Projeto Fósforo no Sistema de Plantio Direto
Ondino Cleante Bataglia1; Rhuanito Soranz Ferrarezi2;Pedro Roberto Furlani3 e Camilo Lázaro Medina31Engenheiro-agrônomo, PhD, Conplant - Fone: (19) 3249 2067 - Email: ondino@conplant.com.br2Engenheiro-agrônomo, MSc, Doutorando Unicamp - Email: rhuanito@terra.com.br3Engenheiro-agrônomo, PhD, Conplant - Email: pfurlani@conplant.com.br3Engenheiro-agrônomo, Dr., Conplant - Email: clmedina@conplant.com.br
1. Introdução
O Rally da Safra é uma expedição técnica realizada todos os anos pela empresa de consultoria Agroconsult Consultoria & Marketing com o objetivo realizar levantamentos quantitativos e qualitativos durante o período de colheita da safra de soja e milho de verão no Brasil.
Com o slogan ”Viagem ao Brasil que produz”, a expedição formada por agrônomos, jornalistas e representantes das empresas patrocinadoras percorreu cerca de 50 mil quilômetros de estradas pelas principais regiões produtoras de grãos do Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do País, de 08 a 14 de março de 2009.
O levantamento qualitativo procurou identificar quais as principais ocorrências de pragas, doenças e condições climáticas enfrentadas pelos produtores durante o desenvolvimento das lavouras, condições de transporte/escoamento da safra, armazenagem, expectativa dos produtores e demais agentes da cadeia de valor sobre os resultados a serem alcançados no ano agrícola. Esse levantamento de informações ocorreu durante encontros informais com produtores e técnicos ao longo da viagem e principalmente durante palestras e jantares nas principais cidades pólo de cada roteiro.
O levantamento quantitativo avaliou a produtividade das lavouras de soja e milho no verão, além de relacionar essas estimativas com as observações de campo quanto ao uso de tecnologia, comportamento do clima e ocorrência de pragas e doenças, seguindo metodologia desenvolvida nos últimos anos de Rally.
Em 2009, além dessas informações, por demanda da Fundação Agrisus realizou-se o projeto Fósforo no Sistema Plantio Direto, com o objetivo de avaliar o teor de fósforo nos solos dos campos de soja e milho visitados pelo Rally da Safra em 2009. Foram coletadas informações sobre as características do plantio direto (cobertura e textura do solo) e realizadas amostragens de solo para análise laboratorial do teor de fósforo, potássio, cálcio, magnésio, pH, V%, soma de bases (SB) e capacidade de troca de cátions (CTC). Foram realizadas 2342 amostras a campo sendo 1171 em cada uma das camadas de 0-5 e 5-10 cm de profundidade.
O trabalho complementar de seleção de laboratório, encaminhamento de amostras, organização e processamento de dados foram feitos pela empresa Conplant Consultoria, Treinamento, Pesquisa e Desenvolvimento Agrícola Ltda.
As análises de laboratório foram conduzidas pelo Laboratório Micellium, de Barretos.
Depois da elaboração do relatório preliminar pela Conplant, cópias foram disponibilizadas a alguns especialistas para discutir os resultados apresentados: Ibanor Anghioni (UFRGS), Bernardo van Raij (IAC), Valter Casarin (IPNI), Fernando Penteado Cardoso (Agrisus), Giseli Brüggemann (Agroconsult), Francisco Cleber Sousa Vieira (Agroconsult) e André Demartini de Nadai (Ímpar) em encontro realizado na sede da Agrisus em São Paulo.
Esse relatório foi elaborado pela Conplant.
2 Objetivo
O Objetivo do presente trabalho foi analisar a ocorrência de fósforo nos solos cultivados com milho e soja no Brasil em amostras coletadas pelas equipes do Rally da Safra em 2009.
3 Material e Métodos
As seis equipes do Rally da Safra 2009 percorreram 13 Estados entre 8 e 14 de março e coletaram amostras de solo para o projeto. O Rally passou por São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí e Tocantins. Nesses Estados foram coletadas amostras de solo em lavouras de soja e milho (Figura 1).
Figura 1. Rally da Safra 2009, com 50.000 km percorridos em 13 estados (RS, SC, PR, SP, MG, GO, DF, MS, MT, BA, MA, PI e TO) e aproximadamente 1.200 lavouras avaliadas (produtividade de soja e milho e amostragem de solo).
