Nova lagarta causa danos severos em soja na Argentina
Daniel IgarzabalDiretor da Liderlab - www.liderlab.com.ar, Argentina.
A lagarta-do-algodão (Helicoverpa gelotopoeon) foi o destaque como praga desde o começo da safra de soja 2009-2010 na Argentina. As altas populações do ano anterior, cuja última geração passou o inverno ameno e seco na fase de pupa, não afetando a sobrevivência da praga, que ressurgiu com toda a força nessa safra.
Chuvas leves e solo estruturado, depois de longo período de estiagem, permitiu a emergência das mariposas que povoaram o mar de soja disponível.
No ano passado, os agricultores e assistentes técnicos foram alertados sobre a pericolosidade desta lagarta nas etapas iniciais da soja. Muitos não acreditaram. Hoje estão assustados com as perdas de 1.000 kg/hectare ou mais.
Deve-se considerar que a situação está anormal, como foi a severidade de danos causados por ácaros e trips na safra passada. Todo ano é distinto, o que nos mostra não haver uma recomendação geral para manejo de pragas. Cada inseto tem uma estratégia biológica com diferentes táticas de sobrevivência. Os agricultores sempre usam a mesma tática: o inseticida. Como conseqüência ouvimos afirmativas como: ”Não consigo matar com nenhum inseticida”. ”É uma praga duríssima, necessito dobrar as doses de inseticidas”. ”Os tratamentos não funcionam e tive que reaplicar aos 7 dias”. E tantas outras frases que ouvimos desde o início da safra, em toda a Argentina.
Mesmo com o bom senso para manejar pragas, foi aplicado muito mais inseticida do que em anos anteriores, pois se optou pela produção. O bom senso diz que os tratamentos com piretróides adicionados aos herbicidas na pré-semeadura não são aconselháveis, pois rompem o frágil equilíbrio do sistema. Porém, nessa safra foi necessário sacrificar os recursos naturais do sistema e evitar grandes perdas de rendimento de grãos.
O critério para manejar esta praga torna necessário conhecimento, não só da praga, mas também da fisiologia da planta cultivada e do funcionamento dos diferentes inseticidas. Não há no mercado um inseticida que proteja mais de uma semana quando as plantas são pequenas (até V4-V5). Como a população de lagartas pequenas era muito alta e as oviposições permanentes na situação de seca que começou a safra, então era totalmente necessário monitorar e decidir sobre novas aplicações.
É realmente incrível comparar as áreas bem protegidas (até 5 aplicações em um mês) quando foi entendido o dano causado pela praga, com áreas com apenas uma aplicação ou, simplesmente, o ”cheirinho de inseticida” misturado com herbicida na dessecação. Plantas pequenas (anãs), muito ramificadas de uma cor ”verde sujo” são reflexo do mau manejo. Áreas bem protegidas, semeadas no mesmo dia, em ambientes similares e com a mesma variedade, tem o dobro da altura e do número de entrenós e apresentam uma tonalidade de verde radiante. Mas, a diferença mais importante estará na colheita. As plantas não protegidas nas primeiras etapas terão vagens chochas e em menor quantidade pela falta de entrenós e, além disso, muitas delas não serão colhidas pela plataforma.
Danos da lagarta-do-algodão no pecíolo da folha (esquerda) e em hastes de soja (direita).
A chuva e as baixas temperaturas noturnas (que influenciam o vôo e a oviposição das mariposas) fizeram com que a ”nuvem de mariposas” se acalmasse um pouco. Porém, sem o entusiasmo de que a praga se foi. A primeira geração foi muito abundante. As pupas permaneceram dentro do solo. Quando a temperatura voltou a aumentar, outro ataque aconteceu. Talvez em menor escala, já que a umidade favoreceu alguns controladores biológicos.
Lagarta-do-algodão na fase reprodutiva da soja
Com base na captura de mariposas em armadilhas luminosas, outra grande geração de adultos de Helicoverpa gelotopoeon (lagarta-do-algodão) estava em pleno vôo no fim do mês de janeiro. As primeiras gerações, que atuaram sobre as plantas na fase de crescimento vegetativo somaram-se à esta geração na fase reprodutiva da soja.
Capturas de mais de 200 indivíduos marcaram a infestação a campo, tal como se observava na armadilha luminosa na localidade de Luque (província de Córdoba).
