Vazio Sanitário


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Publicado em: 01/02/2010

Vazio Sanitário: o parceiro do sojicultor

Sofia Michele Muchalak1, Renato Anastacio Guazina1,Alexandra Botelho de Lima Abreu2, Edson Pereira Borges31Estagiários – Fundação Chapadão, 2Pesquisadora – Assunção e Lima Ltda.,3Pesquisador – Fundação Chapadão

Levantamento realizado no Município de Chapadão do Sul –MS no Laboratório de diagnose de doenças e nematóides da Fundação Chapadão/Bayer - S.O.S. Culturas, mostra que após implantação do Vazio Sanitário, houve diminuição na percentagem do patógeno Phakopsora pachyrhizi agente causador da ferrugem asiática da soja de 49,7%.

Atualmente, a cultura da soja vem tendo grande importância no mercado Brasileiro, sendo a oleaginosa com maior expressão. A máxima exploração da produtividade pode ser afetada devido ao grande número insetos e microrganismos que atacam a cultura, entre eles, o patógeno Phakopsora pachyrhizi agente causador da ferrugem asiática da soja que vem causando grandes perdas na produtividade, tornando-se a doença mais severa para a cultura. Essa doença é encontrada em praticamente todo território nacional, onde há o cultivo, há portanto, a presença desse fungo, devido sua disseminação ocorrer por meio do vento, os esporos (uredósporo) alcançam longas distâncias, percorrendo Estados e até mesmo outros Países.

O patógeno P. pachyrhizi necessita de hospedeiros vivos para sua sobrevivência e multiplicação, então, o cultivo da soja na entressafra faz com que esse patógeno tenha plenas condições para sua sobrevivência e reprodução, fazendo com que os esporos permaneçam no campo entre uma safra e outra, causando aumento na incidência da doença para a safra vindoura, ocorrendo a chamada ”ponte verde”.

Com a incidência aumentando ano a ano, houve a necessidade de tomar alguma providência. Então se criou o Vazio Sanitário (VS), que compreende na total ausência do cultivo da soja e a eliminação de soja voluntária (tiguera e guaxa) na entressafra, no período de 60 a 90 dias dependendo da região, segundo Patil et al., 1997, esse período é devido a viabilidade do uredósporos que é de 55 dias. Essa medida visa diminuir o inóculo do fungo P. pachyrhizi para safra vindoura, fazendo com que a doença não chegue de forma precoce. Esse atraso na entrada do patógeno faz com que o produtor tenha um maior controle em sua lavoura, podendo até mesmo ocorrer uma diminuição de aplicações de fungicidas.

No ano de 2006 os estados de Mato Grosso, Goiás e Tocantins foram os primeiros à instituírem essa medida. Já no ano de 2007 o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) publicou a Instrução Normativa Número 2, de 29 de janeiro de 2007, onde estabeleceu o Programa Nacional de Controle da Ferrugem Asiática da Soja (PNCFS), visando o fortalecimento do sistema de produção agrícola da soja, congregando ações estratégicas de defesa sanitária vegetal com suporte da pesquisa agrícola e da assitência técnica na prevenção e controle da praga, sendo estabelecido que os Estados deveriam criar seus Cômites Estaduais de Controle da Ferrugem Asiática da Soja e que as instâncias intermediárias do Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária (SUASA) em cada Estado deveriam estabelecer o calendário de plantio da soja, com período mínimo de 60 dias sem a cultura e plantas voluntarias.

A partir do ano de 2007 outros Estados implantaram o vazio sanitário, como mostra a Figura 1, onde se tem um período determinado em cada ano calendário em sua respectiva região.

Figura 1. Período oficial do vazio sanitário nos respectivos Estados. Consórcio Anti-ferrugem 2009

Em todos os estados os produtores têm obrigação de fazer o cadastramento da área total destinada ao plantio da soja, exceto São Paulo; sendo de sua responsabilidade a eliminação de plantas voluntárias (tigüera e guaxa), exceto Maranhão, que deve ser feita até 30 dias após a colheita; no período do vazio sanitário pode-se ter o plantio da soja para fins de pesquisa e produção de sementes, exceto São Paulo, sendo necessário autorização e acompanhamento de técnico para condução da área quanto ao manejo da ferrugem asiática.