3.1 As regiões climáticas
O Brasil foi dividido em quatro regiões climáticas, em função da temperatura predominante e de características de produção das culturas (Figura 2):
• Região 1: de inverno frio e úmido, com plantio de trigo e de aveia no inverno (RS, SC e parte do PR);
• Região 2: de inverno ameno e úmido, com variação imprevisível de temperatura e de umidade, com plantio de trigo, aveia, milho safrinha e sorgo (MS e partes do PR e SP);
• Região 3: de inverno quente e semi-úmido, com plantio de milho e sorgo na safrinha (MT, RO, partes de SP, MG e GO);
• Região 4: de inverno quente e seco, com o plantio das culturas dificultadas no inverno pela escassez de chuvas (TO, BA, MA, PI e parte de GO).
Figura 2. Regiões climáticas consideradas no Rally da Safra 2009.
3.2 Avaliações de campo
As paradas para as coletas de campo foram realizadas aleatoriamente, em função do deslocamento das equipes no campo. Como a escolha das propriedades amostradas foi ao acaso, o número de amostras foi diferente por região climática e município, por causa da variação do número e tamanho de propriedades nos locais amostrados.
Para cada amostra retirada foram registradas as coordenadas geográficas por meio de aparelhos de GPS (altitude, latitude e longitude) e o nome do município. As equipes coletaram informações sobre a produtividade das lavouras, sobre as características do plantio direto (cobertura e textura do solo), e coletaram amostras para análise laboratorial do teor de fósforo, potássio, cálcio, magnésio, pH e V%. Neste relatório estão disponibilizados os dados referentes ao fósforo.
3.2.1 Avaliação da produtividade das culturas
Para determinação da produtividade das culturas, os locais foram escolhidos aleatoriamente. Em cada ponto caminhou-se para dentro das lavouras para evitar o efeito de bordadura. Para o milho, mediu-se o espaçamento entre linhas, contou-se o número de plantas e de espigas por fileira e a produtividade foi avaliada em cinco espigas. Nessas espigas foi contado o número de fileiras de grãos e o número de grãos numa fileira.
No caso da soja, também se mediu o espaçamento entre linhas e contou-se o número de plantas, sendo selecionadas cinco plantas de soja para avaliação da produtividade. Foi contado o número de vagens e de grãos por planta.
Além disso, foram anotadas observações gerais sobre as condições da lavoura tais como umidade do solo, estádio de desenvolvimento, existência de irrigação e outras observações relevantes como incidência de pragas, doenças e plantas daninhas e aspecto visual das lavouras.
Na análise da produtividade do milho descartaram-se as amostras com valores maiores que 160 sacas por hectare (sc.ha-1) em função de possíveis erros de pesagem, sendo excluídas 11 amostras. Em relação à soja, excluíram-se os valores maiores que 75 sc.ha-1, sendo excluídas 7 amostras.
3.2.2 Avaliação do Plantio Direto
A cada parada para avaliação de campo foram coletadas também informações sobre a textura do solo e outras características do plantio direto como percentual e tipo de resíduo utilizado de cobertura do solo.
3.2.2.1 Determinação da textura do solo
A textura foi avaliada pela ”técnica do rolinho”, que consiste na formação de um rolinho com uma porção de terra mais água. Classificou-se o solo em textura arenosa, textura média ou textura argilosa, usando material da camada superficial, representativa da área. O procedimento utilizado para o teste do rolinho foi: 1) Colocação de um pouco de terra na mão; 2) Umedecimento, sem excesso de água; 3) Confecção de um rolinho de terra úmida; 4) Classificar em textura arenosa, média ou argilosa, em função, respectivamente, da incapacidade de formar um rolinho, da formação do rolinho com ruptura durante o encurvamento e da formação do rolinho sem ruptura.
3.2.2.2 Determinação da cobertura do solo
Para a determinação do percentual de cobertura morta, aplicou-se uma metodologia sugerida pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e adaptada pelo Rally da Safra. Utilizou-se uma trena. No quadrante marcado para avaliação da produtividade das lavouras, foi estendida a trena formando-se um ângulo de aproximadamente 45°, e atravessando duas fileiras de plantas.
Para determinar o percentual de cobertura morta, foram contados, ao longo de um metro de trena, os números de marcações (de 10 cm) que coincidem com o resíduo de solo. A porcentagem de cobertura vegetal considerada foi o número de marcas contadas multiplicado por 100. Para cada local de amostragem, o procedimento foi repetido por duas vezes e anotado a média das leituras.