A partir da floração o manejo da lagarta é diferente do que se recomendava em etapas anteriores.
Embora as lagartas comam flores e rácimos florais, assim como destroem legumes recém formados, R3, o dano parece não ser tão importante nesta etapa. As razões são fisiológicas. A planta de soja dificilmente mantém todas as flores e vagens que produz. Fisiologicamente a planta vai descartar primeiramente as danificadas. Esse é o caso dos legumes em R3 atacados por percevejos. Por isso, as flores, rácimos florais e vagens danificadas pela lagarta, em R3, com exceção das lavouras com potencial de rendimento extraordinários (5.000 a 6.000 kg), se perderiam de qualquer forma.
Considerando altos rendimentos a situação se modifica, já que para manter maior número de flores e legumes em R3, a proteção é necessária.
Quando há vagens, as lagartas têm dois tipos de comportamento. Como consumidora de grãos ou como desfolhadora. Já os danos em ”surtos” não são importantes como na primeira etapa. Mas cada grão que consome é kg a menos na colheita, já que a compensação nesta fase é muito menor que nos estádios vegetativos.
O monitoramento da fase reprodutiva tem algumas complicações já que as áreas monitoradas pela mesma pessoa com intervalos de 1 a 2 dias mostram valores com grandes diferenças. Possivelmente questões climáticas e de localização na planta em diferentes horários se relacionem com o comportamento e seu hábito alimentar.
Danos da lagarta-do-algodão nas ponteiras ou brotos (esquerda) e no legume de soja (direita).
Nas cultivares de soja de grupo de maturação IV e V parece que a lagarta não é tão perigosa nessa fase como nas fases anteriores. Alguma haste poderá ser cortada, mas a lagarta levará um longo tempo para fazê-lo pois, individualmente, a praga não tem grande capacidade de consumo de hastes, no máximo duas até a fase de larva grande. A lagarta faz um orifício, entra nele, sai, volta a entrar...quem a entende?
Também se dedica a consumir folhas. Produz um desfolhamento diferente das demais lagartas. Os folíolos aparecem rasgados no sentido do comprimento, como que seguindo a linha das nervuras da folha. Este tipo de dano faz com que as folhas se rompam mais facilmente com o vento. Mas isso deve ser considerado como um fator, além do dano e da redução de IAF (Índice de Área Foliar), ao tomar a decisão de controle.
Com legumes em R4 a R6 o problema é diferente. Já se pode calcular a quantidade de kg que está consumindo sem levar em conta alguma compensação que de fato existe. Quando um grão foi consumido na vagem, os restantes têm maior peso que teriam na vagem sem dano. Mas, não é tão significativo para levá-lo em conta no cálculo.
Em laboratório, Juan Cacciavillani, em Ordoñez, Córdoba, comprovou-se que uma lagarta pode consumir até 18 grãos. A média pode ser estimada em 10 grãos por lagarta.
O controle químico nessa etapa tem tido diferentes eficiências de acordo com produtos, doses e forma de aplicação. Mas não há dúvidas que o principal fator de êxito estará no contato do inseticida sobre a lagarta. E, para isso, há que penetrar no dossel e chegar aos locais onde se localizam as vagens. Sabendo que o desfolhamento não é a atividade preferida da lagarta na fase reprodutiva da soja, o inseticida não terá muito efeito de persistência por ingestão, apesar de ajudar no controle.
Portanto, qualquer que seja o inseticida deve-se insistir muito na qualidade da aplicação. E não são os altos volumes de calda por hectare que solucionam o problema. Quando o ingrediente ativo se dilui em grandes volumes de água, serão necessários maior número e volume de gotas para alcançar o efeito de mortalidade ou a lagarta terá que consumir maior área de folhas para alcançar a dose letal. Por isso, se deve preferir baixos volumes, porém muito bem aplicados.
Estimativa de consumo de grãos por lagarta e perdas no rendimento de soja.• Sementes plantadas = 42/m2• Kg/ha = 90• 1 lagarta pode consumir =18 grãos (10)• 1 lagarta m2 = 20 grãos• 1 lagarta metro de fileira, com espaçamento entre linhas de 0,52 m• Quase 50 kg de perdas por hectare (menos a compensação)
Revista Plantio Direto, edição 115, janeiro/fevereiro de 2010. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.