Em virtude dessa medida, os pesquisadores juntamente com os estagiários do laboratório de diagnose de doença e nematóides da Fundação Chapadão/Bayer - S.O.S. Culturas, credenciado pelo Consórcio Anti-Ferrugem, conduziram um levantamento no Município de Chapadão do Sul – MS, com intuito de avaliar a incidência da ferrugem asiática da soja antes e após a implantação do VS, visando a eficácia e importância do cumprimento da Lei no cultivo da soja.

Safra 2005/2006

Sem implantação da Lei do vazio sanitário nesta safra, nota-se índices altos da doença nas áreas produtoras da região do Município de Chapadão do Sul. Ainda no mês de novembro houve um percentual elevado na incidência chegando a 29,63%, sendo detectado o primeiro foco no dia 24, em lavoura comercial, onde se observa uma entrada precoce da doença nas áreas produtoras. No mês de dezembro o numero de focos da doença também foi elevado. A partir de janeiro a ferrugem asiática apresentou maior pressão com percentagem de 74,7% e elevando-se ainda mais nos meses seguintes (Figura 2).

Figura 2. Porcentagens da Ferrugem Asiática nos respectivos meses e safras, antes e após implantação do vazio sanitário, baseados nas amostragens recebidas pelo Laboratório. *= safras sem a implantação do vazio sanitário; **= safras com implantação do vazio sanitário.

Safra 2006/2007

Um ano antes da implantação do Vazio Sanitário a ferrugem asiática também chegou de forma precoce nas lavouras da região, no mês de novembro a incidência chegou a 20% (Figura 2), um percentual elevado para o inicio da safra, o primeiro foco detectado pelo laboratório ocorreu no dia 21/11/2006. A partir do mês de janeiro a doença se desenvolveu mais rapidamente, no mês de março o laboratório não recebeu amostras dos produtores o que mostra na Figura 2.

Safra 2007/2008

Foi a primeira safra após a implantação do vazio sanitário no Estado de Mato Grosso do Sul, e já se nota os benefícios que a lei trouxe aos sojicultores. O primeiro registro da doença foi no dia 11/12/2007, notando-se um atraso de até 20 dias comparadas com as demais safras. Nos meses de dezembro e janeiro os índices foram baixos, chegando até 9,2% (Figura 2). A ferrugem só teve maior pressão a partir do mês de fevereiro, isso proporcionou a alguns produtores uma redução nas aplicações de fungicidas consequentemente uma redução no custo de produção.

Safra 2008/2009

Os índices da doença decrescerão em relação às safras anteriores, mostrando a eficácia da Lei. No mês de novembro não foram observados focos da doença na região, sendo o primeiro registro somente no dia 22 de dezembro de 2008, notando-se um atraso de 29 dias em relação às demais safras. Os índices no mês de dezembro e janeiro chegaram até 7,6% e mostrando também baixa severidade da ferrugem asiática. A intensidade só aumentou a partir do mês de fevereiro como mostra a Figura 2, época em que a soja já se encontra em estádio avançado, diminuindo as chances de perdas na lavoura com a doença.

Pode-se notar (Figura 3) que após implantação do vazio sanitário (ausência do cultivo da soja na entressafra), ocorreu uma diminuição significativa na porcentagem na incidência da ferrugem asiática da soja em até 49,7% e com atraso de até 29 dias na entrada da doença, isso faz com que o produtor tenha um maior controle em sua lavoura, diminuindo as chances de perdas e fazendo com que ocorra uma diminuição nas aplicações de fungicidas, reduzindo os custos de produção, aumentando a rentabilidade do sojicultor.

Figura 3. Porcentagem da incidência da ferrugem asiática antes e após o vazio sanitário em Chapadão do Sul-MS. Laboratório de diagnose de doenças e nematóides da Fundação Chapadão/Bayer - S.O.S. Culturas.

Assim, o vazio sanitário torna-se um forte aliado do sojicultor na diminuição do inóculo, fazendo com que ocorra um atraso na entrada da ferrugem asiática para as safras vindouras, sendo importante e necessário em todas e quaisquer regiões produtoras de soja.

Publicado na edição 115 da Revista Plantio Direto, janeiro/fevereiro de 2010. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.