3.2.3 Amostragem de solo
Para a coleta da amostra de solo, foi utilizada uma sonda para perfuração com gravação de profundidade (Figura 3). Em cada lavoura amostrada, foram feitas seis perfurações, separando as amostras de solo das camadas de 0-5 e de 5-10 cm de profundidade. Após a coleta, a amostra foi armazenada em um recipiente plástico e identificada com as coordenadas do local.
Figura 3. Amostragem de solo usando sonda de perfuração. Em cada lavoura amostrada, foram feitas seis perfurações, separando as amostras de solo das camadas de 0-5 e de 5-10 cm de profundidade.
O período de realização das amostragens foi de 8 a 15 de março de 2009, sendo que nesta edição do Rally da Safra, com o objetivo de avaliar as lavouras precoces, realizou-se também uma expedição durante os meses de janeiro e fevereiro, nos estados de MT, GO, MS e PR. Os municípios onde foram feitas as coletas de campo representaram de 7 a 12% do total dos municípios contidos em cada região climática.
3.3 Quantidade de amostras de solo coletadas
Durante a realização do RALLY DA SAFRA 2009, foram coletadas 2342 amostras de solo, sendo 1171 de 0-5 cm e 1171 de 5-10 cm (Tabela 1).
Tabela 1. Número de amostras coletadas por região nas profundidades de 0-5 cm e 5-10 cm.
3.4 Análise química do teor de nutrientes
As amostras foram enviadas para análise do teor de fósforo, potássio, cálcio, magnésio, pH e V% no laboratório Micellium, em Barretos/SP, que utiliza os métodos de desenvolvidos pelo Instituto Agronômico de Campinas, e em especial a análise de fósforo pelo método da resina de troca iônica (P resina). Os dados foram trabalhados pela Conplant Consultoria, Treinamento, Pesquisa e Desenvolvimento Agrícola (Campinas/SP).
3.5 Faixas de interpretação do teor de P resina
As faixas de interpretação do teor de P resina usadas para avaliação neste projeto (Tabela 2) correspondem aos teores de referência para a camada de 0-20 cm, de acordo com o Boletim Técnico no 100 do Instituto Agronômico de Campinas/IAC.
Tabela 2. Faixas de interpretação do teor de P resina.
A fim de estudar a disponibilidade de fósforo de forma conjunta nas duas camadas de amostragem foi organizada (Tabela 3), visando agrupar as possíveis combinações de teores de P nas duas camadas na forma de interpretação definida na tabela 3. Atribuíram-se notas para as faixas de interpretação: o valor 3 corresponde a teor de P resina alto, 2 a teor de P resina médio e 1 a teor de P resina baixo. Na seqüência de dois algarismos, o primeiro corresponde à camada de 0-5 cm e o segundo à camada de 5-10 cm. Exemplos: 33 = teor de P alto nas duas camadas; 32 = P alto na camada superior e médio na inferior; 31 = P alto na superior e baixo na inferior; e assim sucessivamente. São nove classes de ”localização conjunta do P” – LCP.
Tabela 3. Faixas de interpretação do teor de P resina nas 2 profundidades (0-5 cm e 5-10 cm) analisadas em conjunto.
4 Resultados
4.1 Caracterização geral das amostras de solo
Antes de um detalhamento da análise de ocorrência de P nos solos, procurou-se dar uma visão mais abrangente das características químicas dos solos cultivados com milho e soja. Dessa forma são apresentados os valores de ocorrência geral no País (Tabelas 4 e 5), por região climática (Tabelas 6 e 7) e por Estado (Tabelas 8 e 9).
Tabela 4. Média, Desvio Padrão, Máximo, Mínimo e Intervalo de Confiança (IC) do teor de P resina, K+, Ca2+ e Mg2+ trocáveis no Brasil, obtidos a partir de amostras de solo retiradas nas profundidades de 0-5 cm e 5-10 cm.
Tabela 5. Média geral, Desvio Padrão, Máximo, Mínimo e Intervalo de Confiança (IC) de H + Al, SB, CTC, pH em CaCl2 e V% no Brasil, obtidos a partir de amostras de solo retiradas nas profundidades 0-5 cm e 5-10 cm).
