palhada, disse o professor, que aponta esse como um dos motivos para se fazer um manejo diferenciado nesta safra. Há varias doenças de soja que tem a palha como fonte de inóculo, especialmente as doenças de fim de ciclo (DFC), antracnose e mofo branco. Ao avaliar folhas de soja em laboratório é normal encontrar patógenos que ainda não mostraram sintomas visuais nas plantas.

Pode-se deduzir que os fungos que sobrevivem na palha de lavouras em monocultura estão presentes o ano todo e se manifestam sob condições ambientais favoráveis, penetrando no tecido das plantas. Os fungos dependem de molhamento para germinar e penetrar no tecido das plantas hospedeiras, por isso, com a freqüência de chuvas nessa safra, pode-se prever maior severidade de doenças nas culturas de verão.

As doenças consideradas secundárias também causam perdas consideráveis na lavoura. Na safra 2006/07, com chuvas abundantes, num experimento da área experimental da Universidade de Passo Fundo foram realizadas duas aplicações de fungicida considerado eficiente no controle de oídio e de ferrugem, com a colheita de 46 sacas/ha. Noutra área foi aplicado fungicida que também atuava sob DFC e antracnose e o rendimento subiu para 58 sacas/ha, demonstrando a importância dessas doenças no rendimento de soja.

Para diminuir a incidência de fungos que sobrevivem na palha é necessária a adoção de rotação de culturas com milho, porém essa prática ainda é pouco adotada.

A primeira aplicação de fungicidas

O momento da primeira aplicação de fungicidas ainda causa polêmica. Os resultados de experimentos foram os mesmos quando as aplicações foram feitas nos estágios V9 e R1, mas houve queda de rendimento quando a primeira aplicação foi no estado R2. De acordo com Forcelini, os melhores resultados têm sido obtidos com a primeira aplicação no pré-fechamento ou na floração, o que chegar primeiro. Importante destacar que esse critério é válido para cultivares de soja com hábito de crescimento indeterminado.

Outro ponto importante apontado por Forcelini foi o tempo chuvoso determinado por anos de predominância de El Niño, que pode aumentar o rendimento de lavouras de soja bem manejadas, porém as chuvas também favorecem a incidência e a severidade de doenças. Nessas condições o monitoramento das lavouras e a qualidade de controle de doenças são mais importantes.

Controle mais eficaz

O pesquisador Lucas Navarini, da Fundacep, Cruz Alta, sugeriu para um controle mais eficaz das doenças o agricultor deve buscar informações precisas quanto ao comportamento de cada cultivar. Destacando entre os principais componentes do manejo integrado, a sensibilidade às doenças, a resposta de cada cultivar ao controle químico e a densidade populacional que pode potencializar seu rendimento. Destaca a importância do controle de ferrugem-asiática, porém, sem esquecer-se do tratamento de sementes efetivo e da rotação de culturas, que visam diminuir os problemas causados por doenças no estabelecimento (podridões e tombamentos) e as doenças de fim de ciclo.

Navarini destaca que o controle das doenças é muito mais eficaz quando é feito a aplicação planejada. O monitoramento da lavoura é essencial para identificar os problemas e tomar as decisões mais acertadas.

Por outro lado, Forcelini explica que o controle mais cedo retarda a infestação e o residual do efeito do fungicida poderá ser mais longo e isso dará maior segurança quando há necessidade de reaplicar o produto. Outra vantagem de iniciar o tratamento mais cedo é a flexibilidade na escolha do fungicida.

O controle de doenças e o rendimento de lavouras apresentam variações dependendo do número de aplicações (Figura 2). Nos anos sob efeito El Niño é preciso adotar um manejo diferenciado da soja em relação à ferrugem. Num programa de três aplicações o destaque deve ser na primeira intervenção.

Figura 2. Rendimento de grãos de soja sob cinco condições de aplicação de fungicidas (triazol + estrobilurina).

De forma geral, Forcelini destaca que a primeira aplicação de fungicida deve ser na fase de pré-fechamento da soja e a segunda aos 21 dias depois. A terceira aplicação dependerá das condições de tempo do ano e o ciclo da cultivar, monitorando as precoces e fazendo a aplicação nas cultivares de ciclo médio ou tardio. O intervalo entre as aplicações, em anos de El Niño e maior severidade das doenças poderá ser reduzido para menos de 21 dias, e em alguns casos até 14 dias, para controle efetivo da ferrugem.

A aplicação mais cedo permitirá que o fungicida atinja as folhas da parte de baixo da planta. Estudos mostram que na aplicação convencional 82,9 % das gotas atingem a parte de cima da planta, 13,3 % o meio e apenas 3,8 % a parte de baixo. O que não se mostra eficaz no controle das doenças. Com isso, o controle eficaz, o residual mais longo, a aplicação mais cedo e a distribuição do fungicida na planta completam a combinação de práticas de manejo de doenças.

Na região dos Chapadões, no Mato Grosso, Edson Borges, da Fundação Chapadão, explicou que orienta os produtores na ausência de casos de ferrugem monitorar a lavoura e fazer primeira aplicação com a soja até o estádio R4. Esse é o momento em que os fungicidas mais respondem para o controle de doenças de fim de ciclo. ”Se tiver focos de ferrugem na lavoura ou na região sugere a primeira aplicação no estádio R1 a R2 da soja e efetuar a segunda ou mais aplicações, se necessário, conforme monitoramento. Em áreas com histórico de mofo-branco, mancha-alvo e antracnose, recomenda o mesmo procedimento, de acordo com as características de cada doença”, disse Borges.

É importante destacar que a ferrugem está menos sensível a fungicidas triazóis e que a adaptação é quantitativa e gradual. Experimentos recentes, feitos em diferentes áreas do Brasil, mostraram eficácia de 34,5 % de triazol no controle da ferrugem da soja. Por isso, a necessidade da mistura de fungicidas triazóis com estrobilurinas para manejo dessa doença.

Publicado na edição 115, janeiro/fevereiro de 2010. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.