4.1.1 Resultados no Brasil
As características médias observadas para todas as amostras coletadas no País permitem duas observações. A primeira é que de forma geral as médias de ocorrência de nutrientes são altas. A segunda é uma grande dispersão dos resultados como evidenciam os valores dos desvios padrões das Tabelas 4 e 5, por se tratarem de situações muito dispares no País como um todo.
4.1.2 Resultados por regiões
A distribuição das amostras por região (Tabelas 6 e 7) possibilita uma visualização melhor das características químicas dos solos analisadas.
Tabela 6. Médias por regiões dos teores de P resina, K+, Ca2+ e Mg2+ trocáveis, obtidas a partir de 1171 amostras de solo retiradas nas profundidades de 0-5 cm e 5-10 cm.
Tabela 7. Média por regiões de H + Al, SB, CTC, pH em CaCl2 e V%, obtidas a partir de 1171 amostras de solo retiradas em diferentes profundidades (0-5 cm e 5-10 cm).
Já é possível observar que nas regiões onde os solos são cultivados há mais tempo (região 1 e 2) os solos em geral são mais ricos em nutrientes, com destaque para P e K e em menor intensidade para Ca e Mg. Todavia observa-se que já há uma preocupação generalizada dos produtores quanto à correção da acidez dos solos, praticamente não havendo diferenças entre as regiões, todos com solos corrigidos.
4.1.3 Resultados por Estado
Na caracterização das amostras por Estado (Tabelas 8 e 9), os resultados seguem a mesma tendência observada para as regiões climáticas. Dessa forma observa-se que nos Estados de agricultura mais recente é normal a ocorrência de P e K em teores mais baixos do que onde a agricultura já é mais tradicional. Da mesma forma, embora com ocorrência de valores absolutos menores para Ca e Mg, observa- se que os agricultores mais recentes procuram sempre corrigir a acidez de seus solos.
Tabela 8. Pontos de amostragem e média por Estado de P resina, K+, Ca2+ e Mg2+ trocáveis, obtidos a partir de 1171 amostras de solo retiradas de 0-5 e 5-10 cm de profundidade.
Tabela 9. Média por Estado de H + Al, SB, CTC, pH em CaCl2 e V%, obtidos a partir de 1171 amostras de solo retiradas de a 0-5 e 5-10 cm de profundidade.
4.2 Disponibilidade de P nos solos - P resina
Procurou-se inicialmente fazer em estudo da ocorrência de fósforo nas duas camadas amostradas. Além da distribuição das amostras de acordo com as faixas de interpretação, foram avaliados também os efeitos da textura e da cobertura do solo sobre a disponibilidade do fósforo.
4.2.1 Amostras de solo analisadas no Brasil
Os resultados apresentados na Figura 4 evidenciam que os teores de P nas duas camadas de solo encontram-se em níveis predominantemente médios e altos, com mais de 80 % das amostras nessas faixas.
Figura 4. % das amostras no Brasil em função da faixa de interpretação do teor de P resina.
4.2.2 Distribuição normal das amostras de solo analisadas no Brasil
A distribuição normal das amostras em função dos teores de P resina mostra que a ocorrência nas duas camadas estudadas é bastante semelhante, havendo apenas um pequeno deslocamento da média geral, pouco mais baixa na camada 5 -10 cm. Entretanto a dispersão dos dados é muito semelhante, indicado que não existe uma linha divisória na ocorrência de P nas duas camadas amostradas.
4.2.3 Amostras de solo analisadas por região climática
Quando as amostras de solo são distribuídas por região os resultados começam a se diferenciar em relação à do Brasil como um todo. Na Figura 5 observa-se que nas regiões mais tradicionais de plantio direto (1 e 2) a ocorrência de baixos teores de P é pequena enquanto nas regiões mais novas (3 e 4) ainda existem cerca de 20 % das amostras com baixos teores de P. Isso mostra que o uso freqüente de adubos fosfatados está contribuindo para um acumulo de P nos solos especialmente nessas camadas superficiais onde a aplicação com máquinas coloca o fertilizante nas camadas mais superficiais do solo.
Figura 5. % das amostras por região climática em função da faixa de interpretação de P resina.
4.2.4 P resina em função da textura do solo
A textura do solo influencia a ocorrência de P nos solos cultivados com soja e milho. Na Figura 6 verifica-se que a distribuição das amostras se comporta da seguinte maneira. Para solos de textura arenosa a maior ocorrência é de amostras de solo com teores médios de P tanto na camada 0-5 como na 5-10 cm de profundidade. Nos solos de textura argilosa a ocorrência de amostras com baixos teores de P é pequena predominando amostras com altos teores. Nas áreas de textura média a distribuição das amostras é intermediária.
Figura 6. % das amostras por textura do solo nas profundidades 0-5 cm e 5-10 cm em função da faixa de interpretação do teor de P resina.
Numa análise conjunta (Figura 7) observa-se um valor crescente da média de P no solo da textura arenosa para a argilosa. Apesar desses resultados evidentes é necessário ressaltar que os solos argilosos predominam nas regiões 1 e 2 (Tabela 10) onde se verificam também maiores ocorrências de P nos solos e dessa forma pode estar havendo efeitos concomitantes que levam a interpretação duvidosa. As médias dos teores de P nas camadas 0-5 e 5-10 cm são muito semelhantes conforme pode ser observado na Figura 7.
Figura 7. Médias do teor de P resina por textura do solo nas profundidades 0-5 cm e 5-10 cm.
Tabela 10. Distribuição percentual de ocorrência de texturas de solo nas regiões climáticas estudadas.
4.2.5 P resina em função da cobertura do solo
Para estudar a influência da cobertura do solo sobre a disponibilidade de P as amostras foram estratificadas em seis faixas de cobertura do solo (Tabelas 11 e 12 e Figura 8).
Tabela 11. Número e % de amostras em função da faixa de interpretação de P resina e cobertura do solo na profundidade de 0-5 cm.
Tabela 12. Número e % de amostras em função da faixa de interpretação de P resina e cobertura do solo na profundidade de 5-10 cm.
Figura 8. Média ponderada do teor de P resina em função da % de cobertura de solo em diferentes profundidades (0-5 cm e 5-10 cm).
Observa-se que no conjunto das amostras predominaram pontos com cobertura de solo abaixo de 40 % ou seja, locais de plantio direto não consolidado. Nas duas profundidades de solo analisadas houve um decréscimo na ocorrência de amostras com baixos teores de P à medida que se aumentou a % de cobertura do solo. Por outro lado a ocorrência de amostras com altos teores de P acompanhou o crescimento da cobertura de solo, conforme era esperado. É interessante notar a elevada ocorrência de amostras com altos teores de P nas faixas de cobertura 41-60 e 61-70%. Apenas na faixa mis alta de cobertura de solo (71-100%) a tendência não foi confirmada. Deve-se ressaltar que as menores coberturas de solo foram observadas nas regiões de agricultura mais recentes (Tabela 13), onde coincidentemente são solos com teores médios de P mais baixos nas regiões 3 e 4.
Tabela 13. Distribuição percentual da cobertura de solo cultivado com soja (*)
4.2.6 Produtividade em função do teor de P resina
Em função do menor número de amostras (177) e da ocorrência de períodos de seca nas Regiões 1 e 2, deve-se analisar com restrições os dados de produtividade do milho, em comparação com os dados da soja. Isso por que a maioria das amostras coletadas nas plantações de milho foi feitas nessas duas regiões.
Nas plantações de milho houve maior ocorrência de amostras com altos teores de P nas duas profundidades (Tabela 14), enquanto nas lavouras de soja predominaram amostras com teores médios de P. As produtividades médias estimadas foram crescentes para o milho em função das faixas crescentes de P, observando-se o contrário e com menor intensidade para a soja (tabela 15).
Tabela 14. Número e % de amostras de solo por cultura nas profundidades 0-5 cm e 5-10 cm, em função da faixa de interpretação de P resina.
Tabela 15. Produtividade estimada nas culturas do milho e da soja nas profundidades 0-5 cm e 5-10 cm em função da faixa de interpretação de P resina.
A fim de se verificar possíveis relações dos teores de P no solo com a produtividade as amostras foram estratificadas em 15 classes de ocorrência de P e calculadas as médias ponderadas de produtividade (tabela 16).
Tabela 16. Produtividade estimada nas culturas do milho e da soja nas profundidades 0-5 cm e 5-10 cm em função do teor de P resina.
A correlação entre teores de P e produtividade foi muito baixa, mesmo isolando o efeito regional (Tabelas 17 e 18). Para milho ainda houve alguma coerência com valores de coeficientes de correlação positivos nas regiões 2, 3 e 4, enquanto para soja foram totalmente inconsistentes com coeficientes de correlação muito baixos e não significativos para as duas camadas de solo analisadas. Vale considerar que é prática corrente o uso de adubação no sulco de plantio com 60/80 kg/ha de P2O5. Esse fósforo poderia estar nutrindo a planta sem dependência muito forte da entrelinha onde foram feitas as amostras de solo.
Tabela 17. Coeficientes de correlação entre teor de P resina e produtividade estimada na cultura do milho agrupada por região nas profundidades 0-5 cm e 5-10 cm.
Tabela 18. Coeficientes de correlação entre teor de P resina e produtividade estimada na cultura da soja agrupada por região nas profundidades 0-5 cm e 5-10 cm.
4.2.7 P resina nas duas profundidades (0-5 cm e 5-10 cm) analisadas em conjunto.
Com a finalidade de estudar o teor de P resina nas 2 profundidades em conjunto, atribuíram-se notas para as faixas de interpretação: o valor 3 corresponde a teor de P resina alto, 2 a teor de P resina médio e 1 a teor de P resina baixo. Na seqüência de dois algarismos, o primeiro corresponde à camada de 0-5 cm e o segundo à camada de 5-10 cm. Exemplos: 33 = teor de P alto nas duas camadas; 32 = P alto na camada superior e médio na inferior; 31 = P alto na superior e baixo na inferior; e assim sucessivamente. São 9 classes de ”localização conjunta do P” – LCP.
4.2.7.1 No Brasil
Os resultados da Tabela 19 mostram a distribuição das amostras coletadas em plantações de milho e soja e o conjunto dos dados no País.
Tabela 19. % de ocorrência para cada classe de ”localização conjunta do P” (LCP) no Brasil.
Uma análise mais específica da tabela 25 mostra predominância de LCP 33 para milho e LCP 22 para soja. Quando existe uma faixa de alto P em uma das camadas de solo estudadas (LCP 32 E LCP 23) ela ocorre na camada mais superficial (LCP 32) de forma consistente tanto para milho como para soja. Esse fato também é observado para a comparação 21 e 12 de LCP onde consistentemente a ocorrência de LCP 21 é maior que 12.
As situações extremas de LCP 31 e 13 são ocorrências raras, nenhum caso para milho e apenas 1 a 1,5 % em soja. Pode-se afirmar que essas situações são apenas casuais não permitindo nem mesmo especulações.
O estudo sobre a produtividade do milho (Tabela 20) foi bastante prejudicado por causa de limitações do número de amostras para algumas situações e devido à grande variabilidade dos dados. Pode-se apenas destacar que em situações de baixo P (LCP 11) aparentemente a produtividade foi limitada.
Tabela 20. Produtividade média estimada, valor mínimo e máximo, e desvio padrão do milho e da soja para cada classe de LCP.
No caso de soja (Tabela 20) ela praticamente produziu bem em todas as situações de LCP indicando a alta eficiência de uso de P por essa planta ou que o P já não é um fator limitante da produtividade pelo uso freqüente de adubação fosfatada nessa cultura com fórmulas tradicionais contendo P e K. É muito provável que mesmo nos solos (LCP 11) a soja tenha recebido adubação fosfatada na linha de plantio, sendo esta suficiente para nutrir a planta.
4.2.7.2 Por região climática
Além das observações de caráter geral no Brasil procurou-se detalhar a análise conjunta do fósforo nas duas camadas de solo em função das regiões climáticas e textura do solo na expectativa de informações adicionais e específicas para esses detalhamentos. Dessa forma o estudo apresentado na Tabela 21 mostra a ocorrência de classes de LCP nos quatro regiões para milho e soja.
Tabela 21. % de ocorrência para cada classe de LCP nas quatro Regiões.
Para milho, nas quatro regiões houve predominância de ocorrência da faixa de LCP 33, ou seja, alto teor de P nas duas camadas de solo destacando-se a região 2 enquanto para soja isso ocorreu apenas na região 2 e nas outras houve predominância de classe LCP 22, ou seja, teores médios de P nas camadas 0-5 e 5-10 cm de profundidade.
Mais uma vez observa-se consistência no fato de que as classes LCP 32 ocorrem em maior proporção do que a 23 para as duas culturas, com destaque nas regiões 1 e 2 tanto para milho como para soja. Observa-se que o mesmo se aplica as classes LCP 21 e 12. Mais uma vez contrastes extremos (31 e 13) praticamente não ocorrem.
Estudos de produtividade de milho nas quatro regiões também ficaram prejudicados pelo número pequeno de amostras.
No caso da soja (Tabela 22) algumas observações podem ser feitas na região 1 onde a produtividade foi reduzida pela seca. Na presença de níveis médios ou altos de P nas duas camadas (33, 32, 23 e 22) as produções foram mais elevadas do que nas outras classes onde havia pelo menos teores baixos em uma das faixas (31, 21, 12 e 11). Todavia nas demais regiões e em especial na região 3 onde as produtividades foram altas não houve qualquer efeito dos níveis de ocorrência do fósforo (Tabela 22).
Tabela 22. Produtividade estimada da soja (média e desvio padrão - DP) para cada classe de LCP nas quatro Regiões.
4.2.7.3 Por textura do solo
O último estudo conduzido neste trabalho foi determinar a ocorrência de classes de localização conjunta de fósforo em função de textura dos solos.
De acordo com a distribuição percentual (Tabela 23) observa-se que a ocorrência de LCP 33 aumentou da arenosa para argilosa ocorrendo o inverso para a LCP 11 que diminuiu em função do aumento do teor de argila dos solos. A ocorrência das classes 32, 23 e 22 praticamente não foram influenciadas pela textura do solo.
Tabela 23. % de ocorrência para cada classe de LCP nas 3 três texturas de solo.
A produtividade de soja praticamente não foi influenciada pela disponibilidade de P em função da textura dos solos (Tabela 24).
Tabela 24. Produtividade estimada da soja para cada classe de LCP por textura de solo.
5 Resumo dos resultados
1. Os pontos amostrados apresentam textura variada predominando solos argilosos nas regiões-climáticas do Sul do País, - coincidentes com maior tempo de prática do SPD e arenosos nas regiões mais ao norte, - de SPD mais recente:
Textura argilosa: R1 - 65%; R2 - 64%; R3 - 32%; R4 - 23%.
Textura arenosa: R1 - 8%; R2 - 11%; R3 - 21%; R4 - 35%.
2. Os pontos amostrados apresentam proporções variadas de cobertura e de teores de Ca+Mg, decorrentes das práticas agrícolas adotadas, sendo que em fevereiro os resíduos já sofreram acentuada decomposição:
Cobertura >40% (soja): R1 - 71%; R2 - 41%; R3 - 28%; R4 - 27%
Ca+Mg trocável em mmlc/dm3:
Camada a 0/5 cm: R1 - 136; R2 - 88; R3 - 61; R4 - 56
Camada a 5/10 cm: R1 - 106; R2 - 77; R3 - 46; R4 - 45
3. Os teores de P, extraído por resina de troca iônica com método e padrões do IAC, indicam a presença de um horizonte de alto P em parte das camadas amostradas quando avaliadas em separado:
Horizonte Alto P: 0/5 cm - 41%; 5/10 cm - 36%
4. Os teores de P, extraído e avaliado pelo mesmo sistema IAC, para as duas camadas consideradas em conjunto confirmam a existência de horizontes de alto P nos pontos amostrados:
Horizonte Alto P: 0/5 ou 5/10 cm 51%
5. Admitindo-se que 2 camadas sobrepostas de ”médio P” signifiquem a existência de um horizonte de alto P que foi repartido, as regiões climáticas apresentam nas áreas de soja proporções variáveis de pontos com horizontes de alto P, sendo mais freqüentes nas regiões ao sul onde o SPD está mais consolidado:
Horizonte Alto P: R1 - 89%; R2 - 91%; R3 - 75%; R4 - 72%.
6. Pelo mesmo critério, os solos argilosos mostram maior proporção de pontos com horizontes de alto P, o que coincide com as regiões de SPD mais consolidado onde predomina essa textura:
Horizonte Alto P: argiloso - 87%, médio - 79%; arenoso - 70%
7. O nível de cobertura com resíduos não apresenta uma correlação confiável com os teores de P em qualquer uma das camadas.
8. A produtividade da soja não mostra correlação com a textura, nem com o teor de P em qualquer das camadas, valendo considerar que as lavouras, seguindo a prática regional, recebem uma aplicação de 60/80 kg/ha P2O5 independente do teor de P verificado no solo.
Revista Plantio Direto, edição 115, janeiro/fevereiro de 2010. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.